maio 04, 2007
Hesitação em terceiro acto
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?
Ao som de Saigon Kick "Sleep"
À partida do segundo acto
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.
Ao som de Goldfrapp "Utopia"
maio 03, 2007
A partida
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?
Ao som de Lucyfire "The Pain Song"
maio 02, 2007
Jovialmente, uma boa noite para si
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.
Ao som de Spectral "Avalon"
abril 27, 2007
Homenagem geométrica
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro
Ao som de Ashra "Blackouts"
Nomeações
E agora que todos estamos entendidos...
Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"
abril 26, 2007
Levitação em idioma de gringo
Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"
Arrepio meio nocturno

Descalço, prolongo a vontade de uma parede em falso, rebolo nas luzes os vestígios juvenis e sorrindo deixo-me envolver, permito que me subtraiam as agulhas e os pólens que neste corredor não me fazem falta... que os escondam longe, que os tornem mistérios por resolver. Devagarinho, fecho os olhos, levanto-me e rodeio a minha sombra com rodopios, cabriolando o tique humano, soltando-lhe as feras do impulso, com dentes de luar.
Ao tecto, aos rodapés, à ameaça e ao relógio, apenas um conselho: esqueçam a corrida e a chegada. E com um beijo, mantenham a chama acesa, mesmo se olímpica.
abril 23, 2007
Narcisista em harmonia
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.
Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"
O ábaco
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
O boletim de voto já inclui o x
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
Miudezas
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.
Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"
abril 22, 2007
Deixar o irresístivel ganhar espaço, parte 1
A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.
Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"
abril 21, 2007
Pressa
Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"
abril 03, 2007
Um cachimbo vazio
Promessas
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.
Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"
Quando Pedro me levar à pesca
Ao som de The Sound "Possession"
março 31, 2007
Coisas
Ao som de The Passions "Small Stones"
março 16, 2007
Aperitivo
Ao som de Devo "Gut Feeling"
março 03, 2007
Ficar aqui
março 01, 2007
Sorte, azar ou mais do mesmo?
Decidir entre a deriva e um porto seguro, mesmo em dias de temporal, dias molhados, encharcados devagar, ao longo do cais ou de uma fileira de árvores de um sanatório, onde se espera a hora de jantar e alguma desculpa para abrir os olhos de manhã. Decidir entre a lucidez e a ordem desigual de bocados de alguém, atirados ao papel como ao acaso, redondos, obedientes ao sinónimo e à assimetria, chuvinha teimosa de fim de estação, sussurrando deveres e agitando com firmeza a escritura do clima. E de tanto decidir, ou escolher algo em vez do outro, o depois parece sempre um destino. Um porto seguro que se expõe à deriva, salto mortal de vagas azuladas em papel de jornal, perigando os empenhos alheios e adocicando o comum dos mortais, que nem é comum, nem quer ser mortal.Naquele salva-vidas, esfregando as mãos com a força de uns olhos semicerrados, escrutinando o mar à busca de sobreviventes, cabelo deitado ao vento, golas torcidas pelo sal, os grãos de areia no fundo do bolso que teima em ficar húmido, são as testemunhas únicas de um desassossego que não se comove com abóbadas. Em vez, sem conhecer limites alfabéticos, dá as cartas da esquerda para a direita, corta as figuras sem trunfo e grita jogo, mesmo se não houver mais jogadores na mesa.
fevereiro 27, 2007
Longitude amarela, latitude branca
Repito mentalmente as geometrias coloridas sob os meus pés. Ajoelho-me e coloco as mãos sobre elas. Afago-as como antes. Regulo-me para um sorriso de intensidade três. Levanto-me e com um leve franzir de sobrancelhas, recoloco a franja na posição correcta. Permito-me um gesto humano e levo a mão direita à face, sentindo a barba por fazer. Imagino a porta amarelada com vidros rectangulares nas minhas costas, por onde se insinua um luz clara. Mantenho a direcção do meu olhar no cadeirão cinzento e na varanda por detrás. Tudo como então. Sobre o assento do cadeirão estão algumas folhas de papel, repletas de uma escrita cerrada. Pego num monte delas, segurando a primeira. As outras espalham-se pelo chão. Como uma lista se tratasse, a folha revela coordenadas, planos de voo e trajectórias, uma panóplia de destinos e posições relativas surpreendentes. Enternecido, apanho as folhas e apontando todo o maço ao arquivador do braço esquerdo, desmaterializo-as em dimensão doze. Antes da partida, olho em volta e com um toque subtil, desligo os sensores e o alimentador de emoções.
Em silêncio absoluto, passo as mãos pelo cabelo, adivinhando rasgos indefinidos. Permaneço os olhos no cadeirão e nos recortes das geometrias, tentando decorar-lhe as cores. Avanço dois passos, olho pela janela fechada, primeiro a varanda, depois a rua, com o asfalto irregular como se fossem algumas horas da noite de algum Dezembro. Sorrio e sinto toda a face sorrir também.
Depois do sorriso se apagar, volto a ligar os sensores, desloco a viseira para nível 4 e passo os dois dedos solares pelo fecho gelatinoso. Depois de acender a luz laranja, fecho os olhos e divido o pensamento nos triângulos habituais. Desloco a primeira página que encontrei sobre o cadeirão pelo cortex, dirigindo-a para os neurónios de expoente 14. Distendo os músculos e diminuo o nível de actividade enzimática, programando os estabilizadores para alguns minutos depois da partida. Com o ronronar surdo dos impulsos cardíacos em fundo, leio folha um, linha um.
Ao som de Pete Namlook, Klaus Schulze & Bill Laswell "The Final DAT Part II"
fevereiro 19, 2007
Sorriso em segunda-feira sem cinzas
Ao som de Focus "La Cathedrale de Strasbourg"
fevereiro 03, 2007
Poesia debaixo do turbante
...e esquece. A barba feita a meio, as meias finalmente, a camisola repetida vezes e vezes, o olhar cansado por um aperto. Num abrir e fechar de olhos com os pés à beirinha do cais, a cópia com letra certinha, o domingo por ainda haver segunda-feira, os papelinhos à sorte, a rua a descer e o barco vermelho pousado no rio. E perto da esquina, à laia de cantos de natal, repetem-se lá lá lás.
Ao som de The Waterboys "December"
janeiro 16, 2007
Só e mal acompanhado.
Ao som de Act "Absolutely Immune"
janeiro 12, 2007
Certamente
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.
Ao som de New Order "Your Silent Face"
janeiro 10, 2007
Linhas paralelas
Ao som de The String Quartet Tribute "True Faith"
janeiro 09, 2007
Depois das velas apagadas
Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.
Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"
dezembro 28, 2006
Um pouco de alguma coisa
De propósito, sem acaso, procurar alguns degraus junto ao mar e sentar, deixando alguma distância entre os pés e a areia. É um começo. Juntar as mãos virginalmente e esboçar um suspiro. Sustê-lo. Franzir os olhos e percorrer o horizonte. Manter as mãos juntas sem pensamentos impuros. Sorrir. Diminuir o sorriso e prolongá-lo. Lentamente diminuir a tensão nos ombros e nos dedos e soltar o suspiro.
Olhar a areia e adivinhar-lhe a temperatura. Deter o impulso de avançar e pegar-lhe, mantendo as mãos juntas mas com as pontas dos dedos a passear na impressão digital. Juntar os pés. Pressionar as coxas contra a madeira e evitar contar os segundos. Olhar o mar e procurar ao longe uma onda. A primeira que encontrar não vale. Seguir-lhe os avanços, vê-la aproximar e desaguar na areia. Desejar-lhe um bom regresso. De relance olhar o ceú e esperar o consentimento. Ao levantar, fazer um esforço por não afastar os pés. Pisar com firmeza os restantes degraus como se pisasse almofadas. Ao primeiro contacto dos pés na areia, deixar cair os braços, distender os dedos e fechar os olhos. Quando a sensação chegar a areia já estará à espera.
Tudo o resto também.
Ao som de Vangelis O. Papathanassiou "Lei It Happen"
dezembro 27, 2006
Terceira parte
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
dezembro 24, 2006
Segunda parte
Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?
Ao som de GOL "No Bounds"
dezembro 19, 2006
Primeira parte
No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.
Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?
Ao som de Riverside "The Same River"
dezembro 18, 2006
A moeda tinha duas caras
Ao som de A.R. Rahman "Musafir"
dezembro 14, 2006
Em qualquer lado
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.
Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"
Culpado por não saber parar o tempo
Ao som de Dean Wareham & Laetitia Sadier "Bonnie and Clyde"
Gritar ao passar a ponte
Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"
novembro 27, 2006
Três degraus
De ocaso em ocaso,um bolso intenso
de uma gabardine habituada
a esperar o momento
e o néon súbito
da espera
e do soluço,
revolta de não ter chave
nem porta para abrir
os lençóis
para esconder alguma parte do corpo.
Segundo a sua doutrina,
elevou algo que conseguiu lembrar
e num relevo
que sempre lhe marca o rosto,
decide andar mais um pouco
na certeza de algum sorriso
ou lágrima
que consiga suportar
e esquecer.
Quando passar por ele
não o conhecerá,
perdido
em desvendar traços
e espessuras
iluminadas por tons banais,
cinturas
e ombros encolhidos
entrelaçados por olheiras
e por instantes.
Sentado no passeio,
deixou-se seduzir
por um candeeiro insinuante,
véu significado de desmaio
na epiderme de vontades
e prazeres,
panos sumptuosos
de oiro carmesim,
ignorâncias assumidas
por desconhecer a cor.
Da varanda agastada
pelo arrepio
do escuro,
seguiu o sulco deste homem
serpenteando alguns minutos
no epílogo
de tantas noites,
querela de pontos cardeais
e de uma coroa de conde,
vénia de ciscunstância amarga
e proveito
de quem espera
e sabe,
estar a porta aberta
e os lençóis
aquecidos.
Ao som de Ratnabali Adhikari "The One part II"
novembro 26, 2006
Aconchegadamente
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.
Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.
Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.
Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.
É tarde.
No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.
Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.
Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.
Prometem desassossego
e os dias seguintes.
Ao som de Godsmack "Serenity"
novembro 22, 2006
O trunfo
Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.
E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.
Ao som de Love "Old Man"
novembro 17, 2006
Mordiscando
novembro 04, 2006
Régua e esquadro
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.
Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"
outubro 31, 2006
Edital
1 - Estão proibidas balas cor de rosa;
2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;
3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;
4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;
5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.
Boa tarde
Ouvi mas não me lembro onde
Ao som de The Stranglers "The Raven"
outubro 20, 2006
O sol, o anjo e a fogueira
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
outubro 13, 2006
Ámen duas vezes
Ao som de OMD "Statues"
outubro 09, 2006
Vista actual
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
setembro 22, 2006
Dia 22
Ao som de Peter Ellis "Angel"
setembro 16, 2006
Adro
Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.Ao som de The Church "Under the Milky Way"
Redondos
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.
Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"
setembro 13, 2006
Despertador
Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"
Esta, não é uma mensagem
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
setembro 05, 2006
198?
Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.Encostada à mesa de tampo de mármore, mãos esquecidas, mordia mais um naco de história amarga, polvilhava com o açucar que encontrasse e semicerrava os olhos, esperando a porta abrir e alguma brisa lhe lembrar a morada. Levantava-se, olhava as migalhas como amigas e com o suspiro que alguém lhe ensinara, murmurava as boas noites e perdia-se na rua de sempre.
No outro dia, já toda a gente comentava. Tinham-na visto no telhado. Tinha fugido.
Ao som de The Smiths "Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me"
setembro 04, 2006
Liquidez
Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.Ao som de Yello "Pinball Cha Cha"
Com a mão no bolso
Ao som de The Stranglers "Hanging Around"
Medidas mais ou menos drásticas
Ao som de Trust "H & D"
setembro 01, 2006
Depois da bonança
Ao som de Trust "L´Elite"
agosto 31, 2006
Mais uma última ceia
agosto 30, 2006
Por um dia número vinte e seis
Por todas as meias horas de meios dias cheios de meadas de lã, de chávenas com liquidos de plasticina e muitos, muitos ramos de alfazema e jasmins que aprendem a crescer sózinhos, sem risos por cozinhar nem caras de cem riscos oblíquos e gargalhadas altas de quebrar vitrais.Por idas ao circo de mão dada, pelas cascas de pevides atiradas ao rio, por tartes e bolos de geléia e bolachas a sair do forno, estaladiças e únicas em migalhas que nunca são restos, entre pêssegos e baldes de areia que duram até ao Natal, debaixo da mesa da saia comprida onde se decidem a sorte e as manhãs seguintes.
Por acaso e por tudo o que é da lenda, por isso e por aquele passo a mais no jardim, por cima enquanto o telhado aguenta e por alguma razão que me escapou, por ser domingo ou a segunda feira ao pé do meio dia e o tempo durar e durar muito além do cabo das tormentas.
Porque sim.
Ao som de The Rolling Stones "She´s a Rainbow"
agosto 28, 2006
250 gramas de sono
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.
Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"
Pausa
agosto 08, 2006
Na borda do precipício
O piloto é de uma vilazinha junto a um mar. Uma ilha. Sonhou voar para fugir aos dias sempre iguais. Não sabia que fora dali, os dias ainda são mais iguais. O da máquina fotográfica a tiracolo vem de uma grande cidade. Uma das maiores, das mais ruidosas. Sente falta de um certo café, vai para oito ou nove dias. Não faz a barba desde esse último café. Penteia-se rudemente com os dedos sujos de gordura. Tem os olhos inchados e duas novas rugas que ainda não conhecia. Tem um bebé, lá na grande cidade. O terceiro... a terceira, esfrega as mãos uma na outra, mesmo se as luvas distraiam o frio. Tem o cabelo pelo pescoço, castanho de um claro estranho. Bebe um resto de chá em pequeninos goles. Olha com atenção os pingos de chuva que se estatelam no vidro da frente. Já não lembra do sol e da praia junto ao resto do farol. Só amanhã. Ou depois... Quer dizer qualquer coisa, mas o barulho das pás e do rotor torturam-lhe o silêncio. Faltam duas horas para a noite. Para o destino, um pouco mais. Se tudo correr bem.
Se este momento fosse o momento certo, talvez descrevesse as condições e as consequências, ao mesmo tempo que omitiria as razões. Nem sempre a presença de todas as faces dos dados é necessária. E quase nunca indispensável. Deixava escapar alguns pormenores sem interesse, alguma migalha biográfica, um vício ou dois, um canção cantarolada e mesmo assim cada um imaginaria na sua conveniência o motivo e a moral de cada um. Mas este nem é o momento certo, nem eu sou o anfitrião de uma história que nem é história. Às vezes tudo acontece sem argumento, porque tem de acontecer ou apenas porque sim. Os seus olhos muito atentos, cruzaram-se oito ou nove dias atrás na mesma sala do mesmo concerto. E muito atentos, ouviram as explicações e os momentos de euforia. Comungaram a estranheza de se encontrarem ali, em desviar o olhar. Não costumavam sonhar acordados, seguiam lógicas encarreiradas, não fumavam e sorriam com a preocupação do exagero. Não gostavam do amanhã sem agenda.
O helicóptero descreveu uma ligeira curva para a direita e descaiu teimosamente de encontro às ondas. Ela agarrou-se à pega junto à janela e deixou cair a caneca que rebolou para os pés do fotógrafo. Com os pés em esforço, rangeu os dentes. O piloto esmagou o punho e fez força em vez de imaginar trajectórias. Todos, muito atentos, partilharam o mesmo lamento. Não encontravam a palavra certa.
Ao som de Tangerine Dream "3 AM at the border of the Marsh from Okefenokee"
Já são sete horas?
Podia ser Outubro. Umas onze da noite, por qualquer motivo. Ou Novembro, às seis e meia tarde. Podia estar encostado ao segundo prédio depois da esquina, pé na parede e pé pisando um resto de uma folha cor de rosa, de à três dias e onze e meia da noite de encontro marcado. Podia ter o cigarro a meio, a vontade de acender outro sem acabar este, a sede de uma cerveja belga ou outra à escolha, um lugar sentado no primeiro autocarro de número primo que parar, ou uma lata de caviar e algumas tostas partilhadas nas escadas do metro com um sem abrigo húngaro. Podia ser a sessão da meia noite no cinema junto ao quartel, apenas porque me lembro de algo interessante. Podia ser quase amanhã, os carros estacionados só do lado direito, as árvores quase caladas e o caminho de volta a casa, depois de um serão com um casal de franceses que ainda se lembra do comboio a vapor. Podia ser quase Natal. E quando passasse pelo segundo prédio depois da esquina, via no chão um bocado de papel cor de rosa, as beatas de dois cigarros e a vontade irresistível de abraçar a primeira pessoa que passasse. Mesmo se fosse a pessoa certa.Ao som de Tangerine Dream "Tangram set 1"
agosto 07, 2006
Paragem
Devagar. Muito devagar, um pé a seguir ao outro, ver a sombra mudar de carril e esperar que ninguém se mova nem que o céu caia no esquecimento. A electricidade parou e as margens estão muito quietas, quase sinceras. O telefone está esquecido no fundo de uma gaveta. Dorme com o passaporte do seu lado e o relógio parado à cabeceira. Devagar, muito devagar, a sombra dobra a esquina. Procura sinais de fumo ou outra desculpa qualquer. O pneu do camião continua furado como na véspera. E a véspera nunca foi ontem.Devagar, muito devagar, a cidade sorri a si mesma. Tal e qual como num verso.
Ao som de GOL "No Bounds"
agosto 04, 2006
Recatos
Ao som de Fish "Moving Targets"








