outubro 20, 2006

O sol, o anjo e a fogueira

Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.

Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"

outubro 13, 2006

Ámen duas vezes

As vinganças são bisturis coloridos, retalhando com dois mil cuidados o desalento de tardes de sol ou meias manhãs de chuva miudinha, onde os passeios desistem e os passos se repetem. Ao fundo da rua, junto aos restos de ontem, adormecendo o seu tédio, senta-se um deus em posição de espera, alumiando o reino que prefere privado. Não atende súplicas nem queixumes. Não oferece curas nem segreda sílabas doces. Observa, reduz o horizonte a instante e num esforço incapaz de conter a galáxia, mantém transparente a razão humana. É viciado no jogo, este deus urgente. Tomou como igual o ás de espadas e corrompe damas e valetes a seu contento. Cheira a vão de escada. É estéril. Afinal é filantropo .

Ao som de OMD "Statues"

outubro 09, 2006

Vista actual

Semelhanças de casos furtivos,
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.

Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.

Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.

Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"

setembro 22, 2006

18 horas de certezas

Dia 22

Se calhar a chuva da manhã tinha sabor. Bebi o café, o que me escorre o encolher de ombros e me liberta o sorriso, mesmo se o tenha guardado no porta luvas do carro. Olho a empregada nos olhos, corrijo-me e acendo a luz do resto da tarde, lembrando as pessoas pelos seus nomes e ouvindo os segredos dos miúdos. No relógio ainda sobram horas e planos para a semana seguinte. Na prateleira não encontrei o livro de versos. Desci a escada, olhei as revistas, sai e nem sequer deixei cair os olhos no passeio. É bom sinal. Os anos continuam arredondados, mas as arestas têm falhas cada vez mais suaves.

Ao som de Peter Ellis "Angel"

setembro 16, 2006

Adro

Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.

Ao som de The Church "Under the Milky Way"

Redondos

Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita.
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.

Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"

setembro 13, 2006

Despertador

Depois de pegar na chave, cuspiu na fechadura e sorriu lentamente. Tinha tempo. Todo. Só voltariam de manhã. Tinha a noite toda. Talvez por isso, decidiu deitar-se.

Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"

Esta, não é uma mensagem

Julgava que era sexta feira. Tinha metido um dia de férias para acabar com tudo de uma vez. Levantei-me às onze. Mais cedo seria traição. Calçei os ténis sem meias. Fui até à varanda, nu e fumei um cigarro. Voltei à sala e bebi um resto de café. Frio. Arrepiei-me. Não sei se foi o café. No quarto, vesti as calças e a camisa do costume. Saí à pressa, sem a chave de casa nem a estatueta. O elevador estava parado entre o terceiro e o vizinho de baixo. Encolhi os ombros e desci as escadas. Parei no segundo e encostei-me à parede. Tentei ouvir os gemidos. Não consegui. Devia estar a dormir. Junto à porta da rua, por debaixo das caixas do correio, um fulano, já velho, sentado no chão, observava fatias de pão. Depois escrevia qualquer coisa num pequeno bloco, dava uma dentada e deitava fora o resto. À quarta fatia, fui-me embora.
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

setembro 05, 2006

198?

Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.
Encostada à mesa de tampo de mármore, mãos esquecidas, mordia mais um naco de história amarga, polvilhava com o açucar que encontrasse e semicerrava os olhos, esperando a porta abrir e alguma brisa lhe lembrar a morada. Levantava-se, olhava as migalhas como amigas e com o suspiro que alguém lhe ensinara, murmurava as boas noites e perdia-se na rua de sempre.
No outro dia, já toda a gente comentava. Tinham-na visto no telhado. Tinha fugido.

Ao som de The Smiths "Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me"

setembro 04, 2006

Liquidez

Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.

Ao som de Yello "Pinball Cha Cha"

Com a mão no bolso

Debaixo do lençol, as notas amontoadas têm a forma da nora do Afonso. Aquele do olho avermelhado e da t-shirt com o macaco azul. Acho que continua fora. Já à dois meses. Foi no comboio das sete. Fui-me despedir e aproveitei para um cafézinho. Qualquer desculpa serve e como estava perto do rio... Tinha ido provar uns vinhos à socapa. Com um amigo, o Teles, o do Alfa azul escuro. Cravo-lhe sempre um charutinho. Gosto de fumar junto ao rio. É dos poucos prazeres que me restam. Os outros, a maioria, ou meti-os no correio ou perdi-os ao póquer. Não tenho jeito nenhum para bluffs.

Ao som de The Stranglers "Hanging Around"

Medidas mais ou menos drásticas

As contas não batiam certo. Nunca batiam certo desde o golpe de estado. Fuzilaram-se os bons contabilistas. E os porteiros. Raio de ideia, largar tudo para ir abrir a porta ou um simples "quem é". Raio de ideia. E depois ainda as formalidades idiotas dos gajos dos bancos da Suiça. Se fosse por cá, era tudo fuzilado.

Ao som de Trust "H & D"

setembro 01, 2006

Depois da bonança

Conheces o personagem? Lembras-te dele? A última entrevista correu-lhe bem não foi? Eu também achei. Vi-a até ao fim. Depois fui ler os recortes. Só os desta semana. Reli os de hoje e ainda liguei a televisão. Queria apanhar alguma reportagem. Tive sorte, um dos canais estava a falar dele. Uma festa ou algo assim. Estava bem vestido. Enfim, apresentável, mas a roupa era de marca. Ele disse qual. Não me lembro. Mas foi discreto. A posição não lhe permite exageros. Nem figuras tristes. Ou demasiado alegres. Li que só bebe duas marcas. Tem de haver pelo menos uma. Tem um acessor para isso. O outro é novo. Parece que é para os fins de semana. Alguns, pelo menos. Uma vez teve de ir buscar uma mala. Tinha de ser aquela. Ainda estava longe. É extremamente rigoroso. E exacto. Estava no outro carro. Não, não, a cilindrada era mesmo aquela. Ele sabe do assunto. A pele é que era muito escura. Tiveram de mudar. Demorou dois dias. Ele foi compreensivo. É um senhor. Era. Achas demais, quatro balas?

Ao som de Trust "L´Elite"

agosto 31, 2006

Mais uma última ceia

- Mostar, vem cá. Traz-me o teu cachimbo e a tua alma.
- Ofereço-ta. Leva-a e dorme com ela esta noite. O cachimbo, deixa-o em cima da mesa. Cheio.

Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Danza Transilvanica"

agosto 30, 2006

Por um dia número vinte e seis

Por todas as meias horas de meios dias cheios de meadas de lã, de chávenas com liquidos de plasticina e muitos, muitos ramos de alfazema e jasmins que aprendem a crescer sózinhos, sem risos por cozinhar nem caras de cem riscos oblíquos e gargalhadas altas de quebrar vitrais.

Por idas ao circo de mão dada, pelas cascas de pevides atiradas ao rio, por tartes e bolos de geléia e bolachas a sair do forno, estaladiças e únicas em migalhas que nunca são restos, entre pêssegos e baldes de areia que duram até ao Natal, debaixo da mesa da saia comprida onde se decidem a sorte e as manhãs seguintes.

Por acaso e por tudo o que é da lenda, por isso e por aquele passo a mais no jardim, por cima enquanto o telhado aguenta e por alguma razão que me escapou, por ser domingo ou a segunda feira ao pé do meio dia e o tempo durar e durar muito além do cabo das tormentas.

Porque sim.

Ao som de The Rolling Stones "She´s a Rainbow"

agosto 28, 2006

250 gramas de sono

3 e meia da manhã.
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.

Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"

Pausa

É terrível a desolação da caixa de madeira com forro de veludo verde. Nem sequer os dobrões do costume.

agosto 08, 2006

Na borda do precipício

No helicóptero, os três do costume. Nem vou dizer os seus nomes. Faz mesmo muita diferença? É realmente importante? Atreves-te a olhá-los de outra forma, depois de conheceres os nomes? Farás outras perguntas? Não vou dizer os nomes. Os seus olhos muito atentos que te contem as histórias. As verdadeiras. As que são incómodas, que corroem as articulações de tanto desviares o olhar.
O piloto é de uma vilazinha junto a um mar. Uma ilha. Sonhou voar para fugir aos dias sempre iguais. Não sabia que fora dali, os dias ainda são mais iguais. O da máquina fotográfica a tiracolo vem de uma grande cidade. Uma das maiores, das mais ruidosas. Sente falta de um certo café, vai para oito ou nove dias. Não faz a barba desde esse último café. Penteia-se rudemente com os dedos sujos de gordura. Tem os olhos inchados e duas novas rugas que ainda não conhecia. Tem um bebé, lá na grande cidade. O terceiro... a terceira, esfrega as mãos uma na outra, mesmo se as luvas distraiam o frio. Tem o cabelo pelo pescoço, castanho de um claro estranho. Bebe um resto de chá em pequeninos goles. Olha com atenção os pingos de chuva que se estatelam no vidro da frente. Já não lembra do sol e da praia junto ao resto do farol. Só amanhã. Ou depois... Quer dizer qualquer coisa, mas o barulho das pás e do rotor torturam-lhe o silêncio. Faltam duas horas para a noite. Para o destino, um pouco mais. Se tudo correr bem.
Se este momento fosse o momento certo, talvez descrevesse as condições e as consequências, ao mesmo tempo que omitiria as razões. Nem sempre a presença de todas as faces dos dados é necessária. E quase nunca indispensável. Deixava escapar alguns pormenores sem interesse, alguma migalha biográfica, um vício ou dois, um canção cantarolada e mesmo assim cada um imaginaria na sua conveniência o motivo e a moral de cada um. Mas este nem é o momento certo, nem eu sou o anfitrião de uma história que nem é história. Às vezes tudo acontece sem argumento, porque tem de acontecer ou apenas porque sim. Os seus olhos muito atentos, cruzaram-se oito ou nove dias atrás na mesma sala do mesmo concerto. E muito atentos, ouviram as explicações e os momentos de euforia. Comungaram a estranheza de se encontrarem ali, em desviar o olhar. Não costumavam sonhar acordados, seguiam lógicas encarreiradas, não fumavam e sorriam com a preocupação do exagero. Não gostavam do amanhã sem agenda.
O helicóptero descreveu uma ligeira curva para a direita e descaiu teimosamente de encontro às ondas. Ela agarrou-se à pega junto à janela e deixou cair a caneca que rebolou para os pés do fotógrafo. Com os pés em esforço, rangeu os dentes. O piloto esmagou o punho e fez força em vez de imaginar trajectórias. Todos, muito atentos, partilharam o mesmo lamento. Não encontravam a palavra certa.

Ao som de Tangerine Dream "3 AM at the border of the Marsh from Okefenokee"

Já são sete horas?

Podia ser Outubro. Umas onze da noite, por qualquer motivo. Ou Novembro, às seis e meia tarde. Podia estar encostado ao segundo prédio depois da esquina, pé na parede e pé pisando um resto de uma folha cor de rosa, de à três dias e onze e meia da noite de encontro marcado. Podia ter o cigarro a meio, a vontade de acender outro sem acabar este, a sede de uma cerveja belga ou outra à escolha, um lugar sentado no primeiro autocarro de número primo que parar, ou uma lata de caviar e algumas tostas partilhadas nas escadas do metro com um sem abrigo húngaro. Podia ser a sessão da meia noite no cinema junto ao quartel, apenas porque me lembro de algo interessante. Podia ser quase amanhã, os carros estacionados só do lado direito, as árvores quase caladas e o caminho de volta a casa, depois de um serão com um casal de franceses que ainda se lembra do comboio a vapor. Podia ser quase Natal. E quando passasse pelo segundo prédio depois da esquina, via no chão um bocado de papel cor de rosa, as beatas de dois cigarros e a vontade irresistível de abraçar a primeira pessoa que passasse. Mesmo se fosse a pessoa certa.

Ao som de Tangerine Dream "Tangram set 1"

agosto 07, 2006

Paragem

Devagar. Muito devagar, um pé a seguir ao outro, ver a sombra mudar de carril e esperar que ninguém se mova nem que o céu caia no esquecimento. A electricidade parou e as margens estão muito quietas, quase sinceras. O telefone está esquecido no fundo de uma gaveta. Dorme com o passaporte do seu lado e o relógio parado à cabeceira. Devagar, muito devagar, a sombra dobra a esquina. Procura sinais de fumo ou outra desculpa qualquer. O pneu do camião continua furado como na véspera. E a véspera nunca foi ontem.
Devagar, muito devagar, a cidade sorri a si mesma. Tal e qual como num verso.

Ao som de GOL "No Bounds"

agosto 04, 2006

Choque de carrinhos de choque

Ao som de Tangerine Dream "Ultima Thule (Teil 1)"

Recatos

Estou farto de me dizer que o calor não é meu. O frio, deixa-o sossegado. Há-de chegar um domingo ao fim da tarde, com as luzes já acesas e o cachimbo finalmente apagado. O dia estará silencioso na rua das casas todas iguais com o mar ao fundo e barulhento como sempre, na cidade. Mas o calor veio hoje almoçar. E eu, anfitrião, recebo-o com paisagens cor de palha holandesa e álcool agridoce. Ele sorri, como todos os calores que se sentam nas cadeiras de palhinha e sorvem o refresco com vagar. Eu sorrio, como todos os anfitriões que têm as garrafas cheias e todo o tempo do mundo.

Ao som de Fish "Moving Targets"

agosto 03, 2006

Dúvidas

Entre os pingos de calor, junto à estrada e seguindo as pegadas das árvores ao longe, esqueço a ilha e os que regateiam ao sol. Tenho o maço de tabaco vazio e resta-me um único cigarro indiano, daqueles que o brasileiro de sotaque europeu me oferecia sempre. Não tenho fósforos. A segunda e a terceira passa, sabem-me sempre melhor depois de acendê-las com madeira. A quarta também. Fico-me pelo isqueiro que a diva me ofereceu. Ao olhar os campos, abano levemente a cabeça ao ritmo de um bazar que não cheguei a conhecer. Talvez um dia, à tardinha, quando o calor se começar a desfazer enquanto as conversas ganham cor. Hoje não. Hoje, tenho uma missão.
Se não a cumprir, matam-me. Se o fizer, mato-me.

Ao som de Vaguement la Jungle "Donner"

julho 11, 2006

Pausa

Os castelos de areia raramente têm damas ou reis. Ases, têm sempre muitos. Às vezes, demasiados.

junho 28, 2006

Horas trocadas


Depois de sete horas de caminho, as ruas parecem-me rigorosamente parecidas. Nas paredes vazias e sujas, algumas janelas iluminadas têm a forma de um sofá velho, confortável nos fins de dia, onde o serão é açucarado e se possível lento. Nos prédios pintados com todos os tons de betão, as estrelas não estremecem e as luas não têm forma. Os gritos pretendem-se calados e os silêncios nunca são de ouro. Prolonga-se a noite e espera-se que a manhã demore a chegar. Os meninos são aconchegados nos cobertores e antes do corredor, um último olhar à respiração de criança, provoca um sorriso de outros tempos. A luz do abajour amarelecido é morna. A pausa antes dos derradeiros afazeres, esfria. Lá fora o vento ameaça.
Passo a passo, o passeio não quer terminar. A rua atravessa-se no meu caminho, por todas as sete horas de vadiagem rumo a qualquer avenida com nome de herói da guerra, onde os semáforos intermitentes são detonadores de suspiros. É tarde. No bolso apenas a chave do quarto de hotel, a carteira de fósforos meia vazia e os dois cigarros que ainda restam. No bar depois da estação ainda há luz. Puxo a gola do sobretudo para cima, olho em volta à procura de algo que me tenha escapado e atravesso a rua. São 2 horas da manhã, a neblina promete cair e o último comboio não trouxe ninguém. Está na hora da saudade.

Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"

junho 09, 2006

O assassinozinho

Começar o fim de qualquer vestígio de crime, permite a intuição de conhecer o criminoso, entrar-lhe na pele e reviver o assassinato. É uma virtude, escolher no conjunto descomunal de minutos que o dia oferece, o instante correcto da arma faiscar ao sol e penetrar no ventre da vítima. É uma arte. Um dom. Uma pincelada ao de leve, onde o íntimo encontra a tela.
Um crime só faz sentido no momento exacto. Proporcionar a facada dois segundos depois, transforma a obra prima em andaime. Um segundo antes é apenas uma garotada. Deixar a tragédia para o dia seguinte, é mimar com misericórdia o punhal, é preguiça de letrado. Não deixes para amanhã o que podes sangrar hoje. É por estas e por outras que investigar o crime é fugaz. Voyeurismo muito depois do evento. Um longo encolher de ombros de quem não lhe conhece interesse e vontade. Um bocejo.
O segredo para além do assassino é pegar o seu vestígio com as duas mãos. Lentamente, com cuidados, acariciá-lo com minúcia e com a intuição com que ele se entrega, afagar o hálito do criminoso, sentindo-lhe o bafo final com que um malogrado qualquer se despede. E no fim, como uma sobremesa que se espera com gulodices aveludadas, resta o fio de sangue que no passeio irregular traça caminhos imaginários, rumo ao Sul. Assassino? Poeta, é o que é.

Ao som de Uriah Heep "Return to Fantasy"

A quinta badalada

Das cinco horas da tarde, duas, ofereço-as à multidão que espera pacientemente ao sol, junto da porta do Ministério dos Assuntos de um Dia Qualquer. O ministro à muito que fechou a pasta na gaveta e se evadiu para não sei ao certo. O secretário em estado novo, jaz nas areias da praia regulamentar. Os funcionários mantém-se fechados na cave. Acreditam numa guerra mundial. Uma qualquer. Os serviços ao público nunca chegaram a abrir... mas a multidão nunca o soube. Espera com a paciência de santo em dia de feira no Vaticano. Espera sequiosa sem conhecer o sabor da água. Nos cantis, só sal. Grosso. Por tudo isso, duas, ofereço-as à multidão.
A terceira, a de canícula, doei-a a um velho que nunca conheceu outra pátria, que a sua cadeira de rodas. Tem uma tez paraplégica e um esgar nocturno. Vive com a certeza de os pés e as pernas serem artigos de luxo, supérfluos à matilha indigente das três da tarde. Bebe chávenas de café. Muitas. Demasiadas. E se o vício se entreter, porquê hesitar? Bebe-as sem açucar. Faz-lhe mal à circulação dos membros. Dos que lhe faltam. No intervalo dos goles de café, lê velhos tomos desirmanados que o camião do lixo lhe deixa. São as suas refeições. Costuma saltar o pequeno-almoço.
A quarta hora, pouco uso lhe posso dar. Geralmente tenho-a como impecilho. É redonda e mesmo assim, lisa de sentimentos. Não provoca paixões. Não faz desmaiar donzelas. Apenas está ali, entre as três e as cinco, absorta, vaga, preocupada com toilletes que não conhecem galas. É uma hora vulgar. Nem sequer ordinária. Deixo que a senhora da limpeza a varra para debaixo do tapete. Arquive-se a sua inutilidade.
Cinco da tarde. Das cinco horas da tarde, duas ofereço-as eu. A terceira é doação de família. A quinta, guardo-a avaramente numa gaveta. Não quero que ninguém a ouça. Filantropices...

Ao som de Moonspell "Nocturna"

maio 19, 2006

Razões

Duas horas para o próximo gole de água

Na claridade do dia seguinte, tudo parece no seu lugar. A ponte e o meio dia permanecem à espera e uma sexta feira esguia ziguezagueia, desatenta aos blocos de betão que se enchem de cor. O maço de cigarros está quase vazio e as garrafas de água são três. Uma está quase vazia. No horizonte as serpentes têm veneno adoçicado e esperam por nós. E nós, obedientes, certos da doutrina que inventámos, despimos os casacos e os relógios e rumamos para um sul privado. Os minutos que entregámos na portagem não tinham troco, nem sequer esperámos pelo seu consentimento. Chamamo-nos livres e sem apelido. Vemos muito além da berma da estrada, arremessando ao vento quente as pontas dos dedos com sabor a mel. O mel do amor com gotas de suor, onde se esculpem caminhos ao longo da perna que repousa. Um segredo que se guarda com lacre de cor púrpura.
Tudo parece no seu lugar. Ao longo da secretária, na estante das bobines de filme, na cama desfeita com os lençóis em desalinho, no frigorífico atulhado com as mesmas coisas de todas as semanas, junto ao cortinado que estremece com a aragem da manhã, na porta que se esqueceu encostada. Tudo parece no seu lugar. Menos nós, que já partimos.

Ao som de Mylene Farmer "XXL (Princker Extended Remix)"

maio 17, 2006

Alguns segundos entre chegadas

Devagar. Mais depressa. Sempre pela rua do casino e da loja de penhores. Tenho no bolso mais de duzentos cheques de pagamento militar, misturados com as gomas habituais e os fósforos de Tijuana. Já não me lembro para onde vou. Como entrei neste carro? Conheço o condutor? E os outros? Acabo com o cigarro do fulano da direita e nem tenho a certeza se é um cigarro. Depois se verá. Mais tarde. Quando acordar. Se acordar. Conheço a canção de algum lado, mas não interessa de onde. Algum sítio. Outro. Longe daqui. Ou perto?
Gostava de passar a mão na cara, mas não me apetece. Estranho este desejo de apetecer e não cumprir. Jovial, era a palavra. A outra era mentira. Bastavam as duas para me atirar ao rio, se ele houvesse. Aqui só asfalto e luzes esbatidas de copos altos e destinos cor de menta. Pela outra rua chegávamos mais depressa, mas é mesmo preciso chegar? É preciso estar atento. Ou acordado, não sei bem. Faz-me falta a enciclopédia. A de capa de marroquim como os chinelos do patrão. Nunca o vi. Sei-lhe bocados do nome. Os que interessam. Ele já me viu. Antes. Agora não o conheço. Nem sei onde está. Estará à porta? Espero que não. Prefiro ninguém à chegada. Só a porta encostada e uma cadeira confortável. De onde tirei esta palavra? Parece uma daquelas estradas de mansões milionárias, que sobe em serpentina e acaba num tufo e algumas pedras. Ao longe, o negócio e a rua principal. Não gosto de avenidas. Fazem-me mal. Provocam-me azia, da que dura toda a noite a passar.
Vou fechar os olhos. Abro-os, quando chegar.

Ao som de The Charlatans "Weirdo"

Tarde de menos

Devagar, fechei a porta do quarto e atirei as chaves do carro para cima de uma das camas. Recusei a tentação de me olhar no espelho e tirei o casaco. Por ser tarde, achei-me com tempo e fui tomar um duche. Fiz também a barba. Se morresse esta noite... um caixão de barba feita fica sempre bem.
Afinal olhei-me no espelho. Como batoteiro militante, nunca recusei um trunfo.

Ao som de Tito & Tarantula "After Dark (Terranova Law And Order Remix)"

maio 13, 2006

Antes dos sete segundos

Vou contar-te um segredo.

Ao som de The Psychedelic Furs "In My Head"

O cinzeiro está cheio


De manhã tudo será diferente.
Agora é tarde. Adormece-se por cansaço e por outros motivos elementares. Despem-se as camisas e atiram-se as meias para os cantos junto às portas. Bebe-se um copo de água que se desejou toda a tarde, fuma-se um último cigarro, inveja-se o vizinho do lado. Um olhar pelo jornal. A página do desporto embebida em usura, as letras que se desviam dos olhos parados, as notícias mornas quase frias. No topo dos prédios, os rebeldes de camisola de manga curta e dedos atentos, roubam os beijos que ainda restam. Um par, um ímpar, todos desejam ser iguais, nem que seja só por uma vez. De manhã tudo será diferente.
Em alguma cozinha ferve-se água e com muito cuidado juntam-se as folhas de chá que não secaram. Frita-se um ovo e come-se sem pão. Ensaia-se um sorriso, apenas porque sim. Porque se quer a lua mesmo sem luar. Lá em baixo os faróis dos carros fogem do sono. Procura-se um destino aberto. Um que não durma. Aqui, adormece-se por cansaço e por motivos confessáveis. Os lápis não se afiam, nem em dias de festa.
Aqui as horas têm sessenta minutos. Mastigam bocados de papel que ficaram em cima de uma mesa ou na caixa de correio que não fecha. No vagar de todos os dias, o bêbado arrasta os pés e de chave na mão, procura a infância. De manhã tudo será diferente. De manhã, tudo será igual.

Ao som de Brian Reitzell & Roger Manning Jr. "On the Subway"

De passagem

Quarto número doze

É um daqueles inícios onde a tarde e a noite perdem as fronteiras e as ruas nunca são as indicadas nas placas. No andar de cima grita-se o atraso. O café é o de anteontem e os lençóis têm migalhas à vinte e um dias. Ao canto, o fato amarrotado que escurece o brilho de uma soirée de lotação esgotada. A gravata foi cortada em pedaços de ligadura, algures na semana passada. A tarde cai, solenemente, guardada pelas persianas corridas em jeito de luto. Uma laranja já seca faz de sentinela ao testamento que amarelece na gaveta da esquerda. Desde ontem que a sentença é oficial. Um de nós tem de morrer.

Ao som de Jacques Higelin "Champagne"

abril 26, 2006

Sul

Ao sul, debaixo de um sol de filme e embalado pela violência de um beijo adiado para o próximo quilómetro, recuso-me a contar os minutos que sobram. Entrego-me à velocidade e ao corpo inerte da mulher de cabelo negro, que adormece ao meu lado. Adivinho-lhe os sonhos e alguma pressa por um destino perto do mar ou de uma cama de lençóis leves. Antecipo a gulodice de lhe mimar o pescoço e mergulhar no seu ronronar. Invejo-lhe a lânguidez.
Tenho na boca um sabor a pó que faz parte do resto. Da distância, do calor, da pressa que não se procura, do amor em pausa. Passo a mão na cara e torno macia a barba por fazer. Insisto em guiar encostado à porta, por desleixo e por vontade do vento. Acaricio o volante com a ponta dos dedos. Sorrio e sem olhar para o lado, regresso à estrada.

Ao som de Motorcycle Boy "Run Run Run"

abril 20, 2006

Café Tóquio


Quarenta e cinco minutos em serpenteios calados e quietos, sorvendo com cuidado momentos de café, onde o vagar se entrega a doces pózinhos de surpresa. Nas mãos, um isqueiro prateado, escurecido por uma azulada certeza com sabor aniz. Não sei quantos segundos mais, nem se passaram tantos assim. Apenas que o relógio está parado, a hora é a que apetece e o tempo não costuma vir aqui tomar café.

Ao som de 34 Puñaladas "Packard"

O anel

Da esplanada no café de praia, observava as raparigas no recorte dos fatos de banho. Fumava os cigarros que o tinham iniciado na juventude e o copo de groselha aquecia ao sol amarelecido de Setembro. Apetecia-lhe álcool, mas o cenário perfeito de ontem exigia-lhe o sacríficio. Tinha desenterrado os óculos de sol das idas à piscina e o sorriso ensaiado das tardes logo a seguir ao almoço. Batia o pé com a canção que lhe lembrava antiguidades. Encaixava cada corpo na fantasia que melhor se adaptava. Tinha muitas. Usadas, muito poucas.

Ao som de Patrick Coutin "J´Aime regarder les filles"

abril 19, 2006

O giz continua azul

Um domingo de verão, uma carambola galhofeira percorre o pano esverdeado rumo ao canto escuro. É véspera de segunda feira, sem motivo de urgência. Junto ao balcão, um pires com pastilhas de alcaçuz e um resto de café frio no fundo de uma chávena lascada. Meio copo de cerveja. Algumas cascas de amendoim. São da véspera. Hoje não se limpa. Espera-se. Amontoa-se a preguiça ao longo de cadeiras gastas.
Do fundo do corredor de azulejo, bocados de tarde. Um sol claro e um céu que nunca é demasiado azul. Nas mesas vazias, pó e algum triângulo cansado. Na do canto escuro, uma carambola galhofeira rasga o pano esverdeado. Lá fora, o domingo. Cá dentro, o dia que passa.

Ao som de Madrugada "Hold on to you"

abril 17, 2006

abril 13, 2006

Pausa

E ao terceiro sinal, a hora já não será a mesma.

Amor num comboio real

Caótico

Depois da chávena de café, uma olhadela ao espelho e as costas à rua encharcada. As mãos no bolso descosido procuram alguma chave, seja o que ela abrir. Uma troca de olhos cansados enchem a chávena pela terceira vez. O esmero de uma contabilidade vertical, engana o relógio atrasado e as poucas moedas que restam. Um sorriso detém o suspiro. Afinal, bebe-se a felicidade a goles pausados.

Ao som de The Bambi Molesters "Corazon del Loco Jorge"

abril 04, 2006

Ontem, agora e já são verbos

Depois de fazer o inventário, lembro-me ter deixado um sofá beije e bordeaux, desconfortável, forrado a vinil, onde sentado junto à janela da varanda, perdi dias de nuvens e alguma chuva. Escrevia incontáveis linhas de uma espécie de dicionário infalível, onde me revia em todas as letras. Depois, pousava a caneta e olhava a rua, à procura de alguma camisola de cor ou de qualquer grito cúmplice. Retomava por mais uns minutos e sem deixar de manter a rua atenta, ouvia os ruídos da casa grande que se misturavam com cheiros de cozinha de provincia e ladaínhas próprias dos dias reconfortantes. Na sala principal o aquecedor ruminava com um ronronar de hábitos antigos. Aqui, na sala do piano, o frio costumava vir passar a noite. Sentado junto à janela da varanda, deixava a tarde terminar, sabia o momento certo das luzes se acenderem, esticava-me para ver a última traineira do dia e deixava-me estar com uma canção nos lábios à laia de moinha. Só o jantar me retirava deste entorpecimento e me devolvia ao mundo.
Será que vão longe essas dias?

Ao som de Talking Heads "Heaven"

Tudo



Entre a pureza de um organismo vivo e a exactidão de acordes de sintetizador, porque não escolher os dois?...

março 31, 2006

março 30, 2006

março 23, 2006

Nem sim nem não

Depois da hora que encerra a noite, volto-me na cama sem encontrar nem o espelho, nem a alma. Acendo a luz e antes de voltar a reconhecer o qaurto, recordo-lhe os contornos e as arestas. Do frio já só sinto as primeiras meias horas, embalado que estou nas histórias e recordações de peles que convidam a entrega. Já revolvi todas as gavetas e continuo sem as encontrar. Resta-me o isqueiro e pequenos pedaços de vícios sortidos, compras em lojas que já nem existem, em ruas onde não passo porque me esqueci. Tenho na boca o sabor ao contrário. Se calhar por pisar os segredos em vez das palavras. E mesmo assim, se já as escrevi não as vou apagar. Por teimosia, por desleixo e por mentira. Adeus.

Ao som de OMD "Statues"

Navegações


Os abismos existem quando os sabemos encontrar.

março 22, 2006

Especiarias

Lentamente uso o olhar para a rever. Sentada numa almofada oriental, de olhos semicerrados e respiração sonolenta, motiva sabores tranquilos e temperos acres, próprio de um capricho. As velas acesas transformam-na num altar. Eu, calado, de sorriso oculto, prefiro senti-la no recanto de uma ideia. Aquela ideia que não se confessa nem se partilha, como um egoísmo mudo e solene, imune ao remorso e de cor morna. Por decreto, decido-a minha, registo-a como propriedade imensa, num acto ignóbil como quem rouba a obra de arte e a destrói, para mais ninguém a desejar. Lentamente, fecho os olhos e deixo-me ficar gravado na sua presença. Lentamente o espírito constrói-lhe uma fortaleza inexpugnável e ali a algema com fitas de seda e incensos. Depois de enterrar a chave, escondo o desejo e a certeza e invento uma religião. O seu deus, mantenho-o em cativeiro.

Ao som de "You Started Laughing"

março 21, 2006

Pausa

No lugar das coisas
um momento calado
e ténue,
onde todos os pertences
sossegam no que é seu,
por agora.

Os gritos despertos lá fora,
prometem a seiva
e a luz.

Neste momento calado,
todas as coisas
têm o seu lugar.

março 18, 2006

Preferir uma manhã cedo, uma mesa limpa, uns damascos, a virgindade de algum sol e um espírito limpo de certezas.

Começar a manhã ao som de Amadou & Mariam "Coulibaly"

março 14, 2006

Recado por dentro

Como um tango, a morte desbrava intempéries e bonanças, elos onde o momento e a emoção tomam conta, onde remoem e apertam num laço que custa luzir, esperando que se desfaça num instante, tal como o sonho se evapora depois de abrir os olhos. A vontade mastiga-se em migalhas, o sorriso sabe sempre a forçado, suspende-se a garfada no ar, com a culpa de um apetite inocente, hesita-se uma canção ou um adjectivo por ser longo demais. Como um tango, a morte desprende os linhos frágeis, revelando as cadências ferrugentas, alumiando ténuamente o lamento e um longo adeus pausado pelas lágrimas que nem se conseguem definir. É um piano demasiado afinado, onde a nota se multiplica na direcção errada. E tudo gira mais devagar, o tempo teima em diminuir o empenho, a flor permanece atenta e viçosa e ao longe o rio ondeia até à foz.
Eu estou aqui, junto à foz. Estou aqui, parado, encostado ao farol de paredes picadas por um mar que se obriga todos os dias, esperar por mais alguém. E mesmo se esse alguém não voltar a encostar-se ao farol, a luz irá varrer as águas à meia noite e o mar, teimoso, vai esperar como se não soubesse a notícia.

Ao som de Men Without Hats "Cocoricci (Le Tango des Voleurs)"

dezembro 20, 2005

Chaves e silêncios

Épicamente balançado pelas luzes que anunciam o fim do dia, herança de uma dança de loucos que se prolonga muito mais que 7 minutos e meio, desejo profundamente acreditar nas missões e nos destinos peculiares.
Moro num sítio onde existe uma passagem secreta para os Natais. Os que se misturam com lenda e açafrão, os que mantém o perigo dos primeiros tempos, os que vão muito para lá das montras e dos enganos mortais. Às vezes tento rodar a chave ferrugenta dessa porta fechada por decreto, ouço alguns mecanismos ranger, cai alguma fuligem cor de antigamente e depois, só o silêncio da recusa por demenciais razões e espíritos menores. Então, espreito pelo buraco da fechadura, largo como só antes era possível e para lá da negritude da escuridão silenciosa, adivinho as formas trôpegas de mistérios de juventude, ogres de voz cintilante e mãos simuladas em luvas de pelica tão fina, que se conhece as veias pelo seu nome próprio. Os cheiros e as comadres agachadas junto ao lume, repetem ditos frugais, enquanto os seus olhinhos brilhantes estalam de gozo pelo fumo das cozeduras e o reflexo dos diamantes que pendem do tecto de madeira escura. Ao primeiro silêncio, as luzes baixam de tom e um coro de marfins alados encomenda um caminho novo de três mil e quatrocentos anos. Como resposta, os cristais em forma de animais e verdades, do alto das prateleiras cerimoniais, ri em gritinhos juvenis tornando tudo em cor branca. Ao segundo silêncio, os guerreiros de lábios gretados e ternura na ponta dos dedos, desembainha as espadas imemoriais e num gesto seco mas majestoso, lança-as para longe, onde um regato se transforma em oceano e as cobre definitivamente. À uma, cantam em coro a canção dos que regressam, ladeados pelas imagens ténues dos que por lá ficaram. As comadres à ordem da avó suprema, distribuem os caldos de mil ervas e as bagas de gengibre e veludo, que se comem às mãos cheias. Por momentos, engole-se o sabor e saboreia-se as virtudes de ter alma. Depois da ceia, todos se sentam virados para Este e sem palavra, espera-se. Ao terceiro silêncio, já ele próprio o esperava. A porta estremece, ouvem-se as formas que batem com os pés na pedra em busca de calor e secura, caem os pesados alforges, rebolando para a parede, acotovelam-se os que prolongam a dúvida e ouve-se em pancadas poderosas a porta anunciar a visita. Ao terceiro silêncio, desde tempos sem idade, chegam para o resto da ceia os quatros ventos, miragem eleita como a mais pura e perfeita num mundo prenhe de tomos vulgares e locuções vazias, que terminam antes do começo. Quando a porta se arrasta pela laje, a visão permanece intacta como a lenda: Os quatro ventos só serão vislumbrados pelas mentes limpas e pelas almas intactas.
Eu não os vi. Não conheço ninguém que os já tenha visto. Não sei de notícia de alguém que encarando-os, os tenha reconhecido e por eles tocado. A porta que separa a passagem secreta continua fechada. Consta que a chave enterrada na fechadura não serve. Que em vez, existem alguns milhões tremendos de chaves, espalhadas por aí. Que eu saiba, ainda ninguém encontrou alguma. A porta permanece fechada. As chaves, sem exigir esconderijo, espreitam quem passa, apressado em motivos menos nobres e essenciais para coisa nenhuma. A porta permance fechada. Espera pela chave. Uma qualquer.

Ao som de Shadow Gallery "Mystified"

dezembro 15, 2005

Sem quase querer















Desejo-te com a fome de sushis impossíveis...

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"

novembro 04, 2005

Depois do baile acabar

Quando a chuva se acabar, quando as nuvens se fartarem da morada, depois de algum percalço menos medido, não restará mais que a última direcção. Já experimentaste todas as outras? Sabes onde acabam?
Eu, por mim, sentei-me durante dias na encruzilhada. Pensei nas direcções, onde terminavam, quem procuravam nas bermas cheias de pó e erva, em que casas passavam a noite. De vez em quando levantava-me e punha-me a caminho. Antes do fim, voltava para trás. Aprendi as respostas sem ter de conhecer os pontos finais. Percorri todas as direcções, menos uma. Percorri-as até antes do fim. Nunca cheguei a saber se o fim estava perto. Sabia que estava lá, e isso bastava-me. Percorri-as todas, menos uma. Não a escolhi por acaso. Tirei-lhe medidas, pesei-a, observei-a de perfil e dos outros ângulos também. Não lhe dirigi palavra. Percorri-as todas. As outras. Quando regressava delas, sentava-me no mesmo sítio e esperava a resposta. Sempre sem conhecer os pontos finais. Não me fazem falta. Quando anoitecia, puxava do meu lenço, abria-o e com o cuidado de quem conhece as respostas, pegava num bocado de laranja e comia descansado.
Passou-se muito tempo, desde estes dias. A encruzilhada está mudada. As direcções já são outras e as respostas também. Dos pontos finais, não ouço falar há muito. Como não gosto de máquinas, deixo-me ficar sentado à espera de voltar a precisar dos meus passos. Antes não. Ainda tenho alguns gomos de laranja.

Ao som de The Smiths "How soon is now"

El Diablo


Sabes reconhecer o diabo, quando se cruzar contigo numa rua de movimento?

outubro 28, 2005

9 menos um quarto

O lado menos colorido das coisas, obriga-nos sempre a conjecturas demasiado simplistas. Olha-se o lado escuro de uma pedra, o leite que espera a sentença no fundo de um copo, o fósforo apagado depois de morto, a meia pegada junto ao passeio. Encolhem-se os ombros, pede-se piedade, pena, jeitinhos de hortelã e mantas gastas, um resto de saúdezinha de um pacote mesmo no fim. Vira-se a cara para o lado, procuram-se natais, ruas iluminadas, esquinas de portas abertas. E depois, escondem-se os sonhos por realizar, as bocas por alimentar, os perfis da derrota e todas as boas intensões do mundo.
Depois de anoitecer, os sem abrigo voltam aos seus caixotes, as ouriversarias fecham as portas de ferro, as meninas jantam nas salas aquecidas junto à cozinha, o velho do quarto alugado por cima da loja de ferragens assusta-se com o fim da vela. Sabe que os fins estão no fim da rua, à espreita. Gostam de apanhar quem se distrái. Gostam de aparecer sem convite, nem porta aberta. Gostam de surpresas. Depois de anoitecer, as chávenas de café têm outro sabor. Sabem a culpa. Sabem a dia gasto.
Se te acontecer encontrar o lado menos colorido das coisas depois de anoitecer, esconde-te no primeiro vão de escada e espera. Espera toda a noite, se for preciso. E se não gostares de fins, espera de olhos abertos.

Ao som de Blackfoot "Diary of a working man"

outubro 11, 2005

Sem esperar

Outro lado do mundo que estiver certo

Nunca fui. Nem sei se terei coragem de lá chegar. Tão pouco adivinho se algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada, porque paciência nem todos a têm. Creio chamar-se Soledad. Mas posso ter-me enganado. Ou então, enganaram-me. Já aconteceu. Deve ter uma família, daquelas cheias de primas e tios, cunhados de olhar diurno e vizinhas que conhecem as histórias e os segredos. Devem almoçar ao domingo, amontoando-se ao lado dos gritos das crianças e das ladainhas dos mais antigos. Reparte-se a fartura com a fome dos outros dias. Dão-se graças, apenas porque sim, porque já os outros as davam. Vive-se.
Eu ainda aqui estou. Preferi sentir-me cómodo. E preferi a segurança da Calle Amberes. Por uma vez, a Zona Rosa possui a cor perfeita. Na varanda do quarto de hotel, fazendo esperar a chávena de café a ferver na Plaza Garibaldi, acabo um cigarro adoçicado e medito no meu egoísmo. O tal que me decidiu esconder aqui, longe de quem já perdeu a paciência de me esperar, de quem olha os filhos numa adoração desmedida e nunca sabe o dia de amanhã. Talvez amanhã procure este destino. Ou então, um outro qualquer. Um que me espere impacientemente.
Deixo cair o que resta do tabaco, piso os vestígios ainda acesos, olho uma última vez o edifício da American Express e saio do quarto deixando a janela aberta. O ar condicionado nunca funciona. Desço, atiro as boas noites ao Salvador que me responde em rima e fundo-me com a multidão. Na esquina com o Paseo de la Reforma, talvez incomodado com este rio de riqueza entre lixeiras e bairros miseráveis, decido deixar esfriar a chávena de café e procuro um táxi para regressar à existência normal. Espero bastante tempo por um vermelho. Não me sinto com muita sorte para tentar outra cor. Vou a Las Aguilas, bem depois da Barranca del Muerto. Ali vive Soledad. Lembrei-me de lhe ir conhecer os olhos, adoçar a boca das crianças com alguns rebuçados, ouvir as frases feitas dos avós. Lembrei-me de sentir a vida como ela realmente é.
A verdade é que sou demasiado óbvio. Não cheguei a Las Aguilas. Não conheci os olhos de Soledad. Apanhei o táxi, um vermelho bem sujo, guiado por um velhote de dentes podres.
- À donde, patrón?
Hesitei, num gesto próprio dos que não sabem o que fazer do tempo.
- À la Tabacalera.
- Si patrón.
Recostei-me. Doíam-me os rins. Tinha passado a tarde a escrever. Baboseiras e lugares comuns. Demasiado tempo livre, esta é a verdade.
- Dejéme en el Oxford. - O condutor sorriu. Conhecia o destino. Olhou-me pelo espelho e tentou adivinhar-me a tara. Voltou a sorrir, encolheu os ombros e acelerou sem vontade.
Boas intenções. O papel de parede do inferno. Enquanto Soledad olha os filhos que adormecem sob o carinho da mãe, eu, egoísta, bebo o álcool viciado e observo as putas com idade de velha, que se bamboleiam ao som dos tristes boleros que Carlitos insiste em tocar. Pacientemente.

Ao som de Brian Eno & David Byrne "Regiment"

outubro 02, 2005

O lado do mundo que estiver certo

Nunca fui ao Tibete, embora sinta que algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada. Algo, ou alguém, enrolado num cobertor, talvez em farrapos, olha de relance quem desce do último autocarro, mede os seus passos, as suas exclamações, e me procura tarde após tarde por entre a poeira e o cheiro a chá requentado dos vendedores de rua. Eu, egoísta, faço-me esperar como se de um alto dignatário me tratasse, empolando a minha vaga importância num mundo tão prenhe como o que existe no Oriente, ignorante de contrapartidas e variações. Em Lhasa, alguém retarda a sua vez de comer algumas migalhas ou molhar os lábios num chá fumegante, sentado num degrau junto aos autocarros parados. De vez em quando levanta-se, estica-se um pouco, olha as águas do Kyichu e retoma a missão que sem razão aparente lhe foi confiada. Eu, sentado ao computador, fumando um charro com um prazer contido, perguntando-me as razões para tanta agressividade infantil, esfregando os olhos para retardar qualquer lágrima, de dentro da minha t-shirt dos New Order não compreendo este provérbio antigo que me espera pacientemente do outro lado do mundo e prefiro, por agora, ignorar o que nem sei que nome dar-lhe. E ainda assim, no meio das cabeças que descem os degraus sujos dos autocarros, procura-se a minha. A minha cabeça está a prémio. Mesmo se um prémio ínfimo, desajustado ao valor que aqui no Ocidente, apreçamos a existência, o tempo ou a necessidade.
Por enquanto, espero. Espero pelo cartaz que valorize a minha captura. Espero é valer alguma coisa que se veje.

Ao som de Aes Dana "Skyclad (High Frequencies Version)"

setembro 30, 2005



É com enorme emoção, que anuncio a minha candidatura ao vício. Mais tarde, direi qual...

agosto 05, 2005

Por ter de ser rápidamente

Por detrás do sono há uma intenção, um dever solene de regularizar os amores, as entregas de carícias e de ódios de estimação. A nicotina e os papéis quimicos levantam as suspeitas do costume, os presos estão presos, os guardas persistem nas suas rondas e todas as formalidades resistem ao tempo e às flores no caminho. A qualidade compra-se a golpes de sabre, a sementes de girassol descuidadas, a lágrimas com sabor a cereja, a chamadas telefónicas de meio segundo, ou talvez menos. A vida vende-se à velocidade do tempo. As velhas engasgam-se, os recém nascidos contam histórias de assombrar, os paraplégicos riem sem conseguir parar, as rotinas mostram conclusões fundamentais e todas as crianças, todas, vestem fatos de macaco amarelos com letras pretas. O sonho é real, bebe café ao nosso lado, encostado ao balcão sempre sujo de açucar e migalhas. O sonho paga com as mesmas moedas e cospe o hálito a queimado para o mesmo canto. Os uivos e os cigarros mal apagados formam coligações colossais, à medida de um faraó qualquer, ou então, daquele imperador que faz ginástica no gabinete do lado e já não se entende com o telefone pintado de algum tom de cor de rosa. Os envelopes continuam a rasgar-se com fúria e as cartas deitam-se fora sem se ler. Uma mera formalidade. Ou qualidade. Já não me lembro bem. À saída da câmara dos lordes, olho o céu e a estrada deserta, penso nos livros e nos programas de televisão que pretendi não conhecer e grito as palavras de ordem que repeti, uma e outra vez, na penumbra da dispensa da casa do lado. Uma formalidade. Nem estou bem, nem estou mal, apenas espero o inicio da mensagem, da profecia que ainda me faz sorrir, da ordem das coisas, dos tons de amarelo que ainda consigo recordar. Prefiro entrar em contradições, em ruas de um sentido só, nos cinemas que nao resistiram á falência. Não estudo, não trabalho, facilito os encontrões nas ruas cheias de gente. Entendo tudo isto com uma mera formalidade. Ou qualidade. Não me lembro muito bem.
À esquina, está um pedinte que um dia imaginei meu amigo. Páro junto dele, olho o seu olhar vazio, dispo o meu casaco, tiro os sapatos e deixo-os junto aos seus sacos. Com eles, deixo a minha chave do carro e de casa. Com ele, deixo as minhas invenções e as minhas desculpas. Uma mera formalidade. Ou uma qualidade. Já não me lembro bem.

Ao som de CCCP "Io Sto Bene"

agosto 03, 2005

O sorriso do senhor deputado

Doido de ciúme, Cravon bateu com a porta e desceu a rua de empedrado, com passos furiosos e recalcados. A aba da casaca batia-lhe na perna, com o compasso de uma tragédia em três movimentos. Os olhos vagamente lacrimejantes, mastigavam a revolta incontida de anos e anos de confiança e solenidade, misturados com a pureza de coração que desejava sentir e acariciar, fruto de uma mãe romântica e dos costumados silêncios do pai. Sentia-se traído, ladeado por vagas de lodo e mentira, mergulhado numa escuridão ateada pela tarde de sol no alto. Acelerando o passo, Cravon percorreu as ruas que julgava conhecer. Palmilhou-as até se sentir exausto. E mesmo com o cansaço a toldar-lhe a vista, não admitia parar. Queria esmagar com aquelas passadas remoídas o desgosto e a mágoa de nada voltar a ser como dantes. Pensava no suicídio, na desonra, na chacota e na solidão. Pensava sobretudo em fugir para longe e esquecer tudo o que sabia. Ou julgava saber.
Parou por um instante e levou a mão ao bolso, procurando o grande lenço branco para lhe enxugar a testa. Estava alagado. O calor do mês de Agosto, era cruel na cidade. Ao tirar o lenço, sentiu algo cair no chão. Olhou abismado para uma pulseira negra, de pontas douradas, que se tocavam como um beijo furtivo. Baixou-se, pegou-lhe e sentiu uma dor aguda. Uma das pontas, demasiado afiadas, entrou-lhe na carne e sugou-lhe algumas gotas do seu sangue. Quando levou a mão à boca, a estancar a ferida, jurou sentir o sabor dos beijos dela. Os que trocavam furtivamente, debaixo das arcadas do convento. Olhou admirado a jóia, como se assistisse a uma assombração. Desejou estar enganado, ser vitima de uma maquinação, estar louco, permanecer defunto. Encostou-se à parede desbotada, como se cambaleasse por uma tontura. Olhou uma vez mais a pulseira, medindo-lhe a infâmia. Olhou em frente, vendo as ondas de calor sobre o lajedo, alcançando a pedra despida dos muros do hospício. Sem saber como, sentiu alento. Compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio, soprando-lhe a poeira e avançou decidido, com um sorriso nos lábios.
Chegado ao portão enferrujado do instituto, tirou o chapéu e pediu para falar com o encarregado. Foi recebido com cortesia e disse ao que vinha:
- Quero fazer-me instalar. Sou doido varrido, perigo a segurança alheia, desejo o mal a todas as criaturas vivas e pretendo a ruína do mundo. Faça o favor, leve-me e proponha-me o vosso tratamento mais rigoroso.
Sem mostrar qualquer surpresa, o encarregado sorriu com gentileza deslocada e com um brilho terno no olhar:
- Meu caro, não pode ser. Acredite que compreendo as suas motivações. Não as conheço, mas compreendo. Mas a verdade é que não pode ser. - A razão da recusa começava a ganhar forma. - Os regulamentos são inequívocos. A maldade, o crime de sangue, o estupro, até o caos, não são prova de demência ou imputabilidade. Apenas humanidade, espirito de sociedade, percebe. Não posso encerrá-lo numa cela, submetê-lo a um tratamento cruel e quiçá feroz, atirá-lo ao esquecimento até ao fim do seu tempo, apenas por demonstrar cidadania e normalidade. Sabe que mais, com esses propósitos empreendedores, essa solenidade discreta e essa filosofia de vida tão vincada, concorra ao Parlamento, faça-se político, ainda vai a ministro.
Cravon ficou imóvel por alguns segundos. Sem atingir completamente o porquê, encontrava nas palavras do encarregado a verdade do mundo. Pelo menos, deste lado de cá do mar. Reconheceu-lhes dignidade, até alguns resquíceos de uma a amizade que podia ter existido. Compôs a gravata, os punhos da camisa e apertou vigorosamente a mão do encarregado:
- Compreendo. Agradeço-lhe a atenção. Acredite no meu eterno reconhecimento. Boas tardes.
Pegou no chapéu e saíu. Desceu o passeio até à entrada, rodeado de árvores e plantas raras, numa alegoria de oásis. Tirou o chapéu ao porteiro e seguiu pela rua junto ao rio. As suas passadas tinham perdido a fúria. O seu sorriso sereno, prometia bonanças. Levou a mão ao bolso e os seus dedos encontraram a pulseira negra. Tirou-a, abriu a mão à luz do fim do dia e com um suspiro milenar, atirou-a ao rio.
Coberto de confiança, Cravon compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio e avançou decidido, com o sorriso nos lábios.

Ao som de Carlos Libedinsky "Otra Luna"

junho 19, 2005

Mesmo se pensares para outro alguém

E depois, por detrás da mesa e das garrafas vazias, dependendo do relógio parado e do telemóvel desligado, com a camisa rasgada por um impulso, fibrilhando a noite com o resto de tarde e preferindo um hálito a cerveja vermelha, fico pouco quieto à procura de palavras vãs. Relego-te para o último lugar da espécie. Prevejo o teu desalinho, as meias rasgadas, as ligas presas no suor. E na boca um cigarro apagado à espera de um isqueiro... ou de um fósforo. Penteio-te com modos virtuais, aspirando o perfume dessa juba negra que me indicia a transgressão. Peso o teu valor de fêmea entre caixotes de tecidos e fardos de palha seca. Pergunto-te a idade, mas respondes-me com um rugido. Ou uma ameaça, não me lembro bem. Enquanto decido passar a língua nos teus pés nus, insisto no grau de condessa que possuis. É tarde, na escala dos humanos. Na tua, apenas atraso.

junho 08, 2005

Três pancadas na porta

As calças de cabedal como almofada e os longos cabelos em forma de lençol, trairam-me a pausa. Olhei para ela como um menino de coro. Creio que corei. Apanhei a camisa amarrotada e atirei-a para cima da cama. Passei as mãos pelo cabelo e senti-me meio adormecido. Estava acordado há quase dois dias. A boca sabia-me a tabaco e a restos de café requentado. Afastei as cortinas e olhei pela janela. A mota estava lá fora. O carro também. Coberto de pó. Sentei-me no sofá vermelho e tirei as botas a custo. Encostei-me e deixei-me ficar.
Quando acordei, não abri logo os olhos. Tinha a certeza que ela se tinha ido embora. Esperei os segundos que me pareceram os bastantes e vi a cama desfeita. Vazia. Na minha inocência, procurei algum bilhete escrito. Sorri. À falta de palavras, estava uma garrafa cheia na mesa. Dois copos. E no cinzeiro, um cigarro quase intacto. Num dos copos, como um presente de Natal, a marca de baton. Levantei-me, entrei na casa de banho e liguei o duche. Despi-me, olhei-me ao espelho com masoquismo e entrei na banheira. Demorei imenso tempo. Fechei as torneiras, usei a toalha e deitei-me na cama, sem me tapar. Não tenho cabelos compridos.

Ao som de The Dickies "Nights in White Satin"

junho 02, 2005

Aos sábados e domingos também

Esta é para quem insiste que estou zangado...

Ao almoço, salada de tofu com laranja, alface e nozes. E água. Muita. Depois, a intenção beliscada com um café. Depois, frases de circunstância avaliadas como verdades universais. O sorriso, a cumplicidade, a porta da saída. Um até logo cheio de coisas que não é preciso repetir. E com o vento na cara, sem reparar nos outros que nos seguem o caminho, regressa a gargalhada, o céu azul com um calor moreno e a intenção de pêssego e ameixa.
Acredito que ainda vale a pena. Quase tudo. Quase, porque não encontro meios absolutos. Acredito que ainda há sol a esperar, nomes para gritar ao fundo da rua, sonos à beira da água, candeeiros de abajour acesos toda a noite, segredos que só se contam baixinho, beijos açucarados, água fresca e letras de canções. E no fim e no depois, ter tudo outra vez. Voltam a ser dez da manhã, os barcos regressam, as janelas estão abertas e o olhar reconhece a candura de todos os dias.
Insistir é a prerrogativa dos complicados. Os outros, os que sabem existir, apanham a maré e deixam-se desaguar. Todos os dias.

Ao som de Steve Harley & The Cockney Rebel "Make Me Smile (Come Up and See Me)"

maio 31, 2005

Evidentemente

Enquanto espero pelo duche, olho o relógio na parede e sei que já é noite. Com o cabelo em desalinho, acabado de levantar de um dia coberto de preguiça, entendo ser prioritário um cigarro e o resto de uma cerveja morna. Olho no tecto o fumo a tentar fugir, procuro em cima da mesa as razões para recusar a inquietação, apago o cigarro e com o robe na mão saio do quarto.
O corredor com a passadeira aveludada é comprido e tem todas as portas fechadas. De um ou outro quarto, ouvem-se ruídos de circunstância. A única circunstância. Sinto que esqueci os chinelos mas nem por um milhão, volto para os buscar. Quando chego a porta da casa de banho, como se de um ritual se tratasse, coloco a palma da mão direita, muito aberta, na superfície polida de madeira escura. Espero um momento e abro a porta. O vapor escapa-se pela abertura. Entro e fecho a porta com algum cuidado.
Lá dentro, a rapariga oriental espera-me. De sorriso indefinido, veste calças carmesim com desenhos dourados, e umas chinelinhas pretas com atilhos dourados. Está despida da cintura para cima. Tem o cabelo solto, ao longo das costas nuas. Sinto uma intimidade violenta neste último pormenor. Ela tira-me o robe das mãos e pendura-mo com alguma solenidade. Com um gesto estudado, oferece-me todo o espaço. Dispo as calças do pijama, passo os dedos pelo cabelo e entrego-me. Ela saberá tratar de mim, melhor que eu.

Ao som de Madonna "Justify My Love (Deep Dish Even Deeper Mix)"

Selva

Remarcar o compasso de um assunto entre dois corpos e depois, insistir na fragrância de um momento a sós. Era cedo, preparava-se uma trovoada com a teimosia de um vento de sul, a roupa à janela ondulava de inquietação, o meu olhar percorreu o corpo dela, sem pensar em apetites nem consequências. Habituei-me a vê-la quase todos os dias, mas desta forma acho que nunca. De mãos nos bolsos, sem sorriso, encostado ao fogão, bastava-me violá-la com os olhos, revirá-la do avesso, sem intenções, demorando solenidades nos seios, nos vincos das coxas, num imperceptível gesto de entrega que se alongava ao ritmo da minha imobilidade. O telefone tocou e nem me apercebi quando o atendedor apitou. Os copos e as chávenas sujas em cima do lavatório, esperavam em silêncio. Ela quis sorrir e não conseguiu. Eu acho que a queria muito séria, quase zangada ou mesmo triste. Acho que fazia parte da fantasia. Acho, mas não tenho a certeza. Avancei, agarrei-a pelos ombros como se a fosse repreender, mas deixei escorregar os braços pelas suas costas suadas. Ela não se mexeu. Beijei-lhe o pescoço com uma sofreguidão que não me conhecia. Mordi-lhe o ombro e lambi a marca dos meus dentes. Olhei-a, olhos nos olhos, passei o meu polegar pelos seus lábios e forcei, à procura da língua. Ela resistiu. Pareceu-me que lhe tinham brilhado os olhos. Nesse preciso segundo, abracei-a e puxei-a com demasiada força para o chão. Sem oferecer qualquer resistência, abriu as pernas e enlaçou-me como se fosse um animal. Então, olhei os seus olhos uma última vez e aceitando o empenho, fui também animal.

Ao som de La Floa Maldita "L´Enfer Confortable"

maio 30, 2005

Permilagens

Em silêncio. Baixinho. Muito ao de leve, sem perturbar, afastando as almofadas como penas, olhando os ângulos das paredes muito quietas, frágeis, tudo no lugar de ontem, sem vozes, sem mãos que procuram mais e mais. Num tom de preguiça descoberto à toa, as páginas não se mexem junto à brisa que fica na janela fechada. Os livros, as cartas seguras por laços cor de mimo, a caneta fechada em dó maior, os segundos sentados no sofá, atentos, com os olhos em desafio de vantagens neutras, secretas, pedras de altar numa cripta isolada em papel de lustro. As faces, imóveis, solarengas, a vela apagada envolta em musgo de Dezembro, a caixa de fósforos vazia, o casaco deitado a dormitar, a porta entreaberta, á espera dos convidados curiosos, pisando tapetes anónimos e nos copos vinho terno. Pela persiana mourisca, a nuvem e a ladaínha que vem do Norte, sobem no parapeito e segredam rebuçados de morango. Nas bocas há paladares furtivos, vontades mornas vendidas a cêntimo, escolas de paredes brancas, dois pés esperando a hora dos barcos passar.
E quando a noite chegar, calada num colar de pérolas fingidas, permitindo o veludo e o suspiro, em silêncio, baixinho, vou murmurar as linhas que ainda me faltam. Só para eu ouvir.

Ao som de Joe Satriani "Canon (Acoustic Version)"

maio 25, 2005


Veludilho Posted by Hello

Pausa

Hesito: Um dia de veludo ou de seda...

De sol no alto

As manhãs são agiotas sem perdão. Exigem esforços impossíveis, dentro de redomas, faíscando ao sol da diferença. Querem-nos mal, as manhãs, reprovam a audácia das noites intermináveis, ferem o romance que só existe no sonho, precipitam o amor que navega por entre almofadas e e gemidos de preguiça. São arautos da manha e da tortura, as manhãs viradas a nascente. Sussurram promessas vãs, paixões desordenadas de silêncios comprometidos onde o beijo é bocejo madrugador. São vis, as manhãs de direcção única. Os becos sem saída dos fiéis.
Gosto de as confundir com uma voz de seda. Uma voz que matina uma canção de encantar. Um cigarro prometido, uma chávena de café sem pátria, um restolhar de lábios ávidos de serão. À beira dos carris de um eléctrico atrasado, um bairro dolente, onde as primeiras horas de luz são fadiga muito atenta. Uma porta entreaberta, uma promessa sem final, um dia de insiste em começar, mesmo quando vazio.
As manhãs perturbam os gestos lentos dos deuses. E como eles, também eu não encontro o norte. A bússola de marfim, ainda dorme, coitada.

Ao som de Eskobar featuring Emma Daumas "You Got Me"

maio 20, 2005

5 e meia da manhã, sob o temporal

Sem horas desfeitas
nem minutos perdidos,
conto histórias de pessoas,
de amores
amanhecidos pela ausência de vento,
sós
nas horas de neblina
e pó de arroz.

Na voz enrouquecida
de um jardim em repouso,
um suspiro
é o bastante.
Procuram-se nas mãos,
os esquecimentos de praia,
os degraus do museu,
a vaga suspeita de quem se apaixona num repente.
Mordisca-se uma maçã
num apetite que tarda em regressar,
ouvem-se canções de embalar
com os olhos muito abertos,
onde sorver é razão.

Nos horizontes
guardados no bolso,
estão as fraquezas,
os beijos intermináveis,
os verbos conjugados em suor.
O colchão ficou perdido,
nas ruínas de uma casa que caminha em paz.
A luz do candeeiro de rua,
já não sabe acender.
A lentidão dos dias sem azul,
a esquina que perdeu a memória,
o cheiro de um bocado de noite,
a capa do disco que fala em armários e balas.

E depois dos calendários,
depois das fadas e dos editais,
à beira do rio
num segundo,
rimos longe um do outro,
mortos para o reencontro,
suaves para a sedução.

Mim

A qualquer hora da noite, esfrangalhando células e faltas de apetite, há um ponto de onde não se pode regressar. São 2 horas e 45 minutos e a distância que me separa da auto-estrada, é maior do que a chave na porta de entrada e do botão do elevador. É esta mania da perfeição, da gravação exacta, das chaves do carro na gaveta, do isqueiro meio cheio e da bebida esquecida no copo. É uma irritação que não descola, um algodão encharcado de álcool que se passa no pescoço e refresca o instante. Um minuto mais na conta que o tempo insiste em apresentar, mesmo antes da sobremesa.
Não gosto de falar em noites perdidas. Não acho que as tenha perdido. Encontrei sempre qualquer coisa brilhante, em todas elas. Começar ou terminar um vício, bocados de sono, canções que nunca tinha ouvido com cuidado, vontades ou amanheceres. Não gosto de falar dos momentos escondidos da minha infância, mas não há noite que deixe passar em claro o que fiz, o que deixei de fazer, os caminhos, as manhãs bem cedo, a areia, os tufos amarelecidos pelo vento, as páginas soltas de histórias que me diziam respeito. Lembro cada momento, cada minuto que vale a pena retornar, como frases e palavras que nunca disse a ninguém. Guardo-as sem lhes reconhecer a dicção. É como uma fábrica que só depois de morta me apaixonou. Vagueei pelos seus escombros, toquei nas paredes esgravatadas, demorei-me junto aos ferros retorcidos, desejei entrar na miragem de algumas placas incompletas, tornei-me curioso da ruína e da desolação. E lembro-me dela como uma mulher. Uma que se quer esquecer, mesmo se regressamos onde a vimos pela primeira vez. Mesmo se fugimos dela em linha pouco recta.
Os fins abruptos provocam-me uma certa amargura, mas este, imponho-me a mim mesmo.

Ao som de Sofa Surfers "Sofa Rockers (Richard Dorfmeister Remix)"

maio 05, 2005

Fresta

No bolso esquerdo, o isqueiro que a mulher da sua vida lhe deu. Na gaveta, o relógio relembrado tantas vezes. Na porta da rua, as chaves e a serigrafia de um homossexual assumido, de dentes amarelos e casaco branco de lã grossa. Nos tímpanos, a canção de sempre. A que fala do amor, do celulóide e de um espasmo calmo e mudo. Na boca, um charuto com sabor a ilha e uma tentativa de sorriso. Nos olhos, os contornos turvos dos prédios e os seios escolhidos. No tacto, as chaves do automóvel. No olfacto, o copo. Na idéia, turbilhões, amidos azul claro, tormentas com chuva curta, peles que se tocam, perfumes. Na alma, seja lá o que isso significa, a encruzilhada. E na realidade, todos os caminhos.

Ao som de The Passions "I´m in love with a german film star"

Chambre de Nuit

No conforto do canto escuro, é bom esperar pelo fim. Mesmo se o fim , não é o que se escolhe. A almofada entre os braços e o amigo imaginário ao lado, muito atento e muito calado, são o começo perfeito para qualquer fim. Trauteie-se uma canção que fale de miragens e deixe-se os minutos tomarem conta do resto. Já não se ouve a vida passar, mesmo se o movimento continua lá fora. E depois, não faz mal se o telefone não toca, ou se as cartas chegam sempre abertas. O interesse é coisa de ontem. Cheira a bafio. Aqui, no canto escuro, as histórias andam por outras estradas. Basta mudar a posição do corpo, nem que seja um milímetro, para o destino ter outro contorno e a razão, sabor diferente. As cores têm tons de pausa. Aqueles tons de quem espera uma fatalidade. É o que acontece nos cantos escuros: Esperam-se fatalidades, como comboios atrasados, convencidos da sua importância capital.
E alturas em que o canto escuro é só um suspiro ou um ronronar aconchegado. São as horas da condescendencia e do chá arrefecido. São as contas de uma pulseira que estava no sotão, coberta de pó. São as migalhas do bocado de pão que enrijece em cima da mesa. São as bolachas que sabem melhor amolecidas. E com a almofada entre os braços, tudo parece flanela e muito limpo.
É assim o canto escuro. Doce e amargo como uma canção do tempo da guerra. O fim tarda em chegar, ficam os pés dormentes a as pernas, doridas. E num repente, o canto escuro é uma sala de baile envelhecida, mal iluminada, onde no canto mais escuro, uma banda ultrapassada toca canções vagas e dolentes que apetece ouvir. As cadeiras são de veludo gasto e os reposteiros pesam nas arcadas. O relógio, descomunal de dourados impossíveis, está parado e o tempo, interrompido. Se existe vida em mais algum lugar, ela é dispensável. Aqui, no canto escuro, espera-se o fim. Um qualquer. Mesmo se não é o que se escolhe.

Ao som de Les Negresses Vertes "Leila"

maio 03, 2005


Makura Posted by Hello

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"

abril 30, 2005

Laço sem corda

Queres-me? Não sei se deva desdobrar-me e mostrar o contorno dos segredos cor de deserto. Vou pensar nisso. Os minutos que demorar a minha escrita. Mais que isso, não. Seria doentio. Ou indiferente.
Sabes, li com vagar algumas linhas que a brisa de fim de tarde teimava em estremecer. Por entre os cortinados, os contornos da cidade são sempre esguios e atraentes. É por isso que baixo os estores quando tenho a janelas abertas. Sinto o sopro do mundo lá fora, mas mantenho o meu egoísmo intacto. Intocável. Imaculado. É isto, arrastar a existência entre tabacos horizontais e alguma filosofia de pacote, ziguezagueando nos passeios e nas esplanadas de café de bairro, esgotando as matrizes rodoviárias em manobras acidentais e repetindo as mesmas ruas, outra e outra vez.
Às vezes, atravesso a ponte, só uma delas, vagueio na outra margem à procura de cenários para um filme, imitando estrelas de rock, cansadas pelo vai-vém do seu sucesso, mudos pelo halo brilhante da ignorância que escolheram. Sofro de vertigens. Encho-me de iogurtes com sabores estranhos, encarando o objectivo de me sentir outra pessoa. Bebo chávenas de café com açucar. Peço sempre a mesma marca de álcool. Repito com fervor religioso, o local de suicídio. Alcanço nas canções que levarei para uma ilha deserta, a perfeição e a fé. Em suma, escrevo por um sentido de estado, uma responsabilidade caótica de desmaiar durante a entrega do prémio nobel, um desvio na maré inconcebível do marasmo. E isso não será amor?
Ainda penso. Nisso? Não sei.

Ao som de Rheingold "Dreiklang Dimensionen"

Mais subtilezas

Sibilando por uma rua íngrime, ladeado por vidros partidos de montras saqueadas, permito-me a derradeira lata de veneno. De olhar firme e sorriso permissivo, sinto um pisar duro sobre o pavimento encharcado. Em desafio, procuro no céu azul claro um sinal de exactidão. Satisfeito pela fugaz vitória, marco a subida com passadas directas, entoando um refrão que não ouvia desde os meus dezasseis. Há duas horas que decretei estado de sítio. Matei com tiros certeiros os oficiais de patente superior e aos sargentos, fechei-os nas masmorras a céu aberto. A comissão que enviei ao palácio presidencial, já deve ter terminado. No fogo posto à assembleia, ainda se vêem as colunas de fumo. Dos civis, mais de três mil permanecem mortos. Os feridos, teimo em não contabilizar. E por desdenhar artilharias pesadas, dispensei os meus guardas rebatizando a sua função. Estão caídos, numa atitude de extermínio.
Ao chegar à esquina, com a rua dos quiosques amarelos, viro à direita e antevejo ao fundo o largo do quartel. Ao pisar o lajedo da praceta, procuro com alguma avidez a porta entreaberta do café. Atravesso o largo, sem pisar os corpos imóveis no chão e preparo o palato num hedonismo violento. Num gesto infantil cravejado de saudade, pontapeio a porta e entro no café. Todos os clientes jazem retorcidos. Sobre o balcão, um empregado desafia a gravidade. Empurro o cadáver para o lado e encarando o criado ainda de pé, ordeno delicadamente.
- Um café, com um pau de canela.

Há prazeres que valem o esforço.

ao som de Oberkampf "Couleurs sur Paris"

abril 22, 2005

Subtilezas

Ela corre rua abaixo, perseguida por três. Vestem roupas justas e escuras. Têm no pulso direito uma marca. Não consigo ver a cor. Ela grita, enquanto na corrida vai esbarrando nos espelhos dos carros. Tem a camisa rasgada. Os olhos também. Chora traços negros e sente perto o fim. Eles, os três, não forçam a passada. Ganham-lhe tempo e provocam-lhe o pavor. Sabem o que podem conseguir e não o querem nem um segundo mais cedo. Sabem do que falam. E calam-se aos gritos da vitima. Sugam cada momento e cada lágrima. Sabem prolongar o prazer.
Um individuo vestido com um fato vulgar, tenta o gesto, contagiado pelo terror dela. Ao passar o segundo dos três, tenta barrar-lhe a passagem. O segundo dos três, sem o olhar, abate-o com dois tiros na cara. Continuou rua abaixo. As pessoas que sobem, fundem-se com as paredes e as montras. Arfam na tensão que lhes elimina o grito. Deixam-se ultrapassar pelo cenário. O primeiro dos três, sem parar, emite a recomendação em tom de ordem. Os outros respondem. Em estrangeiro. Um qualquer. Ela tropeça e cai, esgotada por um remoinho de horror e cansaço abissal. Sem conseguir levantar-se, arranha a garganta com a dor que antecipa. Rasgou a saia e só conserva um sapato. De salto partido.
Quando eles chegam ao pé dela, está alagada em suor. E medo. Tapa a cara com as mãos e sente a pausa. Os três, rodeiam-na. Têm botas pretas, com atacadores azul forte. Um deles raspa com a biqueira no chão. Nas mãos, seguram com saber navalhas de lâmina cónica. A do primeiro tem recortes de traço medieval. Peça única, certamente. Não sorriem, não falam, apenas a olham deitada no chão, admitindo a desigualdade assumida. Sem qualquer ordem ou sinal, exactamente ao mesmo tempo, rasgam-na de cima abaixo, pressionando o metal na carne morna. Não pestanejam aos salpicos de sangue e esboçam formas quase geométricas no corpo pálido. Sem aviso, imobilizam-se ao mesmo tempo e depois de um derradeiro olhar, levantam-se e limpam as lâminas às calças, junto ao joelho. Guardam-nas no bolso de dentro do blusão. Com um olhar mais calmo e repousado, aproximam-se da berma do passeio e chamam um táxi que tinha parado no inicio da rua. O segundo, ainda olhou com firmeza para o líder. Este encolheu os ombros. Nunca se importava com a cor dos táxis.

Ao som de Probot "Shake Your Blood"

Malgré tout

A mulher continuava ali, debaixo do pórtico, fustigada pelo vento da madrugada, um vento frio e teimoso que nos entranha a culpa. De mãos enluvadas, parecia-me uma figura de outros tempos, de filme ou de crime. O baton carregado e uns lábios tensos insistiam a imagem. A poucos metros, as águas em remoinho investiam contra o cais, saudosas de um antes longínquo. De pescadores ou embarcadiços, nem névoa. Nem sequer um bêbado tardio.

Quando saí do café, ainda se viam ao longe, as luzes acesas nos quartos mornos e aquecidos dos mortais. Olhei através da porta, de relance, as cadeiras que se amontoavam pelos braços experimentados do dono. Preferia ter acabado a noite com outro álcool. Aquele irritava-me o gosto. Meti as mãos nos bolsos do sobretudo e em ângulo agudo, enfrentei a ventania, em direcção da ponta norte do cais. Já deviam ser as três. Nunca conseguia chegar a horas que se visse. Nem uma vez. Encolhi os ombros e enrijeci os músculos, como numa birra. Ela espera. Esperava sempre...

À hora de romper o sol, mesmo sem ele, já os estivadores faziam fila no cais. De mãos nos bolsos, batendo os pés para aquecer o que resta da alma, de cigarro mal aceso na boca, esperam o capataz, e algumas moedas no fundo dos bolsos remendados. A tempestade amainou, a água ainda mostra rancor e o dia custará a passar. Os estivadores de olhos no vazio, esperam. Esperam a fadiga e a teimosia da vida. A mesma teimosia de uma luva de mulher, que as ondas da manhã empurram contra o cais.

Ao som de Sopor Aeternus "The house is empty now"

De Galileu, nem sinal

Nos pingos de água que caem do tecto e sonoros, desaguam nas lages frias, leio as sinas dos poderosos. Fechado nestas quatro paredes, há séculos demasiados para uma só vida, acordo todos os dias com vontade de assistir a um massacre. Ao que leio nas sinas dos poderosos. E aqui, só, na cadência dos pingos de água que caem no meu reino, desvendo os segredos dos príncipes, dos papas , dos avaros, dos iludidos, dos senhores do ouro e da prata, dos juízes e das rameiras. Escolhem-me todos para a verdade, mas só aceitam mentiras. As deles e as que roubam aos outros. Só, entre o salitre que escorre das paredes, reguardado por uma manta em fiapos e um hábito enegrecido pelo uso, troco de lugar as peças do xadrez num tabuleiro de marfim, pilhagem de outras épocas. Troco de lugar os reis e rainhas, levedando o sexo de cada um, fervilhando os travestidos do poder. Mudo os bispos de lugar, enviando-os a outras religiões. Faço de cavalos, torres, e vergo-lhes a carne em pedra. E os torreões da conquista, transformo-os em leprosos de feira, tragando-lhes as ameias cruas. Aos peões, simples plebeus, deixo-os ir em santa paz. Mas apenas lhes adio o sofrimento e a promessa. No tabuleiro de avesso, escrevo as vontades, as últimas, as que a eternidade nunca me há-de ofertar. E como louco, percorro o quadrilátero do meu cárcere, urrando berros bestiais, afinal a condição de quem determina as leis, de quem serve os poderosos e de seguida os mata.

Passados mais quatrocentos anos, uma bagatela, eu sei, continuo aqui fechado. Sózinho, amontoado. Ainda leio alguma sina. Ainda espirra salpicos, a água que cai do tecto. Nestes séculos a somar, apenas algo mudou. Algo apenas, quase nada, como um brisa serena em dias de tempestade. Mudou a cor do horizonte. O mundo, desapareceu.

Ao som de Das Zeichen "Hundert Jahre Einsamkeit"

abril 19, 2005

Depois do minuto anterior e antes do próximo

De tempos em tempos, descia a rua até ao jardim, sentava-me num banco de onde pudesse ver o coreto e algum mar e ficava ali, sem decisões nem ponteiros de relógio. Via as senhoras de regresso do mercado, alguns gritos de crianças soltos pelas férias, adivinhava um poeta no olhar vago de alguém que passava, a pressa de um seminarista, o suspiro da vendedora de gelados que ainda não tinha feito um tostão naquela manhã. À volta, um frio miudinho, o lago dos peixes vermelhos, o jardineiro que varre as folhas secas, os restos de orvalho que a escuridão gosta de oferecer. E a vida no andar desajeitado dos patos e na menina que colhe flores, de cócoras, sujando a borda do vestido claro.
De tempos em tempos, descer a rua até ao jardim, era a única forma de me convencer a manter-me vivo. Acordava todas as manhãs bem cedo, perseguindo uma sensação de menino, quando quase de madrugada, tremendo de frio, esperava a janela do meu amigo abrir-se e indicar a brincadeira. Era um arrepio de água gelada na cara, os ténis calçados à pressa e escada abaixo, até à porta que teimava em ranger e que eu abria com cuidados de equilibrista. Era a imagem do alfaiate, das plantas nos vasos, dos restos de jogos no cimento molhado, das traineiras que avisavam a chagada, de horas e minutos simples em amanhãs sossegados. E sobretudo ver as coisas como elas são, sem intenções, sem motivos para mudar só por mudar. Ver o adro da igreja como adro da igreja, o hospital velho como um velho prédio sem significado, o café da rampa como o balcão onde se pediam as pastilhas, a rua como o refúgio das alquimias. E quando o sol desaparecia por detrás das nuvens, levantava-me do banco de jardim, olhava em volta à procura de algo que me esquecera e regressava a casa. De tempos em tempos, sorria. Lembrava-me da doca e do quiosque e sorria. Lembrava-me de existir há muito, antes da vida automática, antes das 7 da manhã e dos bons dias de obrigação. Antes dos cafés e dos pacotes de açucar amachucados no pires.
De tempos em tempos, fico mudo e sonolento. Esqueço o caminho até ao jardim e não consigo recordar a cor dos bancos junto ao coreto. Acendo um cigarro e fico a olhar qualquer coisa, enquanto o fumo me faz companhia. E depois de alguns minutos, volto a existir. Por estar aqui...

ao som de Beth Orton "So Much More"

abril 16, 2005

Uma intimidade

Devagar, no meio do caos e da ternura, com um copo de vinho ao alcance da minha mão, reservo-me a um fim de frase. Com a força que uma casa vazia me oferece, desaguo no egoísmo e quero-me só para mim. Viajo sentado, a três mil quilómetros por momento, ultrapassando as recordações e as tentativas de esconderijo. Empurro as portas entreabertas, vagueio de quarto em quarto, desço as escadas mais que uma vez, olho e procuro só para me lembrar de tudo. E tudo ficou ali, escondido na terra revolvida, nos espinhos das rosas que a minha avó plantava, na água que secou no tanque, nos vasos vazios à espera de ontem. E como ontem, o silêncio vem de fora. Aqui há barulho, pratos arrumados no seu lugar de sempre, passos que não se dão por ser tarde. Demasiado tarde. Lá fora, o céu azul resiste à tentação. Vejo-o daqui, sempre com pressa que a noite chegue. E porque a pressa governa o tempo, lá fora já tudo é diferente, as árvores, os peixes, as pessoas e as vendedoras de pevides. Lá fora, o que existe já acabou. E aqui, o que já acabou continua a existir.

ao som de Eurythmics "I save the world today"

abril 14, 2005


ThePriest Posted by Hello

abril 08, 2005

Pausa forçada

A justificação pareceu-me breve. Breve e desajustada. Afinal, tinha assassinado uma mulher. Linda de morrer...

abril 05, 2005

Pausa

O inferno só é confortável, quando sussurrado por uma mulher de voz celestial.

Retrosarias de iluminuras

Predicados que voam baixinho, ostras e velhas obtusas sacudindo o pó dos corpos, o mel escorre em todos os telhados e a neve, essa, vale mil moedas de ouro. Na vertical, só existem escalenos e cavalos de tróia, cegos por maldizer o mundo livre. Dizem que sonham com elefantes invejosos; e na verdade, são o sonho de um marajá. O de Kampur, decerto ouviram falar. Dá ordens só nos dias de meio sol. Veste brocados cor de escola flamenga, no turbante insiste em mostrar uma ametista e bebe todos os dias, ao bater das 7, um chá de honra e limite. É feio, tem os dentes amarelos e no fim de cada lauta refeição, não arrota.
Na horizontal, passam sem cessar caravanas de camelos e homens de barba cerrada. Guardam nos odres água de frutas escondidas e à cintura, carregam o orgulho na forma de misericórdia antiga. Olham o horizonte com a sábia reflexão dos ausentes. Conhecem o sol, a areia e do tempo, tecem considerações perversas. Falam pouco. Nunca riem. Sabem quase todos os segredos do mundo... Quase. Desviam a sua rota de qualquer oásis e quando chegam a uma cidade, é alecrim, salva e hortelã. Ao entrar o portão pesado da urbe, cruzam-se com os mendigos de olhos rosa. Levam no bornal rasgado as vitualhas de trigo e pó. Bebem água das fontes e ao passar por algum casamento, pedem cabaçinhas de vinho novo. Rezam dezoito vezes por dia. Já esqueceram a que deus. Na torre mais alta do bairro mais perto, junto aos minaretes, vive uma menina de cabelos longos e tez prateada. É filha legítima da lua. Nunca conheceu o pai. Tem duas aias: Uma que lhe penteia os cabelos, manejando com a perícia dos hunos, uma escova de marfim e pelo de crina. A outra, de olhos semicerrados e cabelo cor de açafrão, canta versos da Etiópia, entoando as melodias que aprendeu com os tocadores de alaúde. Às cinco da tarde, sem a aflição dos relógios, as duas, a quatro mãos, servem a taça de azeite e múrmurios. A menina olha os corvos que esvoaçam ao longo da muralha e de um trago, bebe a beberagem antiga.
Quando a noite tenta os corações mais apressados, chegam à praça principal os malabaristas e as aves de rapina. Seguem-nas as dançarinas de ventre inchado, palco de fome e blasfémia. Aos gritos, irrompem por entre a populaça os faunos e as serpentes com voz de homem. Vêm de longe, cobrem-se de peles por curtir, espalham a boa nova dos Onze e de manhã cedo, ao raiar da cotovia, fazem-se ao caminho de outras gentes e negócios. Na praça, pelas horas da noite curta, a algazarra é humana. Acendem-se as fogueiras e os archotes, tombam as malhas de ferro forjado e trocam-se saúdes com vinhos sebentos. Vive-se com o vagar das lentidões. Vive-se e espera-se pelo messias... Um qualquer.
Depois de traçada a vertical e a horizontal, no ponto exacto onde se cruzam, nasce um rio de águas tépidas. Vai desaguar na rua das janelas pouco fechadas, onde passeiam as convenções. E porque hoje é dia de fazer de conta, os que restam, os que valem a pena, esticam os dedos, mostram a palma das mãos e recitam em toada, os versículos da idade de todos os dias. Mesmo se hoje é dia de meio sol.

ao som de Gentle Giant "The Runaway"