abril 03, 2007
Um cachimbo vazio
Promessas
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.
Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"
Quando Pedro me levar à pesca
Ao som de The Sound "Possession"
março 31, 2007
Coisas
Ao som de The Passions "Small Stones"
março 16, 2007
Aperitivo
Ao som de Devo "Gut Feeling"
março 03, 2007
Ficar aqui
março 01, 2007
Sorte, azar ou mais do mesmo?
Decidir entre a deriva e um porto seguro, mesmo em dias de temporal, dias molhados, encharcados devagar, ao longo do cais ou de uma fileira de árvores de um sanatório, onde se espera a hora de jantar e alguma desculpa para abrir os olhos de manhã. Decidir entre a lucidez e a ordem desigual de bocados de alguém, atirados ao papel como ao acaso, redondos, obedientes ao sinónimo e à assimetria, chuvinha teimosa de fim de estação, sussurrando deveres e agitando com firmeza a escritura do clima. E de tanto decidir, ou escolher algo em vez do outro, o depois parece sempre um destino. Um porto seguro que se expõe à deriva, salto mortal de vagas azuladas em papel de jornal, perigando os empenhos alheios e adocicando o comum dos mortais, que nem é comum, nem quer ser mortal.Naquele salva-vidas, esfregando as mãos com a força de uns olhos semicerrados, escrutinando o mar à busca de sobreviventes, cabelo deitado ao vento, golas torcidas pelo sal, os grãos de areia no fundo do bolso que teima em ficar húmido, são as testemunhas únicas de um desassossego que não se comove com abóbadas. Em vez, sem conhecer limites alfabéticos, dá as cartas da esquerda para a direita, corta as figuras sem trunfo e grita jogo, mesmo se não houver mais jogadores na mesa.
fevereiro 27, 2007
Longitude amarela, latitude branca
Repito mentalmente as geometrias coloridas sob os meus pés. Ajoelho-me e coloco as mãos sobre elas. Afago-as como antes. Regulo-me para um sorriso de intensidade três. Levanto-me e com um leve franzir de sobrancelhas, recoloco a franja na posição correcta. Permito-me um gesto humano e levo a mão direita à face, sentindo a barba por fazer. Imagino a porta amarelada com vidros rectangulares nas minhas costas, por onde se insinua um luz clara. Mantenho a direcção do meu olhar no cadeirão cinzento e na varanda por detrás. Tudo como então. Sobre o assento do cadeirão estão algumas folhas de papel, repletas de uma escrita cerrada. Pego num monte delas, segurando a primeira. As outras espalham-se pelo chão. Como uma lista se tratasse, a folha revela coordenadas, planos de voo e trajectórias, uma panóplia de destinos e posições relativas surpreendentes. Enternecido, apanho as folhas e apontando todo o maço ao arquivador do braço esquerdo, desmaterializo-as em dimensão doze. Antes da partida, olho em volta e com um toque subtil, desligo os sensores e o alimentador de emoções.
Em silêncio absoluto, passo as mãos pelo cabelo, adivinhando rasgos indefinidos. Permaneço os olhos no cadeirão e nos recortes das geometrias, tentando decorar-lhe as cores. Avanço dois passos, olho pela janela fechada, primeiro a varanda, depois a rua, com o asfalto irregular como se fossem algumas horas da noite de algum Dezembro. Sorrio e sinto toda a face sorrir também.
Depois do sorriso se apagar, volto a ligar os sensores, desloco a viseira para nível 4 e passo os dois dedos solares pelo fecho gelatinoso. Depois de acender a luz laranja, fecho os olhos e divido o pensamento nos triângulos habituais. Desloco a primeira página que encontrei sobre o cadeirão pelo cortex, dirigindo-a para os neurónios de expoente 14. Distendo os músculos e diminuo o nível de actividade enzimática, programando os estabilizadores para alguns minutos depois da partida. Com o ronronar surdo dos impulsos cardíacos em fundo, leio folha um, linha um.
Ao som de Pete Namlook, Klaus Schulze & Bill Laswell "The Final DAT Part II"
fevereiro 19, 2007
Sorriso em segunda-feira sem cinzas
Ao som de Focus "La Cathedrale de Strasbourg"
fevereiro 03, 2007
Poesia debaixo do turbante
...e esquece. A barba feita a meio, as meias finalmente, a camisola repetida vezes e vezes, o olhar cansado por um aperto. Num abrir e fechar de olhos com os pés à beirinha do cais, a cópia com letra certinha, o domingo por ainda haver segunda-feira, os papelinhos à sorte, a rua a descer e o barco vermelho pousado no rio. E perto da esquina, à laia de cantos de natal, repetem-se lá lá lás.
Ao som de The Waterboys "December"
janeiro 16, 2007
Só e mal acompanhado.
Ao som de Act "Absolutely Immune"
janeiro 12, 2007
Certamente
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.
Ao som de New Order "Your Silent Face"
janeiro 10, 2007
Linhas paralelas
Ao som de The String Quartet Tribute "True Faith"
janeiro 09, 2007
Depois das velas apagadas
Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.
Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"
dezembro 28, 2006
Um pouco de alguma coisa
De propósito, sem acaso, procurar alguns degraus junto ao mar e sentar, deixando alguma distância entre os pés e a areia. É um começo. Juntar as mãos virginalmente e esboçar um suspiro. Sustê-lo. Franzir os olhos e percorrer o horizonte. Manter as mãos juntas sem pensamentos impuros. Sorrir. Diminuir o sorriso e prolongá-lo. Lentamente diminuir a tensão nos ombros e nos dedos e soltar o suspiro.
Olhar a areia e adivinhar-lhe a temperatura. Deter o impulso de avançar e pegar-lhe, mantendo as mãos juntas mas com as pontas dos dedos a passear na impressão digital. Juntar os pés. Pressionar as coxas contra a madeira e evitar contar os segundos. Olhar o mar e procurar ao longe uma onda. A primeira que encontrar não vale. Seguir-lhe os avanços, vê-la aproximar e desaguar na areia. Desejar-lhe um bom regresso. De relance olhar o ceú e esperar o consentimento. Ao levantar, fazer um esforço por não afastar os pés. Pisar com firmeza os restantes degraus como se pisasse almofadas. Ao primeiro contacto dos pés na areia, deixar cair os braços, distender os dedos e fechar os olhos. Quando a sensação chegar a areia já estará à espera.
Tudo o resto também.
Ao som de Vangelis O. Papathanassiou "Lei It Happen"
dezembro 27, 2006
Terceira parte
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
dezembro 24, 2006
Segunda parte
Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?
Ao som de GOL "No Bounds"
dezembro 19, 2006
Primeira parte
No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.
Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?
Ao som de Riverside "The Same River"



