junho 21, 2011
Arrependimento
Temo que o devagar seja tarde demais. Que este cansaço quando me levanto, signifique tarde demais. O dia, longo, primeiro de alguma coisa, seja demasiado tarde. Nesta sonolência, demorada, partida aos bocados, não pedaços, existem as páginas de um livro onde se morre só, de sorriso nuns lábios, escondidos pelo barulho de algum mar e algum penhasco. E nunca um suspiro foi tão, nunca os dedos afagando os olhos magoaram tanto, os ombros pesados e esse galope felino de tantos, deixando-me pregado ao chão, sem ter sido valioso nem merecer nada. Nesse esquecimento, estão arrumadas as desilusões. E ao chamá-las, curvo-me ao seu bom nome.
junho 17, 2011
Ar re-respirado
Deste lado da rua, se este lado da rua tiver um lado digno de ser contado, como se cada lado fosse muito mais que um todo, mesmo sendo todo, mesmo estando dos dois lados, de todos os lados, olhando para demasiados ângulos, tão demasiados que lhe escapa o essencial, como se a essência fosse exclusivo de algum lado, e o outro, orfão, ali restasse, vazio, sentindo-se numa pequenez alcalina, sentado nesse chão que se suja todo o dia, se o dia amanhecer escurecido, cheio de nódoas, gorduroso como só um dia sabe ser, como só um dia carregasse a gordura que este mundo, mais que o outro, acumula e esbanja, passeio a passeio, bairro a bairro, comendo as vidas desmaiadas de quem chega tarde a casa e nunca, nunca consegue chamar casa à sua, ao seu, ao lugar, ao ninho de gravetos partidos que se encolhe para receber um cansaço esfomeado que o cansaço não consegue curar, aqui, deste lado da rua, onde pensei, onde sempre me pareceu não existir a infâmia, seja em que forma for, seja com o rosto ou as mãos sujas, dignas, deste lado da rua, chão de cada conto, de cada lado, mesmo contado e olhado, mesmo sem lado, aqui, neste degrau, com os pés no chão.
Ar
Sustenido, este sentimento que me faz tocar o abissal, ou então uma emoção pausada, sorvida a gulosos temperamentos, todo o resguardo onde me encosto e descanso os braços e as vontades, os quereres e toda a invenção de beijo ainda por decidir. São as tardes das cerejas, o resto dos dias de vinho e rosas, precipitados pela angústia de saber finita a claridade.
junho 15, 2011
Sei que um agora nunca o será sem ti
Sitiado por entre portas pesadíssimas, metal maciço aquecido por reposteiros da mesma cor do vinho que pretendo fluido sobre a tua pele pálida, sofro do enredo de te situar na penumbra e escondida da claridade do dia. Prefiro vender as imaginações em frascos lacados, guardar em gavetas forradas a veludo verde escuro as carícias de uma violência desejada, frutos de polpas que a língua sabe dissolver, movimentos desordenados pintados por gotas escorrendo até ao chão. E nas vontades, nesses beijos contidos e pincelados, existem afagos rugidos e dedos gulosos de marcar os veios de um capricho. São estas as sinopses de realizações mortais mantidas em segredo dentro de caixas de cinzento metal, à espera de serem abertas e projectadas em algum santuário.
junho 11, 2011
Cruzar a perna como refúgio
Lembro-me e insisto nesta condição. Para me situar, uma sede intensa, motivo irreflectido em que dois chocos ao almoço e alguns desajustes de batatas fritas colhidas em travessas alheias, mais duas mastigadas de carne com demasiada gordura, um café aguado e dois copos de água, são peões de xeque mate ainda por definir. E calor. Muito. Prolongado. Para me situar, ainda mais, uma compra tardia de talho aberto a horas de sesta, algumas garrafas de água depois, dois dedos de conversa e um copo trazido à socapa, entre pinceladas de tinta a escorrer da varanda retocada, anúncios de discos a preços de saldo, notícias a metro e duas pedras de gelo. E em tanta situação, uma canção de décadas atrás, repetida em teimosia e saboreada como cerejas. E entre canções e flashes de manhãs amorosas, lembro-me e recolho alguma frescura de minutos dispersos no tempo, muitos para se colarem e de bocadinhos irregulares de papel, refazer uma página que fosse. E lembro-me, das bolachas belgas depois de amolecidas, de uma tarte dominical quando ainda não bebia café, de um sol rumo ao poente quando as tardes demoravam. Lembro-me, quando não havia segunda-feira sem antes o domingo ser domingo. E lembro-me de a dois passos, se responderem perguntas de Reis, de mais dois passos, se aninharem duas gerações e de tão femininas me deixarem inseguro e reconfortado. E de lembrança em lembrança, um motivo de sofá preto, fumo aromático e uma bebida de âmbar, tudo coisas tremendas que os outros comungavam e lhes conferia a paz acomodada de uma tarde sem poente à vista. É destas confrontações que se constrói cada minuto lembrado. Lembro-me, claro.
maio 25, 2011
Olhares
Inocente
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.
maio 21, 2011
Vela
Turvar-te o olhar
como se o coração
perde-se o lugar
e a tranquiliadade
que ainda consegues,
ficasse arrepiada para sempre.
como se o coração
perde-se o lugar
e a tranquiliadade
que ainda consegues,
ficasse arrepiada para sempre.
Nos olhos, o rio
Perdido em nuvens ou algodões de mesmo carisma, exponho-me ao longo de canções e dores epidérmicas que não se renovam só porque sim. São ruas, motivos de conversa, chávenas de café fatais, como se a seguir a alguma coisa viesse algo. As prateleiras deixam-se ao mofo de garrafas esquecidas pelos donos que morreram ou já não saem de casa. Na praça cada vez menos passos. Na viela, a que sobe e desce e naquela esquina tinha aquilo, já não nascem acontecimentos. As coisas pararam. Mantêm-se quietas. Talvez por não se encontrarem onde se procuram. Nesse guarda-fatos, esse que tem alturas de castelo, ainda se guardam caixas verde escuras com veludo dentro. Estão vazias. Nunca o estarão. E os ossos, por muito que se transladem, voltam e dizem coisas de assombrar. Dizem mesmo se já as ouvimos mil vezes. No andar de cima havia um alfaiate, e as luzes ficavam acesas até tarde. De manhã, acendiam-se cedo. Na igreja ouvia-se o relógio aos quartos de hora. E se o nevoeiro chegasse, avisava-se. Descia-se a ruazinha estreita e a cada passo, o cheiro a mar. Morria-se, talvez se nascesse, ouviam-se gargalhadas e coisas sérias, comiam-se frituras de peixe. A seguir aos domingos encontrava-se uma segunda-feira de outra cor. Aconteciam e acontecia eu. E no Natal, havia frio e coisas onde pousava os olhos. Ainda os sinto.
maio 14, 2011
Nunca precisei disto
Já agora, para onde foram todos? O palco ficou vazio e deixaram-me com alguns doces nas mãos. Para onde foram todos? Será que sentem a minha falta? Sentem a falta do palco? Eu estou aqui, no palco vazio, as câmaras ainda funcionam e as luzinhas vermelhas continuam vermelhas. Sinto a falta de mim. Aqui no palco, sozinho, longe de casa, mesmo se for ao virar da esquina. No caminho comprarei cervejas e bolachas de água e sal. Beberei a primeira sentado nos degraus do alpendre. E continuo a saber cantar a canção, aquela que serviu para me expulsarem do paraíso. Continua na minha cabeça, raivosa e terna como um gato. Sentes a minha falta? Não?
Ritmos loucos
Já criei fogos fátuos pelo prazer de encontrar raposas e meninas de caracóis de oiro no mesmíssimo caminho. Sento-me todos os dias na encruzilhado dos quatro caminhos. Um nunca o chamaria caminho, apenas o modo de chegar onde quero. Outro, o da direita, como se só houvesse uma direita, é preferível numa determinada direcção, como se uma evasão obrigasse a sentido único. O terceiro, só me serve, e ao mesmo tempo, não me serve de nada. É a terceira parte de uma lógica de alguns dias do ano, oficial emenda de uma oficiosa ociosidade ou talvez olhos brilhantes em estado puro de ser pessoa. O que sobe, sobe ao céu. É o quarto de brincar da vontade e dos discos guardados para um dia especial, como a espécie de ser hoje possa ser adiada e vertida em gotas num copo de um qualquer elixir que só serve de branqueador. Tantos que, tanta forma oblíqua de chegar ao ponto, esse centro do mundo, a conversa fulcral de um dia de calor onde fútil é o dogma da vida. Deito-me na relva, olho os ramos hesitantes na brisa e descubro que a única hesitação do mundo se guarda no meu coração. E talvez nesta mania de não me sujar de relva.
Ética
Sim. Proponho as premissas de tardes de calor e sombras indicadas por doentes psiquiátricos, aqueles sempre desejosos de desejar, aqueles que oferecem sonhos em troca de um cigarro, como se as ofertas fossem sempre de um só sentido. Conheço-os, bebe com eles, ensinam-me o meu lugar à mesa, acima de todas as coisas, sabem morder e reconhecem o caminho e a estrada quase sempre pela mesma ordem, são humanos, pelo menos mais que os humanos. Sim. vejo-os rondando a minha porta, vestem cores sem paleta perceptível, desconhecem os caminhos dos museus e dos bares de música punk, viajam em primeira classe convencidos dessa superioridade temporária e copos bem lavados. Sim. Não os reconheço das enfermarias nem sequer dos bancos de jardim. Dão-me vontade do próximo gole e da embriaguez na próxima estação ou na estação seguinte. Sim. Frente a frente, de um lado o doente psiquiátrico, são e objectivo, do outro, a mole humana de uma humanidade barrada a código. Sim. Escolho um dos lados. Escolho sempre.
abril 24, 2011
Forever more
Começar assim, nesse tom propositado de demência, onde me desmaias e me reanimas com o corte profundo da tua voz. Prefiro-te num corredor de betão, um túnel abandonado de algum sistema de comboios, desactivado por alguma guerra, onde me premeias com alguns dos teus passos de dança. Puxas-me para o círculo estranho da tua vontade, cada milímetro feito de carícia e arranhões, as faces que se esfregam num remoinho de vontade absurda, o apetite rasgado de um ramo de flores, pétalas mastigadas e cuspidas sobre os ombros nus, o resto de algum vinho escorregando sobre o peito como se cavalos corressem em círculos. Liberto-me de doçuras cobertas de canela e o meu hálito sabe a prolongados efeitos de embriaguez. Digo-o gentilmente, como quem declama uma quadra escrita por uma criança. Sinto-me divino, e digo-o sem honestidades. Essas caricaturas de franqueza não têm lugar sentado neste salão de baile. Só confio em mãos empunhando copos tingidos de escuro, esses rubis que aprenderam a entregar-me o mundo em sorvos banhados em sorrisos. Aprendi com o teu grito final. Aprendi a ser paciente. Espero esse momento para te puxar os cabelos e olhar-te os olhos. E beber-te até ao fim.
abril 19, 2011
Puro
Levanto esse véu, curiosa forma de velar a inocência, protegendo a tua nudez com o meu segredo. Escondo-me nas sombras das aves de rapina que te anseiam cada bocado. Nelas desmaio o vagar de te percorrer. Olho-te a cada centímetro, deixando esse rasto de pulsação na pele alva. Do teu rubor crio dogmas, na esperança divina de me alimentar com a tua alma. Na transparência deste momento toco o sublime ao desejar-te. Um desejo rouco, fruto do animalesco respirar com que te venero. Morro ao suspeitar a plenitude que possuis. Ressuscito cada respirar no teu peito.
A batuta está roída na ponta
Soam tesouras periclitantes num embuste de cinéfila desilusão. Ao piano, veludos precipitam todo o vagar de soirés, fraques roídos pela presença de arquiduques, lama transbordando os copos boémios de fragilidade óbvia. Eu, sentado no banco dos reprováveis, observo tudo com gula. Nos dentes sinto o freio de dias sem refeição, como se de mendigo apenas a fome. E de fome, construo os diagramas da génese. De sede, conheço o meu sangue. Espesso, frutado. Olho, reviro os globos feitos lustres, cedo à patética cor do meu ventre. Obeso me confesso, porque carrego a vida de outrem, feitos reféns os restantes em torno da minha majestade, título efémero, coisa pouca, fiel depositário de uma dinastia fértil e pegajosa, não fosse o meu único antepassado, rastejante e divino. A noite parece ter o fim que merece. Levanto-me numa pantomina sossegada. Componho-me, perfilo-me, marco o passo pelos burgueses, donos do teatro, e saio da li para fora, respirando fundo o meu fedor. A vós a vénia. A mim, a carótida.
Contraponto
Porventura saberás as ruas e os degraus? Quem se senta e em que cansaço resvalam o dia? Os sussurros que uma sede inusitada pode provocar, as certezas presas ao chão, tapadas por vigas enlameadas, passos de sapatos com a pressa de quem sabe a sua morada, dos tolos que acreditam, das eternas curiosidades em becos escuros, sujidades, cortesãs gastas em posição de lótus. Sabias que as esferas e as arestas foram inventadas por imperadores subjugados ao bocejo? Que as noivas e os poetas sofrem do mesmo mal? As sereias continuam o seu sono, embaladas pelos trejeitos subtis de caixas de música com voz humana dentro. Porventura saberás os gemidos nas cadeias? O choro contido de uma cadência? O dia e a vontade de outro dia, senadores disputando o lugar ao altar, velhos de olhar apagado imitando cegos. Sabias a certeza do teu criador? Esse artesão de mãos longas esculpindo cada ruga e desenhando os sorrisos à beira do precipício, cada hora morta puxando-o para a lápide. Sabias o pianista, lavrando e colhendo as tempestades do seu ardor? Suspiras porque entendes o que te digo, e em cada suspiro, nesse mesmo suspiro, as histórias, as curas, são gavetas de mundos redondos. Os mesmos que à noite, da janela do teu quarto, riem e troçam por depois da noite haver sempre manhã.
Fuga
Conheço este motivo
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.
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