abril 23, 2012

A meio do bairro

Devagar, debaixo das janelas e dos olhares de meio dia, encerra-se a manhã e começa o dia, lento como só ele deve ser mastigado, com árvores de quando em quando, justificando o que se esconde ou não se quer ver, o furtivo de um desejo quando é mais que desejo por ser violento e repentino. Devagar pelo meio do passeio, sem querer ser mais um nem recusar esse papel, cigarro crepitando como lareira, fumo entrelaçado no arabesco que contém, sede abafada pelo passo caminhante, sede guardada num bolso já carregado onde esperam os prazeres, a vez de quem se mostrar afoito e entregue a si mesmo.

março 27, 2012

Um conto, um cento

Os momentos que antecedem grandes decisões, proporcionam fenómenos químicos e todas as teorias que os estudiosos do cérebro sabem enunciar. São páginas e páginas escritas de alto abaixo, palestras e conferências doutas, definições matemáticas cujo causa efeito não é simples de compreender. E tudo se passa dentro da pessoa, nas suas entranhas revoltas, revoltosas por meia dúzia de unidades de pagamento, como se a vida fosse uma caixa registadora difícil de saciar. Como se pode quantificar a existência e por quanto? Tudo vale? O valor das coisas é uma das coisas mais estranhas que o índice encerra, e mesmo assim, insistimos na valoração de tudo e mais alguma coisa, como se cada cereja de um cento fosse mais que outra qualquer. Chamam-lhes borboletas, coisas esvoaçantes cativas no duodeno. Chamo-lhe fatalidade... Ou, estupidez.

março 17, 2012

Por causa de um labirinto


Tarde, beije, azul e todo o cinzento que caiba sem manchar, as multiplicações feitas ruas e a questão onde consta um fim, cabelos soltos, botas ou ténis vermelhos de pano, os ícones ao virar a esquina, lentos e expectantes, chávena de café na mão, algum doce ou a gulodice de esperar mais logo, quando a noite trouxer o imaginário e com ela, anjos e demónios unos, preferidos a todas as visões, ritmados pela influência que transportam na pele até montanhas ou apenas edifícios altíssimos, a escalada urbana que um beijo sabe começar e deixar qualquer humano perto do divino, como se cada deus habitasse a palma da mão e a ponta dos dedos. Depois, no cimo dos telhados, procurem-se as pernas que baloiçam e segredam o lugar de cada amante.

março 09, 2012

Do último degrau vejo o teu primeiro dia


Morno. Muito morno. O confesso vagar, perdido em ruas alinhadas onde me desalinho, onde me deito, me banho, suspendo a condição de pessoa e torno-me gente, árvore, escondo uma guloseima no bolso, sorrio antes de verter alguma gargalhada que me escorre a cara e cintila os olhos, ganho vontades de menino apesar do tom grisalho que gosto de olhar. Morno ao pisar cada centímetro, ao pormenor geométrico de algum recanto, o recorte do sol nos degraus, deuses e deusas que se escondem por detrás das janelas, tentando na penumbra actos divinos que só eles querem. Sou suave e rouco ao mesmo tempo, essa medida antiga dizendo os números e gastando os soalhos, mesmo se os lençóis saibam apagar as rugas, os minutos e algum ontem tresmalhado.

Não sei bem como é que fiz isto

O encanto do inesperado, é a sensação de tudo ser possível, mesmo se a razão o deseje impedir ou a lógica decida arrasar o sonho. E tudo acaba por ser tão frágil, ou melhor, inconsequente, quando se substitui um cachecol confortável por um galhardete de pescoço, um sofá por uma bancada, e a análise por uma imaginação fértil, onde existem unicórnios e felinos, ondulando em uníssono por um instante enfeitado a lantejoula, mesmo se o ouro é apenas dourado.

janeiro 21, 2012

Por décimas de segundo



Confesso-te os dias mais compridos, aqueles que terminam sem terminar, onde, em praças com o rio adiante se transformam os sentires e as abóbadas clericais, as que se mantêm vivas por duvidarem do seu poiso e da hierarquia onde foram geradas. Lembras-te a primeira vez? A que te contou o poder e a emoção? Foi o caminho, a casa redonda, a chaminé colhendo o céu e todas essas ervas, benignas e enternecendo antepassados, curvadas ao vento da tarde e da manhã, cordialidade de uma porta aberta, esperando que o mar rebente dentro de casa.

Vidros embaciados



Sentindo as meias e os sapatos, sinto também a linha de horizonte da cidade, esse novelo que me arrasta e me retira algo morno para me atirar ao frio, como se o gelo me entregasse forças e palavras. O segredo é estar sempre pronto, de isqueiro e óculos à mão, um par de notas de algum banco e as canções. Provam-se cafés e cigarros, não necessariamente por esta ordem, escolhem-se beijos da ementa, beijos que podem ser braços e dedos revolvendo o cabelo e atingindo o pescoço, decidem-se os trajectos e as luzes de algum aeroporto nas imediações, porque palcos são sempre poucos. Lembram-se rotas da seda, todas as samarcandas que caibam num quarto de hotel, de preferência num terceiro andar. Se projectar uma esquina da janela, juntamente com os mortos-vivos de ocasião, encostando-se aos carros estacionados, imaginados pelos candeeiros de rua como se vissem coisas de um passado distante e esfomeado. Tantas curiosas contradições, como um guarda-livros num cubículo às tantas da manhã, emoldurado pelo fumo, um certo aconchego impossível de ultrapassar.

janeiro 20, 2012

Misericórdia é nome de punhal



Por tanto e por isso, por antecipar os sorrisos e os orgasmos que se encontram nessa rua, pelas copas das árvores, nocturnas, desfiando o fumo e as garrafas vazias, por toda e qualquer decisão isenta de consequências, por saber e desconhecer amanhas e madrugadas, por conhecer o caminho para o pão matinal e os lugares que nunca fecham, por falar as palavras chinesas e russas que bastam, pelas folhas dos livros que se gastam, pelas folhas escritas que se desfazem ao primeiro travo, pela sorte, o azar e o sol por detrás da ilha, por me saber e saber o que lá está, pelo tempo que pede para não ser guardado no bolso.

janeiro 11, 2012

Cruel

Entre algo de Índia e o betão algures em L.A., estou ciente de ruas pejadas de prédios centenários, tijolo bem à vista, árvores imaginadas à distância de 12 metros cada, mais bares do que se possam beber e uma fauna mais intensa que mil Áfricas. É cruel este mistério do vazio entre dois pontos, o tal segmento de recta, ou um mutante pois descrevem-se demasiadas curvas para unir dois pontos. E mesmo chegados a essa facilidade quase extrema de encomendar o futuro no próprio dia, existe um pegajoso limite entre o impulso e a consequência, travão orgânico de tonelagem insuportável. Num mundo decalcado do pior entre os maus, a sede de sentir o bolso cheio determina o passo seguinte ou o pé descalço mesmo calçado. Aponto através da mira, viso variados alvos numa furiosa carnificina enternecida por um dia de sol ou um café que prolonga o palato. E embalado, desprovido de crueldade suficiente, espero a próxima carruagem, mesmo se tiver no bolso a chave.

janeiro 09, 2012

Acariciar uma escrita

Há bastante que não escrevo. Porque há um que, quebradiço, impedindo a pena ou a tecla, sabe-se lá por quanto, se por demasiado Tejo, se por demasiado sorriso contido, ou então por um estado de sei lá o quê, que mina e disturba, tornando elástica a vontade, até por montras e passeios. Faz-me falta o acre e o doce, algum choque térmico, as mãos geladas e o passo até um café próximo, procurando olhares ou outra coisa qualquer que adoce o a espuma de leite. Faz-me falta aventura, sem capa nem espada, talvez horas tardias e candeeiros de rua acesos, ruas acabadinhas de amanhecer, pão quente que se termina na cama rumo ao meio dia. Longas são as premissas, halls de hotéis, praças e pontes, edifícios a arder de tanta excitação. Prolongar uma semana em um mês e esse mês em um ano. E depois... E depois, rever a matéria dada e expulsar demónios e anjos, como um exorcismo de hora marcada, como se o tédio e a próxima página vivessem em comunhão de fatalidade numa capoeira ferrugenta. Pergunto-me se bastaria um volume, algo hermético onde guardasse a minha essência. As camisas, os livros de cabeceira, um terabyte de mp3, o tabaco, os sapatos, aqueles filmes, o portátil, o isqueiro e os óculos de sol. E os óculos de ver ao perto. Será que a vida tem excesso de peso de bagagem?

agosto 18, 2011

Um mais um são muitos

Televisões, banalidades por repetitivas nas rádios, quilos de jornais e quilómetros de rede enrolados em discursos e comentários, opiniões longe dos temas, sofás e cadeiras, mesas de café e capuccinos, sol e sombra enquanto a fome e guerra acontecem reais em ruas despedaçadas e ombros rotos, fotografias premiadas em jantares de gala enquanto os fotografados, sentados no chão, às escuras, lambem os dedos de nada. Tudo se passa longe, cartazes empunhados e telemóveis nos bolsos, berros em uníssono e uns copos depois. As vítimas, as que importam, bebem água quando cabem algumas gotas a cada um. Sou um hipócrita. Um comodista instalado, cruzando palavras antes da hora de jantar. Sou um hipócrita. Tu também. Somos tantos hipócritas.

agosto 16, 2011

Vamos

Penso nessa "gente linda", nesse buraco debaixo de chuva onde a selva se permite um fôlego e os passos ainda se enlameiam. Nunca soube o que era viver difícil antes de aqui chegar. Nunca soube, nunca senti na pele esta humidade que não desaparece. E ainda assim, os sorrisos são dos mais bonitos que conheci. Quero sentar-me à mesa e comungar, beber do que bebem, tocar os ombros nos ombros ao meu lado e dizer: aqui estou. Porque aqui estou, sem miragens nem ideias concebidas sem pecado. Deixei-as todas no avião. Trouxe uma mochila encharcada e dentro, sem meias palavras, os restos de mim mesmo. E imagino deixar em algum lugar o resto, o outro resto. Ficará esta "gente linda" e o que de mim puder ser bonito.

junho 21, 2011

Arrependimento

Temo que o devagar seja tarde demais. Que este cansaço quando me levanto, signifique tarde demais. O dia, longo, primeiro de alguma coisa, seja demasiado tarde. Nesta sonolência, demorada, partida aos bocados, não pedaços, existem as páginas de um livro onde se morre só, de sorriso nuns lábios, escondidos pelo barulho de algum mar e algum penhasco. E nunca um suspiro foi tão, nunca os dedos afagando os olhos magoaram tanto, os ombros pesados e esse galope felino de tantos, deixando-me pregado ao chão, sem ter sido valioso nem merecer nada. Nesse esquecimento, estão arrumadas as desilusões. E ao chamá-las, curvo-me ao seu bom nome.

junho 17, 2011

Ar re-respirado

Deste lado da rua, se este lado da rua tiver um lado digno de ser contado, como se cada lado fosse muito mais que um todo, mesmo sendo todo, mesmo estando dos dois lados, de todos os lados, olhando para demasiados ângulos, tão demasiados que lhe escapa o essencial, como se a essência fosse exclusivo de algum lado, e o outro, orfão, ali restasse, vazio, sentindo-se numa pequenez alcalina, sentado nesse chão que se suja todo o dia, se o dia amanhecer escurecido, cheio de nódoas, gorduroso como só um dia sabe ser, como só um dia carregasse a gordura que este mundo, mais que o outro, acumula e esbanja, passeio a passeio, bairro a bairro, comendo as vidas desmaiadas de quem chega tarde a casa e nunca, nunca consegue chamar casa à sua, ao seu, ao lugar, ao ninho de gravetos partidos que se encolhe para receber um cansaço esfomeado que o cansaço não consegue curar, aqui, deste lado da rua, onde pensei, onde sempre me pareceu não existir a infâmia, seja em que forma for, seja com o rosto ou as mãos sujas, dignas, deste lado da rua, chão de cada conto, de cada lado, mesmo contado e olhado, mesmo sem lado, aqui, neste degrau, com os pés no chão.

Klazz Brothers & Cuba Percussion "Air"

Ar

Sustenido, este sentimento que me faz tocar o abissal, ou então uma emoção pausada, sorvida a gulosos temperamentos, todo o resguardo onde me encosto e descanso os braços e as vontades, os quereres e toda a invenção de beijo ainda por decidir. São as tardes das cerejas, o resto dos dias de vinho e rosas, precipitados pela angústia de saber finita a claridade.

junho 15, 2011

Type O Negative "Christian Woman"

Sei que um agora nunca o será sem ti

Sitiado por entre portas pesadíssimas, metal maciço aquecido por reposteiros da mesma cor do vinho que pretendo fluido sobre a tua pele pálida, sofro do enredo de te situar na penumbra e escondida da claridade do dia. Prefiro vender as imaginações em frascos lacados, guardar em gavetas forradas a veludo verde escuro as carícias de uma violência desejada, frutos de polpas que a língua sabe dissolver, movimentos desordenados pintados por gotas escorrendo até ao chão. E nas vontades, nesses beijos contidos e pincelados, existem afagos rugidos e dedos gulosos de marcar os veios de um capricho. São estas as sinopses de realizações mortais mantidas em segredo dentro de caixas de cinzento metal, à espera de serem abertas e projectadas em algum santuário.

junho 11, 2011

Cruzar a perna como refúgio

Lembro-me e insisto nesta condição. Para me situar, uma sede intensa, motivo irreflectido em que dois chocos ao almoço e alguns desajustes de batatas fritas colhidas em travessas alheias, mais duas mastigadas de carne com demasiada gordura, um café aguado e dois copos de água, são peões de xeque mate ainda por definir. E calor. Muito. Prolongado. Para me situar, ainda mais, uma compra tardia de talho aberto a horas de sesta, algumas garrafas de água depois, dois dedos de conversa e um copo trazido à socapa, entre pinceladas de tinta a escorrer da varanda retocada, anúncios de discos a preços de saldo, notícias a metro e duas pedras de gelo. E em tanta situação, uma canção de décadas atrás, repetida em teimosia e saboreada como cerejas. E entre canções e flashes de manhãs amorosas, lembro-me e recolho alguma frescura de minutos dispersos no tempo, muitos para se colarem e de bocadinhos irregulares de papel, refazer uma página que fosse. E lembro-me, das bolachas belgas depois de amolecidas, de uma tarte dominical quando ainda não bebia café, de um sol rumo ao poente quando as tardes demoravam. Lembro-me, quando não havia segunda-feira sem antes o domingo ser domingo. E lembro-me de a dois passos, se responderem perguntas de Reis, de mais dois passos, se aninharem duas gerações e de tão femininas me deixarem inseguro e reconfortado. E de lembrança em lembrança, um motivo de sofá preto, fumo aromático e uma bebida de âmbar, tudo coisas tremendas que os outros comungavam e lhes conferia a paz acomodada de uma tarde sem poente à vista. É destas confrontações que se constrói cada minuto lembrado. Lembro-me, claro.

maio 25, 2011

Olhares

Inocente
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.