fevereiro 11, 2011

Desabafo ou memorando

A questão é esta: aturar é o primeiro passo no acolher desse boião de opiniões a metro. E eu tentei. Uma vez, na melhor das intenções. Duas vezes, num engolir de razões e certezas. E essa terceira vez, camuflado em nome próprio, corporativamente participativo e em nojentos espasmos de politicamente correcto embrulhado em papel de lustro correcto. E quero-me penitente ao verificar o asno que fui e pareci. Há tantas palavras que se escrevem e não se dizem. Culpa? Toda. A fama tem destas coisas, descemos tão baixo que custa reconhecermos a nossa sombra desfiada.

fevereiro 09, 2011

Adormecer

Representar papéis, palavras de outras pessoas sem as folhas brancas que preciso. Sentir as noites de outros corpos, murmurar as palavras dos filmes e das folhas preenchidas de outras pessoas preenchidas por outros alcances. Anseio, por reconhecer no verbo as notas das canções que me fazem parar. Perjúrio, por lamentar as declarações de amor que fiz com palavras de outros, respiradas nos suspiros de outros olhos colados às janelas humedecidas pela chuva. Sento-me nesse tribunal de mim só e minto. Juro a solenidade nos livros que não sinto, evito olhar de frente os jurados, não reconheço advogado e juiz. Todos têm a minha cara e as minhas palavras. Todos são partes de uma verdade salpicada de mentiras. Todos são eu e eu não quero ser todos. E porque ser todos é afinal ser um, ser eu, eu não quero. Quero representar e quero as palavras, quero as noites e os murmúrios, quero o sabor que só eu sei. E ao querer, serei.

fevereiro 07, 2011

Cantiga

Preferias começar o ano sempre e outra vez? Preferias um lugar sentado no amor?
Preferias um caderno de folhas sempre brancas? Preferias seres sozinho ao seu calor?
Nesse sabor, nessa dúvida, desaguam mares de táxis desocupados.

Preferias um sol sempre a correr? Preferias atilhos e laços na fronteira?
Preferias um ocaso à tua espera? Preferias guiar mundos à tua beira?
Nesse calor, nessa ternura, precipitam-se as areias do vagar.

Preferias viver no quarto escuro? Preferias olhos meigos no Verão?
Preferias beijos como remédio? Preferias as batidas ou outro coração?
Nesse tom, nessa cadência, encontras a razão e o nó cego.

Preferias guardar a tarde e a saudade? Preferias cair acordado?
Preferias o que escondes ao esconderijo? Preferias amar a ser amado?
Nessa e nesse tornarás. E mais, muito mais.

Servir frio, quase quente

Agradecem-se gestos, espaço de passagem ou a pachorra de arranjar os bilhetes para a porta certa. Agradeço todos os confins do mundo conhecido, e em todos os confins desdobro-me em atenções que em cada 4 me sobram 3 sorrisos fechados. São mil as facetas dos meus obrigados. Suaves, bruscos, desinteressados que também os há, interesseiros quando se servem em dias de dieta, brutais de tão redondos, surdos quando soam a mudos. E podem soar a rios de sol ou a manhãs de verão de cor baunilha, quando a baunilha é imaginada amarela a desmaiar para o pastel. E agradecem-se divindades, desmiolados com nome de deus, mulheres histéricas apenas por serem mulheres. E agradecem-se ladrões, assassinos e corruptos, todos do género masculino. Porque feminino é um verbo mais subtil, mesmo esquartejando um amante maçador. E ao obrigado militante, gosto de juntar os qb´s que me amaciam o goto. Apenas qb´s, para não se me pegarem os molhos.

janeiro 22, 2011

Ré, Si e Fá na ordem correcta

Um após outro, os dedos desfiam os meus passos mesmo quando encostado ao muro dos correios. O frio não me deixa ver o fim da rua. Nem a janela do teu quarto. A minha língua sente os dentes gelados, o céu da boca sedento, a falta que o teu sabor me faz. Imóvel, já não sei quantos dedos tenho, cotos enfiados nos bolsos fundos de um cotão redondo de amizade. Esqueci-me de chorar e de te adivinhar por detrás dos vidros fechados e da luz que hoje não está. Persegues-me como só eu sei. Nunca te saberia explicar. Sou homem, aí tens. Não sei explicar o amor. Sei senti-lo. Sei ajoelhar-me aos teus joelhos e beijar-lhes o amarrotado. Sei sair de mim e empurrar-te ao meu abraço enfeitado de um grito abafado por palavras religiosas feitas ladainha e bruxedo. E encostado ao muro dos correios, sei avaliar o vazio que provoca a imobilidade. Sei e respeito o frio, por me gritar mais e mais.

Pele em tons azul

Queres ver-te como a cobaia que te faz eleitor, pai ou criança. Queres a absolvição em todas as portas e com o cotovelo na secretária que te separa do mundo. Queres perder essa virgindade de apelos e causas, mas só depois do jantar e talvez de uma noite bem dormida, sem conseguires dizer palavra a quem dorme a teu lado, nem sequer o sinónimo de foder. Desapontas o vizinho do lado, sabes? Deixas a tua marca, mas o cimento é sempre areia junto à rebentação. Dizes-te profeta e cívico. Deixa-me chamar-te seixo. Ou vívere. Aquele que mastigo lentamente e depois cuspo por um encolher de ombros. Passam-se tantas noites assim, sem fogueira, sem luzes de presença que podem alertar o inimigo. O fogo de morteiro. A fé e caridade. Há tanto para te dizer. Tanto para me dizeres. As chuvas que começam no verão para nunca mais terem fim. As mulheres de xaile e manta. Os dizeres da fronteira, onde os idiomas se misturam e sabem a manteiga derretida. Vejo-te mas não me dou a conhecer. Vejo-te daqui mas ficarei calado na sombra. Viro-me para a parede e esperarei milagres. Mudei de ideias: quero-te. Mas só se fores o meu oxigénio.

janeiro 15, 2011

Antes, agora e tudo o resto

Bebo o chá de todas as lamentações. Fumo o tabaco de todos os orgasmos. Olho os halos de todos os meus sonhos. E com a voz em doce ronronar, deito-me sentado, sentindo nos ombros as ousadias que ainda sei pedir aos deuses. Tenho as lágrimas das noites e das garrafas pouco antes de vazias. Guardo-as nas gavetas dos rubis. E porque temo perder-me na penumbra, nunca renegarei aqueles que me trouxeram o calor. Recordo todos os seus nomes e faço-o numa homenagem a mim mesmo. Eles concordarão com sorrisos. E calados, irão subir em fila indiana as dunas da seda. Sinto falta do cheiro da baunilha. Tal como queria sentir nos meus braços a pele dourada daquela amazona, calor de cheiro no seu pescoço doce, fechando os olhos aos meus beijos.

Braçada de uma natação qualquer

Renomeio a noite
em lâminas bruscamente finas.
Prometo-lhes a devoção
e todas as manhãs.
Serei virgem,
complicado ermo de realizações,
pecado íntimo
de todas as que almejo,
segurança de ventre maternal
conhecendo as agruras
e os limites.
Sabias que era preciso entrar
para sair.
Tinhas as certezas
de elipses por acabar.
Soubeste largar em voo
todas as andorinhas do teu bolso,
e as árvores...
As árvores,
colheste-as cedo demais.
Carregas na alma
as folhas que não agarraste.

janeiro 09, 2011

Espaço

Havia uma sexta-feira, muitas, todas as que sabiam a sabor, de noite cerrada e candeeiros de aldeia sem alumiar quase nada. As mesmas curvas, as mesmas casas de luzes apagadas, as janelas de persianas corridas e sonos antes do tempo, a busca de uma ponte em silhueta e as luzes da cidade decalcadas no rio. Poucas coisas se oferecem assim, sem brilho de precioso, só com aquela sensação de alma, de alguma boa acção paga com juros. Era o tempo em que dois dias eram mundos e fundos, maiores que uma razão de tempos modernos de uma civilização de números sem tempo para nomes. E havia uma sacola. E gavetas meio vazias e cheias de tudo o que dava prazer. E uma vidraça alta que de manhã estaria preenchida. As coisas, as janelas e as escadas de sete degraus são como uma garagem de porta de madeira rolando num veio de ferro, um piso de cimento com manchas de óleo secas e as prateleiras empoeiradas de dias a fio escurecidos, sem haver sexta-feira nem o dia seguinte. Mas havia. A sexta-feira estava lá, aprumada, resolvida a luz ténue de um tablier iluminado. Tão simples eram as sexta-feiras, antes de sermos crescidos, por fora e por dentro.

janeiro 05, 2011

O homem com o sorriso que não acaba nunca

Nesta chuva que o meu cérebro há-de beber até à última gota, saboreio o último chocolate na certeza de me saber o dobro, mesmo depois de duas semanas em salmoura, pechisbeque em cima da cómoda, ladeado pelo relógio e algum perfume esquecido por alguma das amantes. Não me deito com os nomes, logo, não preciso deles. Chamo-lhes divindades, cada uma, uma diferente. E saboreio-as, mesmo se alguma for a última. Será, porque não pretendo ficar aqui. Comprei os bilhetes de todos os comboios que partem hoje, por se algum acaso me decida destino. E não o serei enquanto saborear o último chocolate, enquanto a chuva continuar a cair, tropeçando no beiral da varanda para se estatelar no passeio mal cheiroso. Devia ter oferecido o último chocolate ao sem-abrigo que me faz sorrir. Lá estava ele, sentado no carro abandonado onde dorme com os cães, janela meia aberta e sorriso meio aberto. Sorrio porque tem um sorriso que faz sorrir. Chamo-lhe o homem do sorriso que nunca acaba. Assim, como num provérbio árabe que se aprende no deserto à beira dum poço. Saboreio o último chocolate com o céu na boca sintonizado no seu sorriso. Sem perfumes, nem amantes sem nome. O seu sorriso que não acaba nunca, mesmo depois de lhe oferecer o bilhete de comboio e de o ver de braços caídos, olhos doces e sorriso que não acaba nunca. Eram 14 horas e o próximo só parte às 18. Se me decidir...

janeiro 04, 2011

Maneirismos

Escrevia todos os dias uma carta. Dobrava em quatro, soprava o envelope em busca de espaço e penetrava-lhe a brancura com o papel bem apertado, não fosse a dobra traí-lo. Escolhia sempre um selo com animais. De preferência pássaros. A carta chegaria mais depressa. Lambia com vontade e com o polegar que gostava mais, pressionava até a falange estalar. Tinha um hábito difícil. Escrevia sempre o endereço já depois do envelope fechado. E só fechava o envelope depois do selo colado. Olhava-o de frente, estendia a língua e passava-a em ângulo obtuso ao longo da faixa de goma, sorvendo-lhe o sabor como um colegial apaixonado. Só depois o deitava de costas, e de tira linhas em punho, num fio de escrita finíssimo e de traço azul, de tinteiro, afincava-lhe endereço, nome próprio e apelido, deixando sempre um Excelentíssimo como o tio lhe tinha ensinado. No remetente, apenas as iniciais entrelaçadas, à boa maneira daquela época que teimava em esquecer-se. Apoiava-o em 60 graus e admirava-lhe a alvura manchada de azul com sainete. Orgulhava-se dessa gentil obra diária, sinal de respeito pelas instituições e códigos de civilidade. Por fim, tomava-a nas mãos, pois só nesse momento era carta, e atirava-a para o gavetão aberto, obeso de envelopes marcados a azul. Um dia, passaria pelos Correios. Quando o Rei fizesse anos.

Dia 4

Vontade de mergulhar nessa tua nudez. Sentar-me ao longo da rua onde vives, levantar os olhos a todas as janelas e adivinhar onde te sentas. Voltei a sentir, sabes? Voltei desse litoral onde cada passo se afunda. E aqui, na tua rua, voltei a sentir-me como antigamente, sentado no degrau, encostado à porta da garagem, segurando o sol e a lua com as duas mãos. As mesmas mãos que preciso para te segurar e te sentir a vontade. E ao saber-te, ao reconhecer a janela onde sentes a noite no vidro, encolho os ombros à sentença de escolher entre o dia e o luar. Abro as mãos e deixo escapar o sol e a lua. Visto o sorriso que trago sempre no bolso e corro rua abaixo atirando as mãos bem alto, num movimento descomunal de entrega. Desejo que me tenhas. E desejo-te ao longo da rua onde vives.

janeiro 03, 2011

À porta do museu

Deixei-me nas ruas e nos recantos onde os degraus afinal são maiores. Fiquei colado às portas giratórias, meias vidas de dentro e fora onde o cheiro da comida é mais forte que o frio. Esqueci-me das palavras que sempre soube, viradas em consoantes e esgares de um novo que recorda dias sem meio nem fim. E depois veio a chuva. E as ondas tornaram-se maiores. E o areal mais claro. E eu, encharcado pelo dilúvio, marquei este momento para sempre, um minuto maior que os outros minutos, uma viagem de barco rumo ao outro lado, embarcadouro cheio de casas e cansaços, pai de dois filhos regressando de uma miragem. Ao longe, depois das luzes e hipnotismo de sonhadores, ficaram os degraus. Afinal os degraus são maiores. Como o são as fileiras de janelas e as linhas rectas. Como o desejo de uma árvore em cada esquina, e descobri-las a todas junto ao lago.

dezembro 29, 2010

Dia 29

A menina encostou-se à janela e procurou na rua algum resto de amor. Seguia-lhe os passos pelo resto de passeio mesmo em frente da varanda comprida. Via-o descer os degraus de tijolo vermelho, saltar o passo de relva e correr o fim do parque de estacionamento, antes de saltar os degraus da entrada e deixar de vê-lo. Todos, quase todos os dias, acertava-lhe o meio da tarde, neste regresso a casa, lanche antes da torrada que a mamã lhe barrava com doce de morango. Um doce antes do doce. E depois, sempre sem excepção, olhava a janela de persiana corrida até a ver subir de três sacões e o saber olhando o horizonte de aviões e autocarros apressados. Sempre, também quase sempre, ligava o gira-discos e punha a agulha no princípio do disco, sempre a primeira canção do lado B, sempre à espera do mesmo minuto e meio final, prolongando o olhar, os passos debaixo da sua varanda, a persiana a subir e o desejo desse beijo prolongado nos seus lábios cor de rosa enquanto a mão lhe tocava o rosto. E sempre, sempre, antes do fim da canção, recuava a agulha e repetia o minuto e meio. E encostada à janela, beijava o vidro embaciado enquanto tocava a sua face com as mãos frias. E aí deixava-se ficar, até a canção já não ser canção, até os passos deixarem de ecoar, até o beijo só se desejar no dia seguinte. E sentia-se menina, mesmo com o contorno de mulher desenhado na janela embaciada.

dezembro 28, 2010

dezembro 24, 2010

Dia 24

Lembro-me de acordar muito cedo. Lembro-me de já haver areia da praia para aconchegar a árvore de Natal. Lembro-me de muitos cheiros adocicados, da cozinha cheia, de um certo brilho no ar. Lembro-me de uma excitação que não lhe sabia o nome. Lembro-me de esperas e uma sofreguidão de desejos. Lembro-me de sorrisos. Lembro-me de não sentir frio. E o frio passava por lá. Lembro-me que nada disto parecia ultrapassado ou fora de moda. Lembro-me e ao lembrar-me, nada disto me parece deslocado no tempo. Lembro-me e tenho saudades. De ser tão pequeno que não era preciso lembrar.

A Gôndola e a Ilha

Ácido como sabor numa previsão passageira.
Desenrolo uma écharpe comprida sobre o rosto vítreo e puro,
frio de eternos Invernos, rigoroso como a fábula.
Dos lábios dormentes e mudos, adivinho as doçuras.
Guloso, fico a olhar a morta, sem vassalar nenhum vivo.
Imóvel, acredito na palidez.
Rebusco os bolsos em busca da minha cicuta.
Verifico-lhe a natureza e engulo de um só trago.
Faleço sumariamente e dispo o preconceito.
O que restava.
Somos então um.
Violentos.

dezembro 13, 2010

Marginais correndo descalços

O que irei fazer quando experimentar aquele fato? Fazer, sim, o concretizar, o construir, aquela sensação de alcance, chuva sobre uma cara molhada pelo baptismo da manhã. Lembras-te daqueles barcos imóveis sob a neblina, aquela manhã, meia madrugada, em que o acordar cedo e o deitar tarde estavam tão misturados que nem o relógio funcionava. Lembras-te? Ainda sanes o dia? Desconfias de sábado, ou talvez domingo. Por esse cálculo idiota de agendas e afazeres ditos úteis em dias tão inúteis de manhã à noite. Lembras-te desses dias? Nunca os esqueceste? Tens bílis entranhada nas unhas, por mais limpas que pareçam. Cumprimentas muitas almas com essas mãos? Ofereces-lhes baunilhas e segredos? Deixa. Esquece todos estes fios de memória e concentra-te nessa chávena de café esfriada e no teu umbigo. Fumega? És tu que fermentas. Sabes a ócio. És doce. Um doce enjoativo, viscosamente inoportuno. Eu, ao menos, sou amargo nos dias de meio sol. É o tempero que me apresenta aos juízes e aos homens de algum bem. Não conheço os homens de mal. Quanto aos de bem, chamo-os mas eles não se dignam. Talvez por não me reconhecerem trono. Ou a falta dele.

dezembro 12, 2010

Simpatia

O primeiro passo é olhar as ruas, todas sem míngua de vontade. O segundo é apresentar-me à fauna. Deixá-la levar-me, percorrer os céus e os infernos como quem procura um cigarro e uma bebida confortável. Embelezar a curiosidade com sem-abrigos e estrelas de cinema, sentá-los a todos na mesma mesa, mandar servir o que a imaginação pedir, gargalhar alto impedindo os donos de fechar as portas e os poetas. Sempre os poetas. Impedir o seu silêncio, da mesma forma que um copo de água nunca se recusa. Prazer em conhecê-lo. A si, a todos, a ti. Gosto de me sentir seguro entre vós. Gosto do vosso toque, agridoce, pedinchão e de amor na ponta dos dedos. Deixam-me rezar um pouco? Um minuto da vossa noite? O bastante para me redimir perante os ausentes, os que me assombram os dias, recheando-os de estradas à chuva por entre bancos e loja tardias, ou de tartes caramelizadas com voz doce, ou quem apenas está, de luz aberta, conferindo-me o poder da sugestão e de lençóis aquecidos pelo seu labor. É tudo ganho. O passado, o imaginário, o sonho onde me questiono se sonho, mesmo se todos os sonhos começam à entrada do jardim, olhos no este, costas ao mercado e ao mar por detrás dos prédios, que nunca são maiores que 44 andares. Um dia serão 444. Um dia sem sonho nem olhos fechados. Um dia em que as guitarras não gritarem, os lábios não se juntarem e o fumo não se escapar por entre os dedos. Tudo tão longe, anoitecendo tão cedo, pulverizando a recordação como cenário de guerra encavalitado na incúria e em todo o charlatão vestido de farda. Prefiro-me sem travões na bicicleta que todos os fatos e gravatas que os salões fechados podem comportar. Sorrio aos uivos, aos cabelos ao vento, às senhoras velhinhas sentadas nos cafés à espera de logo à noite. Beijo-as. Ajoelho-me a seus pés e irei jurar-lhes pedras preciosas, nem que guie toda a noite para as ir buscar ao oriente. Nem que me crive de balas para as honrar. Nem que morra primeiro. Olho os dedos, a minha pele camaleónica tomando textura de lagarto, o torpor a velhice querendo entrar-me na figura. Nunca abro a porta a desconhecidos. E aos conhecidos, exijo senha. Só a mim e aos meus filhos, isento as formalidades da fronteira entre este mundo e a medusa que abocanha o trovador e abre a porta pesada da evasão. Conheço-a de estradas poeirentas, de caves onde dança o bafio, dos semáforos onde morre a gente e os jovens que não merecem sair de cena. Conheço tanto e temo esquecer-me de tudo. Escrevo. E ao escrever, exorcizo as querelas e a fome. Apenas água para ferir a existência. E o vinho esquecido na garrafa no aparador. Para que em vinagre, provoque alguma emoção deixada ao acaso.

dezembro 06, 2010

Regressos

Azuis que invejam, azuis que envaidecem, azuis pecando por escassos, azuis de água, mãos frias e essa menina sentada na areia, precipitando o meu desejo por longos pingos de chuva e anos de pele fina e riso fácil. É tudo o que fica desse tempo roído lugar, nessa areia que ainda existe, mesmo se no fundo de um mar que regressa e traz pretéritos, mas sem cheiro, mas sem rosto molhado e roupa encharcada. Agora existe desejo, serpenteares de um sinuoso dourado, mas gastou-se a inocência, essa espuma húmida de longo sabor doce.