janeiro 20, 2012

Misericórdia é nome de punhal



Por tanto e por isso, por antecipar os sorrisos e os orgasmos que se encontram nessa rua, pelas copas das árvores, nocturnas, desfiando o fumo e as garrafas vazias, por toda e qualquer decisão isenta de consequências, por saber e desconhecer amanhas e madrugadas, por conhecer o caminho para o pão matinal e os lugares que nunca fecham, por falar as palavras chinesas e russas que bastam, pelas folhas dos livros que se gastam, pelas folhas escritas que se desfazem ao primeiro travo, pela sorte, o azar e o sol por detrás da ilha, por me saber e saber o que lá está, pelo tempo que pede para não ser guardado no bolso.

janeiro 11, 2012

Cruel

Entre algo de Índia e o betão algures em L.A., estou ciente de ruas pejadas de prédios centenários, tijolo bem à vista, árvores imaginadas à distância de 12 metros cada, mais bares do que se possam beber e uma fauna mais intensa que mil Áfricas. É cruel este mistério do vazio entre dois pontos, o tal segmento de recta, ou um mutante pois descrevem-se demasiadas curvas para unir dois pontos. E mesmo chegados a essa facilidade quase extrema de encomendar o futuro no próprio dia, existe um pegajoso limite entre o impulso e a consequência, travão orgânico de tonelagem insuportável. Num mundo decalcado do pior entre os maus, a sede de sentir o bolso cheio determina o passo seguinte ou o pé descalço mesmo calçado. Aponto através da mira, viso variados alvos numa furiosa carnificina enternecida por um dia de sol ou um café que prolonga o palato. E embalado, desprovido de crueldade suficiente, espero a próxima carruagem, mesmo se tiver no bolso a chave.

janeiro 09, 2012

Acariciar uma escrita

Há bastante que não escrevo. Porque há um que, quebradiço, impedindo a pena ou a tecla, sabe-se lá por quanto, se por demasiado Tejo, se por demasiado sorriso contido, ou então por um estado de sei lá o quê, que mina e disturba, tornando elástica a vontade, até por montras e passeios. Faz-me falta o acre e o doce, algum choque térmico, as mãos geladas e o passo até um café próximo, procurando olhares ou outra coisa qualquer que adoce o a espuma de leite. Faz-me falta aventura, sem capa nem espada, talvez horas tardias e candeeiros de rua acesos, ruas acabadinhas de amanhecer, pão quente que se termina na cama rumo ao meio dia. Longas são as premissas, halls de hotéis, praças e pontes, edifícios a arder de tanta excitação. Prolongar uma semana em um mês e esse mês em um ano. E depois... E depois, rever a matéria dada e expulsar demónios e anjos, como um exorcismo de hora marcada, como se o tédio e a próxima página vivessem em comunhão de fatalidade numa capoeira ferrugenta. Pergunto-me se bastaria um volume, algo hermético onde guardasse a minha essência. As camisas, os livros de cabeceira, um terabyte de mp3, o tabaco, os sapatos, aqueles filmes, o portátil, o isqueiro e os óculos de sol. E os óculos de ver ao perto. Será que a vida tem excesso de peso de bagagem?

agosto 18, 2011

Um mais um são muitos

Televisões, banalidades por repetitivas nas rádios, quilos de jornais e quilómetros de rede enrolados em discursos e comentários, opiniões longe dos temas, sofás e cadeiras, mesas de café e capuccinos, sol e sombra enquanto a fome e guerra acontecem reais em ruas despedaçadas e ombros rotos, fotografias premiadas em jantares de gala enquanto os fotografados, sentados no chão, às escuras, lambem os dedos de nada. Tudo se passa longe, cartazes empunhados e telemóveis nos bolsos, berros em uníssono e uns copos depois. As vítimas, as que importam, bebem água quando cabem algumas gotas a cada um. Sou um hipócrita. Um comodista instalado, cruzando palavras antes da hora de jantar. Sou um hipócrita. Tu também. Somos tantos hipócritas.

agosto 16, 2011

Vamos

Penso nessa "gente linda", nesse buraco debaixo de chuva onde a selva se permite um fôlego e os passos ainda se enlameiam. Nunca soube o que era viver difícil antes de aqui chegar. Nunca soube, nunca senti na pele esta humidade que não desaparece. E ainda assim, os sorrisos são dos mais bonitos que conheci. Quero sentar-me à mesa e comungar, beber do que bebem, tocar os ombros nos ombros ao meu lado e dizer: aqui estou. Porque aqui estou, sem miragens nem ideias concebidas sem pecado. Deixei-as todas no avião. Trouxe uma mochila encharcada e dentro, sem meias palavras, os restos de mim mesmo. E imagino deixar em algum lugar o resto, o outro resto. Ficará esta "gente linda" e o que de mim puder ser bonito.

junho 21, 2011

Arrependimento

Temo que o devagar seja tarde demais. Que este cansaço quando me levanto, signifique tarde demais. O dia, longo, primeiro de alguma coisa, seja demasiado tarde. Nesta sonolência, demorada, partida aos bocados, não pedaços, existem as páginas de um livro onde se morre só, de sorriso nuns lábios, escondidos pelo barulho de algum mar e algum penhasco. E nunca um suspiro foi tão, nunca os dedos afagando os olhos magoaram tanto, os ombros pesados e esse galope felino de tantos, deixando-me pregado ao chão, sem ter sido valioso nem merecer nada. Nesse esquecimento, estão arrumadas as desilusões. E ao chamá-las, curvo-me ao seu bom nome.

junho 17, 2011

Ar re-respirado

Deste lado da rua, se este lado da rua tiver um lado digno de ser contado, como se cada lado fosse muito mais que um todo, mesmo sendo todo, mesmo estando dos dois lados, de todos os lados, olhando para demasiados ângulos, tão demasiados que lhe escapa o essencial, como se a essência fosse exclusivo de algum lado, e o outro, orfão, ali restasse, vazio, sentindo-se numa pequenez alcalina, sentado nesse chão que se suja todo o dia, se o dia amanhecer escurecido, cheio de nódoas, gorduroso como só um dia sabe ser, como só um dia carregasse a gordura que este mundo, mais que o outro, acumula e esbanja, passeio a passeio, bairro a bairro, comendo as vidas desmaiadas de quem chega tarde a casa e nunca, nunca consegue chamar casa à sua, ao seu, ao lugar, ao ninho de gravetos partidos que se encolhe para receber um cansaço esfomeado que o cansaço não consegue curar, aqui, deste lado da rua, onde pensei, onde sempre me pareceu não existir a infâmia, seja em que forma for, seja com o rosto ou as mãos sujas, dignas, deste lado da rua, chão de cada conto, de cada lado, mesmo contado e olhado, mesmo sem lado, aqui, neste degrau, com os pés no chão.

Klazz Brothers & Cuba Percussion "Air"

Ar

Sustenido, este sentimento que me faz tocar o abissal, ou então uma emoção pausada, sorvida a gulosos temperamentos, todo o resguardo onde me encosto e descanso os braços e as vontades, os quereres e toda a invenção de beijo ainda por decidir. São as tardes das cerejas, o resto dos dias de vinho e rosas, precipitados pela angústia de saber finita a claridade.

junho 15, 2011

Type O Negative "Christian Woman"

Sei que um agora nunca o será sem ti

Sitiado por entre portas pesadíssimas, metal maciço aquecido por reposteiros da mesma cor do vinho que pretendo fluido sobre a tua pele pálida, sofro do enredo de te situar na penumbra e escondida da claridade do dia. Prefiro vender as imaginações em frascos lacados, guardar em gavetas forradas a veludo verde escuro as carícias de uma violência desejada, frutos de polpas que a língua sabe dissolver, movimentos desordenados pintados por gotas escorrendo até ao chão. E nas vontades, nesses beijos contidos e pincelados, existem afagos rugidos e dedos gulosos de marcar os veios de um capricho. São estas as sinopses de realizações mortais mantidas em segredo dentro de caixas de cinzento metal, à espera de serem abertas e projectadas em algum santuário.

junho 11, 2011

Cruzar a perna como refúgio

Lembro-me e insisto nesta condição. Para me situar, uma sede intensa, motivo irreflectido em que dois chocos ao almoço e alguns desajustes de batatas fritas colhidas em travessas alheias, mais duas mastigadas de carne com demasiada gordura, um café aguado e dois copos de água, são peões de xeque mate ainda por definir. E calor. Muito. Prolongado. Para me situar, ainda mais, uma compra tardia de talho aberto a horas de sesta, algumas garrafas de água depois, dois dedos de conversa e um copo trazido à socapa, entre pinceladas de tinta a escorrer da varanda retocada, anúncios de discos a preços de saldo, notícias a metro e duas pedras de gelo. E em tanta situação, uma canção de décadas atrás, repetida em teimosia e saboreada como cerejas. E entre canções e flashes de manhãs amorosas, lembro-me e recolho alguma frescura de minutos dispersos no tempo, muitos para se colarem e de bocadinhos irregulares de papel, refazer uma página que fosse. E lembro-me, das bolachas belgas depois de amolecidas, de uma tarte dominical quando ainda não bebia café, de um sol rumo ao poente quando as tardes demoravam. Lembro-me, quando não havia segunda-feira sem antes o domingo ser domingo. E lembro-me de a dois passos, se responderem perguntas de Reis, de mais dois passos, se aninharem duas gerações e de tão femininas me deixarem inseguro e reconfortado. E de lembrança em lembrança, um motivo de sofá preto, fumo aromático e uma bebida de âmbar, tudo coisas tremendas que os outros comungavam e lhes conferia a paz acomodada de uma tarde sem poente à vista. É destas confrontações que se constrói cada minuto lembrado. Lembro-me, claro.

maio 25, 2011

Olhares

Inocente
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.

maio 21, 2011

Vela

Turvar-te o olhar
como se o coração
perde-se o lugar
e a tranquiliadade
que ainda consegues,
ficasse arrepiada para sempre.

Nos olhos, o rio

Perdido em nuvens ou algodões de mesmo carisma, exponho-me ao longo de canções e dores epidérmicas que não se renovam só porque sim. São ruas, motivos de conversa, chávenas de café fatais, como se a seguir a alguma coisa viesse algo. As prateleiras deixam-se ao mofo de garrafas esquecidas pelos donos que morreram ou já não saem de casa. Na praça cada vez menos passos. Na viela, a que sobe e desce e naquela esquina tinha aquilo, já não nascem acontecimentos. As coisas pararam. Mantêm-se quietas. Talvez por não se encontrarem onde se procuram. Nesse guarda-fatos, esse que tem alturas de castelo, ainda se guardam caixas verde escuras com veludo dentro. Estão vazias. Nunca o estarão. E os ossos, por muito que se transladem, voltam e dizem coisas de assombrar. Dizem mesmo se já as ouvimos mil vezes. No andar de cima havia um alfaiate, e as luzes ficavam acesas até tarde. De manhã, acendiam-se cedo. Na igreja ouvia-se o relógio aos quartos de hora. E se o nevoeiro chegasse, avisava-se. Descia-se a ruazinha estreita e a cada passo, o cheiro a mar. Morria-se, talvez se nascesse, ouviam-se gargalhadas e coisas sérias, comiam-se frituras de peixe. A seguir aos domingos encontrava-se uma segunda-feira de outra cor. Aconteciam e acontecia eu. E no Natal, havia frio e coisas onde pousava os olhos. Ainda os sinto.

maio 14, 2011

The 13th Floor Elevators " You're Gonna Miss Me"

Nunca precisei disto

Já agora, para onde foram todos? O palco ficou vazio e deixaram-me com alguns doces nas mãos. Para onde foram todos? Será que sentem a minha falta? Sentem a falta do palco? Eu estou aqui, no palco vazio, as câmaras ainda funcionam e as luzinhas vermelhas continuam vermelhas. Sinto a falta de mim. Aqui no palco, sozinho, longe de casa, mesmo se for ao virar da esquina. No caminho comprarei cervejas e bolachas de água e sal. Beberei a primeira sentado nos degraus do alpendre. E continuo a saber cantar a canção, aquela que serviu para me expulsarem do paraíso. Continua na minha cabeça, raivosa e terna como um gato. Sentes a minha falta? Não?

Ritmos loucos

Já criei fogos fátuos pelo prazer de encontrar raposas e meninas de caracóis de oiro no mesmíssimo caminho. Sento-me todos os dias na encruzilhado dos quatro caminhos. Um nunca o chamaria caminho, apenas o modo de chegar onde quero. Outro, o da direita, como se só houvesse uma direita, é preferível numa determinada direcção, como se uma evasão obrigasse a sentido único. O terceiro, só me serve, e ao mesmo tempo, não me serve de nada. É a terceira parte de uma lógica de alguns dias do ano, oficial emenda de uma oficiosa ociosidade ou talvez olhos brilhantes em estado puro de ser pessoa. O que sobe, sobe ao céu. É o quarto de brincar da vontade e dos discos guardados para um dia especial, como a espécie de ser hoje possa ser adiada e vertida em gotas num copo de um qualquer elixir que só serve de branqueador. Tantos que, tanta forma oblíqua de chegar ao ponto, esse centro do mundo, a conversa fulcral de um dia de calor onde fútil é o dogma da vida. Deito-me na relva, olho os ramos hesitantes na brisa e descubro que a única hesitação do mundo se guarda no meu coração. E talvez nesta mania de não me sujar de relva.

Ética

Sim. Proponho as premissas de tardes de calor e sombras indicadas por doentes psiquiátricos, aqueles sempre desejosos de desejar, aqueles que oferecem sonhos em troca de um cigarro, como se as ofertas fossem sempre de um só sentido. Conheço-os, bebe com eles, ensinam-me o meu lugar à mesa, acima de todas as coisas, sabem morder e reconhecem o caminho e a estrada quase sempre pela mesma ordem, são humanos, pelo menos mais que os humanos. Sim. vejo-os rondando a minha porta, vestem cores sem paleta perceptível, desconhecem os caminhos dos museus e dos bares de música punk, viajam em primeira classe convencidos dessa superioridade temporária e copos bem lavados. Sim. Não os reconheço das enfermarias nem sequer dos bancos de jardim. Dão-me vontade do próximo gole e da embriaguez na próxima estação ou na estação seguinte. Sim. Frente a frente, de um lado o doente psiquiátrico, são e objectivo, do outro, a mole humana de uma humanidade barrada a código. Sim. Escolho um dos lados. Escolho sempre.

abril 24, 2011

Forever more

Começar assim, nesse tom propositado de demência, onde me desmaias e me reanimas com o corte profundo da tua voz. Prefiro-te num corredor de betão, um túnel abandonado de algum sistema de comboios, desactivado por alguma guerra, onde me premeias com alguns dos teus passos de dança. Puxas-me para o círculo estranho da tua vontade, cada milímetro feito de carícia e arranhões, as faces que se esfregam num remoinho de vontade absurda, o apetite rasgado de um ramo de flores, pétalas mastigadas e cuspidas sobre os ombros nus, o resto de algum vinho escorregando sobre o peito como se cavalos corressem em círculos. Liberto-me de doçuras cobertas de canela e o meu hálito sabe a prolongados efeitos de embriaguez. Digo-o gentilmente, como quem declama uma quadra escrita por uma criança. Sinto-me divino, e digo-o sem honestidades. Essas caricaturas de franqueza não têm lugar sentado neste salão de baile. Só confio em mãos empunhando copos tingidos de escuro, esses rubis que aprenderam a entregar-me o mundo em sorvos banhados em sorrisos. Aprendi com o teu grito final. Aprendi a ser paciente. Espero esse momento para te puxar os cabelos e olhar-te os olhos. E beber-te até ao fim.