abril 19, 2011
Contraponto
Porventura saberás as ruas e os degraus? Quem se senta e em que cansaço resvalam o dia? Os sussurros que uma sede inusitada pode provocar, as certezas presas ao chão, tapadas por vigas enlameadas, passos de sapatos com a pressa de quem sabe a sua morada, dos tolos que acreditam, das eternas curiosidades em becos escuros, sujidades, cortesãs gastas em posição de lótus. Sabias que as esferas e as arestas foram inventadas por imperadores subjugados ao bocejo? Que as noivas e os poetas sofrem do mesmo mal? As sereias continuam o seu sono, embaladas pelos trejeitos subtis de caixas de música com voz humana dentro. Porventura saberás os gemidos nas cadeias? O choro contido de uma cadência? O dia e a vontade de outro dia, senadores disputando o lugar ao altar, velhos de olhar apagado imitando cegos. Sabias a certeza do teu criador? Esse artesão de mãos longas esculpindo cada ruga e desenhando os sorrisos à beira do precipício, cada hora morta puxando-o para a lápide. Sabias o pianista, lavrando e colhendo as tempestades do seu ardor? Suspiras porque entendes o que te digo, e em cada suspiro, nesse mesmo suspiro, as histórias, as curas, são gavetas de mundos redondos. Os mesmos que à noite, da janela do teu quarto, riem e troçam por depois da noite haver sempre manhã.
Fuga
Conheço este motivo
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.
abril 04, 2011
abril 03, 2011
Dúvida existencial
Lembro-me de tudo. Dos saltos, da cadeira girar alguns segundos a mais após a saída, o compor da saia com quatro dedos, a hesitação entre esquerda e direita. Lembro-me de pagar a conta e não ter hesitado. Lembro-me de obrigar os meus passos a cadências alheias. Lembrei-me sobretudo de uma canção que nunca pensei gostar. Mas estava sol e afinal gostava. E gostava sobretudo de um certo movimento horizontal antes de cada passo. Senti-me tão fútil que não consegui reprimir o riso. Será isto a felicidade?
abril 01, 2011
Rádio silêncio
Limitar os danos sem ferir qualquer alma cadente, é o aviso que se pode ler à porta da surpresa. O telefone toca e algures um concerto com guitarras e sintetizadores passa pelos desprevenidos. Comprei uma vez num antiquário a vontade de ouvir demos de canções. Descubro-lhes os panos que as tapam, e por baixo dessa fina e crocante placa de caramelo, o creme que me adoça. Ora, tudo o escrito pode não colar, nem ser a guarnição perfeita para o Wellington, mas a baunilha, afinal, casa qualquer manhã de sol. E das outras... As murchas ou as cor de hortelã. Logo, a lógica serve-se em fatias finas, de corte italiano, eu que me prometi pastrami e faltei à promessa. Já o tinha feito com cachorros e hamburguers, e halls art déco, como se as juras fossem cobertas por açúcar finíssimo, o pó de Pirlim Pim Pim dos sentimentos infantis. Longe é uma palavra tão longe, mesmo se em cada aeroporto existam destinos como gomas em compartimentos transparentes. Prefiro as cor de laranja, por essa mesma razão: cor de laranja. Tanto pode ser um pequeno passo para a estrada que termina no fim dela própria, porque sempre lhe conheci vida própria, e aqueles tufos de ervas abanando ao vento, tanto de manhã cedo como ao fim da tarde. Perdi a conta às vezes que chamei este canto perfeito. Sempre convencido que não o era, e por isso mesmo, perfeito. Cheguei a morar ali. Agachado na areia, encolhido de encontro a uma duna. E fui soprado por esse fio de prumo, nunca vertical, que tem filamentos de felicidade. De toalha presa ao pescoço e volante nas mãos, como se adulto fosse a criança para se ser.
março 30, 2011
Agridoce
O homem na lua, sem o ser, sem o parecer, procura a altitude com que se compara aos deuses, esses sim, peões de vigarice levados à potência pela simples atitude de serem uma invenção humana, esses humanos que não acreditam na espécie que se esfuma na selva onde se afundam em lodo cor de rosa. Leio os jornais, as revistas de edição fácil, ouço e regurgito os comentários ininterruptos, as colunas de opinião, as democracias em tempo útil, nas gargalhadas dos que bebem e esperam a assistente para os levar ao confessionário. Sou um sem-abrigo, tenho cama e calor. Sinto-me só, na medida do desejo de prolongar. Sinto frio e tenho as costas doridas. A lua já desapareceu e eu continuo a vê-la e a falar-lhe de amor. Um amor que só eu conheço. E, num paradoxo milenar, não o ofereço a ninguém.
março 27, 2011
Chuva e inverno fora de horas
Tantas letras, palavras inventadas por algum mistério, se mistério fosse a palavra certa para assombro, como se electricidade fosse uma cor e as laranjas apenas barras de arco-íris. A minha voz permanece quieta, sem saber se mudez é opção, por opção se compreender uma ou outra, verbo significar algo a acontecer e as refeições terminarem sempre com o copo de água de toda a chuva que se insistir sentada e absorta, no tempo e na tarde que nunca convergem num relógio por se tratar de uma jóia ou até comida de animal. Lembro-me dos porcos por serem pétalas e o engano, tão comum nestes leitos de água sem sono, de se oferecerem em ramo ou simplesmente serem mastigados. Confundo sempre, sempre por se tratar de algo continuado, riso e sorriso, será por fazerem parte um do outro ou serem, por existirem e serem vistos de noite, complemento como um casamento precisa de duas pessoas, se pessoas forem as que sei ver corar. E no fim, provavelmente por todas as estradas acabarem em algum sítio, no caminho, entre as ervas, por se considerar caminho onde há ervas e assim o abandono também é ponto de passagem, há um que. Que se mexe e se torce, entalado na garganta ou atravessado na abertura de um muro, seja escama ou animal empalhado, um que, que entope e encrava e se atravessa pois vive na configuração de ponte e alívio. Tudo, se a lista estiver inteira, se move ou mantém-se imóvel, pela simples, talvez nem sempre, lógica, quero dizer razão, de eu saber olhar, mesmo se não souber o que estou a ver.
março 26, 2011
Relevo debaixo dos lençóis
Conheces o espaço que te encolhe, aquele canto de gaveta longo enquanto esse escorregar entre traves e esquadrias, caprichos de carpintaria onde o artesão é afinal letrado e único barómetro de realeza, tão real é o seu pecado, essa soberba de lentas lascas, violência suprema de mão certa e dogma enrugado. Sei que me reconheces, a mim o inútil, esse violador de lágrimas alheias, o primeiro na fila a sugar o instante de quem o teve. Alimento-me do roubo, abano as barras do que é a prisão que me contém. De cela em cela, perdoo-me estirado em lençóis escuros, luxúria de sorriso apertado com um cinto de cabedal antigo, odorífico o bastante para me aceitar o castigo. Encho-me de dor escondida debaixo de qualquer sofá de inquietação, forrado a vinho. Conheço-te na face que reflectes no copo. Sei que és tu. Reconheço-te mais do que te conheço. E basta o paradoxo para proferir as certezas, pelo menos deste mundo. Gritavas sempre que te pegava ao colo, talvez por tresandar a solidão. Porque me torturo todas as noites antes de engolir o sono? Maturo cada sonho e descasco-o com vagares de Verão. Preferes ver-me de longe, com o choro nas palmas das mãos? Serás assim tão perfeita? Serás uma? Serei um? Serei, sequer?
Lábios cor de...
Os estranhos habitam a meu lado, dentro de mim, no rebordo doa lábios que utilizo para os beijos. Não sei beijar, desconheço intenção e técnica artesanal. Sei algo de artista, apenas no segurar do copo e ver o vinho escorregar lentamente pelo vidro. Nem o rubi me atrevo a avaliar. Aceno com amizade ternurenta todos os ph ferozes e flácidos. Juram-me amor eterno e subjugam a paixão, mesmo se demorar um momento. Nada será devagar. Prometo. Será que ainda sei jurar?
março 13, 2011
Eles erguem as nossas cidades
Construir, constituir, levar o alto até nada ser mais alto, proteger, reciclar. Preferir, atingir, sonhar em democracia, alimentar os ismos e em janelas panorâmicas ousar e ficar sentados à espera de algo acontecer. Motivar, receber, obedecer às traves mestras e conhecer todos os ângulos e arestas. Prever, emudecer, testar as moléculas e todo o adn que se puder agarrar. Idealizar, ver o futuro pelo telescópio, crivar de balas, vender a alma, apodrecer, saborear ostras e finas lamelas de pato lacado. Convencer, rezar, tornar papisas todas as maternas formas de vida. O erro humano julga-se uno e dogmático. Porquê arremessá-lo à parede? Existe o risco dele não escorregar.
Bordel
Violência velada nessa voz de fatalismo e meias pretas de rede, enquanto os machos se perfilam para a pose inicial. Dissimulado, não pertenço a qualquer tribo, vagueio nos territórios dessas feras motivando os ódios que me seringam energia. Tenho os caninos gastos, a lua já não me conhece, o preto que vesti tornou-se amarelado. Porém, o brilho nos meus olhos mantém-se o do primeiro dia. Vivi no século errado. Sei-o desde sempre.
A face de outro recém nascido
Parto para o amor, para esse fulgor de ser vivo, mais do que estar. Agito este meu corpo cansado à cadência desse poder no escuro, onde ser cru é manter vigilância. Não importam as pausas, convertem-nos à divindade que descobrimos em becos pintados de negro. Hesitamos entre o grito e o berro. E essa dúvida por respeito ao momento. Essa criminosa gota de água que só se bebe uma vez.
Dia seguinte, manhã atingida pelos filamentos fundidos da noite que a antecede. Cada dia é decidir o seguinte. Se, seguinte. Tudo parece mais pequeno, menos formal porque aqui também existem beijos e abraços. Uma chávena de chá frio, o pão que alguém deixou por um encolher de ombros, a medida de subtrair o credo, a lembrança de uma casa algures, um céu diferente de cinzento. E nesse mais, ou algum, o poder efémero de se ter alguma carícia.
Indiferente, fecho a porta deste destroço, desço as escadas destruídas por anos de inércia e junto à entrada esqueço-me de todo o antes.
Dia seguinte, manhã atingida pelos filamentos fundidos da noite que a antecede. Cada dia é decidir o seguinte. Se, seguinte. Tudo parece mais pequeno, menos formal porque aqui também existem beijos e abraços. Uma chávena de chá frio, o pão que alguém deixou por um encolher de ombros, a medida de subtrair o credo, a lembrança de uma casa algures, um céu diferente de cinzento. E nesse mais, ou algum, o poder efémero de se ter alguma carícia.
Indiferente, fecho a porta deste destroço, desço as escadas destruídas por anos de inércia e junto à entrada esqueço-me de todo o antes.
Ética
Já. No fim de todas as vielas vazias de desgraça, garrafas desgarradas por todos os chãos que pisei e preferi aos lençóis e cobertores do albergue. Gritei, por ti e por todos os que vi perder a razão, asfixiados em tudo o que é longe e alto. Cometi crimes, reneguei um passado que decidi reescrever, saltei por cima de bancos de jardim, apenas para fugir à velhice. E não paro, não me sei vencido, persigo as palavras das canções, escrevendo-lhes sempre um verso mais. E no arrepio, no vento que me molha a cara, cultivo esta pretensa alienação. Para estar vivo no momento em que declarem morto.
Por tanta fé que encontrei
Recebi um encanto adivinhando o jardim e o labirinto, entardecer sereno de todos os mansos que herdaram a terra, a de alguém, a que ficou perdida em ruínas de falta de querer, lonjuras desses lugares pios onde se altiva o saber, orando a horas certas, quando certa é a ceia e mais nenhum nenúfar. Nessas pedras onde se repousa a penitência, já ecoaram queixumes e cordas de pescoços vincados. Já existiram dias e noites, hábitos e pachos de medronho, olhos piedosos de soslaio nas torres da indiferença. Os peregrinos sabiam o meu nome, o meu bordão, conheciam os brindes que fazia noite alta, a quem ofendi e os hereges que queimaram em meu nome. Viram-me abandonar o poiso, e de longe acenaram-me para que me voltasse e retribuísse. Nunca o fiz. Preferi perder-me nos trilhos que me levam ao mar.
março 12, 2011
Antes de outra coisa qualquer
O amor espera-me
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.
Profecia
Mais e sobre-humano
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.
O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.
O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.
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