Desejo umas mãos frias de escritor à beira do colapso. Desejo um copo meio vazio, na impressão de meio cheio, enquanto as esporas e os estribos rezam sózinhos à entrada do estábulo. Desejo um domingo requentado de quem não precisa da segunda feira. Um fio rouco em goles de café mastigado. Desejo uma surpresa logo de manhã, ao último suspiro quente da cama. Desejo um golpe fatal perante o rio e o lodo, como se a hora fosse feita de fitas enroladas e missangas de cor. Desejo uma canção que nunca acabe. Desejo um mostrengo só para mim. Desejo a cor do céu que uso para marcar a minha impressão digital. Desejo pintar uma parede com as palavras da guerra, do amor, da magia e da dinastia. Desejo um fósforo que apague a água que não me chega. Desejo uma mortalha de gomos sumarentos. Desejo a fortuna de um fim de dia quente.
Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"
dezembro 14, 2006
novembro 27, 2006
Três degraus
De ocaso em ocaso,um bolso intenso
de uma gabardine habituada
a esperar o momento
e o néon súbito
da espera
e do soluço,
revolta de não ter chave
nem porta para abrir
os lençóis
para esconder alguma parte do corpo.
Segundo a sua doutrina,
elevou algo que conseguiu lembrar
e num relevo
que sempre lhe marca o rosto,
decide andar mais um pouco
na certeza de algum sorriso
ou lágrima
que consiga suportar
e esquecer.
Quando passar por ele
não o conhecerá,
perdido
em desvendar traços
e espessuras
iluminadas por tons banais,
cinturas
e ombros encolhidos
entrelaçados por olheiras
e por instantes.
Sentado no passeio,
deixou-se seduzir
por um candeeiro insinuante,
véu significado de desmaio
na epiderme de vontades
e prazeres,
panos sumptuosos
de oiro carmesim,
ignorâncias assumidas
por desconhecer a cor.
Da varanda agastada
pelo arrepio
do escuro,
seguiu o sulco deste homem
serpenteando alguns minutos
no epílogo
de tantas noites,
querela de pontos cardeais
e de uma coroa de conde,
vénia de ciscunstância amarga
e proveito
de quem espera
e sabe,
estar a porta aberta
e os lençóis
aquecidos.
Ao som de Ratnabali Adhikari "The One part II"
novembro 26, 2006
Aconchegadamente
No sustenido da berma
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.
Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.
Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.
Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.
É tarde.
No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.
Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.
Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.
Prometem desassossego
e os dias seguintes.
Ao som de Godsmack "Serenity"
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.
Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.
Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.
Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.
É tarde.
No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.
Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.
Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.
Prometem desassossego
e os dias seguintes.
Ao som de Godsmack "Serenity"
novembro 22, 2006
O trunfo
Por ser necessário, perdem-se as razões e os motivos em cantos de relva fresca, junto ao canal, onde as horas de almoço se recortam mais além, surgidas de nadas e chiares de qualquer coisa longínqua. Mais uma dentada na sanduíche e as migalhas vão e vêm, servidas em papel de lustro que custa algumas piastras numa loja escondida e limpa, numa rua qualquer apenas por ninguém a conhecer, centro de frágeis atenções e com avós pelos passeios, debaixo de árvores de Outono e olhares na esquina, enquanto o horizonte não regressa e o sol não retoma o dia.
Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.
E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.
Ao som de Love "Old Man"
Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.
E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.
Ao som de Love "Old Man"
novembro 17, 2006
Mordiscando
novembro 04, 2006
Régua e esquadro
Tinha prometido deixar de beber. Saía antes das dez da noite, via umas montras, talvez acabar o resto da cigarrilha e pasmar diante dos reclames luminosos. Andei quatro quarteirões e vi-os a entrar num café mal iluminado. Um daqueles antros de inox e alumínio, cheios de motivos descartáveis e empregados vestidos de branco. Eles, de fato preto e gravata fina, escolheram a mesa certa e não pediram nada. Em silêncio, olhavam o empregado do meio que abria as garrafas e procurava os copos exactos. Atulhou uma bandeja metalizada e rápidamente serviu. Como relógios, eles encheram os copos e ao mesmo tempo deram o primeiro trago. Só depois sorriram. Com um movimento estudado, o empregado compreendeu e voltou para trás do balcão. Na televisão, um programa típico de horário nobre, cheio de luzes e histerias. Eles, em silêncio, bebiam pausadamente. Acenderam cigarros. Os nós imaculados das gravatas levantavam dúvidas e hábitos. Mais dúvidas que hábitos. Da cozinha ouvia-se algo a fritar. No ar um cheiro adocicado. O chão estava limpo, nas mesas os ketchups e os molhos arrumados, a ventoínha do tecto girava sem ruído e do exterior só barulhos inquietantes.
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.
Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.
Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"
outubro 31, 2006
Edital
Revogando tudo o que se disse aqui, decreto meia hora de conflito armado segundo critérios acordados em assembleia geral e com as seguintes limitações:
1 - Estão proibidas balas cor de rosa;
2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;
3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;
4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;
5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.
Boa tarde
1 - Estão proibidas balas cor de rosa;
2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;
3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;
4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;
5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.
Boa tarde
Ouvi mas não me lembro onde
Depois da única curva da rua, via-se a porta, a varanda e eles. Costumavam sentar-se no degrau da porta ou no passeio. Às vezes, no muro. Olhavam e gritavam um sorriso. Outras vezes não estavam lá. Olhava o rio pela fresta da rua estreita e segurava-me no rebordo da porta da garagem, à espera de qualquer coisa. Como banda sonora, lá fora tinha os barulhos de quem ia vivendo. Lá dentro, as intermináveis listas de descoberta e fitas com guitarras de quatro cordas de todas as cores. O tapete branco com geometrias azuis e verdes fazia parte da família e as fotografias mostravam gente desconhecida. A porta nunca se fechava e só por isso eu não consegui ser mais eu. Só me apercebi no dia que vi a sala sem o tapete e pude finalmente fechar a porta. Não cheguei a fechá-la.
Ao som de The Stranglers "The Raven"
Ao som de The Stranglers "The Raven"
outubro 20, 2006
O sol, o anjo e a fogueira
Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
outubro 13, 2006
Ámen duas vezes
As vinganças são bisturis coloridos, retalhando com dois mil cuidados o desalento de tardes de sol ou meias manhãs de chuva miudinha, onde os passeios desistem e os passos se repetem. Ao fundo da rua, junto aos restos de ontem, adormecendo o seu tédio, senta-se um deus em posição de espera, alumiando o reino que prefere privado. Não atende súplicas nem queixumes. Não oferece curas nem segreda sílabas doces. Observa, reduz o horizonte a instante e num esforço incapaz de conter a galáxia, mantém transparente a razão humana. É viciado no jogo, este deus urgente. Tomou como igual o ás de espadas e corrompe damas e valetes a seu contento. Cheira a vão de escada. É estéril. Afinal é filantropo .
Ao som de OMD "Statues"
Ao som de OMD "Statues"
outubro 09, 2006
Vista actual
Semelhanças de casos furtivos,
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
setembro 22, 2006
Dia 22
Se calhar a chuva da manhã tinha sabor. Bebi o café, o que me escorre o encolher de ombros e me liberta o sorriso, mesmo se o tenha guardado no porta luvas do carro. Olho a empregada nos olhos, corrijo-me e acendo a luz do resto da tarde, lembrando as pessoas pelos seus nomes e ouvindo os segredos dos miúdos. No relógio ainda sobram horas e planos para a semana seguinte. Na prateleira não encontrei o livro de versos. Desci a escada, olhei as revistas, sai e nem sequer deixei cair os olhos no passeio. É bom sinal. Os anos continuam arredondados, mas as arestas têm falhas cada vez mais suaves.
Ao som de Peter Ellis "Angel"
Ao som de Peter Ellis "Angel"
setembro 16, 2006
Adro
Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.Ao som de The Church "Under the Milky Way"
Redondos
Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita.
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.
Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.
Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"
setembro 13, 2006
Despertador
Depois de pegar na chave, cuspiu na fechadura e sorriu lentamente. Tinha tempo. Todo. Só voltariam de manhã. Tinha a noite toda. Talvez por isso, decidiu deitar-se.
Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"
Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"
Esta, não é uma mensagem
Julgava que era sexta feira. Tinha metido um dia de férias para acabar com tudo de uma vez. Levantei-me às onze. Mais cedo seria traição. Calçei os ténis sem meias. Fui até à varanda, nu e fumei um cigarro. Voltei à sala e bebi um resto de café. Frio. Arrepiei-me. Não sei se foi o café. No quarto, vesti as calças e a camisa do costume. Saí à pressa, sem a chave de casa nem a estatueta. O elevador estava parado entre o terceiro e o vizinho de baixo. Encolhi os ombros e desci as escadas. Parei no segundo e encostei-me à parede. Tentei ouvir os gemidos. Não consegui. Devia estar a dormir. Junto à porta da rua, por debaixo das caixas do correio, um fulano, já velho, sentado no chão, observava fatias de pão. Depois escrevia qualquer coisa num pequeno bloco, dava uma dentada e deitava fora o resto. À quarta fatia, fui-me embora.
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
setembro 05, 2006
198?
Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.Encostada à mesa de tampo de mármore, mãos esquecidas, mordia mais um naco de história amarga, polvilhava com o açucar que encontrasse e semicerrava os olhos, esperando a porta abrir e alguma brisa lhe lembrar a morada. Levantava-se, olhava as migalhas como amigas e com o suspiro que alguém lhe ensinara, murmurava as boas noites e perdia-se na rua de sempre.
No outro dia, já toda a gente comentava. Tinham-na visto no telhado. Tinha fugido.
Ao som de The Smiths "Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me"
setembro 04, 2006
Liquidez
Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.Ao som de Yello "Pinball Cha Cha"
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