Regressar de um mundo inerte, sombra e herança de um manto, senhor nos seus domínios, onde o mármore coberto pela neve magoa o semblente, enquanto repousa e abriga a nudez. Das lentas sonoras do pêndulo, só restam os algarismos da fortuna e do azar, seguros por fiapos de seda, ouro de quem esqueceu os caminhos e as faces. Como pele de alguma fera, os reposteiros pesados são lã e doçura de um serão que não termina. E de um fogo lento, a lenha torna-se granito. Aqui o vento desterrou a brisa, fio cortante por onde agulhas picam os ossos e árvores serenam em quietudes altas.
Num arremedo de frugal rancor vagueia ao longo das paredes rasgadas, onde o cristal rompeu amarras. Funga todo o tempo, enfrentando os dedos violáceos numa rixa comezinha, enganando o resmungo com um riso sem ruído. Busca na recordação cores e afectos, que a reminiscência teima em lograr. Por momentos encosta-se a buscar o folgo, farsa da sua idade e desterro jovem. Deixa cair a cabeça e sente-se ermo. Exausto. Respira fundo e regressa. Não se evade. O contrato não lhe permite legar.
Ao som de Stoa "Partus"
maio 22, 2007
maio 17, 2007
Não penso morrer tão cedo
Tinha pensado em escrever algo entre o racional e o filosófico, algo de ensaio, de observação, uns pózinhos de crónica, outros de visionário, uma direcção do sentido da vida. Em vez, saiu isto.
Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.
Ao som de The Curtain Society "Kissherface"
Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.
Ao som de The Curtain Society "Kissherface"
maio 15, 2007
Contraponto para o autor; só para o autor
Oito horas. Nove horas. Minuto a minuto, sol sim sol não, dúvida em forma de elevador em outro andar qualquer, bom dia oval, sub-reptício, preso por cordel de uma caixa de bolinhos, fóssil rebuscado de outra rua com principio, meio e sem fim. A esquina, a avenida, a esquina, a rua, a parede com impressão digital e pegadas de dinossauros, ou pelo menos um único, o que vagueava em habitat alheio, armas a tiracolo e óculos escuro de ver o mundo com a cor pretendida. A madrugada, o fim de tarde, a neblina, os papéis que voam em remoínho, os barcos ainda dormem, as prateleiras reflectem as luzes, e entre os que não acordam e os que dormem sugerem-se cortes laterais de onde se esvai a maçada e o tempo perdido. Não acreditam? Vejamos: uma chávena de chá, quase cheia, engraçada; o homem da gabardine, céu cinzento, nuvens escuras, chuva e mais chuva que atrasa o autocarro; um vidro de uma janela, fechada, segura, lânguida e morna; o copo de cerveja, alto, afunilado, glamoroso, dourado num balcão de apenas três clientes, todos diferentes, a mesma conversa, os relógios parados; as três voltas da chave, o empurrão de garantia, o olhar zeloso, as chaves no bolso e o dever cumprido; o nascimento, a infância, a juventude, a puberdade, a responsabilidade, o atrevimento, o crescimento e o desenvolvimento e a paragem cardíaca, o adulto, o maduro, o envelhecido, o idoso, o morto.
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.
Ao som de Suicide "Ghost Rider"
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.
Ao som de Suicide "Ghost Rider"
maio 10, 2007
Pausa para um quarto acto

Esqueci o café, esqueci o sorriso, esqueci até os sindromas de pastilha elástica que neste momento apenas me pareciam uma forma inútil de passar o tempo. Um tempo que teimava em desperdiçar com ninharias.
De olhos fixos na noite por detrás dos vidros imensos do aeroporto, de outro aeroporto ou todos os aeroportos, não quis esperar a chuva nem a humidade na pista para obter um perdão. Aquele perdão que cada um deve a si mesmo, em situações limite. Doiam-me as costas, não tinha o sabor correcto na boca, era tarde e a vontade de qualquer outra coisa, específica por não ser, queimava-me o pescoço. Funguei algum resto de constipação e insisti-me naquela hora de pausa, como se me pertencesse a beira do mar ou o único caminho para a brisa do início da manhã.
Preferia-me numa varanda, num cubículo aproveitado de um prédio esvaziado, talvez devoluto, talvez resignado, com o barulho da chuva a oferecer-me terapia e refúgio, onde os vazios da multidão se desfazem em bicicletas que passam no ruído da borracha molhada e das campaínhas infantis. Numa mão teria uma maçã, que em vez de mordiscar, cheirava com gulodice e inércia. Então, pedia ao relógio que fizesse uma pausa e, como um amigo, sorria-lhe. Um sorriso cheio de antigamente, de ontem, de encontros depois da meia noite, em esquinas largas, onde se agarram filosofias quando voam baixinho.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez lhe pedisse para retomar o tempo. Talvez.
Ao som de Blade Runner Blues
maio 04, 2007
Hesitação em terceiro acto
- Obrigado.
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?
Ao som de Saigon Kick "Sleep"
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?
Ao som de Saigon Kick "Sleep"
À partida do segundo acto
Obediente, esperei que a escada rolante me orientasse as decisões. O incómodo de alguma claustrofobia dos tectos demasiados altos do aeroporto, provocavam-me um estado de tontura morno e desagradável. Pensei numa chávena de café a fumegar, num copo água, que a hipótese de demasiado tépida me fez enjoar. Ao temer algum suor fora de tempo, dirigi-me ao check-in, como tentativa de organizar qualquer coisa. Não reagi aos avisos nem às recomendações, aceitei todas as determinações e com o número 48 do portão de embarque marcado na palma da mão, entrei numa casa de banho e demoradamente, molhei a cara e sem sorriso planeado, olhei-me longamente no espelho. Sem me conseguir mexer, remexi num cansaço do qual fazia parte, remoínho de olhos fechados e mãos afagando a face e o cabelo. Num faiscar, surgiu-me a imagem de uma bomba de gasolina à beira de uma via rápida, lugar de fascínio e partida para viagens de carro, daquelas que se iniciam cinzentas e não devem conter destino. Fechei os olhos muito devagar e sem recusar o apelo, desejei com muita doçura apagar aquela imagem. Com esforço, endireitei os ombros, lavei as mãos e sacudindo o casaco e as calças, fui à procura da tal chávena de café a fumegar. Pelos corredores larguíssimos do aeroporto, procurava nos altifalantes uma canção a condizer.
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.
Ao som de Goldfrapp "Utopia"
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.
Ao som de Goldfrapp "Utopia"
maio 03, 2007
A partida
Antes de partir, procurei nos avisos presos no frigorífico as moradas. Preferi não as levar comigo e tenho a certeza que não as decorei. Prefiro encher o espaço livre de memória com assuntos mais confortantes. Ou reconfortantes, depende da hora do dia. Depois de uma olhadela para a camada de cima da mala, fico sem a certeza de me lembrar de tudo, ou pelo menos do que é insubstítuivel. Mesmo assim, prefiro fechá-la. O isqueiro no bolso esquerdo das calças, o comprimido no bolso direito, os óculos de sol e os auscultadores. Tiro à sorte entre os mp3 e sem verificar conteúdos, qual roleta russa, guardo-o no bolso do casaco, junto ao cartão de acesso e a ficha metálica para a bebida. Escrevo o recado e deixo-o bem à vista, debaixo do telemóvel. Uma última escovadela dos dentes, o sorriso número 14 ao espelho e a porta de casa.
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?
Ao som de Lucyfire "The Pain Song"
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?
Ao som de Lucyfire "The Pain Song"
maio 02, 2007
Jovialmente, uma boa noite para si
Mais uma vez no local do crime. Impressão digital sobre impressão digital, projéctil atrás de projéctil, cápsulas caídas no chão em desprezo pela verdade. E na verdade, estes regressos ao mesmo local do crime, como se não houvessem outros para escolher, reflectem-me a ousadia e alguma aventura de sentir sempre algo de novo. Hoje é refractar o cansaço, produzir alguns exemplares com a fábrica ainda a meio gás, enrolar-me num cachecol de cachemira e enfrentar uma noite de temporal, amena pelo bom gosto e agreste pela vontade de sair e não sair do mesmo sítio. Apelos e apetites. Comodismos.
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.
Ao som de Spectral "Avalon"
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.
Ao som de Spectral "Avalon"
abril 27, 2007
Homenagem geométrica
Em vez de uma lista de compras ou dos dez qualquer coisa que se levam para uma ilha deserta, eis-me aqui pronto para o que der e vier, ilusionado por imagens a cores ou preto e branco, sem saber as verdadeiras e as de encantar, rosto na janela do primeiro andar, mãos a restolhar nas persianas com pó, ouvido nas danças da chuva sem as saber cantar, olhos na esquina do quiosque e na berma do rio quase mar.
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro
Ao som de Ashra "Blackouts"
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro
Ao som de Ashra "Blackouts"
Nomeações
Nascimentos regulares tomam as linhas das peças seleccionadas ao acaso, no xadrez de mármore da entrada. Por cada xeque mate, deduzem-se as despesas da lavandaria e dos projécteis. A primeira bebida da noite é obséquio... todas as outras incluem vítimas. O gelo é pago ao valor de fecho do mercado. Só são elegíveis corpos de fato completo. Escuro. Qualquer vestígio de cinzento é condenado com pena capital. O executor de serviço deve preencher os formulários devidos, de baixo para cima. Qualquer resquício de frio deverá ser comunicado à comissão de festas.
E agora que todos estamos entendidos...
Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"
E agora que todos estamos entendidos...
Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"
abril 26, 2007
Levitação em idioma de gringo
Nestes momentos, pode cair um cometa, que não me levanto. O balde do gelo está vazio e não me levanto. A munição está reduzida a cinza, mas não me levanto. A luz está longe de ser a que desejo, mas não desejo levantar-me. A canção, inadvertidamente, entrou em repeat, e nem por isso me levanto. A miragem de cabelos hipnóticos e lábios suplicantes mantém-se de olhos em mim e eu apenas lhe devolvo o olhar. A carta do general foi entregue por debaixo da porta, os grilos gritam por companhia, o porteiro fuma junto do baralho por partir, o jornal permanece por ler. Não, não me levanto. Esperam que o efeito passe?
Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"
Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"
Arrepio meio nocturno

Descalço, prolongo a vontade de uma parede em falso, rebolo nas luzes os vestígios juvenis e sorrindo deixo-me envolver, permito que me subtraiam as agulhas e os pólens que neste corredor não me fazem falta... que os escondam longe, que os tornem mistérios por resolver. Devagarinho, fecho os olhos, levanto-me e rodeio a minha sombra com rodopios, cabriolando o tique humano, soltando-lhe as feras do impulso, com dentes de luar.
Ao tecto, aos rodapés, à ameaça e ao relógio, apenas um conselho: esqueçam a corrida e a chegada. E com um beijo, mantenham a chama acesa, mesmo se olímpica.
Ao som de Blueboy "Popkiss"
abril 23, 2007
Narcisista em harmonia
Tirei do armário a camisa branca de meio colarinho e pendurei o cabide na porta com todos os cuidados. Entre as calças do fraque e as do smoking, escolhi as mais solenes. Da gaveta do meio tirei o laço preto e na dúvida optei pelos sapatos pretos de verniz. De boxers e meias pretas fui à sala buscar o isqueiro e o relógio, numa atitude perversa onde a rebeldia colide com o bom gosto. Antes de regressar ao quarto, passei pelo espelho da casa de banho e com a tesoura pequena acertei a pera com o rigor das 7 e meia.
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.
Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.
Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"
O ábaco
A orgia tinha começado à hora marcada. Por entre os arbustos, na copa das árvores e nos pouquíssimos bancos disponíveis, os casais e demais curiosos entregavam-se uns aos outros com a gulodice habitual. Generais e majores, bispos e outros eclesiásticos, proprietários, pintores e disc-jockeys, mais os membros do clube e os electricistas entabulavam o seu mesmerismo às louras e morenas sacramentais, já que de ruivas o mercado estava sempre em falta.
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
O boletim de voto já inclui o x
No caminho para a Assembleia, parava no café das janelas amarelas e bebia o seu chá das quatro e meia. Tirava do bolso o frasquinho do mel e adoçava a beberagem a gosto. Com um gesto de desprezo afastava o pacotinho colorido, ainda cheio. Limpava o beiço com o lenço assinado, ignorando ostensivamente o quadrado de papel branco à sua frente. Economizava as boas tardes e deixando as moedas certas, saia com pressa institucional. Subia a ladeira algo íngreme e ao ver o majestoso edifício, sorria disfarçadamente.
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
Miudezas
Tinha a botija de oxigénio ao lado da cama. As barbatanas estavam arrumadas ao lado dos chinelos e dos sapatos de fivela. Os óculos pousados na mesa de cabeceira adiantavam organização e alerta.
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.
Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.
Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"
abril 22, 2007
Deixar o irresístivel ganhar espaço, parte 1
"... We walked around in circles..."
A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.
Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"
A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.
Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"
abril 21, 2007
Pressa
Deitada na almofada cor de ferrugem, espreguiçou-se e sem avisar mudou de tema. De olhos fechados, sussurrou qualquer coisa...
Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"
Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"
abril 03, 2007
Um cachimbo vazio
Depois de frequentar o estribo e a coleira, desaguei na quinta porta que o estuário me oferecia. Habituado a geometrias convencionais e algumas outras, sujeitei-me ao primeiro dia de escola. Conversei dias e dias com os monges e os que atravessam desertos, jurando alianças com que cobri os dedos. Bebi da chávena à minha direita, sossegando os costumes e os protocolos. Ao fazer isto, respeitei-me nas minhas células, como se um beijo ou um roçar de dedos assinasse um tratado.
Meses depois, sentado à mesa da sala ao fundo da casa, na penumbra que o dono determinou, procurei algum vestígio de cinza ou cálculo matemático da noite, quando os cúmplices reconheceram a proximidade. A mesma sala onde os cúmplices iniciaram a guerra. Verifiquei os armários de portas fechadas e chaves disponíveis, o cabedal verde escuro da escrita, enfim alguma marca que servisse como prova. Desconfio da memória. Sem nada, encaminhei-me para a porta. Cansado de tantas coincidências, respirei todo o ar que consegui e sai. O imperador esperava-me.
Ao som de Ultravox "Waiting"
Promessas
Jantei com os vizinhos do 2º andar. Petiscámos algum chouriço e vinho tinto. Dissemos pouco, com medo de falar demais. Fumámos alguns cigarros com a janela entreaberta, experimentando o fresco da noite. Sentia a pele dos braços arrepiar, mas gostava de ver as formas que o fumo desenhava fugindo da aragem. Na rua acenderam-se os candeeiros, soltando sombras e versos mudos.
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.
Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.
Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"
Subscrever:
Mensagens (Atom)
