Renomeio a noite
em lâminas bruscamente finas.
Prometo-lhes a devoção
e todas as manhãs.
Serei virgem,
complicado ermo de realizações,
pecado íntimo
de todas as que almejo,
segurança de ventre maternal
conhecendo as agruras
e os limites.
Sabias que era preciso entrar
para sair.
Tinhas as certezas
de elipses por acabar.
Soubeste largar em voo
todas as andorinhas do teu bolso,
e as árvores...
As árvores,
colheste-as cedo demais.
Carregas na alma
as folhas que não agarraste.
janeiro 15, 2011
janeiro 09, 2011
Espaço
Havia uma sexta-feira, muitas, todas as que sabiam a sabor, de noite cerrada e candeeiros de aldeia sem alumiar quase nada. As mesmas curvas, as mesmas casas de luzes apagadas, as janelas de persianas corridas e sonos antes do tempo, a busca de uma ponte em silhueta e as luzes da cidade decalcadas no rio. Poucas coisas se oferecem assim, sem brilho de precioso, só com aquela sensação de alma, de alguma boa acção paga com juros. Era o tempo em que dois dias eram mundos e fundos, maiores que uma razão de tempos modernos de uma civilização de números sem tempo para nomes. E havia uma sacola. E gavetas meio vazias e cheias de tudo o que dava prazer. E uma vidraça alta que de manhã estaria preenchida. As coisas, as janelas e as escadas de sete degraus são como uma garagem de porta de madeira rolando num veio de ferro, um piso de cimento com manchas de óleo secas e as prateleiras empoeiradas de dias a fio escurecidos, sem haver sexta-feira nem o dia seguinte. Mas havia. A sexta-feira estava lá, aprumada, resolvida a luz ténue de um tablier iluminado. Tão simples eram as sexta-feiras, antes de sermos crescidos, por fora e por dentro.
janeiro 05, 2011
O homem com o sorriso que não acaba nunca
Nesta chuva que o meu cérebro há-de beber até à última gota, saboreio o último chocolate na certeza de me saber o dobro, mesmo depois de duas semanas em salmoura, pechisbeque em cima da cómoda, ladeado pelo relógio e algum perfume esquecido por alguma das amantes. Não me deito com os nomes, logo, não preciso deles. Chamo-lhes divindades, cada uma, uma diferente. E saboreio-as, mesmo se alguma for a última. Será, porque não pretendo ficar aqui. Comprei os bilhetes de todos os comboios que partem hoje, por se algum acaso me decida destino. E não o serei enquanto saborear o último chocolate, enquanto a chuva continuar a cair, tropeçando no beiral da varanda para se estatelar no passeio mal cheiroso. Devia ter oferecido o último chocolate ao sem-abrigo que me faz sorrir. Lá estava ele, sentado no carro abandonado onde dorme com os cães, janela meia aberta e sorriso meio aberto. Sorrio porque tem um sorriso que faz sorrir. Chamo-lhe o homem do sorriso que nunca acaba. Assim, como num provérbio árabe que se aprende no deserto à beira dum poço. Saboreio o último chocolate com o céu na boca sintonizado no seu sorriso. Sem perfumes, nem amantes sem nome. O seu sorriso que não acaba nunca, mesmo depois de lhe oferecer o bilhete de comboio e de o ver de braços caídos, olhos doces e sorriso que não acaba nunca. Eram 14 horas e o próximo só parte às 18. Se me decidir...
janeiro 04, 2011
Maneirismos
Escrevia todos os dias uma carta. Dobrava em quatro, soprava o envelope em busca de espaço e penetrava-lhe a brancura com o papel bem apertado, não fosse a dobra traí-lo. Escolhia sempre um selo com animais. De preferência pássaros. A carta chegaria mais depressa. Lambia com vontade e com o polegar que gostava mais, pressionava até a falange estalar. Tinha um hábito difícil. Escrevia sempre o endereço já depois do envelope fechado. E só fechava o envelope depois do selo colado. Olhava-o de frente, estendia a língua e passava-a em ângulo obtuso ao longo da faixa de goma, sorvendo-lhe o sabor como um colegial apaixonado. Só depois o deitava de costas, e de tira linhas em punho, num fio de escrita finíssimo e de traço azul, de tinteiro, afincava-lhe endereço, nome próprio e apelido, deixando sempre um Excelentíssimo como o tio lhe tinha ensinado. No remetente, apenas as iniciais entrelaçadas, à boa maneira daquela época que teimava em esquecer-se. Apoiava-o em 60 graus e admirava-lhe a alvura manchada de azul com sainete. Orgulhava-se dessa gentil obra diária, sinal de respeito pelas instituições e códigos de civilidade. Por fim, tomava-a nas mãos, pois só nesse momento era carta, e atirava-a para o gavetão aberto, obeso de envelopes marcados a azul. Um dia, passaria pelos Correios. Quando o Rei fizesse anos.
Dia 4
Vontade de mergulhar nessa tua nudez. Sentar-me ao longo da rua onde vives, levantar os olhos a todas as janelas e adivinhar onde te sentas. Voltei a sentir, sabes? Voltei desse litoral onde cada passo se afunda. E aqui, na tua rua, voltei a sentir-me como antigamente, sentado no degrau, encostado à porta da garagem, segurando o sol e a lua com as duas mãos. As mesmas mãos que preciso para te segurar e te sentir a vontade. E ao saber-te, ao reconhecer a janela onde sentes a noite no vidro, encolho os ombros à sentença de escolher entre o dia e o luar. Abro as mãos e deixo escapar o sol e a lua. Visto o sorriso que trago sempre no bolso e corro rua abaixo atirando as mãos bem alto, num movimento descomunal de entrega. Desejo que me tenhas. E desejo-te ao longo da rua onde vives.
janeiro 03, 2011
À porta do museu
Deixei-me nas ruas e nos recantos onde os degraus afinal são maiores. Fiquei colado às portas giratórias, meias vidas de dentro e fora onde o cheiro da comida é mais forte que o frio. Esqueci-me das palavras que sempre soube, viradas em consoantes e esgares de um novo que recorda dias sem meio nem fim. E depois veio a chuva. E as ondas tornaram-se maiores. E o areal mais claro. E eu, encharcado pelo dilúvio, marquei este momento para sempre, um minuto maior que os outros minutos, uma viagem de barco rumo ao outro lado, embarcadouro cheio de casas e cansaços, pai de dois filhos regressando de uma miragem. Ao longe, depois das luzes e hipnotismo de sonhadores, ficaram os degraus. Afinal os degraus são maiores. Como o são as fileiras de janelas e as linhas rectas. Como o desejo de uma árvore em cada esquina, e descobri-las a todas junto ao lago.
dezembro 29, 2010
Dia 29
A menina encostou-se à janela e procurou na rua algum resto de amor. Seguia-lhe os passos pelo resto de passeio mesmo em frente da varanda comprida. Via-o descer os degraus de tijolo vermelho, saltar o passo de relva e correr o fim do parque de estacionamento, antes de saltar os degraus da entrada e deixar de vê-lo. Todos, quase todos os dias, acertava-lhe o meio da tarde, neste regresso a casa, lanche antes da torrada que a mamã lhe barrava com doce de morango. Um doce antes do doce. E depois, sempre sem excepção, olhava a janela de persiana corrida até a ver subir de três sacões e o saber olhando o horizonte de aviões e autocarros apressados. Sempre, também quase sempre, ligava o gira-discos e punha a agulha no princípio do disco, sempre a primeira canção do lado B, sempre à espera do mesmo minuto e meio final, prolongando o olhar, os passos debaixo da sua varanda, a persiana a subir e o desejo desse beijo prolongado nos seus lábios cor de rosa enquanto a mão lhe tocava o rosto. E sempre, sempre, antes do fim da canção, recuava a agulha e repetia o minuto e meio. E encostada à janela, beijava o vidro embaciado enquanto tocava a sua face com as mãos frias. E aí deixava-se ficar, até a canção já não ser canção, até os passos deixarem de ecoar, até o beijo só se desejar no dia seguinte. E sentia-se menina, mesmo com o contorno de mulher desenhado na janela embaciada.
dezembro 28, 2010
dezembro 24, 2010
Dia 24
Lembro-me de acordar muito cedo. Lembro-me de já haver areia da praia para aconchegar a árvore de Natal. Lembro-me de muitos cheiros adocicados, da cozinha cheia, de um certo brilho no ar. Lembro-me de uma excitação que não lhe sabia o nome. Lembro-me de esperas e uma sofreguidão de desejos. Lembro-me de sorrisos. Lembro-me de não sentir frio. E o frio passava por lá. Lembro-me que nada disto parecia ultrapassado ou fora de moda. Lembro-me e ao lembrar-me, nada disto me parece deslocado no tempo. Lembro-me e tenho saudades. De ser tão pequeno que não era preciso lembrar.
A Gôndola e a Ilha
Ácido como sabor numa previsão passageira.
Desenrolo uma écharpe comprida sobre o rosto vítreo e puro,
frio de eternos Invernos, rigoroso como a fábula.
Dos lábios dormentes e mudos, adivinho as doçuras.
Guloso, fico a olhar a morta, sem vassalar nenhum vivo.
Imóvel, acredito na palidez.
Rebusco os bolsos em busca da minha cicuta.
Verifico-lhe a natureza e engulo de um só trago.
Faleço sumariamente e dispo o preconceito.
O que restava.
Somos então um.
Violentos.
Desenrolo uma écharpe comprida sobre o rosto vítreo e puro,
frio de eternos Invernos, rigoroso como a fábula.
Dos lábios dormentes e mudos, adivinho as doçuras.
Guloso, fico a olhar a morta, sem vassalar nenhum vivo.
Imóvel, acredito na palidez.
Rebusco os bolsos em busca da minha cicuta.
Verifico-lhe a natureza e engulo de um só trago.
Faleço sumariamente e dispo o preconceito.
O que restava.
Somos então um.
Violentos.
dezembro 13, 2010
Marginais correndo descalços
O que irei fazer quando experimentar aquele fato? Fazer, sim, o concretizar, o construir, aquela sensação de alcance, chuva sobre uma cara molhada pelo baptismo da manhã. Lembras-te daqueles barcos imóveis sob a neblina, aquela manhã, meia madrugada, em que o acordar cedo e o deitar tarde estavam tão misturados que nem o relógio funcionava. Lembras-te? Ainda sanes o dia? Desconfias de sábado, ou talvez domingo. Por esse cálculo idiota de agendas e afazeres ditos úteis em dias tão inúteis de manhã à noite. Lembras-te desses dias? Nunca os esqueceste? Tens bílis entranhada nas unhas, por mais limpas que pareçam. Cumprimentas muitas almas com essas mãos? Ofereces-lhes baunilhas e segredos? Deixa. Esquece todos estes fios de memória e concentra-te nessa chávena de café esfriada e no teu umbigo. Fumega? És tu que fermentas. Sabes a ócio. És doce. Um doce enjoativo, viscosamente inoportuno. Eu, ao menos, sou amargo nos dias de meio sol. É o tempero que me apresenta aos juízes e aos homens de algum bem. Não conheço os homens de mal. Quanto aos de bem, chamo-os mas eles não se dignam. Talvez por não me reconhecerem trono. Ou a falta dele.
dezembro 12, 2010
Simpatia
O primeiro passo é olhar as ruas, todas sem míngua de vontade. O segundo é apresentar-me à fauna. Deixá-la levar-me, percorrer os céus e os infernos como quem procura um cigarro e uma bebida confortável. Embelezar a curiosidade com sem-abrigos e estrelas de cinema, sentá-los a todos na mesma mesa, mandar servir o que a imaginação pedir, gargalhar alto impedindo os donos de fechar as portas e os poetas. Sempre os poetas. Impedir o seu silêncio, da mesma forma que um copo de água nunca se recusa. Prazer em conhecê-lo. A si, a todos, a ti. Gosto de me sentir seguro entre vós. Gosto do vosso toque, agridoce, pedinchão e de amor na ponta dos dedos. Deixam-me rezar um pouco? Um minuto da vossa noite? O bastante para me redimir perante os ausentes, os que me assombram os dias, recheando-os de estradas à chuva por entre bancos e loja tardias, ou de tartes caramelizadas com voz doce, ou quem apenas está, de luz aberta, conferindo-me o poder da sugestão e de lençóis aquecidos pelo seu labor. É tudo ganho. O passado, o imaginário, o sonho onde me questiono se sonho, mesmo se todos os sonhos começam à entrada do jardim, olhos no este, costas ao mercado e ao mar por detrás dos prédios, que nunca são maiores que 44 andares. Um dia serão 444. Um dia sem sonho nem olhos fechados. Um dia em que as guitarras não gritarem, os lábios não se juntarem e o fumo não se escapar por entre os dedos. Tudo tão longe, anoitecendo tão cedo, pulverizando a recordação como cenário de guerra encavalitado na incúria e em todo o charlatão vestido de farda. Prefiro-me sem travões na bicicleta que todos os fatos e gravatas que os salões fechados podem comportar. Sorrio aos uivos, aos cabelos ao vento, às senhoras velhinhas sentadas nos cafés à espera de logo à noite. Beijo-as. Ajoelho-me a seus pés e irei jurar-lhes pedras preciosas, nem que guie toda a noite para as ir buscar ao oriente. Nem que me crive de balas para as honrar. Nem que morra primeiro. Olho os dedos, a minha pele camaleónica tomando textura de lagarto, o torpor a velhice querendo entrar-me na figura. Nunca abro a porta a desconhecidos. E aos conhecidos, exijo senha. Só a mim e aos meus filhos, isento as formalidades da fronteira entre este mundo e a medusa que abocanha o trovador e abre a porta pesada da evasão. Conheço-a de estradas poeirentas, de caves onde dança o bafio, dos semáforos onde morre a gente e os jovens que não merecem sair de cena. Conheço tanto e temo esquecer-me de tudo. Escrevo. E ao escrever, exorcizo as querelas e a fome. Apenas água para ferir a existência. E o vinho esquecido na garrafa no aparador. Para que em vinagre, provoque alguma emoção deixada ao acaso.
dezembro 06, 2010
Regressos
Azuis que invejam, azuis que envaidecem, azuis pecando por escassos, azuis de água, mãos frias e essa menina sentada na areia, precipitando o meu desejo por longos pingos de chuva e anos de pele fina e riso fácil. É tudo o que fica desse tempo roído lugar, nessa areia que ainda existe, mesmo se no fundo de um mar que regressa e traz pretéritos, mas sem cheiro, mas sem rosto molhado e roupa encharcada. Agora existe desejo, serpenteares de um sinuoso dourado, mas gastou-se a inocência, essa espuma húmida de longo sabor doce.
agosto 31, 2007
11:47
Entre o lentamente e o necessário, os meus olhos vão-se fechando. Num absurdo de sol lá fora e luz eléctrica acesa, o pó por limpar, antecipações à espera de um esforço final, papéis que dobram a sua importância cada dia que passa e compromissos que se vão cumprindo sem o rasgo final, tudo gira à volta de células que se atropelam. Decidem-se direcções e nunca se sabe por onde começar, mesmo quando o óbvio se senta muito calado e atento defronte dos olhos. Num mesmo tempero, a imobilidade, pitadas de objectivos, um cálice de licor agridoce e um permanente fio de procurar as coisas nas novas prateleiras, mesmo quando nem sequer sairam da loja. Mesmo quando ainda não se conhece a loja.
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.
Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.
Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"
Pausa actualizada
Se o seu dicionário discordar, deite-o fora... com desprezo.
Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"
Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"
agosto 30, 2007
Pausa
Palavras de todos os dias
Um café e o valor do cheiro que não se paga. Um sorriso sem ter que ser, mas que é porque esta lá. Um encontrão e um desculpe com resposta. E os dois estão vivos, não se conhecem e aceitam-se no pedido e na resposta. Alguém sentado no muro, à espera ou se calhar só por estar ali. A barba por fazer e mesmo assim os olhos franzidos ao sol e à manhã. A esquina e a seguinte, o passeio sujo, as ervas nascem entre as pedras de calçada, as paredes cinzentas, os carros estacionados sem geometria, alguém que passa e outro e mais um, além. E mesmo parado, a vida passa com o tempo que se inventou e não serve para nada.
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.
Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.
Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"
agosto 29, 2007
Talvez 17 músculos
Repetem-se apelos, esvaziam-se gavetas para se encherem logo de seguida, alinham-se as gravatas e em cada mão uma garrafa para o acordar lúcido de cada pesadelo. Eis o mote.
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.
Ao som de Marillion "Fugazi"
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.
Ao som de Marillion "Fugazi"
agosto 24, 2007
O melhor dia de Verão
Os olhos húmidos de um lilás esmerado reconhecem separações e justificam desertos. Nas multidões, passar por entre estacas e animais, uns à solta outros em liberdade nas suas jaulas, por muita imensas que sempre pareçam, é resolver um caminho de atrasos e figurantes empenhados em protagonismo. Ser real e já nem existir.
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.
Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.
Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"
agosto 17, 2007
Ele há coisas tão simples
Depois de dias e dias enfiado na gruta, sem sol, sem mar a perder de vista, sem sorrisos a resvalarem-me no ombro, sem perguntas banais e relógios com ponteiros nos devidos lugares, só na companhia do teclado, procuro tentativas de regresso. Mas não tenho claro o fio da meada, se calhar por não ter a certeza onde ele começa. Talvez preferisse alguns dias estendido no sofá de estimação, a roer pêssegos, ler Maigrets e ouvir todos os sons que me vierem à cabeça, por muito inocentes que sejam. E nas pausas dos interrogatórios, enquanto acompanho o velho Jules num copo de cerveja, reflectir e meditar enormidades.
... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.
Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"
... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.
Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"
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