maio 14, 2011

Ética

Sim. Proponho as premissas de tardes de calor e sombras indicadas por doentes psiquiátricos, aqueles sempre desejosos de desejar, aqueles que oferecem sonhos em troca de um cigarro, como se as ofertas fossem sempre de um só sentido. Conheço-os, bebe com eles, ensinam-me o meu lugar à mesa, acima de todas as coisas, sabem morder e reconhecem o caminho e a estrada quase sempre pela mesma ordem, são humanos, pelo menos mais que os humanos. Sim. vejo-os rondando a minha porta, vestem cores sem paleta perceptível, desconhecem os caminhos dos museus e dos bares de música punk, viajam em primeira classe convencidos dessa superioridade temporária e copos bem lavados. Sim. Não os reconheço das enfermarias nem sequer dos bancos de jardim. Dão-me vontade do próximo gole e da embriaguez na próxima estação ou na estação seguinte. Sim. Frente a frente, de um lado o doente psiquiátrico, são e objectivo, do outro, a mole humana de uma humanidade barrada a código. Sim. Escolho um dos lados. Escolho sempre.

abril 24, 2011

Forever more

Começar assim, nesse tom propositado de demência, onde me desmaias e me reanimas com o corte profundo da tua voz. Prefiro-te num corredor de betão, um túnel abandonado de algum sistema de comboios, desactivado por alguma guerra, onde me premeias com alguns dos teus passos de dança. Puxas-me para o círculo estranho da tua vontade, cada milímetro feito de carícia e arranhões, as faces que se esfregam num remoinho de vontade absurda, o apetite rasgado de um ramo de flores, pétalas mastigadas e cuspidas sobre os ombros nus, o resto de algum vinho escorregando sobre o peito como se cavalos corressem em círculos. Liberto-me de doçuras cobertas de canela e o meu hálito sabe a prolongados efeitos de embriaguez. Digo-o gentilmente, como quem declama uma quadra escrita por uma criança. Sinto-me divino, e digo-o sem honestidades. Essas caricaturas de franqueza não têm lugar sentado neste salão de baile. Só confio em mãos empunhando copos tingidos de escuro, esses rubis que aprenderam a entregar-me o mundo em sorvos banhados em sorrisos. Aprendi com o teu grito final. Aprendi a ser paciente. Espero esse momento para te puxar os cabelos e olhar-te os olhos. E beber-te até ao fim.

abril 19, 2011

Type O Negative "Love You To Death"

Puro

Levanto esse véu, curiosa forma de velar a inocência, protegendo a tua nudez com o meu segredo. Escondo-me nas sombras das aves de rapina que te anseiam cada bocado. Nelas desmaio o vagar de te percorrer. Olho-te a cada centímetro, deixando esse rasto de pulsação na pele alva. Do teu rubor crio dogmas, na esperança divina de me alimentar com a tua alma. Na transparência deste momento toco o sublime ao desejar-te. Um desejo rouco, fruto do animalesco respirar com que te venero. Morro ao suspeitar a plenitude que possuis. Ressuscito cada respirar no teu peito.

A batuta está roída na ponta

Soam tesouras periclitantes num embuste de cinéfila desilusão. Ao piano, veludos precipitam todo o vagar de soirés, fraques roídos pela presença de arquiduques, lama transbordando os copos boémios de fragilidade óbvia. Eu, sentado no banco dos reprováveis, observo tudo com gula. Nos dentes sinto o freio de dias sem refeição, como se de mendigo apenas a fome. E de fome, construo os diagramas da génese. De sede, conheço o meu sangue. Espesso, frutado. Olho, reviro os globos feitos lustres, cedo à patética cor do meu ventre. Obeso me confesso, porque carrego a vida de outrem, feitos reféns os restantes em torno da minha majestade, título efémero, coisa pouca, fiel depositário de uma dinastia fértil e pegajosa, não fosse o meu único antepassado, rastejante e divino. A noite parece ter o fim que merece. Levanto-me numa pantomina sossegada. Componho-me, perfilo-me, marco o passo pelos burgueses, donos do teatro, e saio da li para fora, respirando fundo o meu fedor. A vós a vénia. A mim, a carótida.

Contraponto

Porventura saberás as ruas e os degraus? Quem se senta e em que cansaço resvalam o dia? Os sussurros que uma sede inusitada pode provocar, as certezas presas ao chão, tapadas por vigas enlameadas, passos de sapatos com a pressa de quem sabe a sua morada, dos tolos que acreditam, das eternas curiosidades em becos escuros, sujidades, cortesãs gastas em posição de lótus. Sabias que as esferas e as arestas foram inventadas por imperadores subjugados ao bocejo? Que as noivas e os poetas sofrem do mesmo mal? As sereias continuam o seu sono, embaladas pelos trejeitos subtis de caixas de música com voz humana dentro. Porventura saberás os gemidos nas cadeias? O choro contido de uma cadência? O dia e a vontade de outro dia, senadores disputando o lugar ao altar, velhos de olhar apagado imitando cegos. Sabias a certeza do teu criador? Esse artesão de mãos longas esculpindo cada ruga e desenhando os sorrisos à beira do precipício, cada hora morta puxando-o para a lápide. Sabias o pianista, lavrando e colhendo as tempestades do seu ardor? Suspiras porque entendes o que te digo, e em cada suspiro, nesse mesmo suspiro, as histórias, as curas, são gavetas de mundos redondos. Os mesmos que à noite, da janela do teu quarto, riem e troçam por depois da noite haver sempre manhã.

Fuga

Conheço este motivo
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.

abril 04, 2011

abril 03, 2011

Dúvida existencial

Lembro-me de tudo. Dos saltos, da cadeira girar alguns segundos a mais após a saída, o compor da saia com quatro dedos, a hesitação entre esquerda e direita. Lembro-me de pagar a conta e não ter hesitado. Lembro-me de obrigar os meus passos a cadências alheias. Lembrei-me sobretudo de uma canção que nunca pensei gostar. Mas estava sol e afinal gostava. E gostava sobretudo de um certo movimento horizontal antes de cada passo. Senti-me tão fútil que não consegui reprimir o riso. Será isto a felicidade?

abril 01, 2011

Thomas Dolby "Radio Silence"

Rádio silêncio

Limitar os danos sem ferir qualquer alma cadente, é o aviso que se pode ler à porta da surpresa. O telefone toca e algures um concerto com guitarras e sintetizadores passa pelos desprevenidos. Comprei uma vez num antiquário a vontade de ouvir demos de canções. Descubro-lhes os panos que as tapam, e por baixo dessa fina e crocante placa de caramelo, o creme que me adoça. Ora, tudo o escrito pode não colar, nem ser a guarnição perfeita para o Wellington, mas a baunilha, afinal, casa qualquer manhã de sol. E das outras... As murchas ou as cor de hortelã. Logo, a lógica serve-se em fatias finas, de corte italiano, eu que me prometi pastrami e faltei à promessa. Já o tinha feito com cachorros e hamburguers, e halls art déco, como se as juras fossem cobertas por açúcar finíssimo, o pó de Pirlim Pim Pim dos sentimentos infantis. Longe é uma palavra tão longe, mesmo se em cada aeroporto existam destinos como gomas em compartimentos transparentes. Prefiro as cor de laranja, por essa mesma razão: cor de laranja. Tanto pode ser um pequeno passo para a estrada que termina no fim dela própria, porque sempre lhe conheci vida própria, e aqueles tufos de ervas abanando ao vento, tanto de manhã cedo como ao fim da tarde. Perdi a conta às vezes que chamei este canto perfeito. Sempre convencido que não o era, e por isso mesmo, perfeito. Cheguei a morar ali. Agachado na areia, encolhido de encontro a uma duna. E fui soprado por esse fio de prumo, nunca vertical, que tem filamentos de felicidade. De toalha presa ao pescoço e volante nas mãos, como se adulto fosse a criança para se ser.

março 30, 2011

Anne Clark "Full Moon"

Agridoce

O homem na lua, sem o ser, sem o parecer, procura a altitude com que se compara aos deuses, esses sim, peões de vigarice levados à potência pela simples atitude de serem uma invenção humana, esses humanos que não acreditam na espécie que se esfuma na selva onde se afundam em lodo cor de rosa. Leio os jornais, as revistas de edição fácil, ouço e regurgito os comentários ininterruptos, as colunas de opinião, as democracias em tempo útil, nas gargalhadas dos que bebem e esperam a assistente para os levar ao confessionário. Sou um sem-abrigo, tenho cama e calor. Sinto-me só, na medida do desejo de prolongar. Sinto frio e tenho as costas doridas. A lua já desapareceu e eu continuo a vê-la e a falar-lhe de amor. Um amor que só eu conheço. E, num paradoxo milenar, não o ofereço a ninguém.

março 27, 2011

Under Electric Light "Wintertime"

Chuva e inverno fora de horas

Tantas letras, palavras inventadas por algum mistério, se mistério fosse a palavra certa para assombro, como se electricidade fosse uma cor e as laranjas apenas barras de arco-íris. A minha voz permanece quieta, sem saber se mudez é opção, por opção se compreender uma ou outra, verbo significar algo a acontecer e as refeições terminarem sempre com o copo de água de toda a chuva que se insistir sentada e absorta, no tempo e na tarde que nunca convergem num relógio por se tratar de uma jóia ou até comida de animal. Lembro-me dos porcos por serem pétalas e o engano, tão comum nestes leitos de água sem sono, de se oferecerem em ramo ou simplesmente serem mastigados. Confundo sempre, sempre por se tratar de algo continuado, riso e sorriso, será por fazerem parte um do outro ou serem, por existirem e serem vistos de noite, complemento como um casamento precisa de duas pessoas, se pessoas forem as que sei ver corar. E no fim, provavelmente por todas as estradas acabarem em algum sítio, no caminho, entre as ervas, por se considerar caminho onde há ervas e assim o abandono também é ponto de passagem, há um que. Que se mexe e se torce, entalado na garganta ou atravessado na abertura de um muro, seja escama ou animal empalhado, um que, que entope e encrava e se atravessa pois vive na configuração de ponte e alívio. Tudo, se a lista estiver inteira, se move ou mantém-se imóvel, pela simples, talvez nem sempre, lógica, quero dizer razão, de eu saber olhar, mesmo se não souber o que estou a ver.

março 26, 2011

Bette Davis Eyes

Relevo debaixo dos lençóis

Conheces o espaço que te encolhe, aquele canto de gaveta longo enquanto esse escorregar entre traves e esquadrias, caprichos de carpintaria onde o artesão é afinal letrado e único barómetro de realeza, tão real é o seu pecado, essa soberba de lentas lascas, violência suprema de mão certa e dogma enrugado. Sei que me reconheces, a mim o inútil, esse violador de lágrimas alheias, o primeiro na fila a sugar o instante de quem o teve. Alimento-me do roubo, abano as barras do que é a prisão que me contém. De cela em cela, perdoo-me estirado em lençóis escuros, luxúria de sorriso apertado com um cinto de cabedal antigo, odorífico o bastante para me aceitar o castigo. Encho-me de dor escondida debaixo de qualquer sofá de inquietação, forrado a vinho. Conheço-te na face que reflectes no copo. Sei que és tu. Reconheço-te mais do que te conheço. E basta o paradoxo para proferir as certezas, pelo menos deste mundo. Gritavas sempre que te pegava ao colo, talvez por tresandar a solidão. Porque me torturo todas as noites antes de engolir o sono? Maturo cada sonho e descasco-o com vagares de Verão. Preferes ver-me de longe, com o choro nas palmas das mãos? Serás assim tão perfeita? Serás uma? Serei um? Serei, sequer?

Lábios cor de...

Os estranhos habitam a meu lado, dentro de mim, no rebordo doa lábios que utilizo para os beijos. Não sei beijar, desconheço intenção e técnica artesanal. Sei algo de artista, apenas no segurar do copo e ver o vinho escorregar lentamente pelo vidro. Nem o rubi me atrevo a avaliar. Aceno com amizade ternurenta todos os ph ferozes e flácidos. Juram-me amor eterno e subjugam a paixão, mesmo se demorar um momento. Nada será devagar. Prometo. Será que ainda sei jurar?

março 13, 2011

Eles erguem as nossas cidades

Construir, constituir, levar o alto até nada ser mais alto, proteger, reciclar. Preferir, atingir, sonhar em democracia, alimentar os ismos e em janelas panorâmicas ousar e ficar sentados à espera de algo acontecer. Motivar, receber, obedecer às traves mestras e conhecer todos os ângulos e arestas. Prever, emudecer, testar as moléculas e todo o adn que se puder agarrar. Idealizar, ver o futuro pelo telescópio, crivar de balas, vender a alma, apodrecer, saborear ostras e finas lamelas de pato lacado. Convencer, rezar, tornar papisas todas as maternas formas de vida. O erro humano julga-se uno e dogmático. Porquê arremessá-lo à parede? Existe o risco dele não escorregar.

Bordel

Violência velada nessa voz de fatalismo e meias pretas de rede, enquanto os machos se perfilam para a pose inicial. Dissimulado, não pertenço a qualquer tribo, vagueio nos territórios dessas feras motivando os ódios que me seringam energia. Tenho os caninos gastos, a lua já não me conhece, o preto que vesti tornou-se amarelado. Porém, o brilho nos meus olhos mantém-se o do primeiro dia. Vivi no século errado. Sei-o desde sempre.