junho 15, 2007

Masgreevia

Masgreevia. De tudo um pouco, sem remorso nem escrúpulo, desolado por me esquecer de algo ou alguém, mas nada mais que isso. Sorridente, porque me quero justificar. A vida por aqui, nesta combustão, resolve-se em poucos dias. Ou décadas, é o mesmo. Está por horas, dizem os que me servem. Pelo previlégio de ser servido por eles. Impingem-me tinto e branco, à vez. Sorrio. Permite-se tudo em poucos passos, com os pés sob as mesas, quatro delas, entre gestos de camaleão, certo de verdades muito maiores, mas muito mais inúteis. Recitam-se desejos. Surdos. Mudos. Nas paredes pejadas de retratos de todos os alguéns, nas lajes, pasto de beatas e desapegos, nos bolsos, vazios de alma, resiste-se à hora final. Há sempre um fim, mesmo quando enceta algum imprevisto. Haja festa... haja festa. Não vá ser dia dela.

Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Begin-ing"

Lanças e gemas de ovo

Alanos, Suevos e Vândalos,
beberricando limões,
embalados num baloiço
todo pintado de fresco.

O imperador,
sossegado,
descasca ervilhas
entoando,
as ladaínhas das quintas.

À mesa,
um anão e um carrasco,
defrontam ases e quadras
entre récitas obscenas
e fritos mal digeridos.

No peitoril,
à janela,
a única que ainda existe,
o papagaio recita.

Da manhã dolente e sóbria,
solarenga no acepipe,
a lembrança sempre alcança:
esqueci-me dos Visigodos.

Ao som de John Surman "Part III - Kentish Hunting (Lady Margaret's Air)"

junho 12, 2007

Videiras e sultanas

De longe,
num repente de causa incolor,
existe a descoberta de um céu vagaroso,
onde
um quarto de hora
é beijo
e é tempo.

Travo a travo,
surgem palavras asteadas,
jogam-se cartas na Bretanha
e graceja a subtil entrega.

Com sotaque a limão e gengibre,
regressa a canela ao marfim.

Entre orações,
as ameixas adormecem fatigadas.

De retorno aos caules,
atento à poeira e talvez benvindo,
um vento velho conhecido
preso por cordéis ao paladar,
desagua a espuma de uma onda
sem ter mais nada que lembrar.

As cores encostam-se ao dia.

E sorvendo os restos de vida
que se deixam para trás,
um homem de idade.

De olhos abertos.

Ao som de In the Nursery "Days Of Freedom"

junho 03, 2007

Nem em dez mil anos

Como num impulso, num arrebatamento passageiro, daqueles que nunca demoram mais de cinco minutos, encontram-se os motivos e as causas. As que valem a pena. Os que permanecem próprios. Nunca obtive a promessa nem sequer a resposta a este fenómeno. Sempre me surpreendeu e manifestou ousadia. Ou então, apenas um suave sopro. Uma guelra oferecida pelo acaso. É nestes momentos que preciso de um outro de silêncio. Só para respirar. Abrandar. E então a urgência, impelida pelo composto químico que a reveste, mostra-se ufana, cúmplice de portas entreabertas, resistências ínfimas da descoberta e do enlevo. Só por isso, vale a pena burlar o suicídio.

Ao som de... não sei se digo...

À falta de poder, ficam as flores

Um sono que vai e vem, amparado por névoas que só acontecem aos fins de semana, rebelde e refém ao mesmo tempo, como as tardes à boleia ou acordar em casa de outrém, já depois desse alguém sair, assumindo o trono sem se saber o que se está ali a fazer. E mesmo existindo esse compartimento fugaz, que é a noite, morder o sono durante um sábado claro é roer algo que se perde, um pouco como a importância dos mandarins ou das caldas de açucar sem proporção manipulada. Tem graça, tudo se resume a estados de alma, ou lá como chamam a essa aura, quando há reunião magna de deuses. Ou circunstâncias macias que aferrolham branduras, ingredientes e plenitudes. Eu sei, os egoísmos são caldeirões maciços onde o instinto apura com o prazer. E eu, de prato de sopa na mão, espero a minha ração. E talvez vá repetir.

Ao som de Sonic Youth "Unmade Bed"

junho 02, 2007

Um plano inacabado

O plano eram as mil luzes da cidade reflectindo uma ideia. O reflexo, trémulo de neons adormecidos, sentiu-se ao longe. Muito longe. E eu, significo a calma, procuro o prazer e olho o nevoeiro.

Ao som de Public Image Ltd. "The Order of Death"

A divisão prescinde da vaidade

Os sonoros invadem as privacidades, revolvendo os segredos bem guardados. Atentam contra a vida e o destino e sopram as fumaças dos incêndios. Dentro deles surge a calma e o sereno, ângulo submisso na intenção de subtrair a vontade. Espera-se com a fatalidade da sabatina. Quietos, envolvem a estrutura. Fadigas, entretêm intrujices. E sujos, violentam as carícias num acto de loucura submissa. Contentam acordes repisados como soluções envolvidas em hortelã-pimenta. Tornam gigantes as três manias. A curta atitude das milícias e a nova ordem magna da cobiça. E para quem consente a mentira, têm a ternura sempre omissa.

Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"

Percepção

Devagar. Como se fossemos sacos de chá, mergulhados em banhos mornos. Submissos a uma varanda acariciada por cachemira, seguindo um rasto de canela como se fosse pólvora, sinuoso, incinerado por golfadas de mais e mais, enquanto a lua não sabe o que fazer. Por entre as árvores o ar repete jogos, sopros murmurados de perto, indiscrição madura de onde resvala a pele de cerejas inocentes. Na pausa e no recesso, convergem fios que o sono deixou esquecidos. E em vez de objectos e artefactos, onde as peças de tecnologia são ínfimas, degraus são altar que repelem religiões, espécie de virtude por inteiro, púnica no alheamento e segura na separação. Encostado a uma parede, está um biombo. Atento e intento. Em prolongar.

Ao som de... não digo

junho 01, 2007

Enquanto vazio


Com a fragilidade ao longo da pele, suavidade tensa e contida, surgem os remoínhos. Sugere-se um altar, um apartamento vazio de janelas e silhuetas obscuras, um armazém comprido e repleto de flanelas. Permite-se o desgosto, a leviandade, até algum torpor com tonalidade de preguiça. Tudo desde que acompanhado de um sonambulismo iluminado por monitores de tons azulados. Aguarda-se um suspiro ou qualquer outra forma de indiferença casual, como se a verdade estivesse presa por cordéis de marioneta. E a verdade é observar a verdade, pé ante pé, audaz no seu modo de boneca, forrada do tecido que convém ao baile e perdida no salão, ante os espelhos que esmagam e os veludos que enternecem. As meninas trocam risinhos emboscados, as senhoras sustêm os leques em atitude de concha enquanto as matronas, revelam impaciência. Serenam-se os pecadilhos de pouca monta, apenas por um travo a carne fresca. Tudo gira à volta de mecanismos estudados em pormenor e projectados só para esta noite. Uma câmara, estratégica num pulsar milimétrico, capta atmosferas em vez de imagens. Pretende-se transformar veias em artérias. Imbuir o sangue de sabor. Repetir à exaustão, as seduções e outros subornos. Selar com prazer, os nãos, os sins e o talvez; mas apenas quando este for indeciso.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"

maio 31, 2007

Os piratas foram lanchar de madrugada

Duas crianças brincam ao sabor do dia. Sabem de cor as manhãs e os enconderijos, atalhos perfeitos onde os crescidos não chegam. Correm os passeios e os pátios, sempre ao contrário dos ponteiros do relógio. Conhecem os segredos do tempo. Às vezes, param à beira de água e procuram os peixes que lhes conhecem a liberdade. Às vezes, sentam-se no chão e ficam em silêncio algum momento. Depois, olham o céu, a tarde que lhes foge, os joelhos sujos cheios de histórias e acreditam com muita força que amanhã nunca será dia.
E amanhã, entre a pressa e os ponteiros do relógio que teimam em girar para o mesmo lado, mesmo sem lembrar a cor dos olhos, ficaram os esconderijos. Lá, continua guardada a vontade de correr ao contrário dos ponteiros do relógio.

Ao som de Thomas Dolby "Europa and the Pirate Twins"

Experimentar

Restos de noite ou partículas de sono presas aos olhos, mastigam-me a mesa, os papéis empilhados e o início de manhã em outro lado qualquer. A maçã espera-me e o duche também. Entre as apresentações, o manual, os índices, a sala por varrer e os sapatos espalhados por todo o lado, fica o momento de atravessar uma ponte com o sol ainda desmaiado lá no alto, o rio a querer ser mar, um amarelo muito claro e muito meigo em pleno afago e a canção, uma de algumas muitas. Pretende-se uma ponte que demore a atravessar. E quando abrir os olhos outra vez, que sejam todos os dias menos domingo.

Ao som de Dandy Warhols "Hells Bells"

Matutina

Os brancos e as cores da laranja,
moldados em suspiros luminosos
de sal e de espuma;

uma onda
sempre a mesma,
redonda
a mordiscar a pele.

Os brancos e as outras,
despidas em si mesmas,
esquecidas dos olhos
que as provam em pequenos sorvos demorados,
fiéis ao desígnio
de serem brancos e cores de laranja,
como um sabor a madeira
que prolonga a língua.

Os brancos e as invejas cor de rebuçados,
camélias encostadas à varanda,
onde os cabelos respiram
e se entregam.

Os brancos,
desmaios na vontade;

deitar a cabeça e cheirar o que ficou do mar.

E nesse mar,
vazio,
um outro branco ou amarelo,
motiva o rigor de voltar amanhã.
De preto.

Ao som de Area "Michael Writes His Parents"

maio 29, 2007

A espera

Paredes cor de laranja e algum branco de tom sujo. Enormes candeeiros que tombam do tecto, calados, à espreita. Oito computadores obedientes e submissos. Uma janela a três quartos. As cadeiras desarrumadas e as outras, conversam muito ciosas do seu espaço. Meio a dormir, meio acordado, com as mesas em desalinho e os cabos de rede à espreita, resolvem-se assuntos de governo e algum golpe de estado eventual. Os conselheiros tomam o tempo como refém. O mundo que espere. Aqui tomam-se decisões. Mesmo que não sejam úteis para ninguém.

maio 24, 2007

Pausa e nota de rodapé

Mais que as palavras, importa reter os sons.

A gerência

Seda

Vejo-te azul, cor de rosa, verde escuro, carmesim.
Quero-te assim, verde, nua, transparente.
Um tudo ou nada indiferente.
Envolta em luxo de uma nota esquecida num piano ainda quente. Absoluta e dolente.
Amada como a troiana,
por sussurros e manias.
Por olhares conspiradores que pecam provocações.
Estendo meus olhos em ti,
e percorro-te o sorriso nos lábios fundamentais.

Adianto as ilusões num banquete de ideais.

Penso, afirmo e até juro, apenas frases banais.
Quero ultrapassar as regras e viver por ti, proscrito.
Ensaiar gritos de guerra, comprar portes marciais.
Dar ordens vãs, resignado.
Redefinir os natais.

Desejar-te com mil forças, esvaindo-me em vermelho.
Acreditar nos prazeres, do corpo feito doutrina.
Entregar-me algemado, penhor de qualquer capricho.
Perder a identidade, por um minuto em teus braços.
Perder toda a vida eterna, por um segundo dos teus.

Rasgo a palavra amar, em pedaços descomunais.
E volto a colar,
submisso,
filosofando verdades que são as mentiras dos outros.

Vejo-te.
Escolho as cores que são devidas, numa paleta que é cega.
Misturo tons e balanços, experimento alguns traços.
Com os dedos algo abertos,
abstracto algumas formas.
Sinto a tela ganhar vida.
Obedeço.
Baixo os olhos.
Espero o momento, imóvel.

Com a raiva a consumir-me, dou punhaladas disformes.
Esculpo caminhos bacantes e rebolo-me na indiferença.
Na tua, que me arranha a cara.
Na minha, que não faz nada.

Vejo-te poente. Mansa.
Isolada no meu mundo.
Esbatida, quase morna, repousada num suspiro.
Atenta ao movimento brusco.
Selecta em labirintos.

Sugerindo uma caricia, agitas-te na preguiça.
Sigo cego os teus caminhos,
até me perder com delicia.
Violento-me a vontade em desejos marginais.
Misturo as horas do dia.
Fecho os olhos.
Paz.

Longamente, procuro as emoções dos teus poros.
Narcotizo-me em teu odor.
Entrego-me escravo, exausto,
delirando especiarias.
Já não sou eu. És tu.
Brocado doce e demente.

Quando abro os olhos, estou só.
Ao de leve,
sinto em mim o vento do teu oriente.
Sigo o contorno da tua silhueta ausente,
mimada em jogos de lã.
Indiferente, fujo.
E deixo-me ficar ali.

Ao som de Type O Negative "Love You to Death"

maio 23, 2007

Todos os poetas malditos usam boxers

Conheço práticamente todos os poetas malditos. São dezoito. Já foram vinte. Um dia... Mas conheço-os, sim senhor. Quase todos. Com quase todos bebi uns copos. Com quase todos, praguejei e fumei charutos. Com quase todos vomitei vísceras e ciúmes. Com quase todos, partilhei mulheres e paixões. E com alguns, troquei versos de cores escuras, que em noites de recolha do lixo me pesavam nas algibeiras. Com quase todos, vivi histórias de vício e extorsão. Com quase todos, adormeci esgotado, com as mãos trémulas de frio. Conheço práticamente todos os poetas malditos. Chamei-os pelo nome e pelos nomes. Gargalhei com hálitos tenebrosos e absorvi as gargalhadas de quase todos. Uma vez, jantei na mesma mesa com quase todos. E outra vez, quase me afoguei por causa de todos. Conheço a cor dos olhos de quase todos. E já fiz chorar quase todos. Quase todos! Conheço práticamente todos os poetas malditos. E quase todos os poetas malditos me conhecem. Mas todos, mesmo todos os poetas malditos, usam boxers!

Ao som de The Cure "A Forest" (Damian Lertora version)"

Arrumações

Saudades de um beijo. De um tapete andaluz que nos aquece a aventura, duas velas em castiçal dourado, a almofada e o cheiro a verde, fresco como uma noite de Verão. Dizem que a paixão é vermelha. Da cor de uma rosa que se deseja. Eu não acredito. Para mim, a paixão possui beijos azuis. Um azul profundo como as penas de um corvo. A paixão inveja ouros e um tom carmesim escuro que embriaga os segundos e os gemidos. A paixão é da cor do sangue. Um sangue espesso e escuro, o elixir que resguarda a sede e provoca o abismo. A paixão é a da cor do segredo. E nesse segredo, confesso saudades de um beijo que me complete. Um de mil. O primeiro de uma centena que me sacie a fome e devolva o brilho, ao olhar perdido de amante. Vi relances de paixão em Marrakesh, no final de uma tarde ensolarada. Voltei a cruzar o olhar tenso da paixão em Cracóvia, debaixo de estrelas e à porta de um albergue antigo. Voltei a vê-la em Viena, num beco poeirento em Bombaim, numa alcofa de lençóis de linho em Toledo e no vão de uma porta em Veneza. Agarrei-a por alguns momentos e deixei-a sempre fugir. Quando já não a esperava rever, dei com ela onde menos esperava. E continuo sem saber onde a guardei.

Ao som de Tito & Tarantula "Strange Face of Love"

Claves e sóis

Era tão mais simples, tão mais cintilante pular entre dois ou três momentos de linha recta para o alto, repeti-los avaramente e com cuidado renová-los por todos os lados e arestas. Por serem dois ou três, bastam-se na sua míngua. Entregam-se as importâncias próprias das facilidades que não existem. Cada um dos dois ou três é tesouro, diamante e sal. Perpetuam-se na janela virada para o relvado, com as árvores despidas e as varandas de estores meio fechados.
Depois dos anos e das estradas mal iluminadas e pior escolhidas, ficam os dois ou três, quase frescos, quase intactos. Um aeroporto, uns olhos vidrados de boneca, um regresso à fantasia ou um flic flac campestre.
E por isso, os meus agradecimentos.

Ao som de Jean-Luc Ponty "New Country"

maio 22, 2007

Mostrengo

Regressar de um mundo inerte, sombra e herança de um manto, senhor nos seus domínios, onde o mármore coberto pela neve magoa o semblente, enquanto repousa e abriga a nudez. Das lentas sonoras do pêndulo, só restam os algarismos da fortuna e do azar, seguros por fiapos de seda, ouro de quem esqueceu os caminhos e as faces. Como pele de alguma fera, os reposteiros pesados são lã e doçura de um serão que não termina. E de um fogo lento, a lenha torna-se granito. Aqui o vento desterrou a brisa, fio cortante por onde agulhas picam os ossos e árvores serenam em quietudes altas.
Num arremedo de frugal rancor vagueia ao longo das paredes rasgadas, onde o cristal rompeu amarras. Funga todo o tempo, enfrentando os dedos violáceos numa rixa comezinha, enganando o resmungo com um riso sem ruído. Busca na recordação cores e afectos, que a reminiscência teima em lograr. Por momentos encosta-se a buscar o folgo, farsa da sua idade e desterro jovem. Deixa cair a cabeça e sente-se ermo. Exausto. Respira fundo e regressa. Não se evade. O contrato não lhe permite legar.

Ao som de Stoa "Partus"

maio 17, 2007

Não penso morrer tão cedo

Tinha pensado em escrever algo entre o racional e o filosófico, algo de ensaio, de observação, uns pózinhos de crónica, outros de visionário, uma direcção do sentido da vida. Em vez, saiu isto.

Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.

Ao som de The Curtain Society "Kissherface"