dezembro 12, 2010
Simpatia
O primeiro passo é olhar as ruas, todas sem míngua de vontade. O segundo é apresentar-me à fauna. Deixá-la levar-me, percorrer os céus e os infernos como quem procura um cigarro e uma bebida confortável. Embelezar a curiosidade com sem-abrigos e estrelas de cinema, sentá-los a todos na mesma mesa, mandar servir o que a imaginação pedir, gargalhar alto impedindo os donos de fechar as portas e os poetas. Sempre os poetas. Impedir o seu silêncio, da mesma forma que um copo de água nunca se recusa. Prazer em conhecê-lo. A si, a todos, a ti. Gosto de me sentir seguro entre vós. Gosto do vosso toque, agridoce, pedinchão e de amor na ponta dos dedos. Deixam-me rezar um pouco? Um minuto da vossa noite? O bastante para me redimir perante os ausentes, os que me assombram os dias, recheando-os de estradas à chuva por entre bancos e loja tardias, ou de tartes caramelizadas com voz doce, ou quem apenas está, de luz aberta, conferindo-me o poder da sugestão e de lençóis aquecidos pelo seu labor. É tudo ganho. O passado, o imaginário, o sonho onde me questiono se sonho, mesmo se todos os sonhos começam à entrada do jardim, olhos no este, costas ao mercado e ao mar por detrás dos prédios, que nunca são maiores que 44 andares. Um dia serão 444. Um dia sem sonho nem olhos fechados. Um dia em que as guitarras não gritarem, os lábios não se juntarem e o fumo não se escapar por entre os dedos. Tudo tão longe, anoitecendo tão cedo, pulverizando a recordação como cenário de guerra encavalitado na incúria e em todo o charlatão vestido de farda. Prefiro-me sem travões na bicicleta que todos os fatos e gravatas que os salões fechados podem comportar. Sorrio aos uivos, aos cabelos ao vento, às senhoras velhinhas sentadas nos cafés à espera de logo à noite. Beijo-as. Ajoelho-me a seus pés e irei jurar-lhes pedras preciosas, nem que guie toda a noite para as ir buscar ao oriente. Nem que me crive de balas para as honrar. Nem que morra primeiro. Olho os dedos, a minha pele camaleónica tomando textura de lagarto, o torpor a velhice querendo entrar-me na figura. Nunca abro a porta a desconhecidos. E aos conhecidos, exijo senha. Só a mim e aos meus filhos, isento as formalidades da fronteira entre este mundo e a medusa que abocanha o trovador e abre a porta pesada da evasão. Conheço-a de estradas poeirentas, de caves onde dança o bafio, dos semáforos onde morre a gente e os jovens que não merecem sair de cena. Conheço tanto e temo esquecer-me de tudo. Escrevo. E ao escrever, exorcizo as querelas e a fome. Apenas água para ferir a existência. E o vinho esquecido na garrafa no aparador. Para que em vinagre, provoque alguma emoção deixada ao acaso.
dezembro 06, 2010
Regressos
Azuis que invejam, azuis que envaidecem, azuis pecando por escassos, azuis de água, mãos frias e essa menina sentada na areia, precipitando o meu desejo por longos pingos de chuva e anos de pele fina e riso fácil. É tudo o que fica desse tempo roído lugar, nessa areia que ainda existe, mesmo se no fundo de um mar que regressa e traz pretéritos, mas sem cheiro, mas sem rosto molhado e roupa encharcada. Agora existe desejo, serpenteares de um sinuoso dourado, mas gastou-se a inocência, essa espuma húmida de longo sabor doce.
agosto 31, 2007
11:47
Entre o lentamente e o necessário, os meus olhos vão-se fechando. Num absurdo de sol lá fora e luz eléctrica acesa, o pó por limpar, antecipações à espera de um esforço final, papéis que dobram a sua importância cada dia que passa e compromissos que se vão cumprindo sem o rasgo final, tudo gira à volta de células que se atropelam. Decidem-se direcções e nunca se sabe por onde começar, mesmo quando o óbvio se senta muito calado e atento defronte dos olhos. Num mesmo tempero, a imobilidade, pitadas de objectivos, um cálice de licor agridoce e um permanente fio de procurar as coisas nas novas prateleiras, mesmo quando nem sequer sairam da loja. Mesmo quando ainda não se conhece a loja.
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.
Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.
Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"
Pausa actualizada
Se o seu dicionário discordar, deite-o fora... com desprezo.
Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"
Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"
agosto 30, 2007
Pausa
Palavras de todos os dias
Um café e o valor do cheiro que não se paga. Um sorriso sem ter que ser, mas que é porque esta lá. Um encontrão e um desculpe com resposta. E os dois estão vivos, não se conhecem e aceitam-se no pedido e na resposta. Alguém sentado no muro, à espera ou se calhar só por estar ali. A barba por fazer e mesmo assim os olhos franzidos ao sol e à manhã. A esquina e a seguinte, o passeio sujo, as ervas nascem entre as pedras de calçada, as paredes cinzentas, os carros estacionados sem geometria, alguém que passa e outro e mais um, além. E mesmo parado, a vida passa com o tempo que se inventou e não serve para nada.
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.
Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.
Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"
agosto 29, 2007
Talvez 17 músculos
Repetem-se apelos, esvaziam-se gavetas para se encherem logo de seguida, alinham-se as gravatas e em cada mão uma garrafa para o acordar lúcido de cada pesadelo. Eis o mote.
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.
Ao som de Marillion "Fugazi"
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.
Ao som de Marillion "Fugazi"
agosto 24, 2007
O melhor dia de Verão
Os olhos húmidos de um lilás esmerado reconhecem separações e justificam desertos. Nas multidões, passar por entre estacas e animais, uns à solta outros em liberdade nas suas jaulas, por muita imensas que sempre pareçam, é resolver um caminho de atrasos e figurantes empenhados em protagonismo. Ser real e já nem existir.
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.
Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.
Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"
agosto 17, 2007
Ele há coisas tão simples
Depois de dias e dias enfiado na gruta, sem sol, sem mar a perder de vista, sem sorrisos a resvalarem-me no ombro, sem perguntas banais e relógios com ponteiros nos devidos lugares, só na companhia do teclado, procuro tentativas de regresso. Mas não tenho claro o fio da meada, se calhar por não ter a certeza onde ele começa. Talvez preferisse alguns dias estendido no sofá de estimação, a roer pêssegos, ler Maigrets e ouvir todos os sons que me vierem à cabeça, por muito inocentes que sejam. E nas pausas dos interrogatórios, enquanto acompanho o velho Jules num copo de cerveja, reflectir e meditar enormidades.
... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.
Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"
... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.
Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"
junho 17, 2007
Ao fundo, apenas o saco de ginástica
Por muito sossego prometido, aquele que se acha ou se julga e percorre os veios da madeira do chão, seguro, envernizado o bastante para surgir e entabular conversa, nunca é o bastante. Ficam de fora algumas pontas soltas, as presenças, bastando-se a si mesmas, sem voz, apenas estando, os balanços, as coincidências. Revelar-se num cenário que nunca se pensou, agreste, virulento por se considerar menor, aquecido por artes, nunca ofícios, metade de um postura que resvala, por sentir o soalho mais confortável ou longe de recusa. Já pensaram nisso? Na redonda aquiescência de agradar o prazer. De lhe permitir intensidades e fugas, mesmo quando não se pretende a saída. Sugerir em pensamento a fragilidade, o sustenido bastante para transformar as palavras em ininteligíveis ímpetos. Mergulhar na falésia e no mar ao mesmo tempo, retirando o organismo ao mineral e a paz ao oceano. Suar.
E sempre que haja um fim, raptá-lo, estorquir-lhe o nome e abandoná-lo à deriva.
Ao som de Pink Floyd "Careful with that axe, Eugene (Live from Ummagumma)"
E sempre que haja um fim, raptá-lo, estorquir-lhe o nome e abandoná-lo à deriva.
Ao som de Pink Floyd "Careful with that axe, Eugene (Live from Ummagumma)"
junho 15, 2007
Tácticas
À direita, romanos. Ao centro, alguns fariseus e o que sobra de Samaritanos. À esquerda, todos os vendedores de castanhas e alguns, poucos, cantores de ópera. Por detrás das colunas, lá no canto da praça que dá para o mercado, apenas os três juízes de fora. Fora! Às janelas, à espreita, obséquio das cortinas de renda, as velhas do costume. Caladas. Na varanda do primeiro andar, por cima da tasquinha e do lado da bandeira, de cócoras atrás das sardinheiras, o abade dos almoços das terças-feiras e o professor de direito. Encostados à mesa dos frios, o fornecedor de farinheiras e o homem do gás, pausam os goles de copo na mão. À espera. Miúdos, nem vê-los. Polícias, também não. Quando olho para trás, encolho os ombros. Só ministros e candidatos.
Ao som de Vaguement La Jungle "Youl"
Ao som de Vaguement La Jungle "Youl"
Masgreevia
Masgreevia. De tudo um pouco, sem remorso nem escrúpulo, desolado por me esquecer de algo ou alguém, mas nada mais que isso. Sorridente, porque me quero justificar. A vida por aqui, nesta combustão, resolve-se em poucos dias. Ou décadas, é o mesmo. Está por horas, dizem os que me servem. Pelo previlégio de ser servido por eles. Impingem-me tinto e branco, à vez. Sorrio. Permite-se tudo em poucos passos, com os pés sob as mesas, quatro delas, entre gestos de camaleão, certo de verdades muito maiores, mas muito mais inúteis. Recitam-se desejos. Surdos. Mudos. Nas paredes pejadas de retratos de todos os alguéns, nas lajes, pasto de beatas e desapegos, nos bolsos, vazios de alma, resiste-se à hora final. Há sempre um fim, mesmo quando enceta algum imprevisto. Haja festa... haja festa. Não vá ser dia dela.
Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Begin-ing"
Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Begin-ing"
Lanças e gemas de ovo
Alanos, Suevos e Vândalos,
beberricando limões,
embalados num baloiço
todo pintado de fresco.
O imperador,
sossegado,
descasca ervilhas
entoando,
as ladaínhas das quintas.
À mesa,
um anão e um carrasco,
defrontam ases e quadras
entre récitas obscenas
e fritos mal digeridos.
No peitoril,
à janela,
a única que ainda existe,
o papagaio recita.
Da manhã dolente e sóbria,
solarenga no acepipe,
a lembrança sempre alcança:
esqueci-me dos Visigodos.
Ao som de John Surman "Part III - Kentish Hunting (Lady Margaret's Air)"
beberricando limões,
embalados num baloiço
todo pintado de fresco.
O imperador,
sossegado,
descasca ervilhas
entoando,
as ladaínhas das quintas.
À mesa,
um anão e um carrasco,
defrontam ases e quadras
entre récitas obscenas
e fritos mal digeridos.
No peitoril,
à janela,
a única que ainda existe,
o papagaio recita.
Da manhã dolente e sóbria,
solarenga no acepipe,
a lembrança sempre alcança:
esqueci-me dos Visigodos.
Ao som de John Surman "Part III - Kentish Hunting (Lady Margaret's Air)"
junho 12, 2007
Videiras e sultanas
De longe,
num repente de causa incolor,
existe a descoberta de um céu vagaroso,
onde
um quarto de hora
é beijo
e é tempo.
Travo a travo,
surgem palavras asteadas,
jogam-se cartas na Bretanha
e graceja a subtil entrega.
Com sotaque a limão e gengibre,
regressa a canela ao marfim.
Entre orações,
as ameixas adormecem fatigadas.
De retorno aos caules,
atento à poeira e talvez benvindo,
um vento velho conhecido
preso por cordéis ao paladar,
desagua a espuma de uma onda
sem ter mais nada que lembrar.
As cores encostam-se ao dia.
E sorvendo os restos de vida
que se deixam para trás,
um homem de idade.
De olhos abertos.
Ao som de In the Nursery "Days Of Freedom"
num repente de causa incolor,
existe a descoberta de um céu vagaroso,
onde
um quarto de hora
é beijo
e é tempo.
Travo a travo,
surgem palavras asteadas,
jogam-se cartas na Bretanha
e graceja a subtil entrega.
Com sotaque a limão e gengibre,
regressa a canela ao marfim.
Entre orações,
as ameixas adormecem fatigadas.
De retorno aos caules,
atento à poeira e talvez benvindo,
um vento velho conhecido
preso por cordéis ao paladar,
desagua a espuma de uma onda
sem ter mais nada que lembrar.
As cores encostam-se ao dia.
E sorvendo os restos de vida
que se deixam para trás,
um homem de idade.
De olhos abertos.
Ao som de In the Nursery "Days Of Freedom"
junho 03, 2007
Nem em dez mil anos
Como num impulso, num arrebatamento passageiro, daqueles que nunca demoram mais de cinco minutos, encontram-se os motivos e as causas. As que valem a pena. Os que permanecem próprios. Nunca obtive a promessa nem sequer a resposta a este fenómeno. Sempre me surpreendeu e manifestou ousadia. Ou então, apenas um suave sopro. Uma guelra oferecida pelo acaso. É nestes momentos que preciso de um outro de silêncio. Só para respirar. Abrandar. E então a urgência, impelida pelo composto químico que a reveste, mostra-se ufana, cúmplice de portas entreabertas, resistências ínfimas da descoberta e do enlevo. Só por isso, vale a pena burlar o suicídio.
Ao som de... não sei se digo...
Ao som de... não sei se digo...
À falta de poder, ficam as flores
Um sono que vai e vem, amparado por névoas que só acontecem aos fins de semana, rebelde e refém ao mesmo tempo, como as tardes à boleia ou acordar em casa de outrém, já depois desse alguém sair, assumindo o trono sem se saber o que se está ali a fazer. E mesmo existindo esse compartimento fugaz, que é a noite, morder o sono durante um sábado claro é roer algo que se perde, um pouco como a importância dos mandarins ou das caldas de açucar sem proporção manipulada. Tem graça, tudo se resume a estados de alma, ou lá como chamam a essa aura, quando há reunião magna de deuses. Ou circunstâncias macias que aferrolham branduras, ingredientes e plenitudes. Eu sei, os egoísmos são caldeirões maciços onde o instinto apura com o prazer. E eu, de prato de sopa na mão, espero a minha ração. E talvez vá repetir.
Ao som de Sonic Youth "Unmade Bed"
Ao som de Sonic Youth "Unmade Bed"
junho 02, 2007
Um plano inacabado
O plano eram as mil luzes da cidade reflectindo uma ideia. O reflexo, trémulo de neons adormecidos, sentiu-se ao longe. Muito longe. E eu, significo a calma, procuro o prazer e olho o nevoeiro. Ao som de Public Image Ltd. "The Order of Death"
A divisão prescinde da vaidade
Os sonoros invadem as privacidades, revolvendo os segredos bem guardados. Atentam contra a vida e o destino e sopram as fumaças dos incêndios. Dentro deles surge a calma e o sereno, ângulo submisso na intenção de subtrair a vontade. Espera-se com a fatalidade da sabatina. Quietos, envolvem a estrutura. Fadigas, entretêm intrujices. E sujos, violentam as carícias num acto de loucura submissa. Contentam acordes repisados como soluções envolvidas em hortelã-pimenta. Tornam gigantes as três manias. A curta atitude das milícias e a nova ordem magna da cobiça. E para quem consente a mentira, têm a ternura sempre omissa.
Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"
Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"
Percepção
Devagar. Como se fossemos sacos de chá, mergulhados em banhos mornos. Submissos a uma varanda acariciada por cachemira, seguindo um rasto de canela como se fosse pólvora, sinuoso, incinerado por golfadas de mais e mais, enquanto a lua não sabe o que fazer. Por entre as árvores o ar repete jogos, sopros murmurados de perto, indiscrição madura de onde resvala a pele de cerejas inocentes. Na pausa e no recesso, convergem fios que o sono deixou esquecidos. E em vez de objectos e artefactos, onde as peças de tecnologia são ínfimas, degraus são altar que repelem religiões, espécie de virtude por inteiro, púnica no alheamento e segura na separação. Encostado a uma parede, está um biombo. Atento e intento. Em prolongar.
Ao som de... não digo
Ao som de... não digo
junho 01, 2007
Enquanto vazio

Com a fragilidade ao longo da pele, suavidade tensa e contida, surgem os remoínhos. Sugere-se um altar, um apartamento vazio de janelas e silhuetas obscuras, um armazém comprido e repleto de flanelas. Permite-se o desgosto, a leviandade, até algum torpor com tonalidade de preguiça. Tudo desde que acompanhado de um sonambulismo iluminado por monitores de tons azulados. Aguarda-se um suspiro ou qualquer outra forma de indiferença casual, como se a verdade estivesse presa por cordéis de marioneta. E a verdade é observar a verdade, pé ante pé, audaz no seu modo de boneca, forrada do tecido que convém ao baile e perdida no salão, ante os espelhos que esmagam e os veludos que enternecem. As meninas trocam risinhos emboscados, as senhoras sustêm os leques em atitude de concha enquanto as matronas, revelam impaciência. Serenam-se os pecadilhos de pouca monta, apenas por um travo a carne fresca. Tudo gira à volta de mecanismos estudados em pormenor e projectados só para esta noite. Uma câmara, estratégica num pulsar milimétrico, capta atmosferas em vez de imagens. Pretende-se transformar veias em artérias. Imbuir o sangue de sabor. Repetir à exaustão, as seduções e outros subornos. Selar com prazer, os nãos, os sins e o talvez; mas apenas quando este for indeciso.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
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