março 13, 2011
Ética
Já. No fim de todas as vielas vazias de desgraça, garrafas desgarradas por todos os chãos que pisei e preferi aos lençóis e cobertores do albergue. Gritei, por ti e por todos os que vi perder a razão, asfixiados em tudo o que é longe e alto. Cometi crimes, reneguei um passado que decidi reescrever, saltei por cima de bancos de jardim, apenas para fugir à velhice. E não paro, não me sei vencido, persigo as palavras das canções, escrevendo-lhes sempre um verso mais. E no arrepio, no vento que me molha a cara, cultivo esta pretensa alienação. Para estar vivo no momento em que declarem morto.
Por tanta fé que encontrei
Recebi um encanto adivinhando o jardim e o labirinto, entardecer sereno de todos os mansos que herdaram a terra, a de alguém, a que ficou perdida em ruínas de falta de querer, lonjuras desses lugares pios onde se altiva o saber, orando a horas certas, quando certa é a ceia e mais nenhum nenúfar. Nessas pedras onde se repousa a penitência, já ecoaram queixumes e cordas de pescoços vincados. Já existiram dias e noites, hábitos e pachos de medronho, olhos piedosos de soslaio nas torres da indiferença. Os peregrinos sabiam o meu nome, o meu bordão, conheciam os brindes que fazia noite alta, a quem ofendi e os hereges que queimaram em meu nome. Viram-me abandonar o poiso, e de longe acenaram-me para que me voltasse e retribuísse. Nunca o fiz. Preferi perder-me nos trilhos que me levam ao mar.
março 12, 2011
Antes de outra coisa qualquer
O amor espera-me
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.
Profecia
Mais e sobre-humano
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.
O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.
O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.
O amarelo será sol para sempre
Tudo em vagas de todo
surgindo ao longo dessa rua estreita
vago relance do mar acabado
repousando nesse recanto
onde nessa escadaria
respaldo a espera.
Já não é hora de véus
nem os fantasmas
se querem em formas de ar
porque as razões
e as atitudes férreas
não se vestem de cores naturais.
Restam os motins
a crença falível
de abrir caminho a golpes de espada.
Sobram os motivos
as árvores pingando
os remoinhos sacrificando sereias.
E do fundo desse mar revolto
encerram-se torres de menagem
por todos os cavalos
que a rainha hesitou tomar.
surgindo ao longo dessa rua estreita
vago relance do mar acabado
repousando nesse recanto
onde nessa escadaria
respaldo a espera.
Já não é hora de véus
nem os fantasmas
se querem em formas de ar
porque as razões
e as atitudes férreas
não se vestem de cores naturais.
Restam os motins
a crença falível
de abrir caminho a golpes de espada.
Sobram os motivos
as árvores pingando
os remoinhos sacrificando sereias.
E do fundo desse mar revolto
encerram-se torres de menagem
por todos os cavalos
que a rainha hesitou tomar.
A verdadeira primeira vez
Delicado em torno dessa romã e beringelas que adoçam os sentidos, esses demónios de freio nos dentes replicando a norma e o amor por coisas acima da ideia. À deriva com os olhos em forma de ouvido, o fato de explorador sobre as gotas de suor, o jerrycan de gasolina ondulando de octanas fartas enquanto o senhor de fato caqui abana notas de banco na esperança de conseguir alguma atenção. São sujas as guerras de diamantes e as do amor. Revelam o ínfimo como se o quilate servisse para alguma coisa. As areias do deserto ocultam os odores e os corpos perdidos em batalha, danos colaterais que nunca o são realmente, pela angústia, pelo remorso e nessa mentira chamada adorno. Tudo parece complicado, enredado em fios de cobre e beijos furtivos. E todas as canções deste lado do mundo falam de crianças dormindo com anjos. E nessas palavras, todo o segredo do lado de cá da duna.
Estuque
Sei todas as coisas que o prazer pensa. Sei por uma noite quase manhã, à beira dessa ponte de salto fácil, junto a tais candeeiros dourados, culpa sombria ao alumiar assassinos e poetas. Sei ignorar os sinos quando me chamam para a culpa. E sei se a vergonha me atrasa os passos, ou quando a porta de fecha antes da minha estocada. Sei em cada possessivo meu, em cada mentirosa minha, todos os filamentos que fragilizam cada dia. E sei todas as orações e todas as blasfémias, talvez por se lerem na mesma página. E tarde, já tarde, percebo então o limite e o acolhimento desse sorriso roubado. Tão tarde que as razões já se encontrarão exangues.
A primeira hora é sagrada
Ao longo dos meus ombros que se escondem da noite, ordeno aos meus dedos que se apressem. Temo a resignação, o poder da biologia ou desse espírito mortal que se empenha em fechar portas e recusar as asas da discórdia. Fora do silêncio existem oscilações, o perigo morno dos compassos, os veludos revelando a pele alva do pecado. Por dever a desses demónios sento-me ao piano, derrubo os castiçais e mergulho no copo de vinho como se a minha morte fosse requisito. São passos e vestes longas roçando o chão, são as concubinas de todos os cardeais devorando cada página onde escondo poesia. E nesse imóvel cárcere de ametistas, reconheço o meu carrasco. Acena de longe com um lenço rendado, cioso de cada gemido e entretido na gula do meu sangue. Devo-lhe a vida e por isso, ironia das ironias, limpo-lhe os sapatos e cuspo, para lhe avivar o brilho.
Tudo por uma visão do outro mundo
Dias aqui, em tons turquesa, em polvorosa por todo o encantamento e desencantamento de todos os dias sem desgoverno, dias onde se procuram pepitas e mesas de café onde se esquecem o relógio e o clima, onde o velho se encontra humano e limpo de inquietação. Todos os velhos e as crianças são levados por criminosos de gravata escurecida pelo esquecimento. Ou então por não se lembrarem de terem nascido. Não se lembrarão de ser velhos, por culpa de uma velha mãe que não os soube afogar no rio à beira da próxima curva. Dias de rapina, processos onde pássaros tentam explicar que sabem voar. Os descalços metem-se a caminho, há sempre um fim de terra algures, um fim de estrada rumo a uma costa onde o passo em falso não merece perjúrio nem cicuta, onde os pecados os levam o vento. Todos os comboios, todas as chávenas de chá, todos os poetas e vendidos se mascaram, há divindades em todas as janelas, das varandas jazem enforcados e cambraias, curiosa encarnação de recém nascidos, onde cada cordão umbilical é nó de pescador e certeza de penitência. Dias de espanto, de vinho e rosas, dias de axioma por não se conhecerem as variáveis. Na cozinha preparam-se manjares nunca vistos. Serão paladares improváveis, mais cordiais que uma abadessa fiel. Serão dias de fartura, cornucópias pejadas de antigas formas de ver o dia. Será o dia da reconquista. E se morrerem multidões, comeremos croissants às varandas, atulhados de açucares e banha, o bastante para pregarmos a bem-aventurança. Dias aqui, à força de chicote, ao bater o coração terno de uma donzela.
O céu, aqui
Há uma chuva por cima da muro,
perto do oceano,
longe do destino,
cama de areia que me veste,
que te embala,
motivo para sentir
mão na mão,
credo na língua
e visitação de algo nobre,
perdidos na costa,
por cima do muro,
crivados de balas
enquanto se cantam profundidades.
Há uma chuva por cima do muro,
o bastante
para se agitarem bandeiras,
todos os panos
de todas as agitações,
batalhas forjadas
em beijos colhidos no centro da tormenta.
Há uma chuva por cima do muro,
por saber
e imaginar,
que ao longo do cais
existem todas as chuvas do oceano.
perto do oceano,
longe do destino,
cama de areia que me veste,
que te embala,
motivo para sentir
mão na mão,
credo na língua
e visitação de algo nobre,
perdidos na costa,
por cima do muro,
crivados de balas
enquanto se cantam profundidades.
Há uma chuva por cima do muro,
o bastante
para se agitarem bandeiras,
todos os panos
de todas as agitações,
batalhas forjadas
em beijos colhidos no centro da tormenta.
Há uma chuva por cima do muro,
por saber
e imaginar,
que ao longo do cais
existem todas as chuvas do oceano.
março 03, 2011
Vocal
Pertenço a uma decisão ou no melhor pano, a um entendimento. Ser e admitir são premissas, factos reais de um documentário onde um regador é muito mais do que parece. Conhecer como verbo é manifestamente fraco. Ínfimo por não deter os desejos de mil noites, ou fins de tarde que me são unha com carne. Sei o que pretendo escrever, com que livre arbítrio e quais os tubos de ensaio a sujar. Sei até quais os reagentes. Sei a cor do cabelo e da demora. Sei até onde chega a avenida e que marés se devem esperar. Com todos os cerimoniais que me fizeram voltar aos lugares, construo camadas cortadas com a precaução do papel. Não é a fome que deve ser saciada. Não há lugar aqui para alimentações rotineiras. O sabor é ministrado em doses que só os amantes entendem. E amante é um desígnio difícil de alcançar.
março 02, 2011
Ladrões como eu
Fumo, bebo, mordisco e mastigo, olho e observo, saboreio, sorrio, apercebo, ouço, arrepio, sinto, distendo, escrevo, durmo, permito-me as ideias do universo que ouso conhecer, sugiro-me as imaginações que me fazem um todo, firo-me nas impossibilidades que me torturam, nado entre as elevações de carácter, acrescento lâminas e morangos aos saudosismos com que cozinho plebeias solenidades. E em redondeios, porventura inusitados, faço surgir rituais extremos, mesmo se renego papas e importâncias, meras tolices que me servem de adubo, quando decidir lavrar o resto dos meus dias.
março 01, 2011
Sugar Kane
Lamento rosas e ramos ressequidos por deixar os elementos regular os passos e todos os açucares deste mundo. Escolhem-se títulos, etiquetam-se os amanheceres e as noites tardias, como se não houvesse um fio condutor entre ambas. Abre-se o frigorífico e os dedos gelam. Estendem-se os dedos ao sol e recupera-se o morno de um nascimento ao fim da tarde. Devia-se construir uma rua entre as maternidades e os cemitérios. E depois... E depois, cobrir o asfalto com terra fértil e adubos naturais. E depois... E depois, cresciam fios de relva onde cada tom de verde seria um arco-íris reinventado, onde os meus filhos se sentariam. Onde me sentaria com os meus filhos. Onde, de sorriso aceso, confessaríamos amor eterno, como as paixões dos livros e das histórias de lenda. E sempre que me picar num espinho de rosa, recolheria essas gotas de sangue e regava a relva com ele. Até as rosas se mostrarem tão vermelhas como a minha relva.
fevereiro 28, 2011
Terrorismos e outras formas de arte
Viajamos por decisões que a tecnologia tomou por nós. Deslocamos as pedras sem esperar pelos rastejantes que nelas se ocultam. Quem descola as pedras onde nos escondemos? Olhamos em volta de ouvidos muito abertos e deixamos cair os ombros. Há quem rasteja à volta dos nossos pés e viva em pedestais de quilates que não sabemos sequer imaginar. Dizem-nos as regalias das austeridades e do esforço comum. Ensinam-nos palavras compridas e se procurarmos em todas as bibliotecas de Alexandria, não encontramos significados, só poeira que insiste em não assentar. Somos informados de cada morte, de cada disparo, de cada edifício que se desfaz por uma natureza cada vez mais artificial. As canções, já nem os nomes decoramos. As senhoras e os senhores que nos matam todos os dias também têm filhos e filhas e animais de estimação. São senhoras e senhores que matam os seus próprios filhos, que violam as suas próprias filhas. São senhoras e senhores que convidam outras senhoras e senhores para jantar os seus próprios animais de estimação em fricassés complicados. Somos proibidos de decidir. Não conhecemos o dia de amanhã. Sabemos apenas que cada avião irá aterrar se a decisão de alguma senhora ou senhor coincidir com o horário previsto. Senão, o capricho chamar-se-á atentado.
fevereiro 27, 2011
O café fica para mais tarde
Na teoria esta escrita devia ser nocturna, da mesma maneira que acendi um fósforo com o isqueiro à beira da mão direita. Como este detalhe que seria desenfreado se a pressa me manobrasse a tarde. E não manobra. Insisto em fumar estes cigarros de puta como se quisesse sentir alguma coisa nova. Perdi o hábito de fumar cigarros, trocando-o por outro mais subtil, e lá voltei, mesmo que a espaços, nesta bizarria de cigarros finíssimos no lugar de Lucky´s. Só gosto de cigarros de filtro branco. Aquele castanho no mesmíssimo sítio onde é suposto fechar os lábios mexe-me os nervos. Ou sobretudo a estética que me define cada prazer. Gosto dos primeiros instantes de um cigarro mal apagado no cinzeiro. Depois, enerva-me. Gosto da lentidão do primeiro fumo. Gosto desta penumbra. Não gosta da palavra. O p não deixa filtrar essa claridade aveludada que se entranha nesta calma escurecida. Há tanta nuance em cada gesto ou memória. E esta tendência inocente de levar a memória ao passado, quando afinal ela distingue o agora e o a seguir. Se estivesse no meu bairro, nessa língua de espaço onde sei que pertenço, estaria sentado à janela, num poleiro de estrangeirismo, embalado por um disco e um cigarro. Embalado por um céu e uma rua. Na oscilação de ser e querer.
fevereiro 26, 2011
All About Eve "Phased"
Acreditei nesse depois em horas mortas, onde vaguear pelo chão coberto de almofadas é prolongar uma droga sem o auxílio de agulhas ou cartão de crédito. Sei o que devo sentir ao te olhar por entre todos os adereços que me possa ocorrer. E desejar que a noite não termine é tornar-me religioso, mesmo se todas as profecias se rasguem em sacrilégios dignos de orgias descomunais, e reis sejam depostos pela simples razão de não amarem. Sinto o perigo das grandes tempestades, dos ventos que atiçam a matilha. E na doçura dos teus lábios, saber o caminho para a floresta de onde não se regressa.
Algures num capítulo
Nesse canal de barcaças em entardecer lento, a luz tem as cores que sempre li, aquelas cores que alguém me soube explicar, não a mim, mas a quem se dignasse pegar no livro e entender todas aquelas tardes e referências tardias, todas as horas em que sentado sobre a relva à sombra de choupos, mastigava a sanduiche e procurava os destinos dessas barcaças, sempre à espera que me gritassem um lugar vago para mim. Essas páginas amareladas ainda lá estão, disponíveis como senhoras idosas procurando o ainda amor dos seus dias. Mas a relva já se acastanhou. A sanduíche jaz, ressequida e mordida por algum roedor. As barcaças rareiam. Algures, sentados a uma mesa manca, ou talvez só empenada, em quatro copos escurecidos pelo vinho, os barqueiros lidam com a falta. Olham sem se olhar. Evitam gritar para o balcão, como se a culpa os consumisse em vagas de remorso. Os dedos continuam a amarelecer dos cigarros mal dormidos. Aqui ainda não existem proibições. Apenas viver mantém-se proibido. E de olhos no chão ou na manga larga e desfiada, os barqueiros repetem-se mudos a ousadia de terem nascido e procurado num canal a profecia de se sentirem vivos. Nos ombros e nos pescoços já sentem o peso de envelhecer. Os nós dos dedos perderam o vermelho vivo. As articulações deixaram a dor da corrente. Ainda os sei ver, lentamente descendo o canal, sanduíche esquecida na mão, dentes quietos à passagem desse bilhete para uma fantasia que fiz crescer tanto. Tarde, num perfeito meio a caminho da hora de jantar, quando as luzes acordam pelo safanão da electricidade, ainda me encosto ao pequeno muro e ao longe procuro algo que desça lentamente o canal. Nem que seja um livro rasgado.
fevereiro 25, 2011
Eu corro
Na eventualidade de um dia de Verão antes do Verão, existe a ponte e o azul do outro lado, uma ponte, longa de vários quilómetros, rumo ao sul, apenas porque existe um azul mais azul. E que se descubra vento. E um lugar escondido para muitas pausas. Que se tirem as canções das gavetas e se oiçam com os ouvidos de hoje pincelados por ontem. Gosto de prazeres culpados. Fazem-me sorrir e deixam-me sabores azuis e laranjas. Recorro a esses prazeres sempre que preciso de me sentir vivo. Ou pelo menos, durante as travessias de pontes, onde cada quilómetro nunca me avisa para o próximo.
fevereiro 22, 2011
SMPL
Apetece-me estar aí. Sentado num degrau de uma dessas casas de bonecas. De t-shirt, uma rebelde, de ténis envelhecidos, talvez por me fazer sentir velho, de cigarro e copo na mão. Entregue a esse remoinho de fim de tarde, nunca fim de dia, gente esvoaçante num fio condutor ziguezagueante. Quero estar aí nas mesmas atitudes que são incompatíveis, voyeur e actor, num arremesso de frases feitas desde que feitas por mim. E no copo nada mais que chá. E no cigarro, o fumo que preciso como argumento. E na voz a rouquidão de noites mal dormidas sem me empaturrarem a decisão. Sei que tenho de escrever filmes, peças de teatro onde entro sem me mostrar, sei a hora de dizer adeus desde que venha alguém comigo, sei despertar e dizer os bons dias em todos os idiomas. E se não souber, o meu sorriso falará as palavras estranhas que não sei pronunciar. E sei que devo um beijo antes de fechar os olhos. Sei e esqueço-o demasiadas vezes. Não me posso esquecer. Posso depender de isso. Sei que dependo, por muitas novelas solitárias que insisto em escrever e vender a revistas de leitura fugaz. Forram caixotes de lixo com elas e mesmo assim tenho-lhes devoção. Revestem o sangue de cor dois tons abaixo, que produzo. E afinal, esse desejo infame e insano de escrever canções é o único que nunca sorverei sedento, multiplicado por mil e decorando cada quarto de motel em capela sistina. Apetece-me e apenas consigo acender o cigarro e sentir-me longe.
Basta-me a primeira letra, talvez por ser quase a última
As coisas são estranhas, quando não as chamamos pelos nomes, se nomes têm, ou se decidimos olhá-las através do ângulo que não as favorecem. Ângulos e nomes, a geometria de uma rua vista de cima, cada pessoa passa apenas por sua livre vontade, cada bar aceita cada voluntário já de copo na mão. São 5 horas da tarde e já se vive nessa rua com as árvores suficientes para se chamar amigavelmente, bairro. O vagar veste-se de cores berrantes, sentem-se terraços ainda vazios, os risos parecem-se com sorrisos e a tarde tem o mesmo valor da noite. Existem sítios assim. Sei descobri-los. Falta-me o quase para os adoptar como meus.
Estou apaixonado por uma estrela de cinema alemã
No apetite sincero de uma manhã onde gosto de encontrar um cinzento que brilhe no outro lugar da minha cama, estendo a mão e sinto uma pele que faz da minha um brinquedo. Não evito situar-me neste vértice de idealismo, quando ser eu me precipita a histórias e linhas de ciúme, coxas que me pedem atenção e toda a corrente de eventos que me separam do limite. Sou particular neste estado de coisas, tanto quanto me seja possível preservar os meus segredos dentro da porta do meu quarto, meu e teu, meu e de quem for, na certeza de aqui tudo se manter, até a probabilidade de me mostrar todo eu, esse percalço onde me refugio sempre que desejo e concretizo as fantasias que me fazem filme e realizador. Acho que existo em sedas para me sentir veludo e tocar em tudo com dedos de egoísmo. Mais que outro verbo, adoro esta faculdade. E nela, chover e desaguar enxuto.
fevereiro 20, 2011
Doçura à base de farinha
Metia no bolso o pacote de manteiga e seguia para o pão quente. Depois sentava-se no degrau, abria o pacote da manteiga com cuidado, passava o canivete e repassava-o no pão aberto com o miolo ainda a fumegar. Lambia os dedos e a lâmina da faca de bolso, recostava-se à porta fechada e dava a primeira dentada fechando os olhos em busca desse sabor que a vida endurecida lhe escapava. Era o tempo em que a felicidade ainda tinha momentos.
A primeira à direita antes da esquina
Mas voltando à vaca fria, enfim morna, pois em mim estas latitudes não esfriam, que dizer da barbearia e dos vizinhos do lado. Que estão muito bem e se recomendam, por oposição a uma mentira que se deseja fresca e de cânones confirmados. Saiam de olhos ensonados e mãos arrefecidas pela friagem, ou então isso era na cidade grande. Confundi-me no mapa. Para norte então. Saiam sim, todos os dias, mas de mãos nos bolsos, com a confiança de uma míngua de alternativas, cientes do lugar de cada um e para o que estavam. Era simples. Um era barbeiro, outro trabalhava nos correios, outro ainda caixeiro numa loja de fazendas. E o primo que ainda era guarda-nocturno e zelava pelo sono de todos. E o oficial do exército que andava de vespa, a senhora do quiosque versada em política, um ou outro bêbado de estimação e o guarda-livros de cigarro aceso e rádio a pilhas no bolso do casaco. Muito mais que um par de vizinhos, menos que uma cidade inteira, a suficiência de um cais onde aportavam barcos de pesca e o vai e vem de tudo um pouco, onde pouco era não querer fazer parte.
Foi e volta a ser
Sobejam-me criações alheias, pedidos de casamento fúteis e ultrapassados, dogmas perdidos à beira-rio, leito de cais assoberbados, fiéis a pastos de contentores e cantores gastos de um punk antigo. As coisas já não são como eram. Mistificaram-se para o lado errado da rua. Estava à janela, depois varanda, e via-as passar de saia curta e cabelos ventosos. E era a rua, aquele bocado de bairro, segredo de cidade menor que um fósforo, afinal o meu pastel de açúcar de pasteleiro. Tão fácil, mexer no mesmo panelão sementes de uma industrial evidência e os pequenos dramas e sorrisos desse segmento de recta torcido a meio, onde pessoas de verdade existiam e sabiam disso. Hoje não as conheço. As que sobraram, se sobraram. Mas chegaram outras, tão reais como as que partiram, descendentes justíssimas das de então. E eu sei, eu era uma delas. Delego nestas o que soube e a que sabia. Desejo só que agora se aprendam sabores e se reconheçam cores e copas de árvores.
Cruel
Prevejo o fim da litigação. Prevejo os gritos de melodia depois de acordar antes de algum meio-dia, volante em direcção ao outro lado do rio, cabelo sem forma e os cigarros guardados no fundo de um saco de cabedal tão gasto, sem sabor a cruel. Prevejo a curva, os sentidos únicos, as pessoas de trabalho cubicular a troco de um dinheiro de cor lamacenta. Prevejo a ânsia e o labor de jornas impossíveis, os destinos demasiado longe onde chegar não é importante. Prevejo a luz tornar-se noite e luz outra vez. Prevejo a electricidade ao longo das esquinas iluminando-me a cama e a amante transformando-se em mim. Prevejo o bocejo e a repetição. Prevejo seringas, vómitos secos, unhas sujas e rasgões. Prevejo uma noite mal dormida, porque o sono preferiu dois quartos depois neste corredor ao ar livre. Prevejo guerras e munições, bolos a escorrer creme de um amarelo industrial, mãos estendidas por vícios habituais. Prevejo reis e rainhas, pobres de um empobrecer colectivo e comunal, partilha de misérias e uma ou outra vez de palmadinhas nas costas. Prevejo micróbios em todas as carteiras de senhora. Prevejo uma pausa, um intervalar de beijos traiçoeiros, de coxas apertando coxas, desaguares de etiqueta e humores fugidios. Prevejo acreditar em daqui a pouco, com o néon do motel piscando-me o horizonte e de chave na mão, fugir para o próximo condado ou estado de coisas, previsão tola onde crueldade é repetir o amor como uma droga. Prevejo e até logo.
Para que servem?
Os mordiscos preferiam outra hora e outro bairro, um domingo cheio de igual mas de outro recheio, de mais de alguma coisa onde longe é não estar lá. Desapontado? Não, pois o apenas não será uma única porta ou sequer o beco sem traseiras. As coisas e as ideias que as criam, não são de cor única ou sentido obrigatório. São serpentes que se mostram em terraços, nos tectos dos prédios sob a luz de domingos banhados a ocasos, esse laranja convidativo onde se resume a arte de ser e de existir. Para que servem os amigos, os comentários sem voz, as palavras em fórmula escrita sem olhos nos olhos, ou ao menos a sombra movediça à distância de um agarrão. Pedes, peço, grito por gargalhadas com sabor, rujo as horas onde todos se meterão neste mundo nove sem minutos para o essencial, sem pausas para avançar nessa rota de cumplicidades, de beijos perdidos ao longo da tarde, esse leito fértil onde margens são quando se olha para o lado e se encontra um par de olhos que brilha como o nosso. É cruel a civilização quando assenta na barbárie de ombros sem nome ou mudez adquirida. Faltam as conversas de mesa para mesa, as frases entre desconhecidos, os bons qualquer coisa seguidos de passos assentes em sorriso. Balimos ao clique do período pago ao cêntimo sempre acrescentado. Merecemos a tosquia e o galinheiro. Até o matadouro. Somos bifes cheios de gordura, cascas de algum prazer de segundos. Somos e seremos, evitamos correr para o comboio, sorvemos o café e nunca sabemos a cor da chávena. Raramente sabemos o nome da canção. Esquecer é o rumo do regime. E eu, de pé neste terraço à luz do fim de tarde que me define, silencio a vontade de berrar o teu nome. Os vossos nomes. Para que subam a todos os telhados e lembrem: que os domingos deixem um rasto de açúcar.
fevereiro 16, 2011
Ficaste à minha espera?

Como essa praia, essa que conheces, onde te abrigas, lugar de encontro, uma antiga essência de agora, músculo que compreendes sem a gaveta dos sinónimos, sem o teu nome nem a fisionomia, tu por dentro e por fora, essas gramas que alteram o cadáver, esse olhar em algo preferido, talvez determinado, as folhas verdes, o cinzento feito azul, uma luz por cima de todas as coisas, um além sem nome próprio, a pele em saliência respirando a medida exacta de ar para um coração aberto e o vento voando em todas as direcções, em arquivos de doce e sal, sorvendo o lacre de existir num momento chamado certo, tantas palavras para escolher, comboios de partida para leste, avozinhas sentadas nas cozinhas depois de serem o que são, chávenas de café e chicória para acabar nas entranhas ávidas de alguma certeza.
És calmo e terra batida, encolher os ombros aos sapatos com poeira, descrever o pulso e não saber contar, ganhar os prémios só de imaginar concorrer. Caminhar apenas por existir caminho? Esse medo de ousar por se acreditar em outro mundo. Precisas de ver, sentir as formas dos barcos de pesca, essas carcaças expectantes junto ao cais enquanto o hábito dorme. Aprendeste a seguir esse copo de vinho, acreditaste no sabor mas desconheces o seu alcance. Assim mesmo, sem tons bonitos ou sedas caras. Engoles sem saber o ânimo e a candura, a baunilha e o anil. Proteges o número de identificação que te determina o conhecimento, assinas as letras exactas da tua impressão digital e não reconheces se vives ou já morreste. Obedeces a quem? A um fascínio corrente que te ensina ou reconheces num espelho qualquer os lábios com que beijas.
É longa a crença e o vesúvio, esse encanto mordaz na tentação de ser no mundo dos acordados, um casulo de mel amargo onde a geleia é real sem o significado. Conhecer o miserável, a ladainha e a fome, ver a solidão com todas as suas cores baças e gastas, beber graduações impossíveis apenas para continuar ser sozinho rodeado de espíritos, que nunca serão fantasmas. Sentado à tua mesa, no fim da manjedoura onde te acalmaste, esperando sempre mais um mimo, um acrescento de comodidade mesmo sem compreender o conceito, aí sentado com quase tudo à beira da mão estão os abismos que as cidades míticas revelavam ao se aventurar nas profundezas do acesso. E de ti ninguém se lembrará do nome. Ninguém dos que sabem recordar, porque esses não conhecem o suspiro e o pescoço assente em linho. Vaguear tem preço. O mesmo que se esconde na compreensão. E para esse não existe câmbio. Não se conhece taxa de juro. Acorda. Tens a praia a teus pés. Pousa as tuas mãos na areia. Olhas e reconheces o rasto. Bebes os olhos. Fixas o que vês. E por entre a chuva, recuperas a razão de teres chegado aqui.
fevereiro 12, 2011
Kalashnikov de calibre com sabor a sábado
A lista de supermercado foi escrita em papel de cerimónia. A camisa, com o rasgão no sítio habitual, permitia todos os smokings possíveis. As unhas limpas, o hálito lavado, o cabelo com a onda de um corte fresco, o isqueiro e os cigarros de puta. Na mão um cd de acordo com o tempo. A tosse rouca insistente e um tom de frio no rim do lado direito. Risos na sala, sem ser de circunstância e uma nova experiência no fundo da carteira. O dia não me prometia nada. Nem eu. Somos tão honestos.
fevereiro 11, 2011
O fim dos dias dos outros
Preparo-me e sou do tempo,
do tempo do arrependimento,
esse arrepio feito lâmina
senhora de mil empenhos,
onde me enrosco
e me entranho,
sujo e surdo de encanto,
ao ser senhor ao mesmo tempo
de um eu e outro então,
corropio escravo de ser,
e no entretanto
comer todos os animais
e em concha
beber a água do seu banho,
última homenagem
de um peão
no empenho de ser torre,
essa menagem
onde desejo o descanso,
mesmo se acorrentado
mesmo ao lado
de todo o ladrão
e demente,
judiar quem tem a chave,
e ao sol,
quebrado,
quebrar a promessa
de aquietar,
baixar a cabeça
e ser.
do tempo do arrependimento,
esse arrepio feito lâmina
senhora de mil empenhos,
onde me enrosco
e me entranho,
sujo e surdo de encanto,
ao ser senhor ao mesmo tempo
de um eu e outro então,
corropio escravo de ser,
e no entretanto
comer todos os animais
e em concha
beber a água do seu banho,
última homenagem
de um peão
no empenho de ser torre,
essa menagem
onde desejo o descanso,
mesmo se acorrentado
mesmo ao lado
de todo o ladrão
e demente,
judiar quem tem a chave,
e ao sol,
quebrado,
quebrar a promessa
de aquietar,
baixar a cabeça
e ser.
Depois do entardecer
Moro à beira de uma estrada poeirenta, onde as pedras se estilhaçam nesse asfalto cor de vinho. Moro aqui uma noite por dia. Não gosto de atilhos, e desses, tolero apenas os das prostitutas mexicanas. Todos os dias compro uma marca diferente de cigarros. Nos dias que me obrigam a repetir, morro duas horas. Quando chegar às 24, irei sem azedume. Talvez agridoce, mas de sorriso e dedos em formato de bênção. Todos dias, e noites, pergunto a alguém o meu sentido. O meu lado da vida. Já consegui mais de mil respostas aceitáveis. Todos me conhecem melhor e eu minto tanto. Também já consegui duas ou três, quatro, respostas perfeitas. Foram as rodadas mais aconchegantes deste lado da estrada. As dezenas, talvez mais, que resultaram em interjeições mudas, provaram saber a verdade. A verdade, essa incongruência de fios de seda sempre em cor desmaiada. E conheço tantos mentirosos. Criativos, de camisa desfraldada, cabelos desgrenhados seja a direcção do vento. A verdade e a mentira, em copos sujos e noites compridas sem perdão nem amor. Uma paixão por dia. Uma entrega animal cada noite. As vozes roucas sugerindo cadências e gritando peles suadas, por um prazer sempre mais e mais, até aos momentos do altar. Nunca praguejo na minha língua materna. Porque insultar os deuses soa-me melhor na língua local. Fuck.
Desabafo ou memorando
A questão é esta: aturar é o primeiro passo no acolher desse boião de opiniões a metro. E eu tentei. Uma vez, na melhor das intenções. Duas vezes, num engolir de razões e certezas. E essa terceira vez, camuflado em nome próprio, corporativamente participativo e em nojentos espasmos de politicamente correcto embrulhado em papel de lustro correcto. E quero-me penitente ao verificar o asno que fui e pareci. Há tantas palavras que se escrevem e não se dizem. Culpa? Toda. A fama tem destas coisas, descemos tão baixo que custa reconhecermos a nossa sombra desfiada.
fevereiro 09, 2011
Adormecer
Representar papéis, palavras de outras pessoas sem as folhas brancas que preciso. Sentir as noites de outros corpos, murmurar as palavras dos filmes e das folhas preenchidas de outras pessoas preenchidas por outros alcances. Anseio, por reconhecer no verbo as notas das canções que me fazem parar. Perjúrio, por lamentar as declarações de amor que fiz com palavras de outros, respiradas nos suspiros de outros olhos colados às janelas humedecidas pela chuva. Sento-me nesse tribunal de mim só e minto. Juro a solenidade nos livros que não sinto, evito olhar de frente os jurados, não reconheço advogado e juiz. Todos têm a minha cara e as minhas palavras. Todos são partes de uma verdade salpicada de mentiras. Todos são eu e eu não quero ser todos. E porque ser todos é afinal ser um, ser eu, eu não quero. Quero representar e quero as palavras, quero as noites e os murmúrios, quero o sabor que só eu sei. E ao querer, serei.
fevereiro 07, 2011
Cantiga
Preferias começar o ano sempre e outra vez? Preferias um lugar sentado no amor?
Preferias um caderno de folhas sempre brancas? Preferias seres sozinho ao seu calor?
Nesse sabor, nessa dúvida, desaguam mares de táxis desocupados.
Preferias um sol sempre a correr? Preferias atilhos e laços na fronteira?
Preferias um ocaso à tua espera? Preferias guiar mundos à tua beira?
Nesse calor, nessa ternura, precipitam-se as areias do vagar.
Preferias viver no quarto escuro? Preferias olhos meigos no Verão?
Preferias beijos como remédio? Preferias as batidas ou outro coração?
Nesse tom, nessa cadência, encontras a razão e o nó cego.
Preferias guardar a tarde e a saudade? Preferias cair acordado?
Preferias o que escondes ao esconderijo? Preferias amar a ser amado?
Nessa e nesse tornarás. E mais, muito mais.
Preferias um caderno de folhas sempre brancas? Preferias seres sozinho ao seu calor?
Nesse sabor, nessa dúvida, desaguam mares de táxis desocupados.
Preferias um sol sempre a correr? Preferias atilhos e laços na fronteira?
Preferias um ocaso à tua espera? Preferias guiar mundos à tua beira?
Nesse calor, nessa ternura, precipitam-se as areias do vagar.
Preferias viver no quarto escuro? Preferias olhos meigos no Verão?
Preferias beijos como remédio? Preferias as batidas ou outro coração?
Nesse tom, nessa cadência, encontras a razão e o nó cego.
Preferias guardar a tarde e a saudade? Preferias cair acordado?
Preferias o que escondes ao esconderijo? Preferias amar a ser amado?
Nessa e nesse tornarás. E mais, muito mais.
Servir frio, quase quente
Agradecem-se gestos, espaço de passagem ou a pachorra de arranjar os bilhetes para a porta certa. Agradeço todos os confins do mundo conhecido, e em todos os confins desdobro-me em atenções que em cada 4 me sobram 3 sorrisos fechados. São mil as facetas dos meus obrigados. Suaves, bruscos, desinteressados que também os há, interesseiros quando se servem em dias de dieta, brutais de tão redondos, surdos quando soam a mudos. E podem soar a rios de sol ou a manhãs de verão de cor baunilha, quando a baunilha é imaginada amarela a desmaiar para o pastel. E agradecem-se divindades, desmiolados com nome de deus, mulheres histéricas apenas por serem mulheres. E agradecem-se ladrões, assassinos e corruptos, todos do género masculino. Porque feminino é um verbo mais subtil, mesmo esquartejando um amante maçador. E ao obrigado militante, gosto de juntar os qb´s que me amaciam o goto. Apenas qb´s, para não se me pegarem os molhos.
janeiro 22, 2011
Ré, Si e Fá na ordem correcta
Um após outro, os dedos desfiam os meus passos mesmo quando encostado ao muro dos correios. O frio não me deixa ver o fim da rua. Nem a janela do teu quarto. A minha língua sente os dentes gelados, o céu da boca sedento, a falta que o teu sabor me faz. Imóvel, já não sei quantos dedos tenho, cotos enfiados nos bolsos fundos de um cotão redondo de amizade. Esqueci-me de chorar e de te adivinhar por detrás dos vidros fechados e da luz que hoje não está. Persegues-me como só eu sei. Nunca te saberia explicar. Sou homem, aí tens. Não sei explicar o amor. Sei senti-lo. Sei ajoelhar-me aos teus joelhos e beijar-lhes o amarrotado. Sei sair de mim e empurrar-te ao meu abraço enfeitado de um grito abafado por palavras religiosas feitas ladainha e bruxedo. E encostado ao muro dos correios, sei avaliar o vazio que provoca a imobilidade. Sei e respeito o frio, por me gritar mais e mais.
Pele em tons azul
Queres ver-te como a cobaia que te faz eleitor, pai ou criança. Queres a absolvição em todas as portas e com o cotovelo na secretária que te separa do mundo. Queres perder essa virgindade de apelos e causas, mas só depois do jantar e talvez de uma noite bem dormida, sem conseguires dizer palavra a quem dorme a teu lado, nem sequer o sinónimo de foder. Desapontas o vizinho do lado, sabes? Deixas a tua marca, mas o cimento é sempre areia junto à rebentação. Dizes-te profeta e cívico. Deixa-me chamar-te seixo. Ou vívere. Aquele que mastigo lentamente e depois cuspo por um encolher de ombros. Passam-se tantas noites assim, sem fogueira, sem luzes de presença que podem alertar o inimigo. O fogo de morteiro. A fé e caridade. Há tanto para te dizer. Tanto para me dizeres. As chuvas que começam no verão para nunca mais terem fim. As mulheres de xaile e manta. Os dizeres da fronteira, onde os idiomas se misturam e sabem a manteiga derretida. Vejo-te mas não me dou a conhecer. Vejo-te daqui mas ficarei calado na sombra. Viro-me para a parede e esperarei milagres. Mudei de ideias: quero-te. Mas só se fores o meu oxigénio.
janeiro 15, 2011
Antes, agora e tudo o resto
Bebo o chá de todas as lamentações. Fumo o tabaco de todos os orgasmos. Olho os halos de todos os meus sonhos. E com a voz em doce ronronar, deito-me sentado, sentindo nos ombros as ousadias que ainda sei pedir aos deuses. Tenho as lágrimas das noites e das garrafas pouco antes de vazias. Guardo-as nas gavetas dos rubis. E porque temo perder-me na penumbra, nunca renegarei aqueles que me trouxeram o calor. Recordo todos os seus nomes e faço-o numa homenagem a mim mesmo. Eles concordarão com sorrisos. E calados, irão subir em fila indiana as dunas da seda. Sinto falta do cheiro da baunilha. Tal como queria sentir nos meus braços a pele dourada daquela amazona, calor de cheiro no seu pescoço doce, fechando os olhos aos meus beijos.
Braçada de uma natação qualquer
Renomeio a noite
em lâminas bruscamente finas.
Prometo-lhes a devoção
e todas as manhãs.
Serei virgem,
complicado ermo de realizações,
pecado íntimo
de todas as que almejo,
segurança de ventre maternal
conhecendo as agruras
e os limites.
Sabias que era preciso entrar
para sair.
Tinhas as certezas
de elipses por acabar.
Soubeste largar em voo
todas as andorinhas do teu bolso,
e as árvores...
As árvores,
colheste-as cedo demais.
Carregas na alma
as folhas que não agarraste.
em lâminas bruscamente finas.
Prometo-lhes a devoção
e todas as manhãs.
Serei virgem,
complicado ermo de realizações,
pecado íntimo
de todas as que almejo,
segurança de ventre maternal
conhecendo as agruras
e os limites.
Sabias que era preciso entrar
para sair.
Tinhas as certezas
de elipses por acabar.
Soubeste largar em voo
todas as andorinhas do teu bolso,
e as árvores...
As árvores,
colheste-as cedo demais.
Carregas na alma
as folhas que não agarraste.
janeiro 09, 2011
Espaço
Havia uma sexta-feira, muitas, todas as que sabiam a sabor, de noite cerrada e candeeiros de aldeia sem alumiar quase nada. As mesmas curvas, as mesmas casas de luzes apagadas, as janelas de persianas corridas e sonos antes do tempo, a busca de uma ponte em silhueta e as luzes da cidade decalcadas no rio. Poucas coisas se oferecem assim, sem brilho de precioso, só com aquela sensação de alma, de alguma boa acção paga com juros. Era o tempo em que dois dias eram mundos e fundos, maiores que uma razão de tempos modernos de uma civilização de números sem tempo para nomes. E havia uma sacola. E gavetas meio vazias e cheias de tudo o que dava prazer. E uma vidraça alta que de manhã estaria preenchida. As coisas, as janelas e as escadas de sete degraus são como uma garagem de porta de madeira rolando num veio de ferro, um piso de cimento com manchas de óleo secas e as prateleiras empoeiradas de dias a fio escurecidos, sem haver sexta-feira nem o dia seguinte. Mas havia. A sexta-feira estava lá, aprumada, resolvida a luz ténue de um tablier iluminado. Tão simples eram as sexta-feiras, antes de sermos crescidos, por fora e por dentro.
janeiro 05, 2011
O homem com o sorriso que não acaba nunca
Nesta chuva que o meu cérebro há-de beber até à última gota, saboreio o último chocolate na certeza de me saber o dobro, mesmo depois de duas semanas em salmoura, pechisbeque em cima da cómoda, ladeado pelo relógio e algum perfume esquecido por alguma das amantes. Não me deito com os nomes, logo, não preciso deles. Chamo-lhes divindades, cada uma, uma diferente. E saboreio-as, mesmo se alguma for a última. Será, porque não pretendo ficar aqui. Comprei os bilhetes de todos os comboios que partem hoje, por se algum acaso me decida destino. E não o serei enquanto saborear o último chocolate, enquanto a chuva continuar a cair, tropeçando no beiral da varanda para se estatelar no passeio mal cheiroso. Devia ter oferecido o último chocolate ao sem-abrigo que me faz sorrir. Lá estava ele, sentado no carro abandonado onde dorme com os cães, janela meia aberta e sorriso meio aberto. Sorrio porque tem um sorriso que faz sorrir. Chamo-lhe o homem do sorriso que nunca acaba. Assim, como num provérbio árabe que se aprende no deserto à beira dum poço. Saboreio o último chocolate com o céu na boca sintonizado no seu sorriso. Sem perfumes, nem amantes sem nome. O seu sorriso que não acaba nunca, mesmo depois de lhe oferecer o bilhete de comboio e de o ver de braços caídos, olhos doces e sorriso que não acaba nunca. Eram 14 horas e o próximo só parte às 18. Se me decidir...
janeiro 04, 2011
Maneirismos
Escrevia todos os dias uma carta. Dobrava em quatro, soprava o envelope em busca de espaço e penetrava-lhe a brancura com o papel bem apertado, não fosse a dobra traí-lo. Escolhia sempre um selo com animais. De preferência pássaros. A carta chegaria mais depressa. Lambia com vontade e com o polegar que gostava mais, pressionava até a falange estalar. Tinha um hábito difícil. Escrevia sempre o endereço já depois do envelope fechado. E só fechava o envelope depois do selo colado. Olhava-o de frente, estendia a língua e passava-a em ângulo obtuso ao longo da faixa de goma, sorvendo-lhe o sabor como um colegial apaixonado. Só depois o deitava de costas, e de tira linhas em punho, num fio de escrita finíssimo e de traço azul, de tinteiro, afincava-lhe endereço, nome próprio e apelido, deixando sempre um Excelentíssimo como o tio lhe tinha ensinado. No remetente, apenas as iniciais entrelaçadas, à boa maneira daquela época que teimava em esquecer-se. Apoiava-o em 60 graus e admirava-lhe a alvura manchada de azul com sainete. Orgulhava-se dessa gentil obra diária, sinal de respeito pelas instituições e códigos de civilidade. Por fim, tomava-a nas mãos, pois só nesse momento era carta, e atirava-a para o gavetão aberto, obeso de envelopes marcados a azul. Um dia, passaria pelos Correios. Quando o Rei fizesse anos.
Dia 4
Vontade de mergulhar nessa tua nudez. Sentar-me ao longo da rua onde vives, levantar os olhos a todas as janelas e adivinhar onde te sentas. Voltei a sentir, sabes? Voltei desse litoral onde cada passo se afunda. E aqui, na tua rua, voltei a sentir-me como antigamente, sentado no degrau, encostado à porta da garagem, segurando o sol e a lua com as duas mãos. As mesmas mãos que preciso para te segurar e te sentir a vontade. E ao saber-te, ao reconhecer a janela onde sentes a noite no vidro, encolho os ombros à sentença de escolher entre o dia e o luar. Abro as mãos e deixo escapar o sol e a lua. Visto o sorriso que trago sempre no bolso e corro rua abaixo atirando as mãos bem alto, num movimento descomunal de entrega. Desejo que me tenhas. E desejo-te ao longo da rua onde vives.
janeiro 03, 2011
À porta do museu
Deixei-me nas ruas e nos recantos onde os degraus afinal são maiores. Fiquei colado às portas giratórias, meias vidas de dentro e fora onde o cheiro da comida é mais forte que o frio. Esqueci-me das palavras que sempre soube, viradas em consoantes e esgares de um novo que recorda dias sem meio nem fim. E depois veio a chuva. E as ondas tornaram-se maiores. E o areal mais claro. E eu, encharcado pelo dilúvio, marquei este momento para sempre, um minuto maior que os outros minutos, uma viagem de barco rumo ao outro lado, embarcadouro cheio de casas e cansaços, pai de dois filhos regressando de uma miragem. Ao longe, depois das luzes e hipnotismo de sonhadores, ficaram os degraus. Afinal os degraus são maiores. Como o são as fileiras de janelas e as linhas rectas. Como o desejo de uma árvore em cada esquina, e descobri-las a todas junto ao lago.
dezembro 29, 2010
Dia 29
A menina encostou-se à janela e procurou na rua algum resto de amor. Seguia-lhe os passos pelo resto de passeio mesmo em frente da varanda comprida. Via-o descer os degraus de tijolo vermelho, saltar o passo de relva e correr o fim do parque de estacionamento, antes de saltar os degraus da entrada e deixar de vê-lo. Todos, quase todos os dias, acertava-lhe o meio da tarde, neste regresso a casa, lanche antes da torrada que a mamã lhe barrava com doce de morango. Um doce antes do doce. E depois, sempre sem excepção, olhava a janela de persiana corrida até a ver subir de três sacões e o saber olhando o horizonte de aviões e autocarros apressados. Sempre, também quase sempre, ligava o gira-discos e punha a agulha no princípio do disco, sempre a primeira canção do lado B, sempre à espera do mesmo minuto e meio final, prolongando o olhar, os passos debaixo da sua varanda, a persiana a subir e o desejo desse beijo prolongado nos seus lábios cor de rosa enquanto a mão lhe tocava o rosto. E sempre, sempre, antes do fim da canção, recuava a agulha e repetia o minuto e meio. E encostada à janela, beijava o vidro embaciado enquanto tocava a sua face com as mãos frias. E aí deixava-se ficar, até a canção já não ser canção, até os passos deixarem de ecoar, até o beijo só se desejar no dia seguinte. E sentia-se menina, mesmo com o contorno de mulher desenhado na janela embaciada.
dezembro 28, 2010
dezembro 24, 2010
Dia 24
Lembro-me de acordar muito cedo. Lembro-me de já haver areia da praia para aconchegar a árvore de Natal. Lembro-me de muitos cheiros adocicados, da cozinha cheia, de um certo brilho no ar. Lembro-me de uma excitação que não lhe sabia o nome. Lembro-me de esperas e uma sofreguidão de desejos. Lembro-me de sorrisos. Lembro-me de não sentir frio. E o frio passava por lá. Lembro-me que nada disto parecia ultrapassado ou fora de moda. Lembro-me e ao lembrar-me, nada disto me parece deslocado no tempo. Lembro-me e tenho saudades. De ser tão pequeno que não era preciso lembrar.
A Gôndola e a Ilha
Ácido como sabor numa previsão passageira.
Desenrolo uma écharpe comprida sobre o rosto vítreo e puro,
frio de eternos Invernos, rigoroso como a fábula.
Dos lábios dormentes e mudos, adivinho as doçuras.
Guloso, fico a olhar a morta, sem vassalar nenhum vivo.
Imóvel, acredito na palidez.
Rebusco os bolsos em busca da minha cicuta.
Verifico-lhe a natureza e engulo de um só trago.
Faleço sumariamente e dispo o preconceito.
O que restava.
Somos então um.
Violentos.
Desenrolo uma écharpe comprida sobre o rosto vítreo e puro,
frio de eternos Invernos, rigoroso como a fábula.
Dos lábios dormentes e mudos, adivinho as doçuras.
Guloso, fico a olhar a morta, sem vassalar nenhum vivo.
Imóvel, acredito na palidez.
Rebusco os bolsos em busca da minha cicuta.
Verifico-lhe a natureza e engulo de um só trago.
Faleço sumariamente e dispo o preconceito.
O que restava.
Somos então um.
Violentos.
dezembro 13, 2010
Marginais correndo descalços
O que irei fazer quando experimentar aquele fato? Fazer, sim, o concretizar, o construir, aquela sensação de alcance, chuva sobre uma cara molhada pelo baptismo da manhã. Lembras-te daqueles barcos imóveis sob a neblina, aquela manhã, meia madrugada, em que o acordar cedo e o deitar tarde estavam tão misturados que nem o relógio funcionava. Lembras-te? Ainda sanes o dia? Desconfias de sábado, ou talvez domingo. Por esse cálculo idiota de agendas e afazeres ditos úteis em dias tão inúteis de manhã à noite. Lembras-te desses dias? Nunca os esqueceste? Tens bílis entranhada nas unhas, por mais limpas que pareçam. Cumprimentas muitas almas com essas mãos? Ofereces-lhes baunilhas e segredos? Deixa. Esquece todos estes fios de memória e concentra-te nessa chávena de café esfriada e no teu umbigo. Fumega? És tu que fermentas. Sabes a ócio. És doce. Um doce enjoativo, viscosamente inoportuno. Eu, ao menos, sou amargo nos dias de meio sol. É o tempero que me apresenta aos juízes e aos homens de algum bem. Não conheço os homens de mal. Quanto aos de bem, chamo-os mas eles não se dignam. Talvez por não me reconhecerem trono. Ou a falta dele.
dezembro 12, 2010
Simpatia
O primeiro passo é olhar as ruas, todas sem míngua de vontade. O segundo é apresentar-me à fauna. Deixá-la levar-me, percorrer os céus e os infernos como quem procura um cigarro e uma bebida confortável. Embelezar a curiosidade com sem-abrigos e estrelas de cinema, sentá-los a todos na mesma mesa, mandar servir o que a imaginação pedir, gargalhar alto impedindo os donos de fechar as portas e os poetas. Sempre os poetas. Impedir o seu silêncio, da mesma forma que um copo de água nunca se recusa. Prazer em conhecê-lo. A si, a todos, a ti. Gosto de me sentir seguro entre vós. Gosto do vosso toque, agridoce, pedinchão e de amor na ponta dos dedos. Deixam-me rezar um pouco? Um minuto da vossa noite? O bastante para me redimir perante os ausentes, os que me assombram os dias, recheando-os de estradas à chuva por entre bancos e loja tardias, ou de tartes caramelizadas com voz doce, ou quem apenas está, de luz aberta, conferindo-me o poder da sugestão e de lençóis aquecidos pelo seu labor. É tudo ganho. O passado, o imaginário, o sonho onde me questiono se sonho, mesmo se todos os sonhos começam à entrada do jardim, olhos no este, costas ao mercado e ao mar por detrás dos prédios, que nunca são maiores que 44 andares. Um dia serão 444. Um dia sem sonho nem olhos fechados. Um dia em que as guitarras não gritarem, os lábios não se juntarem e o fumo não se escapar por entre os dedos. Tudo tão longe, anoitecendo tão cedo, pulverizando a recordação como cenário de guerra encavalitado na incúria e em todo o charlatão vestido de farda. Prefiro-me sem travões na bicicleta que todos os fatos e gravatas que os salões fechados podem comportar. Sorrio aos uivos, aos cabelos ao vento, às senhoras velhinhas sentadas nos cafés à espera de logo à noite. Beijo-as. Ajoelho-me a seus pés e irei jurar-lhes pedras preciosas, nem que guie toda a noite para as ir buscar ao oriente. Nem que me crive de balas para as honrar. Nem que morra primeiro. Olho os dedos, a minha pele camaleónica tomando textura de lagarto, o torpor a velhice querendo entrar-me na figura. Nunca abro a porta a desconhecidos. E aos conhecidos, exijo senha. Só a mim e aos meus filhos, isento as formalidades da fronteira entre este mundo e a medusa que abocanha o trovador e abre a porta pesada da evasão. Conheço-a de estradas poeirentas, de caves onde dança o bafio, dos semáforos onde morre a gente e os jovens que não merecem sair de cena. Conheço tanto e temo esquecer-me de tudo. Escrevo. E ao escrever, exorcizo as querelas e a fome. Apenas água para ferir a existência. E o vinho esquecido na garrafa no aparador. Para que em vinagre, provoque alguma emoção deixada ao acaso.
dezembro 06, 2010
Regressos
Azuis que invejam, azuis que envaidecem, azuis pecando por escassos, azuis de água, mãos frias e essa menina sentada na areia, precipitando o meu desejo por longos pingos de chuva e anos de pele fina e riso fácil. É tudo o que fica desse tempo roído lugar, nessa areia que ainda existe, mesmo se no fundo de um mar que regressa e traz pretéritos, mas sem cheiro, mas sem rosto molhado e roupa encharcada. Agora existe desejo, serpenteares de um sinuoso dourado, mas gastou-se a inocência, essa espuma húmida de longo sabor doce.
agosto 31, 2007
11:47
Entre o lentamente e o necessário, os meus olhos vão-se fechando. Num absurdo de sol lá fora e luz eléctrica acesa, o pó por limpar, antecipações à espera de um esforço final, papéis que dobram a sua importância cada dia que passa e compromissos que se vão cumprindo sem o rasgo final, tudo gira à volta de células que se atropelam. Decidem-se direcções e nunca se sabe por onde começar, mesmo quando o óbvio se senta muito calado e atento defronte dos olhos. Num mesmo tempero, a imobilidade, pitadas de objectivos, um cálice de licor agridoce e um permanente fio de procurar as coisas nas novas prateleiras, mesmo quando nem sequer sairam da loja. Mesmo quando ainda não se conhece a loja.
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.
Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.
Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"
Pausa actualizada
Se o seu dicionário discordar, deite-o fora... com desprezo.
Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"
Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"
agosto 30, 2007
Pausa
Palavras de todos os dias
Um café e o valor do cheiro que não se paga. Um sorriso sem ter que ser, mas que é porque esta lá. Um encontrão e um desculpe com resposta. E os dois estão vivos, não se conhecem e aceitam-se no pedido e na resposta. Alguém sentado no muro, à espera ou se calhar só por estar ali. A barba por fazer e mesmo assim os olhos franzidos ao sol e à manhã. A esquina e a seguinte, o passeio sujo, as ervas nascem entre as pedras de calçada, as paredes cinzentas, os carros estacionados sem geometria, alguém que passa e outro e mais um, além. E mesmo parado, a vida passa com o tempo que se inventou e não serve para nada.
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.
Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.
Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"
agosto 29, 2007
Talvez 17 músculos
Repetem-se apelos, esvaziam-se gavetas para se encherem logo de seguida, alinham-se as gravatas e em cada mão uma garrafa para o acordar lúcido de cada pesadelo. Eis o mote.
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.
Ao som de Marillion "Fugazi"
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.
Ao som de Marillion "Fugazi"
agosto 24, 2007
O melhor dia de Verão
Os olhos húmidos de um lilás esmerado reconhecem separações e justificam desertos. Nas multidões, passar por entre estacas e animais, uns à solta outros em liberdade nas suas jaulas, por muita imensas que sempre pareçam, é resolver um caminho de atrasos e figurantes empenhados em protagonismo. Ser real e já nem existir.
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.
Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.
Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"
agosto 17, 2007
Ele há coisas tão simples
Depois de dias e dias enfiado na gruta, sem sol, sem mar a perder de vista, sem sorrisos a resvalarem-me no ombro, sem perguntas banais e relógios com ponteiros nos devidos lugares, só na companhia do teclado, procuro tentativas de regresso. Mas não tenho claro o fio da meada, se calhar por não ter a certeza onde ele começa. Talvez preferisse alguns dias estendido no sofá de estimação, a roer pêssegos, ler Maigrets e ouvir todos os sons que me vierem à cabeça, por muito inocentes que sejam. E nas pausas dos interrogatórios, enquanto acompanho o velho Jules num copo de cerveja, reflectir e meditar enormidades.
... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.
Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"
... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.
Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"
junho 17, 2007
Ao fundo, apenas o saco de ginástica
Por muito sossego prometido, aquele que se acha ou se julga e percorre os veios da madeira do chão, seguro, envernizado o bastante para surgir e entabular conversa, nunca é o bastante. Ficam de fora algumas pontas soltas, as presenças, bastando-se a si mesmas, sem voz, apenas estando, os balanços, as coincidências. Revelar-se num cenário que nunca se pensou, agreste, virulento por se considerar menor, aquecido por artes, nunca ofícios, metade de um postura que resvala, por sentir o soalho mais confortável ou longe de recusa. Já pensaram nisso? Na redonda aquiescência de agradar o prazer. De lhe permitir intensidades e fugas, mesmo quando não se pretende a saída. Sugerir em pensamento a fragilidade, o sustenido bastante para transformar as palavras em ininteligíveis ímpetos. Mergulhar na falésia e no mar ao mesmo tempo, retirando o organismo ao mineral e a paz ao oceano. Suar.
E sempre que haja um fim, raptá-lo, estorquir-lhe o nome e abandoná-lo à deriva.
Ao som de Pink Floyd "Careful with that axe, Eugene (Live from Ummagumma)"
E sempre que haja um fim, raptá-lo, estorquir-lhe o nome e abandoná-lo à deriva.
Ao som de Pink Floyd "Careful with that axe, Eugene (Live from Ummagumma)"
junho 15, 2007
Tácticas
À direita, romanos. Ao centro, alguns fariseus e o que sobra de Samaritanos. À esquerda, todos os vendedores de castanhas e alguns, poucos, cantores de ópera. Por detrás das colunas, lá no canto da praça que dá para o mercado, apenas os três juízes de fora. Fora! Às janelas, à espreita, obséquio das cortinas de renda, as velhas do costume. Caladas. Na varanda do primeiro andar, por cima da tasquinha e do lado da bandeira, de cócoras atrás das sardinheiras, o abade dos almoços das terças-feiras e o professor de direito. Encostados à mesa dos frios, o fornecedor de farinheiras e o homem do gás, pausam os goles de copo na mão. À espera. Miúdos, nem vê-los. Polícias, também não. Quando olho para trás, encolho os ombros. Só ministros e candidatos.
Ao som de Vaguement La Jungle "Youl"
Ao som de Vaguement La Jungle "Youl"
Masgreevia
Masgreevia. De tudo um pouco, sem remorso nem escrúpulo, desolado por me esquecer de algo ou alguém, mas nada mais que isso. Sorridente, porque me quero justificar. A vida por aqui, nesta combustão, resolve-se em poucos dias. Ou décadas, é o mesmo. Está por horas, dizem os que me servem. Pelo previlégio de ser servido por eles. Impingem-me tinto e branco, à vez. Sorrio. Permite-se tudo em poucos passos, com os pés sob as mesas, quatro delas, entre gestos de camaleão, certo de verdades muito maiores, mas muito mais inúteis. Recitam-se desejos. Surdos. Mudos. Nas paredes pejadas de retratos de todos os alguéns, nas lajes, pasto de beatas e desapegos, nos bolsos, vazios de alma, resiste-se à hora final. Há sempre um fim, mesmo quando enceta algum imprevisto. Haja festa... haja festa. Não vá ser dia dela.
Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Begin-ing"
Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Begin-ing"
Lanças e gemas de ovo
Alanos, Suevos e Vândalos,
beberricando limões,
embalados num baloiço
todo pintado de fresco.
O imperador,
sossegado,
descasca ervilhas
entoando,
as ladaínhas das quintas.
À mesa,
um anão e um carrasco,
defrontam ases e quadras
entre récitas obscenas
e fritos mal digeridos.
No peitoril,
à janela,
a única que ainda existe,
o papagaio recita.
Da manhã dolente e sóbria,
solarenga no acepipe,
a lembrança sempre alcança:
esqueci-me dos Visigodos.
Ao som de John Surman "Part III - Kentish Hunting (Lady Margaret's Air)"
beberricando limões,
embalados num baloiço
todo pintado de fresco.
O imperador,
sossegado,
descasca ervilhas
entoando,
as ladaínhas das quintas.
À mesa,
um anão e um carrasco,
defrontam ases e quadras
entre récitas obscenas
e fritos mal digeridos.
No peitoril,
à janela,
a única que ainda existe,
o papagaio recita.
Da manhã dolente e sóbria,
solarenga no acepipe,
a lembrança sempre alcança:
esqueci-me dos Visigodos.
Ao som de John Surman "Part III - Kentish Hunting (Lady Margaret's Air)"
junho 12, 2007
Videiras e sultanas
De longe,
num repente de causa incolor,
existe a descoberta de um céu vagaroso,
onde
um quarto de hora
é beijo
e é tempo.
Travo a travo,
surgem palavras asteadas,
jogam-se cartas na Bretanha
e graceja a subtil entrega.
Com sotaque a limão e gengibre,
regressa a canela ao marfim.
Entre orações,
as ameixas adormecem fatigadas.
De retorno aos caules,
atento à poeira e talvez benvindo,
um vento velho conhecido
preso por cordéis ao paladar,
desagua a espuma de uma onda
sem ter mais nada que lembrar.
As cores encostam-se ao dia.
E sorvendo os restos de vida
que se deixam para trás,
um homem de idade.
De olhos abertos.
Ao som de In the Nursery "Days Of Freedom"
num repente de causa incolor,
existe a descoberta de um céu vagaroso,
onde
um quarto de hora
é beijo
e é tempo.
Travo a travo,
surgem palavras asteadas,
jogam-se cartas na Bretanha
e graceja a subtil entrega.
Com sotaque a limão e gengibre,
regressa a canela ao marfim.
Entre orações,
as ameixas adormecem fatigadas.
De retorno aos caules,
atento à poeira e talvez benvindo,
um vento velho conhecido
preso por cordéis ao paladar,
desagua a espuma de uma onda
sem ter mais nada que lembrar.
As cores encostam-se ao dia.
E sorvendo os restos de vida
que se deixam para trás,
um homem de idade.
De olhos abertos.
Ao som de In the Nursery "Days Of Freedom"
junho 03, 2007
Nem em dez mil anos
Como num impulso, num arrebatamento passageiro, daqueles que nunca demoram mais de cinco minutos, encontram-se os motivos e as causas. As que valem a pena. Os que permanecem próprios. Nunca obtive a promessa nem sequer a resposta a este fenómeno. Sempre me surpreendeu e manifestou ousadia. Ou então, apenas um suave sopro. Uma guelra oferecida pelo acaso. É nestes momentos que preciso de um outro de silêncio. Só para respirar. Abrandar. E então a urgência, impelida pelo composto químico que a reveste, mostra-se ufana, cúmplice de portas entreabertas, resistências ínfimas da descoberta e do enlevo. Só por isso, vale a pena burlar o suicídio.
Ao som de... não sei se digo...
Ao som de... não sei se digo...
À falta de poder, ficam as flores
Um sono que vai e vem, amparado por névoas que só acontecem aos fins de semana, rebelde e refém ao mesmo tempo, como as tardes à boleia ou acordar em casa de outrém, já depois desse alguém sair, assumindo o trono sem se saber o que se está ali a fazer. E mesmo existindo esse compartimento fugaz, que é a noite, morder o sono durante um sábado claro é roer algo que se perde, um pouco como a importância dos mandarins ou das caldas de açucar sem proporção manipulada. Tem graça, tudo se resume a estados de alma, ou lá como chamam a essa aura, quando há reunião magna de deuses. Ou circunstâncias macias que aferrolham branduras, ingredientes e plenitudes. Eu sei, os egoísmos são caldeirões maciços onde o instinto apura com o prazer. E eu, de prato de sopa na mão, espero a minha ração. E talvez vá repetir.
Ao som de Sonic Youth "Unmade Bed"
Ao som de Sonic Youth "Unmade Bed"
junho 02, 2007
Um plano inacabado
O plano eram as mil luzes da cidade reflectindo uma ideia. O reflexo, trémulo de neons adormecidos, sentiu-se ao longe. Muito longe. E eu, significo a calma, procuro o prazer e olho o nevoeiro. Ao som de Public Image Ltd. "The Order of Death"
A divisão prescinde da vaidade
Os sonoros invadem as privacidades, revolvendo os segredos bem guardados. Atentam contra a vida e o destino e sopram as fumaças dos incêndios. Dentro deles surge a calma e o sereno, ângulo submisso na intenção de subtrair a vontade. Espera-se com a fatalidade da sabatina. Quietos, envolvem a estrutura. Fadigas, entretêm intrujices. E sujos, violentam as carícias num acto de loucura submissa. Contentam acordes repisados como soluções envolvidas em hortelã-pimenta. Tornam gigantes as três manias. A curta atitude das milícias e a nova ordem magna da cobiça. E para quem consente a mentira, têm a ternura sempre omissa.
Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"
Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"
Percepção
Devagar. Como se fossemos sacos de chá, mergulhados em banhos mornos. Submissos a uma varanda acariciada por cachemira, seguindo um rasto de canela como se fosse pólvora, sinuoso, incinerado por golfadas de mais e mais, enquanto a lua não sabe o que fazer. Por entre as árvores o ar repete jogos, sopros murmurados de perto, indiscrição madura de onde resvala a pele de cerejas inocentes. Na pausa e no recesso, convergem fios que o sono deixou esquecidos. E em vez de objectos e artefactos, onde as peças de tecnologia são ínfimas, degraus são altar que repelem religiões, espécie de virtude por inteiro, púnica no alheamento e segura na separação. Encostado a uma parede, está um biombo. Atento e intento. Em prolongar.
Ao som de... não digo
Ao som de... não digo
junho 01, 2007
Enquanto vazio

Com a fragilidade ao longo da pele, suavidade tensa e contida, surgem os remoínhos. Sugere-se um altar, um apartamento vazio de janelas e silhuetas obscuras, um armazém comprido e repleto de flanelas. Permite-se o desgosto, a leviandade, até algum torpor com tonalidade de preguiça. Tudo desde que acompanhado de um sonambulismo iluminado por monitores de tons azulados. Aguarda-se um suspiro ou qualquer outra forma de indiferença casual, como se a verdade estivesse presa por cordéis de marioneta. E a verdade é observar a verdade, pé ante pé, audaz no seu modo de boneca, forrada do tecido que convém ao baile e perdida no salão, ante os espelhos que esmagam e os veludos que enternecem. As meninas trocam risinhos emboscados, as senhoras sustêm os leques em atitude de concha enquanto as matronas, revelam impaciência. Serenam-se os pecadilhos de pouca monta, apenas por um travo a carne fresca. Tudo gira à volta de mecanismos estudados em pormenor e projectados só para esta noite. Uma câmara, estratégica num pulsar milimétrico, capta atmosferas em vez de imagens. Pretende-se transformar veias em artérias. Imbuir o sangue de sabor. Repetir à exaustão, as seduções e outros subornos. Selar com prazer, os nãos, os sins e o talvez; mas apenas quando este for indeciso.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
maio 31, 2007
Os piratas foram lanchar de madrugada
Duas crianças brincam ao sabor do dia. Sabem de cor as manhãs e os enconderijos, atalhos perfeitos onde os crescidos não chegam. Correm os passeios e os pátios, sempre ao contrário dos ponteiros do relógio. Conhecem os segredos do tempo. Às vezes, param à beira de água e procuram os peixes que lhes conhecem a liberdade. Às vezes, sentam-se no chão e ficam em silêncio algum momento. Depois, olham o céu, a tarde que lhes foge, os joelhos sujos cheios de histórias e acreditam com muita força que amanhã nunca será dia.
E amanhã, entre a pressa e os ponteiros do relógio que teimam em girar para o mesmo lado, mesmo sem lembrar a cor dos olhos, ficaram os esconderijos. Lá, continua guardada a vontade de correr ao contrário dos ponteiros do relógio.
Ao som de Thomas Dolby "Europa and the Pirate Twins"
E amanhã, entre a pressa e os ponteiros do relógio que teimam em girar para o mesmo lado, mesmo sem lembrar a cor dos olhos, ficaram os esconderijos. Lá, continua guardada a vontade de correr ao contrário dos ponteiros do relógio.
Ao som de Thomas Dolby "Europa and the Pirate Twins"
Experimentar
Restos de noite ou partículas de sono presas aos olhos, mastigam-me a mesa, os papéis empilhados e o início de manhã em outro lado qualquer. A maçã espera-me e o duche também. Entre as apresentações, o manual, os índices, a sala por varrer e os sapatos espalhados por todo o lado, fica o momento de atravessar uma ponte com o sol ainda desmaiado lá no alto, o rio a querer ser mar, um amarelo muito claro e muito meigo em pleno afago e a canção, uma de algumas muitas. Pretende-se uma ponte que demore a atravessar. E quando abrir os olhos outra vez, que sejam todos os dias menos domingo.
Ao som de Dandy Warhols "Hells Bells"
Ao som de Dandy Warhols "Hells Bells"
Matutina
Os brancos e as cores da laranja,
moldados em suspiros luminosos
de sal e de espuma;
uma onda
sempre a mesma,
redonda
a mordiscar a pele.
Os brancos e as outras,
despidas em si mesmas,
esquecidas dos olhos
que as provam em pequenos sorvos demorados,
fiéis ao desígnio
de serem brancos e cores de laranja,
como um sabor a madeira
que prolonga a língua.
Os brancos e as invejas cor de rebuçados,
camélias encostadas à varanda,
onde os cabelos respiram
e se entregam.
Os brancos,
desmaios na vontade;
deitar a cabeça e cheirar o que ficou do mar.
E nesse mar,
vazio,
um outro branco ou amarelo,
motiva o rigor de voltar amanhã.
De preto.
Ao som de Area "Michael Writes His Parents"
moldados em suspiros luminosos
de sal e de espuma;
uma onda
sempre a mesma,
redonda
a mordiscar a pele.
Os brancos e as outras,
despidas em si mesmas,
esquecidas dos olhos
que as provam em pequenos sorvos demorados,
fiéis ao desígnio
de serem brancos e cores de laranja,
como um sabor a madeira
que prolonga a língua.
Os brancos e as invejas cor de rebuçados,
camélias encostadas à varanda,
onde os cabelos respiram
e se entregam.
Os brancos,
desmaios na vontade;
deitar a cabeça e cheirar o que ficou do mar.
E nesse mar,
vazio,
um outro branco ou amarelo,
motiva o rigor de voltar amanhã.
De preto.
Ao som de Area "Michael Writes His Parents"
maio 29, 2007
A espera
Paredes cor de laranja e algum branco de tom sujo. Enormes candeeiros que tombam do tecto, calados, à espreita. Oito computadores obedientes e submissos. Uma janela a três quartos. As cadeiras desarrumadas e as outras, conversam muito ciosas do seu espaço. Meio a dormir, meio acordado, com as mesas em desalinho e os cabos de rede à espreita, resolvem-se assuntos de governo e algum golpe de estado eventual. Os conselheiros tomam o tempo como refém. O mundo que espere. Aqui tomam-se decisões. Mesmo que não sejam úteis para ninguém.
maio 24, 2007
Seda
Vejo-te azul, cor de rosa, verde escuro, carmesim.
Quero-te assim, verde, nua, transparente.
Um tudo ou nada indiferente.
Envolta em luxo de uma nota esquecida num piano ainda quente. Absoluta e dolente.
Amada como a troiana,
por sussurros e manias.
Por olhares conspiradores que pecam provocações.
Estendo meus olhos em ti,
e percorro-te o sorriso nos lábios fundamentais.
Adianto as ilusões num banquete de ideais.
Penso, afirmo e até juro, apenas frases banais.
Quero ultrapassar as regras e viver por ti, proscrito.
Ensaiar gritos de guerra, comprar portes marciais.
Dar ordens vãs, resignado.
Redefinir os natais.
Desejar-te com mil forças, esvaindo-me em vermelho.
Acreditar nos prazeres, do corpo feito doutrina.
Entregar-me algemado, penhor de qualquer capricho.
Perder a identidade, por um minuto em teus braços.
Perder toda a vida eterna, por um segundo dos teus.
Rasgo a palavra amar, em pedaços descomunais.
E volto a colar,
submisso,
filosofando verdades que são as mentiras dos outros.
Vejo-te.
Escolho as cores que são devidas, numa paleta que é cega.
Misturo tons e balanços, experimento alguns traços.
Com os dedos algo abertos,
abstracto algumas formas.
Sinto a tela ganhar vida.
Obedeço.
Baixo os olhos.
Espero o momento, imóvel.
Com a raiva a consumir-me, dou punhaladas disformes.
Esculpo caminhos bacantes e rebolo-me na indiferença.
Na tua, que me arranha a cara.
Na minha, que não faz nada.
Vejo-te poente. Mansa.
Isolada no meu mundo.
Esbatida, quase morna, repousada num suspiro.
Atenta ao movimento brusco.
Selecta em labirintos.
Sugerindo uma caricia, agitas-te na preguiça.
Sigo cego os teus caminhos,
até me perder com delicia.
Violento-me a vontade em desejos marginais.
Misturo as horas do dia.
Fecho os olhos.
Paz.
Longamente, procuro as emoções dos teus poros.
Narcotizo-me em teu odor.
Entrego-me escravo, exausto,
delirando especiarias.
Já não sou eu. És tu.
Brocado doce e demente.
Quando abro os olhos, estou só.
Ao de leve,
sinto em mim o vento do teu oriente.
Sigo o contorno da tua silhueta ausente,
mimada em jogos de lã.
Indiferente, fujo.
E deixo-me ficar ali.
Ao som de Type O Negative "Love You to Death"
Quero-te assim, verde, nua, transparente.
Um tudo ou nada indiferente.
Envolta em luxo de uma nota esquecida num piano ainda quente. Absoluta e dolente.
Amada como a troiana,
por sussurros e manias.
Por olhares conspiradores que pecam provocações.
Estendo meus olhos em ti,
e percorro-te o sorriso nos lábios fundamentais.
Adianto as ilusões num banquete de ideais.
Penso, afirmo e até juro, apenas frases banais.
Quero ultrapassar as regras e viver por ti, proscrito.
Ensaiar gritos de guerra, comprar portes marciais.
Dar ordens vãs, resignado.
Redefinir os natais.
Desejar-te com mil forças, esvaindo-me em vermelho.
Acreditar nos prazeres, do corpo feito doutrina.
Entregar-me algemado, penhor de qualquer capricho.
Perder a identidade, por um minuto em teus braços.
Perder toda a vida eterna, por um segundo dos teus.
Rasgo a palavra amar, em pedaços descomunais.
E volto a colar,
submisso,
filosofando verdades que são as mentiras dos outros.
Vejo-te.
Escolho as cores que são devidas, numa paleta que é cega.
Misturo tons e balanços, experimento alguns traços.
Com os dedos algo abertos,
abstracto algumas formas.
Sinto a tela ganhar vida.
Obedeço.
Baixo os olhos.
Espero o momento, imóvel.
Com a raiva a consumir-me, dou punhaladas disformes.
Esculpo caminhos bacantes e rebolo-me na indiferença.
Na tua, que me arranha a cara.
Na minha, que não faz nada.
Vejo-te poente. Mansa.
Isolada no meu mundo.
Esbatida, quase morna, repousada num suspiro.
Atenta ao movimento brusco.
Selecta em labirintos.
Sugerindo uma caricia, agitas-te na preguiça.
Sigo cego os teus caminhos,
até me perder com delicia.
Violento-me a vontade em desejos marginais.
Misturo as horas do dia.
Fecho os olhos.
Paz.
Longamente, procuro as emoções dos teus poros.
Narcotizo-me em teu odor.
Entrego-me escravo, exausto,
delirando especiarias.
Já não sou eu. És tu.
Brocado doce e demente.
Quando abro os olhos, estou só.
Ao de leve,
sinto em mim o vento do teu oriente.
Sigo o contorno da tua silhueta ausente,
mimada em jogos de lã.
Indiferente, fujo.
E deixo-me ficar ali.
Ao som de Type O Negative "Love You to Death"
maio 23, 2007
Todos os poetas malditos usam boxers
Conheço práticamente todos os poetas malditos. São dezoito. Já foram vinte. Um dia... Mas conheço-os, sim senhor. Quase todos. Com quase todos bebi uns copos. Com quase todos, praguejei e fumei charutos. Com quase todos vomitei vísceras e ciúmes. Com quase todos, partilhei mulheres e paixões. E com alguns, troquei versos de cores escuras, que em noites de recolha do lixo me pesavam nas algibeiras. Com quase todos, vivi histórias de vício e extorsão. Com quase todos, adormeci esgotado, com as mãos trémulas de frio. Conheço práticamente todos os poetas malditos. Chamei-os pelo nome e pelos nomes. Gargalhei com hálitos tenebrosos e absorvi as gargalhadas de quase todos. Uma vez, jantei na mesma mesa com quase todos. E outra vez, quase me afoguei por causa de todos. Conheço a cor dos olhos de quase todos. E já fiz chorar quase todos. Quase todos! Conheço práticamente todos os poetas malditos. E quase todos os poetas malditos me conhecem. Mas todos, mesmo todos os poetas malditos, usam boxers!
Ao som de The Cure "A Forest" (Damian Lertora version)"
Ao som de The Cure "A Forest" (Damian Lertora version)"
Arrumações
Saudades de um beijo. De um tapete andaluz que nos aquece a aventura, duas velas em castiçal dourado, a almofada e o cheiro a verde, fresco como uma noite de Verão. Dizem que a paixão é vermelha. Da cor de uma rosa que se deseja. Eu não acredito. Para mim, a paixão possui beijos azuis. Um azul profundo como as penas de um corvo. A paixão inveja ouros e um tom carmesim escuro que embriaga os segundos e os gemidos. A paixão é da cor do sangue. Um sangue espesso e escuro, o elixir que resguarda a sede e provoca o abismo. A paixão é a da cor do segredo. E nesse segredo, confesso saudades de um beijo que me complete. Um de mil. O primeiro de uma centena que me sacie a fome e devolva o brilho, ao olhar perdido de amante. Vi relances de paixão em Marrakesh, no final de uma tarde ensolarada. Voltei a cruzar o olhar tenso da paixão em Cracóvia, debaixo de estrelas e à porta de um albergue antigo. Voltei a vê-la em Viena, num beco poeirento em Bombaim, numa alcofa de lençóis de linho em Toledo e no vão de uma porta em Veneza. Agarrei-a por alguns momentos e deixei-a sempre fugir. Quando já não a esperava rever, dei com ela onde menos esperava. E continuo sem saber onde a guardei.
Ao som de Tito & Tarantula "Strange Face of Love"
Ao som de Tito & Tarantula "Strange Face of Love"
Claves e sóis
Era tão mais simples, tão mais cintilante pular entre dois ou três momentos de linha recta para o alto, repeti-los avaramente e com cuidado renová-los por todos os lados e arestas. Por serem dois ou três, bastam-se na sua míngua. Entregam-se as importâncias próprias das facilidades que não existem. Cada um dos dois ou três é tesouro, diamante e sal. Perpetuam-se na janela virada para o relvado, com as árvores despidas e as varandas de estores meio fechados.
Depois dos anos e das estradas mal iluminadas e pior escolhidas, ficam os dois ou três, quase frescos, quase intactos. Um aeroporto, uns olhos vidrados de boneca, um regresso à fantasia ou um flic flac campestre.
E por isso, os meus agradecimentos.
Ao som de Jean-Luc Ponty "New Country"
Depois dos anos e das estradas mal iluminadas e pior escolhidas, ficam os dois ou três, quase frescos, quase intactos. Um aeroporto, uns olhos vidrados de boneca, um regresso à fantasia ou um flic flac campestre.
E por isso, os meus agradecimentos.
Ao som de Jean-Luc Ponty "New Country"
maio 22, 2007
Mostrengo
Regressar de um mundo inerte, sombra e herança de um manto, senhor nos seus domínios, onde o mármore coberto pela neve magoa o semblente, enquanto repousa e abriga a nudez. Das lentas sonoras do pêndulo, só restam os algarismos da fortuna e do azar, seguros por fiapos de seda, ouro de quem esqueceu os caminhos e as faces. Como pele de alguma fera, os reposteiros pesados são lã e doçura de um serão que não termina. E de um fogo lento, a lenha torna-se granito. Aqui o vento desterrou a brisa, fio cortante por onde agulhas picam os ossos e árvores serenam em quietudes altas.
Num arremedo de frugal rancor vagueia ao longo das paredes rasgadas, onde o cristal rompeu amarras. Funga todo o tempo, enfrentando os dedos violáceos numa rixa comezinha, enganando o resmungo com um riso sem ruído. Busca na recordação cores e afectos, que a reminiscência teima em lograr. Por momentos encosta-se a buscar o folgo, farsa da sua idade e desterro jovem. Deixa cair a cabeça e sente-se ermo. Exausto. Respira fundo e regressa. Não se evade. O contrato não lhe permite legar.
Ao som de Stoa "Partus"
Num arremedo de frugal rancor vagueia ao longo das paredes rasgadas, onde o cristal rompeu amarras. Funga todo o tempo, enfrentando os dedos violáceos numa rixa comezinha, enganando o resmungo com um riso sem ruído. Busca na recordação cores e afectos, que a reminiscência teima em lograr. Por momentos encosta-se a buscar o folgo, farsa da sua idade e desterro jovem. Deixa cair a cabeça e sente-se ermo. Exausto. Respira fundo e regressa. Não se evade. O contrato não lhe permite legar.
Ao som de Stoa "Partus"
maio 17, 2007
Não penso morrer tão cedo
Tinha pensado em escrever algo entre o racional e o filosófico, algo de ensaio, de observação, uns pózinhos de crónica, outros de visionário, uma direcção do sentido da vida. Em vez, saiu isto.
Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.
Ao som de The Curtain Society "Kissherface"
Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.
Ao som de The Curtain Society "Kissherface"
maio 15, 2007
Contraponto para o autor; só para o autor
Oito horas. Nove horas. Minuto a minuto, sol sim sol não, dúvida em forma de elevador em outro andar qualquer, bom dia oval, sub-reptício, preso por cordel de uma caixa de bolinhos, fóssil rebuscado de outra rua com principio, meio e sem fim. A esquina, a avenida, a esquina, a rua, a parede com impressão digital e pegadas de dinossauros, ou pelo menos um único, o que vagueava em habitat alheio, armas a tiracolo e óculos escuro de ver o mundo com a cor pretendida. A madrugada, o fim de tarde, a neblina, os papéis que voam em remoínho, os barcos ainda dormem, as prateleiras reflectem as luzes, e entre os que não acordam e os que dormem sugerem-se cortes laterais de onde se esvai a maçada e o tempo perdido. Não acreditam? Vejamos: uma chávena de chá, quase cheia, engraçada; o homem da gabardine, céu cinzento, nuvens escuras, chuva e mais chuva que atrasa o autocarro; um vidro de uma janela, fechada, segura, lânguida e morna; o copo de cerveja, alto, afunilado, glamoroso, dourado num balcão de apenas três clientes, todos diferentes, a mesma conversa, os relógios parados; as três voltas da chave, o empurrão de garantia, o olhar zeloso, as chaves no bolso e o dever cumprido; o nascimento, a infância, a juventude, a puberdade, a responsabilidade, o atrevimento, o crescimento e o desenvolvimento e a paragem cardíaca, o adulto, o maduro, o envelhecido, o idoso, o morto.
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.
Ao som de Suicide "Ghost Rider"
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.
Ao som de Suicide "Ghost Rider"
maio 10, 2007
Pausa para um quarto acto

Esqueci o café, esqueci o sorriso, esqueci até os sindromas de pastilha elástica que neste momento apenas me pareciam uma forma inútil de passar o tempo. Um tempo que teimava em desperdiçar com ninharias.
De olhos fixos na noite por detrás dos vidros imensos do aeroporto, de outro aeroporto ou todos os aeroportos, não quis esperar a chuva nem a humidade na pista para obter um perdão. Aquele perdão que cada um deve a si mesmo, em situações limite. Doiam-me as costas, não tinha o sabor correcto na boca, era tarde e a vontade de qualquer outra coisa, específica por não ser, queimava-me o pescoço. Funguei algum resto de constipação e insisti-me naquela hora de pausa, como se me pertencesse a beira do mar ou o único caminho para a brisa do início da manhã.
Preferia-me numa varanda, num cubículo aproveitado de um prédio esvaziado, talvez devoluto, talvez resignado, com o barulho da chuva a oferecer-me terapia e refúgio, onde os vazios da multidão se desfazem em bicicletas que passam no ruído da borracha molhada e das campaínhas infantis. Numa mão teria uma maçã, que em vez de mordiscar, cheirava com gulodice e inércia. Então, pedia ao relógio que fizesse uma pausa e, como um amigo, sorria-lhe. Um sorriso cheio de antigamente, de ontem, de encontros depois da meia noite, em esquinas largas, onde se agarram filosofias quando voam baixinho.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez lhe pedisse para retomar o tempo. Talvez.
Ao som de Blade Runner Blues
maio 04, 2007
Hesitação em terceiro acto
- Obrigado.
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?
Ao som de Saigon Kick "Sleep"
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?
Ao som de Saigon Kick "Sleep"
À partida do segundo acto
Obediente, esperei que a escada rolante me orientasse as decisões. O incómodo de alguma claustrofobia dos tectos demasiados altos do aeroporto, provocavam-me um estado de tontura morno e desagradável. Pensei numa chávena de café a fumegar, num copo água, que a hipótese de demasiado tépida me fez enjoar. Ao temer algum suor fora de tempo, dirigi-me ao check-in, como tentativa de organizar qualquer coisa. Não reagi aos avisos nem às recomendações, aceitei todas as determinações e com o número 48 do portão de embarque marcado na palma da mão, entrei numa casa de banho e demoradamente, molhei a cara e sem sorriso planeado, olhei-me longamente no espelho. Sem me conseguir mexer, remexi num cansaço do qual fazia parte, remoínho de olhos fechados e mãos afagando a face e o cabelo. Num faiscar, surgiu-me a imagem de uma bomba de gasolina à beira de uma via rápida, lugar de fascínio e partida para viagens de carro, daquelas que se iniciam cinzentas e não devem conter destino. Fechei os olhos muito devagar e sem recusar o apelo, desejei com muita doçura apagar aquela imagem. Com esforço, endireitei os ombros, lavei as mãos e sacudindo o casaco e as calças, fui à procura da tal chávena de café a fumegar. Pelos corredores larguíssimos do aeroporto, procurava nos altifalantes uma canção a condizer.
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.
Ao som de Goldfrapp "Utopia"
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.
Ao som de Goldfrapp "Utopia"
maio 03, 2007
A partida
Antes de partir, procurei nos avisos presos no frigorífico as moradas. Preferi não as levar comigo e tenho a certeza que não as decorei. Prefiro encher o espaço livre de memória com assuntos mais confortantes. Ou reconfortantes, depende da hora do dia. Depois de uma olhadela para a camada de cima da mala, fico sem a certeza de me lembrar de tudo, ou pelo menos do que é insubstítuivel. Mesmo assim, prefiro fechá-la. O isqueiro no bolso esquerdo das calças, o comprimido no bolso direito, os óculos de sol e os auscultadores. Tiro à sorte entre os mp3 e sem verificar conteúdos, qual roleta russa, guardo-o no bolso do casaco, junto ao cartão de acesso e a ficha metálica para a bebida. Escrevo o recado e deixo-o bem à vista, debaixo do telemóvel. Uma última escovadela dos dentes, o sorriso número 14 ao espelho e a porta de casa.
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?
Ao som de Lucyfire "The Pain Song"
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?
Ao som de Lucyfire "The Pain Song"
maio 02, 2007
Jovialmente, uma boa noite para si
Mais uma vez no local do crime. Impressão digital sobre impressão digital, projéctil atrás de projéctil, cápsulas caídas no chão em desprezo pela verdade. E na verdade, estes regressos ao mesmo local do crime, como se não houvessem outros para escolher, reflectem-me a ousadia e alguma aventura de sentir sempre algo de novo. Hoje é refractar o cansaço, produzir alguns exemplares com a fábrica ainda a meio gás, enrolar-me num cachecol de cachemira e enfrentar uma noite de temporal, amena pelo bom gosto e agreste pela vontade de sair e não sair do mesmo sítio. Apelos e apetites. Comodismos.
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.
Ao som de Spectral "Avalon"
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.
Ao som de Spectral "Avalon"
abril 27, 2007
Homenagem geométrica
Em vez de uma lista de compras ou dos dez qualquer coisa que se levam para uma ilha deserta, eis-me aqui pronto para o que der e vier, ilusionado por imagens a cores ou preto e branco, sem saber as verdadeiras e as de encantar, rosto na janela do primeiro andar, mãos a restolhar nas persianas com pó, ouvido nas danças da chuva sem as saber cantar, olhos na esquina do quiosque e na berma do rio quase mar.
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro
Ao som de Ashra "Blackouts"
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro
Ao som de Ashra "Blackouts"
Nomeações
Nascimentos regulares tomam as linhas das peças seleccionadas ao acaso, no xadrez de mármore da entrada. Por cada xeque mate, deduzem-se as despesas da lavandaria e dos projécteis. A primeira bebida da noite é obséquio... todas as outras incluem vítimas. O gelo é pago ao valor de fecho do mercado. Só são elegíveis corpos de fato completo. Escuro. Qualquer vestígio de cinzento é condenado com pena capital. O executor de serviço deve preencher os formulários devidos, de baixo para cima. Qualquer resquício de frio deverá ser comunicado à comissão de festas.
E agora que todos estamos entendidos...
Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"
E agora que todos estamos entendidos...
Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"
abril 26, 2007
Levitação em idioma de gringo
Nestes momentos, pode cair um cometa, que não me levanto. O balde do gelo está vazio e não me levanto. A munição está reduzida a cinza, mas não me levanto. A luz está longe de ser a que desejo, mas não desejo levantar-me. A canção, inadvertidamente, entrou em repeat, e nem por isso me levanto. A miragem de cabelos hipnóticos e lábios suplicantes mantém-se de olhos em mim e eu apenas lhe devolvo o olhar. A carta do general foi entregue por debaixo da porta, os grilos gritam por companhia, o porteiro fuma junto do baralho por partir, o jornal permanece por ler. Não, não me levanto. Esperam que o efeito passe?
Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"
Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"
Arrepio meio nocturno

Descalço, prolongo a vontade de uma parede em falso, rebolo nas luzes os vestígios juvenis e sorrindo deixo-me envolver, permito que me subtraiam as agulhas e os pólens que neste corredor não me fazem falta... que os escondam longe, que os tornem mistérios por resolver. Devagarinho, fecho os olhos, levanto-me e rodeio a minha sombra com rodopios, cabriolando o tique humano, soltando-lhe as feras do impulso, com dentes de luar.
Ao tecto, aos rodapés, à ameaça e ao relógio, apenas um conselho: esqueçam a corrida e a chegada. E com um beijo, mantenham a chama acesa, mesmo se olímpica.
Ao som de Blueboy "Popkiss"
abril 23, 2007
Narcisista em harmonia
Tirei do armário a camisa branca de meio colarinho e pendurei o cabide na porta com todos os cuidados. Entre as calças do fraque e as do smoking, escolhi as mais solenes. Da gaveta do meio tirei o laço preto e na dúvida optei pelos sapatos pretos de verniz. De boxers e meias pretas fui à sala buscar o isqueiro e o relógio, numa atitude perversa onde a rebeldia colide com o bom gosto. Antes de regressar ao quarto, passei pelo espelho da casa de banho e com a tesoura pequena acertei a pera com o rigor das 7 e meia.
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.
Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.
Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"
O ábaco
A orgia tinha começado à hora marcada. Por entre os arbustos, na copa das árvores e nos pouquíssimos bancos disponíveis, os casais e demais curiosos entregavam-se uns aos outros com a gulodice habitual. Generais e majores, bispos e outros eclesiásticos, proprietários, pintores e disc-jockeys, mais os membros do clube e os electricistas entabulavam o seu mesmerismo às louras e morenas sacramentais, já que de ruivas o mercado estava sempre em falta.
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...
Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"
O boletim de voto já inclui o x
No caminho para a Assembleia, parava no café das janelas amarelas e bebia o seu chá das quatro e meia. Tirava do bolso o frasquinho do mel e adoçava a beberagem a gosto. Com um gesto de desprezo afastava o pacotinho colorido, ainda cheio. Limpava o beiço com o lenço assinado, ignorando ostensivamente o quadrado de papel branco à sua frente. Economizava as boas tardes e deixando as moedas certas, saia com pressa institucional. Subia a ladeira algo íngreme e ao ver o majestoso edifício, sorria disfarçadamente.
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.
Ao som de Maximo Park "Our Velocity"
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