Tirei do armário a camisa branca de meio colarinho e pendurei o cabide na porta com todos os cuidados. Entre as calças do fraque e as do smoking, escolhi as mais solenes. Da gaveta do meio tirei o laço preto e na dúvida optei pelos sapatos pretos de verniz. De boxers e meias pretas fui à sala buscar o isqueiro e o relógio, numa atitude perversa onde a rebeldia colide com o bom gosto. Antes de regressar ao quarto, passei pelo espelho da casa de banho e com a tesoura pequena acertei a pera com o rigor das 7 e meia.
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.
Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"
abril 23, 2007
O ábaco
A orgia tinha começado à hora marcada. Por entre os arbustos, na copa das árvores e nos pouquíssimos bancos disponíveis, os casais e demais curiosos entregavam-se uns aos outros com a gulodice habitual. Generais e majores, bispos e outros eclesiásticos, proprietários, pintores e disc-jockeys, mais os membros do clube e os electricistas entabulavam o seu mesmerismo às louras e morenas sacramentais, já que de ruivas o mercado estava sempre em falta.
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
O boletim de voto já inclui o x
No caminho para a Assembleia, parava no café das janelas amarelas e bebia o seu chá das quatro e meia. Tirava do bolso o frasquinho do mel e adoçava a beberagem a gosto. Com um gesto de desprezo afastava o pacotinho colorido, ainda cheio. Limpava o beiço com o lenço assinado, ignorando ostensivamente o quadrado de papel branco à sua frente. Economizava as boas tardes e deixando as moedas certas, saia com pressa institucional. Subia a ladeira algo íngreme e ao ver o majestoso edifício, sorria disfarçadamente.
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
Miudezas
Tinha a botija de oxigénio ao lado da cama. As barbatanas estavam arrumadas ao lado dos chinelos e dos sapatos de fivela. Os óculos pousados na mesa de cabeceira adiantavam organização e alerta.
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.
Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.
Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"
abril 22, 2007
Deixar o irresístivel ganhar espaço, parte 1
"... We walked around in circles..."
A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.
Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"
A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.
Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"
abril 21, 2007
Pressa
Deitada na almofada cor de ferrugem, espreguiçou-se e sem avisar mudou de tema. De olhos fechados, sussurrou qualquer coisa...
Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"
Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"
abril 03, 2007
Um cachimbo vazio
Depois de frequentar o estribo e a coleira, desaguei na quinta porta que o estuário me oferecia. Habituado a geometrias convencionais e algumas outras, sujeitei-me ao primeiro dia de escola. Conversei dias e dias com os monges e os que atravessam desertos, jurando alianças com que cobri os dedos. Bebi da chávena à minha direita, sossegando os costumes e os protocolos. Ao fazer isto, respeitei-me nas minhas células, como se um beijo ou um roçar de dedos assinasse um tratado.
Meses depois, sentado à mesa da sala ao fundo da casa, na penumbra que o dono determinou, procurei algum vestígio de cinza ou cálculo matemático da noite, quando os cúmplices reconheceram a proximidade. A mesma sala onde os cúmplices iniciaram a guerra. Verifiquei os armários de portas fechadas e chaves disponíveis, o cabedal verde escuro da escrita, enfim alguma marca que servisse como prova. Desconfio da memória. Sem nada, encaminhei-me para a porta. Cansado de tantas coincidências, respirei todo o ar que consegui e sai. O imperador esperava-me.
Ao som de Ultravox "Waiting"
Promessas
Jantei com os vizinhos do 2º andar. Petiscámos algum chouriço e vinho tinto. Dissemos pouco, com medo de falar demais. Fumámos alguns cigarros com a janela entreaberta, experimentando o fresco da noite. Sentia a pele dos braços arrepiar, mas gostava de ver as formas que o fumo desenhava fugindo da aragem. Na rua acenderam-se os candeeiros, soltando sombras e versos mudos.
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.
Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.
Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"
Quando Pedro me levar à pesca
Jurámos pias baptismais, louvámos a desgraça alheia por não se ter aproximado, abençoámos o dia como nos convém, vergámos o espinhaço à decisão de outrém, tornámo-nos o pretérito imperfeito da perfeição legislada. Aceitámos a vigência como verdade e a erradicação da dúvida como doutrina. À diferença chamamos desvio. À falta, desculpamos o prazo e devolvemos a intenção. À culpa, arquivamos o processo. Se algo ficar por classificar, resta-nos o desígnio. E na procissão, voltados para a Meca que estiver mais perto, roem-se os bocadinhos de pão que alguém deixou aos pombos. Esses, mais tarde, serão mastigados depois de um lume brando.
Ao som de The Sound "Possession"
Ao som de The Sound "Possession"
março 31, 2007
Coisas
Mesmo quando as pausas parecem o que não são, há sempre um nadador salvador atento às ondas, mesmo na maré vazia. Nessa atenção, desdobram-se maquinismos complicados, envoltos em electricidades e laboratórios arrumados pedindo desarrumação. Na desarrumação, perdoam-se erros e esquecimentos, pela simples razão de estar ali. Estar é a nota mais alta. Ser é dispensar de exame. Continuar é a perfeição. Porque os nadadores salvadores, mesmo quando não estão atentos às marés, têm sempre um colete na mão.
Ao som de The Passions "Small Stones"
Ao som de The Passions "Small Stones"
março 16, 2007
Aperitivo
Parou no sinal vermelho e espreguiçou-se. Aumentou o volume no tom da ira da canção e apoiando-se no banco direito abriu o porta luvas. Reconfortado pela forma da arma debaixo do pano avermelhado, tirou uma pastilha de canela. Mastigou com o prazer de um dia de sol. O calor próprio de um fim de manhã de Julho enternecia-lhe as rugas vincadas junto ao nariz. Tinha fome. Uma fome de sossego à mesa, ao sol, perto de uma máquina de bebidas e com alguma mexicana de decote previsível ao alcance dos olhos. Talvez no Larriva, perto da pista dos galgos. Tirou do bolso o pacote bem amachucado e tirou um cigarro. Restavam dois. Acendeu um fósforo de madeira, dos antigos. Preferia fazer mais de trezentos quilómetros, por aqueles fósforos. Talvez fosse o som, um crepitar de inverno a torrar ao sol. Como sempre, puxou o primeiro fumo até lhe faltar o ar. Um masoquismo que não trocaria por nada. Agarrou o cigarro na ponta dos dedos com a segurança de um trapézio desfiado, na certeza íngreme de anos a fio. Passou a mão pela barba de três dias. Três dias de caminho, comida de chapa e café feito à pressa, bebido com os vagares de um fugitivo cansado. Puxou ligeiramente os óculos escuros para a ponta do nariz, com o esgar próprio de uns olhos encadeados. As cores do mundo eram afinal bem diferentes. Voltou a empurrar os óculos para cima e ficou-se pelo seu universo. Respirou fundo e olhou o semáforo. O verde envolto em poeira traíu-o. Antes de conseguir engatar a segunda já tudo tinha terminado. Do cansaço nem rasto. Apenas restos de chapa torcida e o barulho surdo da normalidade que tenta regressar.
Ao som de Devo "Gut Feeling"
Ao som de Devo "Gut Feeling"
março 03, 2007
Ficar aqui
Partida... Por todas as lágrimas de húmidas, nas esquinas, nas montras de luzes antes da madrugada, em canteiros antigos de uma instituição gravada na memória, produto de quiosques atentos e desatentos nas caras que passam e repetem o dia e alguma noite, sulco de um desvario ou de um anúncio de circo na cidade. Revolvem na conversa rala, no perigo de uma lembrança que provoca a claridade e a paragem do coração habituado, sopa esverdeada em pratos rasos, especiarias vendidas nos adros das igrejas que distam meias tintas entre si e o diabo, conviva das sextas-feiras pela manhã, quando o café se basta ao fumo e são repetidas as navalhadas de um barbeiro vitalício que dorme na porta giratória de um hotel condenado como presa suave de pinguins, gravatas desbotadas de tanto segurar as asas das ânforas, catres seguros de óleos e cânforas. Na multidão, alunos repetentes, vítimas de reprovações morais, guardiões de carteiras de madeira remendada, violadores de mente encarquilhada, pacotes de pipocas geométricos, líderes de faces abruptas motivando o convénio entre o ponteiro do mestre e a renda da concubina. E nas aleluias dominicais, porque as de sábado não valem o mesmo, descobrem-se almofarizes raros, legado de alguns narizes gelados pela frialdade do vento que pernoitou por aqui, rebelde e pecado de preguiça, limbo dos patos que encolhem os ombros no lago do jardim.
Pela rua que vai dar ao salão, às três da manhã, segredo mal guardado de um relógio atrasado no tempo e na memória, as gentes que nunca adormecem recusam acordar tratados e linhas imaginárias de lentilhas e esmeraldas, curiosidade que paira nas feiras de todos os livros, decotes e cartuchos de confeitos oferecidos à turba, minúcia do décimo quarto minuto da quinta hora, depois do meio dia, onde se repartem as metades de uma laranja seca, por onde se escapa a tentação e o exame da terceira classe.
Pausa intermédia... Cabe aqui um cocheiro, um padre que não saiba latim, um contador de histórias e uma viúva.
Largada... Ao entardecer, quando os chapéus de sol perguntam a idade dos mais novos, o dono da padaria reflecte as misturas e algum fermento fugitivo, na banca do peixe, onde o camarão miúdo é traquinas e antecipa futuros de estadista ou eloquência incontinente, ruminam-se períodos de seca e de míngua. Resvala a vontade de ficar ali, todo o dia, todas as horas de portões fechados, de capoeiras vazias, entre cascas de amendoim, previlégio seco de castas amaldiçoadas pela patetice de um beijo ou a sabedoria do fim da canção. De bicicleta, desce esbaforido o empedrado, cruzando formas de fontes e peixes enamorados, gritando cadências das tardes junto aos barracões, testamento prenhe de silêncios e ondinhas de rio junto à margem. Misérias esbatidas pelo jazigo perturbador de família, regra obtusa de viver antes do tempo, sempre que a morte espreitar a gaveta da mesinha de cabeceira, procurando desculpas e lenços encharcados. É a sorte de qualquer escrivão de província, querela de jornaleiro e comedor de omeletes, copos de vidro verde, gastos pela penumbra junto ao campanário, olho na estrada que sobe até à vila.
À vista do apeadeiro, procuro luz na taberna do outro lado do muro. Sorrio do salitre que não conheço, das rugas nas mãos trémulas que me trazem o copo. Deixo a mala no compartimento e desço. É Setembro... Chegada.
Ao som de Kyrie "Lipsia 1933"
março 01, 2007
Sorte, azar ou mais do mesmo?
Decidir entre a deriva e um porto seguro, mesmo em dias de temporal, dias molhados, encharcados devagar, ao longo do cais ou de uma fileira de árvores de um sanatório, onde se espera a hora de jantar e alguma desculpa para abrir os olhos de manhã. Decidir entre a lucidez e a ordem desigual de bocados de alguém, atirados ao papel como ao acaso, redondos, obedientes ao sinónimo e à assimetria, chuvinha teimosa de fim de estação, sussurrando deveres e agitando com firmeza a escritura do clima. E de tanto decidir, ou escolher algo em vez do outro, o depois parece sempre um destino. Um porto seguro que se expõe à deriva, salto mortal de vagas azuladas em papel de jornal, perigando os empenhos alheios e adocicando o comum dos mortais, que nem é comum, nem quer ser mortal.Naquele salva-vidas, esfregando as mãos com a força de uns olhos semicerrados, escrutinando o mar à busca de sobreviventes, cabelo deitado ao vento, golas torcidas pelo sal, os grãos de areia no fundo do bolso que teima em ficar húmido, são as testemunhas únicas de um desassossego que não se comove com abóbadas. Em vez, sem conhecer limites alfabéticos, dá as cartas da esquerda para a direita, corta as figuras sem trunfo e grita jogo, mesmo se não houver mais jogadores na mesa.
Ao som de Legião Urbana "Andrea Doria"
fevereiro 27, 2007
Longitude amarela, latitude branca
Perspectivando coordenadas como se fossem pepitas de chocolate, concedo a razão ao desligar os propulsores e sem ajustar a viseira, perco-a ao aspirar algum ar sem verificar os leitores de atmosfera. Estou lúcido. Acarinha-me o calor artificial e um gole de álcool, mantido incólume num recanto da minha lembrança. São algumas horas da manhã, mas retenho o asfalto irregular como se fossem dez da noite de algum Dezembro.
Repito mentalmente as geometrias coloridas sob os meus pés. Ajoelho-me e coloco as mãos sobre elas. Afago-as como antes. Regulo-me para um sorriso de intensidade três. Levanto-me e com um leve franzir de sobrancelhas, recoloco a franja na posição correcta. Permito-me um gesto humano e levo a mão direita à face, sentindo a barba por fazer. Imagino a porta amarelada com vidros rectangulares nas minhas costas, por onde se insinua um luz clara. Mantenho a direcção do meu olhar no cadeirão cinzento e na varanda por detrás. Tudo como então. Sobre o assento do cadeirão estão algumas folhas de papel, repletas de uma escrita cerrada. Pego num monte delas, segurando a primeira. As outras espalham-se pelo chão. Como uma lista se tratasse, a folha revela coordenadas, planos de voo e trajectórias, uma panóplia de destinos e posições relativas surpreendentes. Enternecido, apanho as folhas e apontando todo o maço ao arquivador do braço esquerdo, desmaterializo-as em dimensão doze. Antes da partida, olho em volta e com um toque subtil, desligo os sensores e o alimentador de emoções.
Em silêncio absoluto, passo as mãos pelo cabelo, adivinhando rasgos indefinidos. Permaneço os olhos no cadeirão e nos recortes das geometrias, tentando decorar-lhe as cores. Avanço dois passos, olho pela janela fechada, primeiro a varanda, depois a rua, com o asfalto irregular como se fossem algumas horas da noite de algum Dezembro. Sorrio e sinto toda a face sorrir também.
Depois do sorriso se apagar, volto a ligar os sensores, desloco a viseira para nível 4 e passo os dois dedos solares pelo fecho gelatinoso. Depois de acender a luz laranja, fecho os olhos e divido o pensamento nos triângulos habituais. Desloco a primeira página que encontrei sobre o cadeirão pelo cortex, dirigindo-a para os neurónios de expoente 14. Distendo os músculos e diminuo o nível de actividade enzimática, programando os estabilizadores para alguns minutos depois da partida. Com o ronronar surdo dos impulsos cardíacos em fundo, leio folha um, linha um.
Ao som de Pete Namlook, Klaus Schulze & Bill Laswell "The Final DAT Part II"
Repito mentalmente as geometrias coloridas sob os meus pés. Ajoelho-me e coloco as mãos sobre elas. Afago-as como antes. Regulo-me para um sorriso de intensidade três. Levanto-me e com um leve franzir de sobrancelhas, recoloco a franja na posição correcta. Permito-me um gesto humano e levo a mão direita à face, sentindo a barba por fazer. Imagino a porta amarelada com vidros rectangulares nas minhas costas, por onde se insinua um luz clara. Mantenho a direcção do meu olhar no cadeirão cinzento e na varanda por detrás. Tudo como então. Sobre o assento do cadeirão estão algumas folhas de papel, repletas de uma escrita cerrada. Pego num monte delas, segurando a primeira. As outras espalham-se pelo chão. Como uma lista se tratasse, a folha revela coordenadas, planos de voo e trajectórias, uma panóplia de destinos e posições relativas surpreendentes. Enternecido, apanho as folhas e apontando todo o maço ao arquivador do braço esquerdo, desmaterializo-as em dimensão doze. Antes da partida, olho em volta e com um toque subtil, desligo os sensores e o alimentador de emoções.
Em silêncio absoluto, passo as mãos pelo cabelo, adivinhando rasgos indefinidos. Permaneço os olhos no cadeirão e nos recortes das geometrias, tentando decorar-lhe as cores. Avanço dois passos, olho pela janela fechada, primeiro a varanda, depois a rua, com o asfalto irregular como se fossem algumas horas da noite de algum Dezembro. Sorrio e sinto toda a face sorrir também.
Depois do sorriso se apagar, volto a ligar os sensores, desloco a viseira para nível 4 e passo os dois dedos solares pelo fecho gelatinoso. Depois de acender a luz laranja, fecho os olhos e divido o pensamento nos triângulos habituais. Desloco a primeira página que encontrei sobre o cadeirão pelo cortex, dirigindo-a para os neurónios de expoente 14. Distendo os músculos e diminuo o nível de actividade enzimática, programando os estabilizadores para alguns minutos depois da partida. Com o ronronar surdo dos impulsos cardíacos em fundo, leio folha um, linha um.
Ao som de Pete Namlook, Klaus Schulze & Bill Laswell "The Final DAT Part II"
fevereiro 19, 2007
Sorriso em segunda-feira sem cinzas
De regresso do aconchego e da ditadura do sonho, renovo gotas de chuva e apreços no fundo de um alguidar ornado com o brasão dos Áustrias. Faz-se tarde. As línguas de vento trovam aftas de sem querer, deixando recados às árvores, poiso de druidas e algum profeta de nariz afilado, curioso de rotas e embaixadas de vénias, onde a solenidade é gratinada e o saber, estorvo. Talvez por isso se divirta com a copa frondosa e amnésica de quem se esqueceu do Inverno. Fará versos inconsequentes, dignos de algum manual onde se ensinam lideranças e valores. Faz-se tarde. Alumiam-se as velas e abrem-se os breviários, que os passos apressados e chuviscantes já sobem os degraus da entrada do altar. Na livraria defronte, pagam-se as últimas sílabas e suspira-se por uma chávena de café a fumegar. Talvez dois dedos de rum. Saúda-se o prior com um aceno de cabeça e percorre-se a muralha com o olhar dolente e habituado. E a gente nunca se habitua a regressar. Nas portas encostadas já soaram os trincos e crepitam-se os primeiros ares da noite. Ao longe, logo ali à esquina, rumina-se o terço e a vontade de farófias e palmas das mãos esfregadas com vigor. Penumbra-se o momento de olhar as estrelas e procurar a constelação preferida. Os pés agarram-se ao lajedo, travam-se ímpetos e de gola levantada, tomo o caminho do vale, mesmo se a geografia me permite ilusões e o espírito ainda treme de fervor. O tarde já se fez e o relógio marca sempre a mesma hora.
Ao som de Focus "La Cathedrale de Strasbourg"
Ao som de Focus "La Cathedrale de Strasbourg"
fevereiro 03, 2007
Poesia debaixo do turbante
Relembro o sábado pela manhã, motivo de tudo e fuga a um tédio que simplesmente não o era, mas apenas restos de poeira esquecidos nas prateleiras e nos livros teimosos, fechados por abrir. Era a estrada, a paragem num parque de estacionamento enorme, onde se disputam sorvetes e tamancos longe de mais para se tornarem verdadeiros. Era o vento e o sol escapando por entre as bermas e os relógios apontados para diante, os nomes de quem não se conhecia, as caras de surpresa por gritos e gargalhadas imensas, perdidas em lugares ermos e mesas de toalhas claras enrugadas por copos de branco e desejos de mais. Os humores, as pertenças, as mãos dadas por debaixo dos aventais, os sorrisos cúmplices e a traineira suspensa pelas horas fugitivas, a curva da outrora feira de recantos, perfeito aninhar de areias brancas de uma estalagem poente perdida nas décadas de um salão de baile perfeito. O relento ruminando canções repetidas por um eco, réstia de energia e solidão. A passagem de nível, as luzes da cidade, os fins sem meios, o jantar sem sal, o resto atirado, demorado, um calafrio de ânsia e de viver todos os dias de uma vez, porque o dia acabou e não se quer regressar. E o soluço ainda encontra...
...e esquece. A barba feita a meio, as meias finalmente, a camisola repetida vezes e vezes, o olhar cansado por um aperto. Num abrir e fechar de olhos com os pés à beirinha do cais, a cópia com letra certinha, o domingo por ainda haver segunda-feira, os papelinhos à sorte, a rua a descer e o barco vermelho pousado no rio. E perto da esquina, à laia de cantos de natal, repetem-se lá lá lás.
Ao som de The Waterboys "December"
...e esquece. A barba feita a meio, as meias finalmente, a camisola repetida vezes e vezes, o olhar cansado por um aperto. Num abrir e fechar de olhos com os pés à beirinha do cais, a cópia com letra certinha, o domingo por ainda haver segunda-feira, os papelinhos à sorte, a rua a descer e o barco vermelho pousado no rio. E perto da esquina, à laia de cantos de natal, repetem-se lá lá lás.
Ao som de The Waterboys "December"
janeiro 16, 2007
Só e mal acompanhado.
Com um bocado de chocolate como lastro e linha do horizonte, mesmo se o cacau não faça parte deste filme, cruzei e revirei de todos os avessos a avenida à beira mar. Resisti ao cansaço, ao passeio de orla reavivado por gritos embriagados de turistas e nativos, aos mosquitos embarrigados de sangue aquecido por infindáveis copos desde o acordar ao amanhecer e aos pares de velhinhas que são nortadas açucaradas pelo aroma da noite. Evitei o resmungo do esquecimento do relógio no quarto, bem em cima da cama para não ser esquecido, olhei as estrelas numa tentativa autista de quem só conhece os nomes das constelações... juntei os pontos de referência habituais e rangi os dentes. Não que tenha o vício, impuro, de quebrar a calmaria alheia com ruídos infernais de dentes a roçar o crime de desobediência papal, tentando a excomunhão ou o vulgar encolher de ombros ecunémico, mas a irritação do momento obrigou-me. Sempre teimei nas aulas ou nas acções de formação que o crime é coisa séria, solene e formal, na forma, no intento e na subordinação do corpo ao projéctil. Senti-me encanzinar. Bati com o pé no chão, imbirrento e juvenil. O bater no chão infantil é francamente mais sábio. Voltei a percorrer a avenida, desejando um tsunami às ondinhas de banheira, salpicadas por um luar ridiculo. Estava quase a virar costas, com um jogo de matraquilhos na ideia, mais uns copinhos de abafado quando o vi. Irra. Já é falta de consideração. Tirei o revolver do bolso, conferi a bala na câmara, visei, quase despreocupado e disparei. O fulano encolheu-se num gesto ao ralenti, rodou para a esquerda e caiu desamparado, com um ligeiro gemido sonolento. Raio de vida; a tasca dos matraquilhos já deve estar fechada.
Ao som de Act "Absolutely Immune"
Ao som de Act "Absolutely Immune"
janeiro 12, 2007
Certamente
Quando saí da sala, ainda no hall, senti o fio de nostalgia nos braços e nos olhos enquanto perdiam o brilho. A porta abriu sem ruído de arrasto e junto aos elevadores, o frio corrompeu-me a hora tardia e a pressa de diminuir o atraso. Desci no elevador amarelado, confiando na falta de vontade de sair dali. Era um sítio onde se esqueciam as horas e os motivos, onde o controle era um encolher de ombros ao que ficava lá fora, ou ao que chegava pela janela aberta, em barulhos de regressos a casa e compras apressadas. Imaginava um outro que vinha pela rua de baixo, medindo com minúcia todos os movimentos e centímetros do passeio e na esquina, escolhia sempre o lado esquerdo da avenida em direcção à farmácia. Não conhecia esse outro, nem lhe aguçava a curiosidade as suas mãos nos bolsos e a gola do casaco subida, como num filme. Chegou a pensar em segui-lo, mas acabou por deixar cair a vontade. Sabia que o outro existia e é tudo. Sabia que direcções tomaria e isso bastava-lhe.
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.
Ao som de New Order "Your Silent Face"
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.
Ao som de New Order "Your Silent Face"
janeiro 10, 2007
Linhas paralelas
No tempo em que era menino, no meio de outros meninos gastava o tempo com risos e coisas assim. Cresci. Eu e os outros meninos. Esquecemos os risos e ficamos assustados, sempre que saímos e esbarramos com o nosso crescimento lá fora. Procuramos nos bolsos vazios, olhamos uns para os outros, perguntamos pelas moedas com que compraríamos o nosso destino e fixamos o chão, cientes de um preço demasiado caro a pagar. Um destino que de tão valioso, não soubemos avaliar. Retomamos o passo em direcção a algum sítio que não sabemos o nome, porque é um nome que não se pode saber. Sem confessar aos outros meninos, aos outros crescidos, sempre pensei que aquele dia nunca chegaria. Ficaria solto na prisão naquela manhã que um dia me encontrei, sob um sol amarelo, junto a uma esquina e a uma parede amarela, onde podia ficar a viver e a esperar todos os dias por uma droga qualquer, uma qualquer que só existia nessa esquina e debaixo daquele sol. Um sol que me faria estar perto de mim. Perto daqui mas longe de uma infância perdida que o medo arrebatou. Sempre pensei que aquele dia nunca chegaria. Mas ainda hoje me lembro daquele sol da manhã, junto à esquina e à parede amarela. Ainda dependo dele.
Ao som de The String Quartet Tribute "True Faith"
Ao som de The String Quartet Tribute "True Faith"
janeiro 09, 2007
Depois das velas apagadas
A janela do quarto, aquela que encontra o céu e os outros prédios de muitas alturas. Moveu-se o cortinado e entrou o sol da manhã, acima do septuagésimo andar. A luz recortou-a, traçou-lhe limites e aventuras, e ela sorriu. Ficou ali, a pairar, sugada pelo tempo de a imaginar ali mesmo. Nem a camisola de alças de alguma cor morna, acrescentou uma vírgula. Bastou o recorte, o traço da manhã, o dia parado, à espera de uma palavra que quebre o feitiço.
Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.
Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"
Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.
Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"
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