junho 02, 2007

A divisão prescinde da vaidade

Os sonoros invadem as privacidades, revolvendo os segredos bem guardados. Atentam contra a vida e o destino e sopram as fumaças dos incêndios. Dentro deles surge a calma e o sereno, ângulo submisso na intenção de subtrair a vontade. Espera-se com a fatalidade da sabatina. Quietos, envolvem a estrutura. Fadigas, entretêm intrujices. E sujos, violentam as carícias num acto de loucura submissa. Contentam acordes repisados como soluções envolvidas em hortelã-pimenta. Tornam gigantes as três manias. A curta atitude das milícias e a nova ordem magna da cobiça. E para quem consente a mentira, têm a ternura sempre omissa.

Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"

Percepção

Devagar. Como se fossemos sacos de chá, mergulhados em banhos mornos. Submissos a uma varanda acariciada por cachemira, seguindo um rasto de canela como se fosse pólvora, sinuoso, incinerado por golfadas de mais e mais, enquanto a lua não sabe o que fazer. Por entre as árvores o ar repete jogos, sopros murmurados de perto, indiscrição madura de onde resvala a pele de cerejas inocentes. Na pausa e no recesso, convergem fios que o sono deixou esquecidos. E em vez de objectos e artefactos, onde as peças de tecnologia são ínfimas, degraus são altar que repelem religiões, espécie de virtude por inteiro, púnica no alheamento e segura na separação. Encostado a uma parede, está um biombo. Atento e intento. Em prolongar.

Ao som de... não digo

junho 01, 2007

Enquanto vazio


Com a fragilidade ao longo da pele, suavidade tensa e contida, surgem os remoínhos. Sugere-se um altar, um apartamento vazio de janelas e silhuetas obscuras, um armazém comprido e repleto de flanelas. Permite-se o desgosto, a leviandade, até algum torpor com tonalidade de preguiça. Tudo desde que acompanhado de um sonambulismo iluminado por monitores de tons azulados. Aguarda-se um suspiro ou qualquer outra forma de indiferença casual, como se a verdade estivesse presa por cordéis de marioneta. E a verdade é observar a verdade, pé ante pé, audaz no seu modo de boneca, forrada do tecido que convém ao baile e perdida no salão, ante os espelhos que esmagam e os veludos que enternecem. As meninas trocam risinhos emboscados, as senhoras sustêm os leques em atitude de concha enquanto as matronas, revelam impaciência. Serenam-se os pecadilhos de pouca monta, apenas por um travo a carne fresca. Tudo gira à volta de mecanismos estudados em pormenor e projectados só para esta noite. Uma câmara, estratégica num pulsar milimétrico, capta atmosferas em vez de imagens. Pretende-se transformar veias em artérias. Imbuir o sangue de sabor. Repetir à exaustão, as seduções e outros subornos. Selar com prazer, os nãos, os sins e o talvez; mas apenas quando este for indeciso.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"

maio 31, 2007

Os piratas foram lanchar de madrugada

Duas crianças brincam ao sabor do dia. Sabem de cor as manhãs e os enconderijos, atalhos perfeitos onde os crescidos não chegam. Correm os passeios e os pátios, sempre ao contrário dos ponteiros do relógio. Conhecem os segredos do tempo. Às vezes, param à beira de água e procuram os peixes que lhes conhecem a liberdade. Às vezes, sentam-se no chão e ficam em silêncio algum momento. Depois, olham o céu, a tarde que lhes foge, os joelhos sujos cheios de histórias e acreditam com muita força que amanhã nunca será dia.
E amanhã, entre a pressa e os ponteiros do relógio que teimam em girar para o mesmo lado, mesmo sem lembrar a cor dos olhos, ficaram os esconderijos. Lá, continua guardada a vontade de correr ao contrário dos ponteiros do relógio.

Ao som de Thomas Dolby "Europa and the Pirate Twins"

Experimentar

Restos de noite ou partículas de sono presas aos olhos, mastigam-me a mesa, os papéis empilhados e o início de manhã em outro lado qualquer. A maçã espera-me e o duche também. Entre as apresentações, o manual, os índices, a sala por varrer e os sapatos espalhados por todo o lado, fica o momento de atravessar uma ponte com o sol ainda desmaiado lá no alto, o rio a querer ser mar, um amarelo muito claro e muito meigo em pleno afago e a canção, uma de algumas muitas. Pretende-se uma ponte que demore a atravessar. E quando abrir os olhos outra vez, que sejam todos os dias menos domingo.

Ao som de Dandy Warhols "Hells Bells"

Matutina

Os brancos e as cores da laranja,
moldados em suspiros luminosos
de sal e de espuma;

uma onda
sempre a mesma,
redonda
a mordiscar a pele.

Os brancos e as outras,
despidas em si mesmas,
esquecidas dos olhos
que as provam em pequenos sorvos demorados,
fiéis ao desígnio
de serem brancos e cores de laranja,
como um sabor a madeira
que prolonga a língua.

Os brancos e as invejas cor de rebuçados,
camélias encostadas à varanda,
onde os cabelos respiram
e se entregam.

Os brancos,
desmaios na vontade;

deitar a cabeça e cheirar o que ficou do mar.

E nesse mar,
vazio,
um outro branco ou amarelo,
motiva o rigor de voltar amanhã.
De preto.

Ao som de Area "Michael Writes His Parents"

maio 29, 2007

A espera

Paredes cor de laranja e algum branco de tom sujo. Enormes candeeiros que tombam do tecto, calados, à espreita. Oito computadores obedientes e submissos. Uma janela a três quartos. As cadeiras desarrumadas e as outras, conversam muito ciosas do seu espaço. Meio a dormir, meio acordado, com as mesas em desalinho e os cabos de rede à espreita, resolvem-se assuntos de governo e algum golpe de estado eventual. Os conselheiros tomam o tempo como refém. O mundo que espere. Aqui tomam-se decisões. Mesmo que não sejam úteis para ninguém.

maio 24, 2007

Pausa e nota de rodapé

Mais que as palavras, importa reter os sons.

A gerência

Seda

Vejo-te azul, cor de rosa, verde escuro, carmesim.
Quero-te assim, verde, nua, transparente.
Um tudo ou nada indiferente.
Envolta em luxo de uma nota esquecida num piano ainda quente. Absoluta e dolente.
Amada como a troiana,
por sussurros e manias.
Por olhares conspiradores que pecam provocações.
Estendo meus olhos em ti,
e percorro-te o sorriso nos lábios fundamentais.

Adianto as ilusões num banquete de ideais.

Penso, afirmo e até juro, apenas frases banais.
Quero ultrapassar as regras e viver por ti, proscrito.
Ensaiar gritos de guerra, comprar portes marciais.
Dar ordens vãs, resignado.
Redefinir os natais.

Desejar-te com mil forças, esvaindo-me em vermelho.
Acreditar nos prazeres, do corpo feito doutrina.
Entregar-me algemado, penhor de qualquer capricho.
Perder a identidade, por um minuto em teus braços.
Perder toda a vida eterna, por um segundo dos teus.

Rasgo a palavra amar, em pedaços descomunais.
E volto a colar,
submisso,
filosofando verdades que são as mentiras dos outros.

Vejo-te.
Escolho as cores que são devidas, numa paleta que é cega.
Misturo tons e balanços, experimento alguns traços.
Com os dedos algo abertos,
abstracto algumas formas.
Sinto a tela ganhar vida.
Obedeço.
Baixo os olhos.
Espero o momento, imóvel.

Com a raiva a consumir-me, dou punhaladas disformes.
Esculpo caminhos bacantes e rebolo-me na indiferença.
Na tua, que me arranha a cara.
Na minha, que não faz nada.

Vejo-te poente. Mansa.
Isolada no meu mundo.
Esbatida, quase morna, repousada num suspiro.
Atenta ao movimento brusco.
Selecta em labirintos.

Sugerindo uma caricia, agitas-te na preguiça.
Sigo cego os teus caminhos,
até me perder com delicia.
Violento-me a vontade em desejos marginais.
Misturo as horas do dia.
Fecho os olhos.
Paz.

Longamente, procuro as emoções dos teus poros.
Narcotizo-me em teu odor.
Entrego-me escravo, exausto,
delirando especiarias.
Já não sou eu. És tu.
Brocado doce e demente.

Quando abro os olhos, estou só.
Ao de leve,
sinto em mim o vento do teu oriente.
Sigo o contorno da tua silhueta ausente,
mimada em jogos de lã.
Indiferente, fujo.
E deixo-me ficar ali.

Ao som de Type O Negative "Love You to Death"

maio 23, 2007

Todos os poetas malditos usam boxers

Conheço práticamente todos os poetas malditos. São dezoito. Já foram vinte. Um dia... Mas conheço-os, sim senhor. Quase todos. Com quase todos bebi uns copos. Com quase todos, praguejei e fumei charutos. Com quase todos vomitei vísceras e ciúmes. Com quase todos, partilhei mulheres e paixões. E com alguns, troquei versos de cores escuras, que em noites de recolha do lixo me pesavam nas algibeiras. Com quase todos, vivi histórias de vício e extorsão. Com quase todos, adormeci esgotado, com as mãos trémulas de frio. Conheço práticamente todos os poetas malditos. Chamei-os pelo nome e pelos nomes. Gargalhei com hálitos tenebrosos e absorvi as gargalhadas de quase todos. Uma vez, jantei na mesma mesa com quase todos. E outra vez, quase me afoguei por causa de todos. Conheço a cor dos olhos de quase todos. E já fiz chorar quase todos. Quase todos! Conheço práticamente todos os poetas malditos. E quase todos os poetas malditos me conhecem. Mas todos, mesmo todos os poetas malditos, usam boxers!

Ao som de The Cure "A Forest" (Damian Lertora version)"

Arrumações

Saudades de um beijo. De um tapete andaluz que nos aquece a aventura, duas velas em castiçal dourado, a almofada e o cheiro a verde, fresco como uma noite de Verão. Dizem que a paixão é vermelha. Da cor de uma rosa que se deseja. Eu não acredito. Para mim, a paixão possui beijos azuis. Um azul profundo como as penas de um corvo. A paixão inveja ouros e um tom carmesim escuro que embriaga os segundos e os gemidos. A paixão é da cor do sangue. Um sangue espesso e escuro, o elixir que resguarda a sede e provoca o abismo. A paixão é a da cor do segredo. E nesse segredo, confesso saudades de um beijo que me complete. Um de mil. O primeiro de uma centena que me sacie a fome e devolva o brilho, ao olhar perdido de amante. Vi relances de paixão em Marrakesh, no final de uma tarde ensolarada. Voltei a cruzar o olhar tenso da paixão em Cracóvia, debaixo de estrelas e à porta de um albergue antigo. Voltei a vê-la em Viena, num beco poeirento em Bombaim, numa alcofa de lençóis de linho em Toledo e no vão de uma porta em Veneza. Agarrei-a por alguns momentos e deixei-a sempre fugir. Quando já não a esperava rever, dei com ela onde menos esperava. E continuo sem saber onde a guardei.

Ao som de Tito & Tarantula "Strange Face of Love"

Claves e sóis

Era tão mais simples, tão mais cintilante pular entre dois ou três momentos de linha recta para o alto, repeti-los avaramente e com cuidado renová-los por todos os lados e arestas. Por serem dois ou três, bastam-se na sua míngua. Entregam-se as importâncias próprias das facilidades que não existem. Cada um dos dois ou três é tesouro, diamante e sal. Perpetuam-se na janela virada para o relvado, com as árvores despidas e as varandas de estores meio fechados.
Depois dos anos e das estradas mal iluminadas e pior escolhidas, ficam os dois ou três, quase frescos, quase intactos. Um aeroporto, uns olhos vidrados de boneca, um regresso à fantasia ou um flic flac campestre.
E por isso, os meus agradecimentos.

Ao som de Jean-Luc Ponty "New Country"

maio 22, 2007

Mostrengo

Regressar de um mundo inerte, sombra e herança de um manto, senhor nos seus domínios, onde o mármore coberto pela neve magoa o semblente, enquanto repousa e abriga a nudez. Das lentas sonoras do pêndulo, só restam os algarismos da fortuna e do azar, seguros por fiapos de seda, ouro de quem esqueceu os caminhos e as faces. Como pele de alguma fera, os reposteiros pesados são lã e doçura de um serão que não termina. E de um fogo lento, a lenha torna-se granito. Aqui o vento desterrou a brisa, fio cortante por onde agulhas picam os ossos e árvores serenam em quietudes altas.
Num arremedo de frugal rancor vagueia ao longo das paredes rasgadas, onde o cristal rompeu amarras. Funga todo o tempo, enfrentando os dedos violáceos numa rixa comezinha, enganando o resmungo com um riso sem ruído. Busca na recordação cores e afectos, que a reminiscência teima em lograr. Por momentos encosta-se a buscar o folgo, farsa da sua idade e desterro jovem. Deixa cair a cabeça e sente-se ermo. Exausto. Respira fundo e regressa. Não se evade. O contrato não lhe permite legar.

Ao som de Stoa "Partus"

maio 17, 2007

Não penso morrer tão cedo

Tinha pensado em escrever algo entre o racional e o filosófico, algo de ensaio, de observação, uns pózinhos de crónica, outros de visionário, uma direcção do sentido da vida. Em vez, saiu isto.

Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.

Ao som de The Curtain Society "Kissherface"

maio 15, 2007

Contraponto para o autor; só para o autor

Oito horas. Nove horas. Minuto a minuto, sol sim sol não, dúvida em forma de elevador em outro andar qualquer, bom dia oval, sub-reptício, preso por cordel de uma caixa de bolinhos, fóssil rebuscado de outra rua com principio, meio e sem fim. A esquina, a avenida, a esquina, a rua, a parede com impressão digital e pegadas de dinossauros, ou pelo menos um único, o que vagueava em habitat alheio, armas a tiracolo e óculos escuro de ver o mundo com a cor pretendida. A madrugada, o fim de tarde, a neblina, os papéis que voam em remoínho, os barcos ainda dormem, as prateleiras reflectem as luzes, e entre os que não acordam e os que dormem sugerem-se cortes laterais de onde se esvai a maçada e o tempo perdido. Não acreditam? Vejamos: uma chávena de chá, quase cheia, engraçada; o homem da gabardine, céu cinzento, nuvens escuras, chuva e mais chuva que atrasa o autocarro; um vidro de uma janela, fechada, segura, lânguida e morna; o copo de cerveja, alto, afunilado, glamoroso, dourado num balcão de apenas três clientes, todos diferentes, a mesma conversa, os relógios parados; as três voltas da chave, o empurrão de garantia, o olhar zeloso, as chaves no bolso e o dever cumprido; o nascimento, a infância, a juventude, a puberdade, a responsabilidade, o atrevimento, o crescimento e o desenvolvimento e a paragem cardíaca, o adulto, o maduro, o envelhecido, o idoso, o morto.
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.

Ao som de Suicide "Ghost Rider"

maio 10, 2007

Pausa para um quarto acto


Esqueci o café, esqueci o sorriso, esqueci até os sindromas de pastilha elástica que neste momento apenas me pareciam uma forma inútil de passar o tempo. Um tempo que teimava em desperdiçar com ninharias.
De olhos fixos na noite por detrás dos vidros imensos do aeroporto, de outro aeroporto ou todos os aeroportos, não quis esperar a chuva nem a humidade na pista para obter um perdão. Aquele perdão que cada um deve a si mesmo, em situações limite. Doiam-me as costas, não tinha o sabor correcto na boca, era tarde e a vontade de qualquer outra coisa, específica por não ser, queimava-me o pescoço. Funguei algum resto de constipação e insisti-me naquela hora de pausa, como se me pertencesse a beira do mar ou o único caminho para a brisa do início da manhã.
Preferia-me numa varanda, num cubículo aproveitado de um prédio esvaziado, talvez devoluto, talvez resignado, com o barulho da chuva a oferecer-me terapia e refúgio, onde os vazios da multidão se desfazem em bicicletas que passam no ruído da borracha molhada e das campaínhas infantis. Numa mão teria uma maçã, que em vez de mordiscar, cheirava com gulodice e inércia. Então, pedia ao relógio que fizesse uma pausa e, como um amigo, sorria-lhe. Um sorriso cheio de antigamente, de ontem, de encontros depois da meia noite, em esquinas largas, onde se agarram filosofias quando voam baixinho.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez lhe pedisse para retomar o tempo. Talvez.

Ao som de Blade Runner Blues

maio 04, 2007

Hesitação em terceiro acto

- Obrigado.
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?

Ao som de Saigon Kick "Sleep"

À partida do segundo acto

Obediente, esperei que a escada rolante me orientasse as decisões. O incómodo de alguma claustrofobia dos tectos demasiados altos do aeroporto, provocavam-me um estado de tontura morno e desagradável. Pensei numa chávena de café a fumegar, num copo água, que a hipótese de demasiado tépida me fez enjoar. Ao temer algum suor fora de tempo, dirigi-me ao check-in, como tentativa de organizar qualquer coisa. Não reagi aos avisos nem às recomendações, aceitei todas as determinações e com o número 48 do portão de embarque marcado na palma da mão, entrei numa casa de banho e demoradamente, molhei a cara e sem sorriso planeado, olhei-me longamente no espelho. Sem me conseguir mexer, remexi num cansaço do qual fazia parte, remoínho de olhos fechados e mãos afagando a face e o cabelo. Num faiscar, surgiu-me a imagem de uma bomba de gasolina à beira de uma via rápida, lugar de fascínio e partida para viagens de carro, daquelas que se iniciam cinzentas e não devem conter destino. Fechei os olhos muito devagar e sem recusar o apelo, desejei com muita doçura apagar aquela imagem. Com esforço, endireitei os ombros, lavei as mãos e sacudindo o casaco e as calças, fui à procura da tal chávena de café a fumegar. Pelos corredores larguíssimos do aeroporto, procurava nos altifalantes uma canção a condizer.
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.

Ao som de Goldfrapp "Utopia"

maio 03, 2007

A partida

Antes de partir, procurei nos avisos presos no frigorífico as moradas. Preferi não as levar comigo e tenho a certeza que não as decorei. Prefiro encher o espaço livre de memória com assuntos mais confortantes. Ou reconfortantes, depende da hora do dia. Depois de uma olhadela para a camada de cima da mala, fico sem a certeza de me lembrar de tudo, ou pelo menos do que é insubstítuivel. Mesmo assim, prefiro fechá-la. O isqueiro no bolso esquerdo das calças, o comprimido no bolso direito, os óculos de sol e os auscultadores. Tiro à sorte entre os mp3 e sem verificar conteúdos, qual roleta russa, guardo-o no bolso do casaco, junto ao cartão de acesso e a ficha metálica para a bebida. Escrevo o recado e deixo-o bem à vista, debaixo do telemóvel. Uma última escovadela dos dentes, o sorriso número 14 ao espelho e a porta de casa.
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?

Ao som de Lucyfire "The Pain Song"

maio 02, 2007

Jovialmente, uma boa noite para si

Mais uma vez no local do crime. Impressão digital sobre impressão digital, projéctil atrás de projéctil, cápsulas caídas no chão em desprezo pela verdade. E na verdade, estes regressos ao mesmo local do crime, como se não houvessem outros para escolher, reflectem-me a ousadia e alguma aventura de sentir sempre algo de novo. Hoje é refractar o cansaço, produzir alguns exemplares com a fábrica ainda a meio gás, enrolar-me num cachecol de cachemira e enfrentar uma noite de temporal, amena pelo bom gosto e agreste pela vontade de sair e não sair do mesmo sítio. Apelos e apetites. Comodismos.
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.

Ao som de Spectral "Avalon"

abril 27, 2007

Homenagem geométrica

Em vez de uma lista de compras ou dos dez qualquer coisa que se levam para uma ilha deserta, eis-me aqui pronto para o que der e vier, ilusionado por imagens a cores ou preto e branco, sem saber as verdadeiras e as de encantar, rosto na janela do primeiro andar, mãos a restolhar nas persianas com pó, ouvido nas danças da chuva sem as saber cantar, olhos na esquina do quiosque e na berma do rio quase mar.
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro

Ao som de Ashra "Blackouts"

Nomeações

Nascimentos regulares tomam as linhas das peças seleccionadas ao acaso, no xadrez de mármore da entrada. Por cada xeque mate, deduzem-se as despesas da lavandaria e dos projécteis. A primeira bebida da noite é obséquio... todas as outras incluem vítimas. O gelo é pago ao valor de fecho do mercado. Só são elegíveis corpos de fato completo. Escuro. Qualquer vestígio de cinzento é condenado com pena capital. O executor de serviço deve preencher os formulários devidos, de baixo para cima. Qualquer resquício de frio deverá ser comunicado à comissão de festas.
E agora que todos estamos entendidos...

Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"

abril 26, 2007

Levitação em idioma de gringo

Nestes momentos, pode cair um cometa, que não me levanto. O balde do gelo está vazio e não me levanto. A munição está reduzida a cinza, mas não me levanto. A luz está longe de ser a que desejo, mas não desejo levantar-me. A canção, inadvertidamente, entrou em repeat, e nem por isso me levanto. A miragem de cabelos hipnóticos e lábios suplicantes mantém-se de olhos em mim e eu apenas lhe devolvo o olhar. A carta do general foi entregue por debaixo da porta, os grilos gritam por companhia, o porteiro fuma junto do baralho por partir, o jornal permanece por ler. Não, não me levanto. Esperam que o efeito passe?

Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"

Arrepio meio nocturno


Descalço, prolongo a vontade de uma parede em falso, rebolo nas luzes os vestígios juvenis e sorrindo deixo-me envolver, permito que me subtraiam as agulhas e os pólens que neste corredor não me fazem falta... que os escondam longe, que os tornem mistérios por resolver. Devagarinho, fecho os olhos, levanto-me e rodeio a minha sombra com rodopios, cabriolando o tique humano, soltando-lhe as feras do impulso, com dentes de luar.
Ao tecto, aos rodapés, à ameaça e ao relógio, apenas um conselho: esqueçam a corrida e a chegada. E com um beijo, mantenham a chama acesa, mesmo se olímpica.

Ao som de Blueboy "Popkiss"

abril 23, 2007

Narcisista em harmonia

Tirei do armário a camisa branca de meio colarinho e pendurei o cabide na porta com todos os cuidados. Entre as calças do fraque e as do smoking, escolhi as mais solenes. Da gaveta do meio tirei o laço preto e na dúvida optei pelos sapatos pretos de verniz. De boxers e meias pretas fui à sala buscar o isqueiro e o relógio, numa atitude perversa onde a rebeldia colide com o bom gosto. Antes de regressar ao quarto, passei pelo espelho da casa de banho e com a tesoura pequena acertei a pera com o rigor das 7 e meia.
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.

Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"

O ábaco

A orgia tinha começado à hora marcada. Por entre os arbustos, na copa das árvores e nos pouquíssimos bancos disponíveis, os casais e demais curiosos entregavam-se uns aos outros com a gulodice habitual. Generais e majores, bispos e outros eclesiásticos, proprietários, pintores e disc-jockeys, mais os membros do clube e os electricistas entabulavam o seu mesmerismo às louras e morenas sacramentais, já que de ruivas o mercado estava sempre em falta.
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...

Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"

O boletim de voto já inclui o x

No caminho para a Assembleia, parava no café das janelas amarelas e bebia o seu chá das quatro e meia. Tirava do bolso o frasquinho do mel e adoçava a beberagem a gosto. Com um gesto de desprezo afastava o pacotinho colorido, ainda cheio. Limpava o beiço com o lenço assinado, ignorando ostensivamente o quadrado de papel branco à sua frente. Economizava as boas tardes e deixando as moedas certas, saia com pressa institucional. Subia a ladeira algo íngreme e ao ver o majestoso edifício, sorria disfarçadamente.
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.

Ao som de Maximo Park "Our Velocity"

Miudezas

Tinha a botija de oxigénio ao lado da cama. As barbatanas estavam arrumadas ao lado dos chinelos e dos sapatos de fivela. Os óculos pousados na mesa de cabeceira adiantavam organização e alerta.
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.

Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"

abril 22, 2007

Deixar o irresístivel ganhar espaço, parte 1

"... We walked around in circles..."

A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.

Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"

abril 21, 2007

Pressa

Deitada na almofada cor de ferrugem, espreguiçou-se e sem avisar mudou de tema. De olhos fechados, sussurrou qualquer coisa...

Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"

abril 03, 2007

Um cachimbo vazio

Depois de frequentar o estribo e a coleira, desaguei na quinta porta que o estuário me oferecia. Habituado a geometrias convencionais e algumas outras, sujeitei-me ao primeiro dia de escola. Conversei dias e dias com os monges e os que atravessam desertos, jurando alianças com que cobri os dedos. Bebi da chávena à minha direita, sossegando os costumes e os protocolos. Ao fazer isto, respeitei-me nas minhas células, como se um beijo ou um roçar de dedos assinasse um tratado.
Meses depois, sentado à mesa da sala ao fundo da casa, na penumbra que o dono determinou, procurei algum vestígio de cinza ou cálculo matemático da noite, quando os cúmplices reconheceram a proximidade. A mesma sala onde os cúmplices iniciaram a guerra. Verifiquei os armários de portas fechadas e chaves disponíveis, o cabedal verde escuro da escrita, enfim alguma marca que servisse como prova. Desconfio da memória. Sem nada, encaminhei-me para a porta. Cansado de tantas coincidências, respirei todo o ar que consegui e sai. O imperador esperava-me.

Ao som de Ultravox "Waiting"

Promessas

Jantei com os vizinhos do 2º andar. Petiscámos algum chouriço e vinho tinto. Dissemos pouco, com medo de falar demais. Fumámos alguns cigarros com a janela entreaberta, experimentando o fresco da noite. Sentia a pele dos braços arrepiar, mas gostava de ver as formas que o fumo desenhava fugindo da aragem. Na rua acenderam-se os candeeiros, soltando sombras e versos mudos.
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.

Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"

Quando Pedro me levar à pesca

Jurámos pias baptismais, louvámos a desgraça alheia por não se ter aproximado, abençoámos o dia como nos convém, vergámos o espinhaço à decisão de outrém, tornámo-nos o pretérito imperfeito da perfeição legislada. Aceitámos a vigência como verdade e a erradicação da dúvida como doutrina. À diferença chamamos desvio. À falta, desculpamos o prazo e devolvemos a intenção. À culpa, arquivamos o processo. Se algo ficar por classificar, resta-nos o desígnio. E na procissão, voltados para a Meca que estiver mais perto, roem-se os bocadinhos de pão que alguém deixou aos pombos. Esses, mais tarde, serão mastigados depois de um lume brando.

Ao som de The Sound "Possession"

março 31, 2007

Coisas

Mesmo quando as pausas parecem o que não são, há sempre um nadador salvador atento às ondas, mesmo na maré vazia. Nessa atenção, desdobram-se maquinismos complicados, envoltos em electricidades e laboratórios arrumados pedindo desarrumação. Na desarrumação, perdoam-se erros e esquecimentos, pela simples razão de estar ali. Estar é a nota mais alta. Ser é dispensar de exame. Continuar é a perfeição. Porque os nadadores salvadores, mesmo quando não estão atentos às marés, têm sempre um colete na mão.

Ao som de The Passions "Small Stones"

março 16, 2007

Aperitivo

Parou no sinal vermelho e espreguiçou-se. Aumentou o volume no tom da ira da canção e apoiando-se no banco direito abriu o porta luvas. Reconfortado pela forma da arma debaixo do pano avermelhado, tirou uma pastilha de canela. Mastigou com o prazer de um dia de sol. O calor próprio de um fim de manhã de Julho enternecia-lhe as rugas vincadas junto ao nariz. Tinha fome. Uma fome de sossego à mesa, ao sol, perto de uma máquina de bebidas e com alguma mexicana de decote previsível ao alcance dos olhos. Talvez no Larriva, perto da pista dos galgos. Tirou do bolso o pacote bem amachucado e tirou um cigarro. Restavam dois. Acendeu um fósforo de madeira, dos antigos. Preferia fazer mais de trezentos quilómetros, por aqueles fósforos. Talvez fosse o som, um crepitar de inverno a torrar ao sol. Como sempre, puxou o primeiro fumo até lhe faltar o ar. Um masoquismo que não trocaria por nada. Agarrou o cigarro na ponta dos dedos com a segurança de um trapézio desfiado, na certeza íngreme de anos a fio. Passou a mão pela barba de três dias. Três dias de caminho, comida de chapa e café feito à pressa, bebido com os vagares de um fugitivo cansado. Puxou ligeiramente os óculos escuros para a ponta do nariz, com o esgar próprio de uns olhos encadeados. As cores do mundo eram afinal bem diferentes. Voltou a empurrar os óculos para cima e ficou-se pelo seu universo. Respirou fundo e olhou o semáforo. O verde envolto em poeira traíu-o. Antes de conseguir engatar a segunda já tudo tinha terminado. Do cansaço nem rasto. Apenas restos de chapa torcida e o barulho surdo da normalidade que tenta regressar.

Ao som de Devo "Gut Feeling"

março 03, 2007

Ficar aqui

Partida... Por todas as lágrimas de húmidas, nas esquinas, nas montras de luzes antes da madrugada, em canteiros antigos de uma instituição gravada na memória, produto de quiosques atentos e desatentos nas caras que passam e repetem o dia e alguma noite, sulco de um desvario ou de um anúncio de circo na cidade. Revolvem na conversa rala, no perigo de uma lembrança que provoca a claridade e a paragem do coração habituado, sopa esverdeada em pratos rasos, especiarias vendidas nos adros das igrejas que distam meias tintas entre si e o diabo, conviva das sextas-feiras pela manhã, quando o café se basta ao fumo e são repetidas as navalhadas de um barbeiro vitalício que dorme na porta giratória de um hotel condenado como presa suave de pinguins, gravatas desbotadas de tanto segurar as asas das ânforas, catres seguros de óleos e cânforas. Na multidão, alunos repetentes, vítimas de reprovações morais, guardiões de carteiras de madeira remendada, violadores de mente encarquilhada, pacotes de pipocas geométricos, líderes de faces abruptas motivando o convénio entre o ponteiro do mestre e a renda da concubina. E nas aleluias dominicais, porque as de sábado não valem o mesmo, descobrem-se almofarizes raros, legado de alguns narizes gelados pela frialdade do vento que pernoitou por aqui, rebelde e pecado de preguiça, limbo dos patos que encolhem os ombros no lago do jardim.
Pela rua que vai dar ao salão, às três da manhã, segredo mal guardado de um relógio atrasado no tempo e na memória, as gentes que nunca adormecem recusam acordar tratados e linhas imaginárias de lentilhas e esmeraldas, curiosidade que paira nas feiras de todos os livros, decotes e cartuchos de confeitos oferecidos à turba, minúcia do décimo quarto minuto da quinta hora, depois do meio dia, onde se repartem as metades de uma laranja seca, por onde se escapa a tentação e o exame da terceira classe.
Pausa intermédia... Cabe aqui um cocheiro, um padre que não saiba latim, um contador de histórias e uma viúva.
Largada... Ao entardecer, quando os chapéus de sol perguntam a idade dos mais novos, o dono da padaria reflecte as misturas e algum fermento fugitivo, na banca do peixe, onde o camarão miúdo é traquinas e antecipa futuros de estadista ou eloquência incontinente, ruminam-se períodos de seca e de míngua. Resvala a vontade de ficar ali, todo o dia, todas as horas de portões fechados, de capoeiras vazias, entre cascas de amendoim, previlégio seco de castas amaldiçoadas pela patetice de um beijo ou a sabedoria do fim da canção. De bicicleta, desce esbaforido o empedrado, cruzando formas de fontes e peixes enamorados, gritando cadências das tardes junto aos barracões, testamento prenhe de silêncios e ondinhas de rio junto à margem. Misérias esbatidas pelo jazigo perturbador de família, regra obtusa de viver antes do tempo, sempre que a morte espreitar a gaveta da mesinha de cabeceira, procurando desculpas e lenços encharcados. É a sorte de qualquer escrivão de província, querela de jornaleiro e comedor de omeletes, copos de vidro verde, gastos pela penumbra junto ao campanário, olho na estrada que sobe até à vila.
À vista do apeadeiro, procuro luz na taberna do outro lado do muro. Sorrio do salitre que não conheço, das rugas nas mãos trémulas que me trazem o copo. Deixo a mala no compartimento e desço. É Setembro... Chegada.

Ao som de Kyrie "Lipsia 1933"

março 01, 2007

Sorte, azar ou mais do mesmo?

Decidir entre a deriva e um porto seguro, mesmo em dias de temporal, dias molhados, encharcados devagar, ao longo do cais ou de uma fileira de árvores de um sanatório, onde se espera a hora de jantar e alguma desculpa para abrir os olhos de manhã. Decidir entre a lucidez e a ordem desigual de bocados de alguém, atirados ao papel como ao acaso, redondos, obedientes ao sinónimo e à assimetria, chuvinha teimosa de fim de estação, sussurrando deveres e agitando com firmeza a escritura do clima. E de tanto decidir, ou escolher algo em vez do outro, o depois parece sempre um destino. Um porto seguro que se expõe à deriva, salto mortal de vagas azuladas em papel de jornal, perigando os empenhos alheios e adocicando o comum dos mortais, que nem é comum, nem quer ser mortal.
Naquele salva-vidas, esfregando as mãos com a força de uns olhos semicerrados, escrutinando o mar à busca de sobreviventes, cabelo deitado ao vento, golas torcidas pelo sal, os grãos de areia no fundo do bolso que teima em ficar húmido, são as testemunhas únicas de um desassossego que não se comove com abóbadas. Em vez, sem conhecer limites alfabéticos, dá as cartas da esquerda para a direita, corta as figuras sem trunfo e grita jogo, mesmo se não houver mais jogadores na mesa.

Ao som de Legião Urbana "Andrea Doria"

fevereiro 27, 2007

Longitude amarela, latitude branca

Perspectivando coordenadas como se fossem pepitas de chocolate, concedo a razão ao desligar os propulsores e sem ajustar a viseira, perco-a ao aspirar algum ar sem verificar os leitores de atmosfera. Estou lúcido. Acarinha-me o calor artificial e um gole de álcool, mantido incólume num recanto da minha lembrança. São algumas horas da manhã, mas retenho o asfalto irregular como se fossem dez da noite de algum Dezembro.
Repito mentalmente as geometrias coloridas sob os meus pés. Ajoelho-me e coloco as mãos sobre elas. Afago-as como antes. Regulo-me para um sorriso de intensidade três. Levanto-me e com um leve franzir de sobrancelhas, recoloco a franja na posição correcta. Permito-me um gesto humano e levo a mão direita à face, sentindo a barba por fazer. Imagino a porta amarelada com vidros rectangulares nas minhas costas, por onde se insinua um luz clara. Mantenho a direcção do meu olhar no cadeirão cinzento e na varanda por detrás. Tudo como então. Sobre o assento do cadeirão estão algumas folhas de papel, repletas de uma escrita cerrada. Pego num monte delas, segurando a primeira. As outras espalham-se pelo chão. Como uma lista se tratasse, a folha revela coordenadas, planos de voo e trajectórias, uma panóplia de destinos e posições relativas surpreendentes. Enternecido, apanho as folhas e apontando todo o maço ao arquivador do braço esquerdo, desmaterializo-as em dimensão doze. Antes da partida, olho em volta e com um toque subtil, desligo os sensores e o alimentador de emoções.
Em silêncio absoluto, passo as mãos pelo cabelo, adivinhando rasgos indefinidos. Permaneço os olhos no cadeirão e nos recortes das geometrias, tentando decorar-lhe as cores. Avanço dois passos, olho pela janela fechada, primeiro a varanda, depois a rua, com o asfalto irregular como se fossem algumas horas da noite de algum Dezembro. Sorrio e sinto toda a face sorrir também.
Depois do sorriso se apagar, volto a ligar os sensores, desloco a viseira para nível 4 e passo os dois dedos solares pelo fecho gelatinoso. Depois de acender a luz laranja, fecho os olhos e divido o pensamento nos triângulos habituais. Desloco a primeira página que encontrei sobre o cadeirão pelo cortex, dirigindo-a para os neurónios de expoente 14. Distendo os músculos e diminuo o nível de actividade enzimática, programando os estabilizadores para alguns minutos depois da partida. Com o ronronar surdo dos impulsos cardíacos em fundo, leio folha um, linha um.

Ao som de Pete Namlook, Klaus Schulze & Bill Laswell "The Final DAT Part II"

fevereiro 19, 2007

Sorriso em segunda-feira sem cinzas

De regresso do aconchego e da ditadura do sonho, renovo gotas de chuva e apreços no fundo de um alguidar ornado com o brasão dos Áustrias. Faz-se tarde. As línguas de vento trovam aftas de sem querer, deixando recados às árvores, poiso de druidas e algum profeta de nariz afilado, curioso de rotas e embaixadas de vénias, onde a solenidade é gratinada e o saber, estorvo. Talvez por isso se divirta com a copa frondosa e amnésica de quem se esqueceu do Inverno. Fará versos inconsequentes, dignos de algum manual onde se ensinam lideranças e valores. Faz-se tarde. Alumiam-se as velas e abrem-se os breviários, que os passos apressados e chuviscantes já sobem os degraus da entrada do altar. Na livraria defronte, pagam-se as últimas sílabas e suspira-se por uma chávena de café a fumegar. Talvez dois dedos de rum. Saúda-se o prior com um aceno de cabeça e percorre-se a muralha com o olhar dolente e habituado. E a gente nunca se habitua a regressar. Nas portas encostadas já soaram os trincos e crepitam-se os primeiros ares da noite. Ao longe, logo ali à esquina, rumina-se o terço e a vontade de farófias e palmas das mãos esfregadas com vigor. Penumbra-se o momento de olhar as estrelas e procurar a constelação preferida. Os pés agarram-se ao lajedo, travam-se ímpetos e de gola levantada, tomo o caminho do vale, mesmo se a geografia me permite ilusões e o espírito ainda treme de fervor. O tarde já se fez e o relógio marca sempre a mesma hora.

Ao som de Focus "La Cathedrale de Strasbourg"

fevereiro 03, 2007

Poesia debaixo do turbante

Relembro o sábado pela manhã, motivo de tudo e fuga a um tédio que simplesmente não o era, mas apenas restos de poeira esquecidos nas prateleiras e nos livros teimosos, fechados por abrir. Era a estrada, a paragem num parque de estacionamento enorme, onde se disputam sorvetes e tamancos longe de mais para se tornarem verdadeiros. Era o vento e o sol escapando por entre as bermas e os relógios apontados para diante, os nomes de quem não se conhecia, as caras de surpresa por gritos e gargalhadas imensas, perdidas em lugares ermos e mesas de toalhas claras enrugadas por copos de branco e desejos de mais. Os humores, as pertenças, as mãos dadas por debaixo dos aventais, os sorrisos cúmplices e a traineira suspensa pelas horas fugitivas, a curva da outrora feira de recantos, perfeito aninhar de areias brancas de uma estalagem poente perdida nas décadas de um salão de baile perfeito. O relento ruminando canções repetidas por um eco, réstia de energia e solidão. A passagem de nível, as luzes da cidade, os fins sem meios, o jantar sem sal, o resto atirado, demorado, um calafrio de ânsia e de viver todos os dias de uma vez, porque o dia acabou e não se quer regressar. E o soluço ainda encontra...
...e esquece. A barba feita a meio, as meias finalmente, a camisola repetida vezes e vezes, o olhar cansado por um aperto. Num abrir e fechar de olhos com os pés à beirinha do cais, a cópia com letra certinha, o domingo por ainda haver segunda-feira, os papelinhos à sorte, a rua a descer e o barco vermelho pousado no rio. E perto da esquina, à laia de cantos de natal, repetem-se lá lá lás.

Ao som de The Waterboys "December"

janeiro 16, 2007

Só e mal acompanhado.

Com um bocado de chocolate como lastro e linha do horizonte, mesmo se o cacau não faça parte deste filme, cruzei e revirei de todos os avessos a avenida à beira mar. Resisti ao cansaço, ao passeio de orla reavivado por gritos embriagados de turistas e nativos, aos mosquitos embarrigados de sangue aquecido por infindáveis copos desde o acordar ao amanhecer e aos pares de velhinhas que são nortadas açucaradas pelo aroma da noite. Evitei o resmungo do esquecimento do relógio no quarto, bem em cima da cama para não ser esquecido, olhei as estrelas numa tentativa autista de quem conhece os nomes das constelações... juntei os pontos de referência habituais e rangi os dentes. Não que tenha o vício, impuro, de quebrar a calmaria alheia com ruídos infernais de dentes a roçar o crime de desobediência papal, tentando a excomunhão ou o vulgar encolher de ombros ecunémico, mas a irritação do momento obrigou-me. Sempre teimei nas aulas ou nas acções de formação que o crime é coisa séria, solene e formal, na forma, no intento e na subordinação do corpo ao projéctil. Senti-me encanzinar. Bati com o no chão, imbirrento e juvenil. O bater no chão infantil é francamente mais sábio. Voltei a percorrer a avenida, desejando um tsunami às ondinhas de banheira, salpicadas por um luar ridiculo. Estava quase a virar costas, com um jogo de matraquilhos na ideia, mais uns copinhos de abafado quando o vi. Irra. é falta de consideração. Tirei o revolver do bolso, conferi a bala na câmara, visei, quase despreocupado e disparei. O fulano encolheu-se num gesto ao ralenti, rodou para a esquerda e caiu desamparado, com um ligeiro gemido sonolento. Raio de vida; a tasca dos matraquilhos deve estar fechada.

Ao som de Act "Absolutely Immune"

janeiro 12, 2007

Certamente

Quando saí da sala, ainda no hall, senti o fio de nostalgia nos braços e nos olhos enquanto perdiam o brilho. A porta abriu sem ruído de arrasto e junto aos elevadores, o frio corrompeu-me a hora tardia e a pressa de diminuir o atraso. Desci no elevador amarelado, confiando na falta de vontade de sair dali. Era um sítio onde se esqueciam as horas e os motivos, onde o controle era um encolher de ombros ao que ficava lá fora, ou ao que chegava pela janela aberta, em barulhos de regressos a casa e compras apressadas. Imaginava um outro que vinha pela rua de baixo, medindo com minúcia todos os movimentos e centímetros do passeio e na esquina, escolhia sempre o lado esquerdo da avenida em direcção à farmácia. Não conhecia esse outro, nem lhe aguçava a curiosidade as suas mãos nos bolsos e a gola do casaco subida, como num filme. Chegou a pensar em segui-lo, mas acabou por deixar cair a vontade. Sabia que o outro existia e é tudo. Sabia que direcções tomaria e isso bastava-lhe.
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.

Ao som de New Order "Your Silent Face"

janeiro 10, 2007

Linhas paralelas

No tempo em que era menino, no meio de outros meninos gastava o tempo com risos e coisas assim. Cresci. Eu e os outros meninos. Esquecemos os risos e ficamos assustados, sempre que saímos e esbarramos com o nosso crescimento lá fora. Procuramos nos bolsos vazios, olhamos uns para os outros, perguntamos pelas moedas com que compraríamos o nosso destino e fixamos o chão, cientes de um preço demasiado caro a pagar. Um destino que de tão valioso, não soubemos avaliar. Retomamos o passo em direcção a algum sítio que não sabemos o nome, porque é um nome que não se pode saber. Sem confessar aos outros meninos, aos outros crescidos, sempre pensei que aquele dia nunca chegaria. Ficaria solto na prisão naquela manhã que um dia me encontrei, sob um sol amarelo, junto a uma esquina e a uma parede amarela, onde podia ficar a viver e a esperar todos os dias por uma droga qualquer, uma qualquer que só existia nessa esquina e debaixo daquele sol. Um sol que me faria estar perto de mim. Perto daqui mas longe de uma infância perdida que o medo arrebatou. Sempre pensei que aquele dia nunca chegaria. Mas ainda hoje me lembro daquele sol da manhã, junto à esquina e à parede amarela. Ainda dependo dele.

Ao som de The String Quartet Tribute "True Faith"

janeiro 09, 2007

Depois das velas apagadas

A janela do quarto, aquela que encontra o céu e os outros prédios de muitas alturas. Moveu-se o cortinado e entrou o sol da manhã, acima do septuagésimo andar. A luz recortou-a, traçou-lhe limites e aventuras, e ela sorriu. Ficou ali, a pairar, sugada pelo tempo de a imaginar ali mesmo. Nem a camisola de alças de alguma cor morna, acrescentou uma vírgula. Bastou o recorte, o traço da manhã, o dia parado, à espera de uma palavra que quebre o feitiço.

Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.

Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"

dezembro 28, 2006

Um pouco de alguma coisa

De propósito, sem acaso, procurar alguns degraus junto ao mar e sentar, deixando alguma distância entre os pés e a areia. É um começo. Juntar as mãos virginalmente e esboçar um suspiro. Sustê-lo. Franzir os olhos e percorrer o horizonte. Manter as mãos juntas sem pensamentos impuros. Sorrir. Diminuir o sorriso e prolongá-lo. Lentamente diminuir a tensão nos ombros e nos dedos e soltar o suspiro.

Olhar a areia e adivinhar-lhe a temperatura. Deter o impulso de avançar e pegar-lhe, mantendo as mãos juntas mas com as pontas dos dedos a passear na impressão digital. Juntar os pés. Pressionar as coxas contra a madeira e evitar contar os segundos. Olhar o mar e procurar ao longe uma onda. A primeira que encontrar não vale. Seguir-lhe os avanços, vê-la aproximar e desaguar na areia. Desejar-lhe um bom regresso. De relance olhar o ceú e esperar o consentimento. Ao levantar, fazer um esforço por não afastar os pés. Pisar com firmeza os restantes degraus como se pisasse almofadas. Ao primeiro contacto dos pés na areia, deixar cair os braços, distender os dedos e fechar os olhos. Quando a sensação chegar a areia já estará à espera.

Tudo o resto também.

Ao som de Vangelis O. Papathanassiou "Lei It Happen"

dezembro 27, 2006

Terceira parte

Depois de mexer, um minuto nunca perdido, provou e voltou a pousar a chávena. Gostava de prolongar o prazer. Olhou os bocados de asfalto húmido, por entre os carros estacionados um pouco por todo o lado. Ninguém. As mesas da esplanada continuavam vazias. Quase todas. No cimo do baldio um cão farejava os restos do que foram compras e impulsos. Parecia ter a cor do tempo. Desafiando a penúria do animal, pegou na chávena e bebeu. Sentiu uma onda quente atravessar-lhe a garganta e o íntimo. Olhou o cão e desejou-lhe um fim de tarde morno. Bebeu o resto do chá e recusou-se a segunda chávena. De propósito. Deixou-se ficar por alguns minutos. Os bastantes. Levantou-se, deixou uma nota exagerada em cima da mesa e virou-se para a direita. Ninguém. Tinha adivinhado. Aninhou o pescoço no cachecol preto e subiu a rua. Talvez no cruzamento...

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

dezembro 24, 2006

Feliz Natal

Segunda parte

Virou à esquerda e atravessou a rua num bocado de asfalto seco de velhice. Sustenido por um ritmo constante, enfrentou os restos de multidão com pressa de calor. Seguiu em linha quase recta de uma geometria quebrada por algum individuo distraído ou entristecido por teimosias. Na esquina só olhou em frente e atravessou em diagnoal por entre o trânsito de autocarros de sentido único. No passeio, insistiu na direita e antes da farmácia esqueceu-se igreja e da mercearia. Caminhou no bocado de rua esvaziado por lojas que não existem, virou ao sabor dos prédios e ao longe viu as paragens cheias e as luzes das compras. Espaçou a passada como por medo da agitação. Na penúltima esquina virou à esquerda e fugiu da inquietude da multidão. Forçou o passo na subida e lembrou-se da loja de antigamente, no outro lado do passeio. Sorriu ao baldio que ainda existia e por entre alguns carros abandonados e outros que apenas esperam, apressou-se para o café entalado entre a descida e a subida, num pedaço de vale imaginário e mesas vazias da esplanada de Inverno. Porque raio não se teria lembrado deste lugar? Era perfeito como interrupção.

Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?

Ao som de GOL "No Bounds"

dezembro 19, 2006

Primeira parte

Levantou-se do sofá e atirou o comando da televisão para o monte de almofadas junto à janela fechada. Bebeu um gole do copo de água e pouso-o com cuidado em cima de uma revista. Olhou em volta à procura de algo que lhe tivesse escapado. Não encontrou. Aconchegou o cachecol, procurou nos bolsos o isqueiro e o comprimido. Bateu com as palmas das mãos nas pernas e avançou para a porta. Olhou o telemóvel e esqueceu-o de imediato. Abriu a porta, deixando as chaves na fechadura do lado de dentro. Fechou a porta com os cuidados de um homem velho. Sorriu.

No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.

Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?

Ao som de Riverside "The Same River"

dezembro 18, 2006

Outro

A moeda tinha duas caras

Sem saber porquê, decidiu acompanhar a música com dois dedos. Nem gostava da canção. Enfim, não tinha a certeza. Olhou para o copo, o terceiro. Decidiu beber a cada pormenor que gostava nela. Sorriu e bebeu de uma vez. Era um pormenor irresistível. - Outro... Por favor. - Do outro lado do balcão, alguém sorriu. Ele retribuiu. Cumplicidades. Pegou no copo e observou a transparência. Hesitava o próximo detalhe. Como detestava batotices, decidia o seguinte com minúcia. Depois de quase um minuto, pousou o copo. Olhou em volta e tomando uma adolescente insinuante como inspiração, bebeu em dois goles generosos. Tinha escolhido dois de uma só vez.

Ao som de A.R. Rahman "Musafir"

dezembro 14, 2006

Em qualquer lado

Saiu do motel entalado entre a capela de casamentos e o carpinteiro de caixões, gingando a vontade de uma última noite de liberdade. Desceu a rua até ao cruzamento. Passavam camiões cheios de gado vindos do vale. Olhou o chão no momento que um pequeno lagarto lhe roçava o passo. Sorriu e esperou que desaparecesse na erva alta dos baldios. Atravessou a rua e dirigiu-se para as luzes. Do cigarro no canto da boca, apenas restava o filtro. Não se habituava aos fios de tabaco à solta na língua. Sossegou a ansiedade aos primeiros acordes de música poeirenta. Sentiu nos bolsos as moedas e entrou no primeiro bar.
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.

Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"

Culpado por não saber parar o tempo

Subindo os degraus parei onde nos últimos dias de vida, punks e homens velhos debatiam estados de confissão. Encostei-me ao corrimão e de costas voltadas à noite, ri-me até sujar a tosse de bílis. Encolhi-me na camisola escura de gola alta, rota nos mesmos sitios de há tanto tempo e de mãos nos bolsos, invejei uma noite de uma fuga que não me lembro onde terminei. Tirei a mão do bolso, verifiquei-lhe as rugas mais recentes e crispei os dedos ao ritmo do esquecimento. Talvez por me sentir melhor por um momento, comecei a descer os degraus.

Ao som de Dean Wareham & Laetitia Sadier "Bonnie and Clyde"

Gritar ao passar a ponte

Desejo umas mãos frias de escritor à beira do colapso. Desejo um copo meio vazio, na impressão de meio cheio, enquanto as esporas e os estribos rezam sózinhos à entrada do estábulo. Desejo um domingo requentado de quem não precisa da segunda feira. Um fio rouco em goles de café mastigado. Desejo uma surpresa logo de manhã, ao último suspiro quente da cama. Desejo um golpe fatal perante o rio e o lodo, como se a hora fosse feita de fitas enroladas e missangas de cor. Desejo uma canção que nunca acabe. Desejo um mostrengo só para mim. Desejo a cor do céu que uso para marcar a minha impressão digital. Desejo pintar uma parede com as palavras da guerra, do amor, da magia e da dinastia. Desejo um fósforo que apague a água que não me chega. Desejo uma mortalha de gomos sumarentos. Desejo a fortuna de um fim de dia quente.

Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"

novembro 27, 2006

Três degraus

De ocaso em ocaso,
um bolso intenso
de uma gabardine habituada
a esperar o momento
e o néon súbito
da espera
e do soluço,
revolta de não ter chave
nem porta para abrir
os lençóis
para esconder alguma parte do corpo.

Segundo a sua doutrina,
elevou algo que conseguiu lembrar
e num relevo
que sempre lhe marca o rosto,
decide andar mais um pouco
na certeza de algum sorriso
ou lágrima
que consiga suportar
e esquecer.

Quando passar por ele
não o conhecerá,
perdido
em desvendar traços
e espessuras
iluminadas por tons banais,
cinturas
e ombros encolhidos
entrelaçados por olheiras
e por instantes.

Sentado no passeio,
deixou-se seduzir
por um candeeiro insinuante,
véu significado de desmaio
na epiderme de vontades
e prazeres,
panos sumptuosos
de oiro carmesim,
ignorâncias assumidas
por desconhecer a cor.

Da varanda agastada
pelo arrepio
do escuro,
seguiu o sulco deste homem
serpenteando alguns minutos
no epílogo
de tantas noites,
querela de pontos cardeais
e de uma coroa de conde,
vénia de ciscunstância amarga
e proveito
de quem espera
e sabe,
estar a porta aberta
e os lençóis
aquecidos.

Ao som de Ratnabali Adhikari "The One part II"

novembro 26, 2006

Aconchegadamente

No sustenido da berma
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.

Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.

Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.

Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.

É tarde.

No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.

Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.

Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.

Prometem desassossego
e os dias seguintes.

Ao som de Godsmack "Serenity"

novembro 22, 2006

O trunfo

Por ser necessário, perdem-se as razões e os motivos em cantos de relva fresca, junto ao canal, onde as horas de almoço se recortam mais além, surgidas de nadas e chiares de qualquer coisa longínqua. Mais uma dentada na sanduíche e as migalhas vão e vêm, servidas em papel de lustro que custa algumas piastras numa loja escondida e limpa, numa rua qualquer apenas por ninguém a conhecer, centro de frágeis atenções e com avós pelos passeios, debaixo de árvores de Outono e olhares na esquina, enquanto o horizonte não regressa e o sol não retoma o dia.

Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.

E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.

Ao som de Love "Old Man"

novembro 17, 2006

Mordiscando

Dás-me fome de sushis impossiveis, onde o sabor é o teu lábio multiplicado por mil.

Ao som de Airstream "Welcome to Lycira"

novembro 04, 2006

Régua e esquadro

Tinha prometido deixar de beber. Saía antes das dez da noite, via umas montras, talvez acabar o resto da cigarrilha e pasmar diante dos reclames luminosos. Andei quatro quarteirões e vi-os a entrar num café mal iluminado. Um daqueles antros de inox e alumínio, cheios de motivos descartáveis e empregados vestidos de branco. Eles, de fato preto e gravata fina, escolheram a mesa certa e não pediram nada. Em silêncio, olhavam o empregado do meio que abria as garrafas e procurava os copos exactos. Atulhou uma bandeja metalizada e rápidamente serviu. Como relógios, eles encheram os copos e ao mesmo tempo deram o primeiro trago. Só depois sorriram. Com um movimento estudado, o empregado compreendeu e voltou para trás do balcão. Na televisão, um programa típico de horário nobre, cheio de luzes e histerias. Eles, em silêncio, bebiam pausadamente. Acenderam cigarros. Os nós imaculados das gravatas levantavam dúvidas e hábitos. Mais dúvidas que hábitos. Da cozinha ouvia-se algo a fritar. No ar um cheiro adocicado. O chão estava limpo, nas mesas os ketchups e os molhos arrumados, a ventoínha do tecto girava sem ruído e do exterior só barulhos inquietantes.
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.

Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"

outubro 31, 2006

Edital

Revogando tudo o que se disse aqui, decreto meia hora de conflito armado segundo critérios acordados em assembleia geral e com as seguintes limitações:

1 - Estão proibidas balas cor de rosa;

2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;

3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;

4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;

5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.

Boa tarde

Horas

Ouvi mas não me lembro onde

Depois da única curva da rua, via-se a porta, a varanda e eles. Costumavam sentar-se no degrau da porta ou no passeio. Às vezes, no muro. Olhavam e gritavam um sorriso. Outras vezes não estavam lá. Olhava o rio pela fresta da rua estreita e segurava-me no rebordo da porta da garagem, à espera de qualquer coisa. Como banda sonora, lá fora tinha os barulhos de quem ia vivendo. Lá dentro, as intermináveis listas de descoberta e fitas com guitarras de quatro cordas de todas as cores. O tapete branco com geometrias azuis e verdes fazia parte da família e as fotografias mostravam gente desconhecida. A porta nunca se fechava e só por isso eu não consegui ser mais eu. Só me apercebi no dia que vi a sala sem o tapete e pude finalmente fechar a porta. Não cheguei a fechá-la.

Ao som de The Stranglers "The Raven"

outubro 20, 2006

O sol, o anjo e a fogueira

Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.

Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"

outubro 13, 2006

Ámen duas vezes

As vinganças são bisturis coloridos, retalhando com dois mil cuidados o desalento de tardes de sol ou meias manhãs de chuva miudinha, onde os passeios desistem e os passos se repetem. Ao fundo da rua, junto aos restos de ontem, adormecendo o seu tédio, senta-se um deus em posição de espera, alumiando o reino que prefere privado. Não atende súplicas nem queixumes. Não oferece curas nem segreda sílabas doces. Observa, reduz o horizonte a instante e num esforço incapaz de conter a galáxia, mantém transparente a razão humana. É viciado no jogo, este deus urgente. Tomou como igual o ás de espadas e corrompe damas e valetes a seu contento. Cheira a vão de escada. É estéril. Afinal é filantropo .

Ao som de OMD "Statues"

outubro 09, 2006

Vista actual

Semelhanças de casos furtivos,
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.

Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.

Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.

Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"

setembro 22, 2006

18 horas de certezas

Dia 22

Se calhar a chuva da manhã tinha sabor. Bebi o café, o que me escorre o encolher de ombros e me liberta o sorriso, mesmo se o tenha guardado no porta luvas do carro. Olho a empregada nos olhos, corrijo-me e acendo a luz do resto da tarde, lembrando as pessoas pelos seus nomes e ouvindo os segredos dos miúdos. No relógio ainda sobram horas e planos para a semana seguinte. Na prateleira não encontrei o livro de versos. Desci a escada, olhei as revistas, sai e nem sequer deixei cair os olhos no passeio. É bom sinal. Os anos continuam arredondados, mas as arestas têm falhas cada vez mais suaves.

Ao som de Peter Ellis "Angel"

setembro 16, 2006

Adro

Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.

Ao som de The Church "Under the Milky Way"

Redondos

Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita.
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.

Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"