Depois de mexer, um minuto nunca perdido, provou e voltou a pousar a chávena. Gostava de prolongar o prazer. Olhou os bocados de asfalto húmido, por entre os carros estacionados um pouco por todo o lado. Ninguém. As mesas da esplanada continuavam vazias. Quase todas. No cimo do baldio um cão farejava os restos do que foram compras e impulsos. Parecia ter a cor do tempo. Desafiando a penúria do animal, pegou na chávena e bebeu. Sentiu uma onda quente atravessar-lhe a garganta e o íntimo. Olhou o cão e desejou-lhe um fim de tarde morno. Bebeu o resto do chá e recusou-se a segunda chávena. De propósito. Deixou-se ficar por alguns minutos. Os bastantes. Levantou-se, deixou uma nota exagerada em cima da mesa e virou-se para a direita. Ninguém. Tinha adivinhado. Aninhou o pescoço no cachecol preto e subiu a rua. Talvez no cruzamento...
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
dezembro 27, 2006
dezembro 24, 2006
Segunda parte
Virou à esquerda e atravessou a rua num bocado de asfalto seco de velhice. Sustenido por um ritmo constante, enfrentou os restos de multidão com pressa de calor. Seguiu em linha quase recta de uma geometria quebrada por algum individuo distraído ou entristecido por teimosias. Na esquina só olhou em frente e atravessou em diagnoal por entre o trânsito de autocarros de sentido único. No passeio, insistiu na direita e antes da farmácia esqueceu-se igreja e da mercearia. Caminhou no bocado de rua esvaziado por lojas que não existem, virou ao sabor dos prédios e ao longe viu as paragens cheias e as luzes das compras. Espaçou a passada como por medo da agitação. Na penúltima esquina virou à esquerda e fugiu da inquietude da multidão. Forçou o passo na subida e lembrou-se da loja de antigamente, no outro lado do passeio. Sorriu ao baldio que ainda existia e por entre alguns carros abandonados e outros que apenas esperam, apressou-se para o café entalado entre a descida e a subida, num pedaço de vale imaginário e mesas vazias da esplanada de Inverno. Porque raio não se teria lembrado deste lugar? Era perfeito como interrupção.
Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?
Ao som de GOL "No Bounds"
Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?
Ao som de GOL "No Bounds"
dezembro 19, 2006
Primeira parte
Levantou-se do sofá e atirou o comando da televisão para o monte de almofadas junto à janela fechada. Bebeu um gole do copo de água e pouso-o com cuidado em cima de uma revista. Olhou em volta à procura de algo que lhe tivesse escapado. Não encontrou. Aconchegou o cachecol, procurou nos bolsos o isqueiro e o comprimido. Bateu com as palmas das mãos nas pernas e avançou para a porta. Olhou o telemóvel e esqueceu-o de imediato. Abriu a porta, deixando as chaves na fechadura do lado de dentro. Fechou a porta com os cuidados de um homem velho. Sorriu.
No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.
Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?
Ao som de Riverside "The Same River"
No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.
Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?
Ao som de Riverside "The Same River"
dezembro 18, 2006
A moeda tinha duas caras
Sem saber porquê, decidiu acompanhar a música com dois dedos. Nem gostava da canção. Enfim, não tinha a certeza. Olhou para o copo, o terceiro. Decidiu beber a cada pormenor que gostava nela. Sorriu e bebeu de uma vez. Era um pormenor irresistível. - Outro... Por favor. - Do outro lado do balcão, alguém sorriu. Ele retribuiu. Cumplicidades. Pegou no copo e observou a transparência. Hesitava o próximo detalhe. Como detestava batotices, decidia o seguinte com minúcia. Depois de quase um minuto, pousou o copo. Olhou em volta e tomando uma adolescente insinuante como inspiração, bebeu em dois goles generosos. Tinha escolhido dois de uma só vez.
Ao som de A.R. Rahman "Musafir"
Ao som de A.R. Rahman "Musafir"
dezembro 14, 2006
Em qualquer lado
Saiu do motel entalado entre a capela de casamentos e o carpinteiro de caixões, gingando a vontade de uma última noite de liberdade. Desceu a rua até ao cruzamento. Passavam camiões cheios de gado vindos do vale. Olhou o chão no momento que um pequeno lagarto lhe roçava o passo. Sorriu e esperou que desaparecesse na erva alta dos baldios. Atravessou a rua e dirigiu-se para as luzes. Do cigarro no canto da boca, apenas restava o filtro. Não se habituava aos fios de tabaco à solta na língua. Sossegou a ansiedade aos primeiros acordes de música poeirenta. Sentiu nos bolsos as moedas e entrou no primeiro bar.
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.
Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.
Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"
Culpado por não saber parar o tempo
Subindo os degraus parei onde nos últimos dias de vida, punks e homens velhos debatiam estados de confissão. Encostei-me ao corrimão e de costas voltadas à noite, ri-me até sujar a tosse de bílis. Encolhi-me na camisola escura de gola alta, rota nos mesmos sitios de há tanto tempo e de mãos nos bolsos, invejei uma noite de uma fuga que não me lembro onde terminei. Tirei a mão do bolso, verifiquei-lhe as rugas mais recentes e crispei os dedos ao ritmo do esquecimento. Talvez por me sentir melhor por um momento, comecei a descer os degraus.
Ao som de Dean Wareham & Laetitia Sadier "Bonnie and Clyde"
Ao som de Dean Wareham & Laetitia Sadier "Bonnie and Clyde"
Gritar ao passar a ponte
Desejo umas mãos frias de escritor à beira do colapso. Desejo um copo meio vazio, na impressão de meio cheio, enquanto as esporas e os estribos rezam sózinhos à entrada do estábulo. Desejo um domingo requentado de quem não precisa da segunda feira. Um fio rouco em goles de café mastigado. Desejo uma surpresa logo de manhã, ao último suspiro quente da cama. Desejo um golpe fatal perante o rio e o lodo, como se a hora fosse feita de fitas enroladas e missangas de cor. Desejo uma canção que nunca acabe. Desejo um mostrengo só para mim. Desejo a cor do céu que uso para marcar a minha impressão digital. Desejo pintar uma parede com as palavras da guerra, do amor, da magia e da dinastia. Desejo um fósforo que apague a água que não me chega. Desejo uma mortalha de gomos sumarentos. Desejo a fortuna de um fim de dia quente.
Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"
Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"
novembro 27, 2006
Três degraus
De ocaso em ocaso,um bolso intenso
de uma gabardine habituada
a esperar o momento
e o néon súbito
da espera
e do soluço,
revolta de não ter chave
nem porta para abrir
os lençóis
para esconder alguma parte do corpo.
Segundo a sua doutrina,
elevou algo que conseguiu lembrar
e num relevo
que sempre lhe marca o rosto,
decide andar mais um pouco
na certeza de algum sorriso
ou lágrima
que consiga suportar
e esquecer.
Quando passar por ele
não o conhecerá,
perdido
em desvendar traços
e espessuras
iluminadas por tons banais,
cinturas
e ombros encolhidos
entrelaçados por olheiras
e por instantes.
Sentado no passeio,
deixou-se seduzir
por um candeeiro insinuante,
véu significado de desmaio
na epiderme de vontades
e prazeres,
panos sumptuosos
de oiro carmesim,
ignorâncias assumidas
por desconhecer a cor.
Da varanda agastada
pelo arrepio
do escuro,
seguiu o sulco deste homem
serpenteando alguns minutos
no epílogo
de tantas noites,
querela de pontos cardeais
e de uma coroa de conde,
vénia de ciscunstância amarga
e proveito
de quem espera
e sabe,
estar a porta aberta
e os lençóis
aquecidos.
Ao som de Ratnabali Adhikari "The One part II"
novembro 26, 2006
Aconchegadamente
No sustenido da berma
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.
Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.
Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.
Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.
É tarde.
No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.
Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.
Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.
Prometem desassossego
e os dias seguintes.
Ao som de Godsmack "Serenity"
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.
Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.
Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.
Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.
É tarde.
No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.
Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.
Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.
Prometem desassossego
e os dias seguintes.
Ao som de Godsmack "Serenity"
novembro 22, 2006
O trunfo
Por ser necessário, perdem-se as razões e os motivos em cantos de relva fresca, junto ao canal, onde as horas de almoço se recortam mais além, surgidas de nadas e chiares de qualquer coisa longínqua. Mais uma dentada na sanduíche e as migalhas vão e vêm, servidas em papel de lustro que custa algumas piastras numa loja escondida e limpa, numa rua qualquer apenas por ninguém a conhecer, centro de frágeis atenções e com avós pelos passeios, debaixo de árvores de Outono e olhares na esquina, enquanto o horizonte não regressa e o sol não retoma o dia.
Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.
E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.
Ao som de Love "Old Man"
Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.
E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.
Ao som de Love "Old Man"
novembro 17, 2006
Mordiscando
novembro 04, 2006
Régua e esquadro
Tinha prometido deixar de beber. Saía antes das dez da noite, via umas montras, talvez acabar o resto da cigarrilha e pasmar diante dos reclames luminosos. Andei quatro quarteirões e vi-os a entrar num café mal iluminado. Um daqueles antros de inox e alumínio, cheios de motivos descartáveis e empregados vestidos de branco. Eles, de fato preto e gravata fina, escolheram a mesa certa e não pediram nada. Em silêncio, olhavam o empregado do meio que abria as garrafas e procurava os copos exactos. Atulhou uma bandeja metalizada e rápidamente serviu. Como relógios, eles encheram os copos e ao mesmo tempo deram o primeiro trago. Só depois sorriram. Com um movimento estudado, o empregado compreendeu e voltou para trás do balcão. Na televisão, um programa típico de horário nobre, cheio de luzes e histerias. Eles, em silêncio, bebiam pausadamente. Acenderam cigarros. Os nós imaculados das gravatas levantavam dúvidas e hábitos. Mais dúvidas que hábitos. Da cozinha ouvia-se algo a fritar. No ar um cheiro adocicado. O chão estava limpo, nas mesas os ketchups e os molhos arrumados, a ventoínha do tecto girava sem ruído e do exterior só barulhos inquietantes.
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.
Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.
Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"
outubro 31, 2006
Edital
Revogando tudo o que se disse aqui, decreto meia hora de conflito armado segundo critérios acordados em assembleia geral e com as seguintes limitações:
1 - Estão proibidas balas cor de rosa;
2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;
3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;
4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;
5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.
Boa tarde
1 - Estão proibidas balas cor de rosa;
2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;
3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;
4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;
5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.
Boa tarde
Ouvi mas não me lembro onde
Depois da única curva da rua, via-se a porta, a varanda e eles. Costumavam sentar-se no degrau da porta ou no passeio. Às vezes, no muro. Olhavam e gritavam um sorriso. Outras vezes não estavam lá. Olhava o rio pela fresta da rua estreita e segurava-me no rebordo da porta da garagem, à espera de qualquer coisa. Como banda sonora, lá fora tinha os barulhos de quem ia vivendo. Lá dentro, as intermináveis listas de descoberta e fitas com guitarras de quatro cordas de todas as cores. O tapete branco com geometrias azuis e verdes fazia parte da família e as fotografias mostravam gente desconhecida. A porta nunca se fechava e só por isso eu não consegui ser mais eu. Só me apercebi no dia que vi a sala sem o tapete e pude finalmente fechar a porta. Não cheguei a fechá-la.
Ao som de The Stranglers "The Raven"
Ao som de The Stranglers "The Raven"
outubro 20, 2006
O sol, o anjo e a fogueira
Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
outubro 13, 2006
Ámen duas vezes
As vinganças são bisturis coloridos, retalhando com dois mil cuidados o desalento de tardes de sol ou meias manhãs de chuva miudinha, onde os passeios desistem e os passos se repetem. Ao fundo da rua, junto aos restos de ontem, adormecendo o seu tédio, senta-se um deus em posição de espera, alumiando o reino que prefere privado. Não atende súplicas nem queixumes. Não oferece curas nem segreda sílabas doces. Observa, reduz o horizonte a instante e num esforço incapaz de conter a galáxia, mantém transparente a razão humana. É viciado no jogo, este deus urgente. Tomou como igual o ás de espadas e corrompe damas e valetes a seu contento. Cheira a vão de escada. É estéril. Afinal é filantropo .
Ao som de OMD "Statues"
Ao som de OMD "Statues"
outubro 09, 2006
Vista actual
Semelhanças de casos furtivos,
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
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