março 12, 2011
A verdadeira primeira vez
Delicado em torno dessa romã e beringelas que adoçam os sentidos, esses demónios de freio nos dentes replicando a norma e o amor por coisas acima da ideia. À deriva com os olhos em forma de ouvido, o fato de explorador sobre as gotas de suor, o jerrycan de gasolina ondulando de octanas fartas enquanto o senhor de fato caqui abana notas de banco na esperança de conseguir alguma atenção. São sujas as guerras de diamantes e as do amor. Revelam o ínfimo como se o quilate servisse para alguma coisa. As areias do deserto ocultam os odores e os corpos perdidos em batalha, danos colaterais que nunca o são realmente, pela angústia, pelo remorso e nessa mentira chamada adorno. Tudo parece complicado, enredado em fios de cobre e beijos furtivos. E todas as canções deste lado do mundo falam de crianças dormindo com anjos. E nessas palavras, todo o segredo do lado de cá da duna.
Estuque
Sei todas as coisas que o prazer pensa. Sei por uma noite quase manhã, à beira dessa ponte de salto fácil, junto a tais candeeiros dourados, culpa sombria ao alumiar assassinos e poetas. Sei ignorar os sinos quando me chamam para a culpa. E sei se a vergonha me atrasa os passos, ou quando a porta de fecha antes da minha estocada. Sei em cada possessivo meu, em cada mentirosa minha, todos os filamentos que fragilizam cada dia. E sei todas as orações e todas as blasfémias, talvez por se lerem na mesma página. E tarde, já tarde, percebo então o limite e o acolhimento desse sorriso roubado. Tão tarde que as razões já se encontrarão exangues.
A primeira hora é sagrada
Ao longo dos meus ombros que se escondem da noite, ordeno aos meus dedos que se apressem. Temo a resignação, o poder da biologia ou desse espírito mortal que se empenha em fechar portas e recusar as asas da discórdia. Fora do silêncio existem oscilações, o perigo morno dos compassos, os veludos revelando a pele alva do pecado. Por dever a desses demónios sento-me ao piano, derrubo os castiçais e mergulho no copo de vinho como se a minha morte fosse requisito. São passos e vestes longas roçando o chão, são as concubinas de todos os cardeais devorando cada página onde escondo poesia. E nesse imóvel cárcere de ametistas, reconheço o meu carrasco. Acena de longe com um lenço rendado, cioso de cada gemido e entretido na gula do meu sangue. Devo-lhe a vida e por isso, ironia das ironias, limpo-lhe os sapatos e cuspo, para lhe avivar o brilho.
Tudo por uma visão do outro mundo
Dias aqui, em tons turquesa, em polvorosa por todo o encantamento e desencantamento de todos os dias sem desgoverno, dias onde se procuram pepitas e mesas de café onde se esquecem o relógio e o clima, onde o velho se encontra humano e limpo de inquietação. Todos os velhos e as crianças são levados por criminosos de gravata escurecida pelo esquecimento. Ou então por não se lembrarem de terem nascido. Não se lembrarão de ser velhos, por culpa de uma velha mãe que não os soube afogar no rio à beira da próxima curva. Dias de rapina, processos onde pássaros tentam explicar que sabem voar. Os descalços metem-se a caminho, há sempre um fim de terra algures, um fim de estrada rumo a uma costa onde o passo em falso não merece perjúrio nem cicuta, onde os pecados os levam o vento. Todos os comboios, todas as chávenas de chá, todos os poetas e vendidos se mascaram, há divindades em todas as janelas, das varandas jazem enforcados e cambraias, curiosa encarnação de recém nascidos, onde cada cordão umbilical é nó de pescador e certeza de penitência. Dias de espanto, de vinho e rosas, dias de axioma por não se conhecerem as variáveis. Na cozinha preparam-se manjares nunca vistos. Serão paladares improváveis, mais cordiais que uma abadessa fiel. Serão dias de fartura, cornucópias pejadas de antigas formas de ver o dia. Será o dia da reconquista. E se morrerem multidões, comeremos croissants às varandas, atulhados de açucares e banha, o bastante para pregarmos a bem-aventurança. Dias aqui, à força de chicote, ao bater o coração terno de uma donzela.
O céu, aqui
Há uma chuva por cima da muro,
perto do oceano,
longe do destino,
cama de areia que me veste,
que te embala,
motivo para sentir
mão na mão,
credo na língua
e visitação de algo nobre,
perdidos na costa,
por cima do muro,
crivados de balas
enquanto se cantam profundidades.
Há uma chuva por cima do muro,
o bastante
para se agitarem bandeiras,
todos os panos
de todas as agitações,
batalhas forjadas
em beijos colhidos no centro da tormenta.
Há uma chuva por cima do muro,
por saber
e imaginar,
que ao longo do cais
existem todas as chuvas do oceano.
perto do oceano,
longe do destino,
cama de areia que me veste,
que te embala,
motivo para sentir
mão na mão,
credo na língua
e visitação de algo nobre,
perdidos na costa,
por cima do muro,
crivados de balas
enquanto se cantam profundidades.
Há uma chuva por cima do muro,
o bastante
para se agitarem bandeiras,
todos os panos
de todas as agitações,
batalhas forjadas
em beijos colhidos no centro da tormenta.
Há uma chuva por cima do muro,
por saber
e imaginar,
que ao longo do cais
existem todas as chuvas do oceano.
março 03, 2011
Vocal
Pertenço a uma decisão ou no melhor pano, a um entendimento. Ser e admitir são premissas, factos reais de um documentário onde um regador é muito mais do que parece. Conhecer como verbo é manifestamente fraco. Ínfimo por não deter os desejos de mil noites, ou fins de tarde que me são unha com carne. Sei o que pretendo escrever, com que livre arbítrio e quais os tubos de ensaio a sujar. Sei até quais os reagentes. Sei a cor do cabelo e da demora. Sei até onde chega a avenida e que marés se devem esperar. Com todos os cerimoniais que me fizeram voltar aos lugares, construo camadas cortadas com a precaução do papel. Não é a fome que deve ser saciada. Não há lugar aqui para alimentações rotineiras. O sabor é ministrado em doses que só os amantes entendem. E amante é um desígnio difícil de alcançar.
março 02, 2011
Ladrões como eu
Fumo, bebo, mordisco e mastigo, olho e observo, saboreio, sorrio, apercebo, ouço, arrepio, sinto, distendo, escrevo, durmo, permito-me as ideias do universo que ouso conhecer, sugiro-me as imaginações que me fazem um todo, firo-me nas impossibilidades que me torturam, nado entre as elevações de carácter, acrescento lâminas e morangos aos saudosismos com que cozinho plebeias solenidades. E em redondeios, porventura inusitados, faço surgir rituais extremos, mesmo se renego papas e importâncias, meras tolices que me servem de adubo, quando decidir lavrar o resto dos meus dias.
março 01, 2011
Sugar Kane
Lamento rosas e ramos ressequidos por deixar os elementos regular os passos e todos os açucares deste mundo. Escolhem-se títulos, etiquetam-se os amanheceres e as noites tardias, como se não houvesse um fio condutor entre ambas. Abre-se o frigorífico e os dedos gelam. Estendem-se os dedos ao sol e recupera-se o morno de um nascimento ao fim da tarde. Devia-se construir uma rua entre as maternidades e os cemitérios. E depois... E depois, cobrir o asfalto com terra fértil e adubos naturais. E depois... E depois, cresciam fios de relva onde cada tom de verde seria um arco-íris reinventado, onde os meus filhos se sentariam. Onde me sentaria com os meus filhos. Onde, de sorriso aceso, confessaríamos amor eterno, como as paixões dos livros e das histórias de lenda. E sempre que me picar num espinho de rosa, recolheria essas gotas de sangue e regava a relva com ele. Até as rosas se mostrarem tão vermelhas como a minha relva.
fevereiro 28, 2011
Terrorismos e outras formas de arte
Viajamos por decisões que a tecnologia tomou por nós. Deslocamos as pedras sem esperar pelos rastejantes que nelas se ocultam. Quem descola as pedras onde nos escondemos? Olhamos em volta de ouvidos muito abertos e deixamos cair os ombros. Há quem rasteja à volta dos nossos pés e viva em pedestais de quilates que não sabemos sequer imaginar. Dizem-nos as regalias das austeridades e do esforço comum. Ensinam-nos palavras compridas e se procurarmos em todas as bibliotecas de Alexandria, não encontramos significados, só poeira que insiste em não assentar. Somos informados de cada morte, de cada disparo, de cada edifício que se desfaz por uma natureza cada vez mais artificial. As canções, já nem os nomes decoramos. As senhoras e os senhores que nos matam todos os dias também têm filhos e filhas e animais de estimação. São senhoras e senhores que matam os seus próprios filhos, que violam as suas próprias filhas. São senhoras e senhores que convidam outras senhoras e senhores para jantar os seus próprios animais de estimação em fricassés complicados. Somos proibidos de decidir. Não conhecemos o dia de amanhã. Sabemos apenas que cada avião irá aterrar se a decisão de alguma senhora ou senhor coincidir com o horário previsto. Senão, o capricho chamar-se-á atentado.
fevereiro 27, 2011
O café fica para mais tarde
Na teoria esta escrita devia ser nocturna, da mesma maneira que acendi um fósforo com o isqueiro à beira da mão direita. Como este detalhe que seria desenfreado se a pressa me manobrasse a tarde. E não manobra. Insisto em fumar estes cigarros de puta como se quisesse sentir alguma coisa nova. Perdi o hábito de fumar cigarros, trocando-o por outro mais subtil, e lá voltei, mesmo que a espaços, nesta bizarria de cigarros finíssimos no lugar de Lucky´s. Só gosto de cigarros de filtro branco. Aquele castanho no mesmíssimo sítio onde é suposto fechar os lábios mexe-me os nervos. Ou sobretudo a estética que me define cada prazer. Gosto dos primeiros instantes de um cigarro mal apagado no cinzeiro. Depois, enerva-me. Gosto da lentidão do primeiro fumo. Gosto desta penumbra. Não gosta da palavra. O p não deixa filtrar essa claridade aveludada que se entranha nesta calma escurecida. Há tanta nuance em cada gesto ou memória. E esta tendência inocente de levar a memória ao passado, quando afinal ela distingue o agora e o a seguir. Se estivesse no meu bairro, nessa língua de espaço onde sei que pertenço, estaria sentado à janela, num poleiro de estrangeirismo, embalado por um disco e um cigarro. Embalado por um céu e uma rua. Na oscilação de ser e querer.
fevereiro 26, 2011
All About Eve "Phased"
Acreditei nesse depois em horas mortas, onde vaguear pelo chão coberto de almofadas é prolongar uma droga sem o auxílio de agulhas ou cartão de crédito. Sei o que devo sentir ao te olhar por entre todos os adereços que me possa ocorrer. E desejar que a noite não termine é tornar-me religioso, mesmo se todas as profecias se rasguem em sacrilégios dignos de orgias descomunais, e reis sejam depostos pela simples razão de não amarem. Sinto o perigo das grandes tempestades, dos ventos que atiçam a matilha. E na doçura dos teus lábios, saber o caminho para a floresta de onde não se regressa.
Algures num capítulo
Nesse canal de barcaças em entardecer lento, a luz tem as cores que sempre li, aquelas cores que alguém me soube explicar, não a mim, mas a quem se dignasse pegar no livro e entender todas aquelas tardes e referências tardias, todas as horas em que sentado sobre a relva à sombra de choupos, mastigava a sanduiche e procurava os destinos dessas barcaças, sempre à espera que me gritassem um lugar vago para mim. Essas páginas amareladas ainda lá estão, disponíveis como senhoras idosas procurando o ainda amor dos seus dias. Mas a relva já se acastanhou. A sanduíche jaz, ressequida e mordida por algum roedor. As barcaças rareiam. Algures, sentados a uma mesa manca, ou talvez só empenada, em quatro copos escurecidos pelo vinho, os barqueiros lidam com a falta. Olham sem se olhar. Evitam gritar para o balcão, como se a culpa os consumisse em vagas de remorso. Os dedos continuam a amarelecer dos cigarros mal dormidos. Aqui ainda não existem proibições. Apenas viver mantém-se proibido. E de olhos no chão ou na manga larga e desfiada, os barqueiros repetem-se mudos a ousadia de terem nascido e procurado num canal a profecia de se sentirem vivos. Nos ombros e nos pescoços já sentem o peso de envelhecer. Os nós dos dedos perderam o vermelho vivo. As articulações deixaram a dor da corrente. Ainda os sei ver, lentamente descendo o canal, sanduíche esquecida na mão, dentes quietos à passagem desse bilhete para uma fantasia que fiz crescer tanto. Tarde, num perfeito meio a caminho da hora de jantar, quando as luzes acordam pelo safanão da electricidade, ainda me encosto ao pequeno muro e ao longe procuro algo que desça lentamente o canal. Nem que seja um livro rasgado.
fevereiro 25, 2011
Eu corro
Na eventualidade de um dia de Verão antes do Verão, existe a ponte e o azul do outro lado, uma ponte, longa de vários quilómetros, rumo ao sul, apenas porque existe um azul mais azul. E que se descubra vento. E um lugar escondido para muitas pausas. Que se tirem as canções das gavetas e se oiçam com os ouvidos de hoje pincelados por ontem. Gosto de prazeres culpados. Fazem-me sorrir e deixam-me sabores azuis e laranjas. Recorro a esses prazeres sempre que preciso de me sentir vivo. Ou pelo menos, durante as travessias de pontes, onde cada quilómetro nunca me avisa para o próximo.
fevereiro 22, 2011
SMPL
Apetece-me estar aí. Sentado num degrau de uma dessas casas de bonecas. De t-shirt, uma rebelde, de ténis envelhecidos, talvez por me fazer sentir velho, de cigarro e copo na mão. Entregue a esse remoinho de fim de tarde, nunca fim de dia, gente esvoaçante num fio condutor ziguezagueante. Quero estar aí nas mesmas atitudes que são incompatíveis, voyeur e actor, num arremesso de frases feitas desde que feitas por mim. E no copo nada mais que chá. E no cigarro, o fumo que preciso como argumento. E na voz a rouquidão de noites mal dormidas sem me empaturrarem a decisão. Sei que tenho de escrever filmes, peças de teatro onde entro sem me mostrar, sei a hora de dizer adeus desde que venha alguém comigo, sei despertar e dizer os bons dias em todos os idiomas. E se não souber, o meu sorriso falará as palavras estranhas que não sei pronunciar. E sei que devo um beijo antes de fechar os olhos. Sei e esqueço-o demasiadas vezes. Não me posso esquecer. Posso depender de isso. Sei que dependo, por muitas novelas solitárias que insisto em escrever e vender a revistas de leitura fugaz. Forram caixotes de lixo com elas e mesmo assim tenho-lhes devoção. Revestem o sangue de cor dois tons abaixo, que produzo. E afinal, esse desejo infame e insano de escrever canções é o único que nunca sorverei sedento, multiplicado por mil e decorando cada quarto de motel em capela sistina. Apetece-me e apenas consigo acender o cigarro e sentir-me longe.
Basta-me a primeira letra, talvez por ser quase a última
As coisas são estranhas, quando não as chamamos pelos nomes, se nomes têm, ou se decidimos olhá-las através do ângulo que não as favorecem. Ângulos e nomes, a geometria de uma rua vista de cima, cada pessoa passa apenas por sua livre vontade, cada bar aceita cada voluntário já de copo na mão. São 5 horas da tarde e já se vive nessa rua com as árvores suficientes para se chamar amigavelmente, bairro. O vagar veste-se de cores berrantes, sentem-se terraços ainda vazios, os risos parecem-se com sorrisos e a tarde tem o mesmo valor da noite. Existem sítios assim. Sei descobri-los. Falta-me o quase para os adoptar como meus.
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