novembro 13, 2012
Ruas de portas e números repetidos
Despido, à janela, situando-me tanto nesse quarto andar como no passeio ou no bar da esquina, rigorosamente na esquina, entendo a espera como o passo fulcral do prazer. As vozes, as que deixo entrar, cercam-me de dedos apontados, lençóis esperando calor, copos que se querem meio cheios, deveres e brincos de madre-pérola espalhados por entre os papeis, cinzeiros cheios. Na rua, no passeio por debaixo das árvores sussurrantes, os degraus esperam a pausa ou o vício, o assassino de medo em riste, a mesma espera, os embriagados de rumo incerto descobrindo curiosidades alheias como se o escuro se tratasse com xarope. Na esquina, rigorosamente na esquina, já não existe nada. Tiraram o bar, todo, levaram-no para às escondidas o despirem e o meterem na cama, um sono que não acabe, um sono que faça o esquecimento acordar. O vidro da minha janela tem desenhada a minha respiração. Traço-lhe uma decisão. Alguém, os passos incertos de algum amante, olharão para cima e reconhecerão a senha. A porta está aberta. Sempre esteve.
novembro 10, 2012
Carnegie é antes da próxima esquina
Enquanto espero olho a ponta das calças amarrotadas, aquele afunilar do joelho ao sapato, pretendido na fluidez de uma avenida de luzes ainda acesas, descendo de um pedestal até à praça vazia que ainda há pouco abarrotava de passeantes e gabarolas, esses de cabelo revolto à custa de toques de pulso, cigarros acesos porque sim, portas abertas chamando incautos. Toco com dois dedos no copo, ensaiando movimento que entrechoque o que resta das duas pedras de gelo, pé apoiado nesse tamborim cor de vinho, goles gulosos que daria se fossem menos horas, se as soubesse subtrair e agitar a aritmética do tempo perdido, aquele sorriso feito algoritmo, como se o barman tivesse algo a esconder e aquela mulher, que apenas lhe resta fatalidade, conhecesse os segredos de todos, os que se demoram e os demais, rápidos no prazer e como dobram a esquina. Demorar é o verbo, a coluna jónica do desejo, a dois, o par elevado à condição de único, divindades a meias santificando o prazer à vez. Por cima da última fila de garrafas jaz aquela gravura que insisto homenagear Turner ou algum anónimo, efeito de um ópio envelhecido sem odor nem maleabilidade, mas que se fuma por obrigação. Na esteira, uma gasta partitura. Serve-me de consolo como alguma almofada, se a houvesse. Vejo-a de linhas alinhadas, pontinhos negros ensaiando escadas, a derradeira versão de um testamento roubado em casa de ourives. Sigo-a pelas ruas que circundam o bairro dos quartos alugados, revejo-me no matraqueio regular dos seus saltos altos, serpenteio pela costura da sua meia, colheita preferencial do meu amor que será fumo daqui a duas horas. Serei fiel. Mas apenas enquanto as duas horas demorarem. A demora. A pressa de esperar num banco corrido de madeira numa estação de comboio, malas roçando o chão e esses apressados de farda e boné controlando bilhetes e intenções. Subo a carruagem número sete, amarrotando a ponta da calça, aquela junto ao sapato. Piso a alcatifa adoentada e sigo a geometria básica de um corredor sem extensão. Paro à porta do compartimento vazio, cubículo que tresanda a tabaco e suor. Sento-me revolto em cansaço, moído como farinha, e avisado em demasia dos perigos da fronteira e dos viajantes de última hora.
novembro 09, 2012
Debaixo da mente e à beira da cela
Curvilíneos solares em abóbodas onde se movem as linhas do dedo divino, esse divino chamado ontem, transformação de um medo ou de circulares fechos de contas antigas, uma provocação gerida pelos vulcões, outrora apagados, sediados em alguma cafeteria japonesa onde o tapete rola submisso, soturno, empalidecendo esgares e apetites, daqueles que não terminam, dos que desaguam em hóteis de néon incompleto e camas desfeitas, porque o tempo não demora e os gestos exigem atenção. Somos peças de algemas, encadeados pelo abismo das nossas escolhas, varandas nocturnas onde se espreitam os amantes do prédio próximo, relevos de pêndulo contínuo enquanto a manhã não regressa. Ao longe o comboio, as janelas trémulas de cada passagem, vítimas de horários de conveniência. Já não existe o romântico matraqueio do carril, algum mordomo de ocasião anunciando o sabor e o pecado. Já se esqueceram os furtivos beijos em algum apeadeiro de província, ignorados e motivo de conversa por semanas. Sentado ao balcão, hesitando entre o café frio e a cerveja choca, observo mais do que vejo. E por isso, sou voyeur de mim próprio.
Pretendido
Nesse então,
curiosa cadência
ao ser um
e depois mais outro,
sorvem-se boreais
desaguando na turva
e elementar
copa de árvore,
caduca de um Outono demorado
como se cada erva
e cada chávena de chá,
violentassem a espera
e o odor a sossego.
O perigo de todos os dias,
suaves ou pedregosos,
é a quantidade,
ínfima,
de sangue que impregna
o beijo
e a vontade.
novembro 08, 2012
Onde a falésia decide a planície
Saltos, cabriolas e gritos submersos em areia molhada e cores de manhã infantil, doce como suaves ziguezagues enjeitando o cuidado dos maiores, quando a água é mais do que elemento, mais e mais fundo, cobertos de rochas cobertos de conchas como coladas, vivendo vidas que nem se imagina ou descobre. Sãs sugestões, como pérolas achadas entre ervas esvoaçando à brisa da maré, casas de telhados quase vermelhos onde as janelas antevêem esconderijos e cordas de mar. Essas pausas corridas, perpétuos movimentos de sereias e cabelos revoltos, ali, onde a terra teima em acabar, e os faróis se amontoam enquanto os faroleiros tilintam chávenas de calor e perspicácia. São os dias de bagas e flores amarelas, os serenos pincéis que pretendem diamantes nas paletas de pastel.
A chave, por favor
Existe uma linha que percorre as ruas seguindo o halo dos candeeiros de cor laranja, um filamento de inícios de histórias, olhares fugidios ou apenas gulosos, esses sushis de batom roendo milímetros de lábios sequiosos. São percursos sinuosos, labirínticos mutantes ensinando lições proibidas. São a resposta exacta à fé e ao recato, preciosidades orientais boiando em caldas açucaradas, corredores de um hotel decadente, onde cada porta é um altar e o quarto escolhido, o prolongamento iluminista de uma blasfémia santificada.
novembro 05, 2012
Ao longe, vejo-te a silhueta
Nesse carro onde atravessaste o México e destruiste San Diego, pintei o mural das nossas vidas. E por tua causa, abandonei a arma e o maço de Lucky Strike. Ainda me obriguei a uma cela de mosteiro, mas ao fim de uma semana procurei-te na linha de fronteira. Não acreditei no que todos os criminosos de Tijuana repetiam: que eras demónio de asas brancas. Não acreditei porque não acredito em ninguém de revólver no cinto. Voltei a El Cerrito, casa por casa, árvore por árvore, sem me aperceber que afinal em Logan Heights também existem pessoas. Sentei-me no chão e esperei que o café fumegasse na chávena. No relógio, as horas tinham desaparecido.
Fecharam a catedral
Da janela do hotel, o canal é o prolongamento do meu tempo, da cadência que ficou na cama e depois de calçar os sapatos pretos de camurça, desaguou dali para fora, atravessando a ponte e rumando até à esquina de rebordos curvos, ali, onde os turcos servem jantares e algumas peças de porcelana procuram amantes de ocasião. Procuro a porta onde se acumulam traços fluorescentes e lixo feito obras de arte. Subo as escadas destruídas com o isqueiro chocalhando no bolso. No penúltimo andar ouço os gritos e as linhsa sinuosas de instrumentos de tortura. Sorrio. Subo e encontro o indiano sentado no escuro. Sabe ao que vou. Aceno-lhe com os olhos. Percorro o corredor e na última sala, porque sendo último a verdade pode estar à espreita, encontro o russo. Sentado na cadeira de braços, de sobretudo apertado até à gola, cigarro apagado nos dedos e dormitando infidelidades impossíveis. Tiro do bolso as notas, um pacote de largura insinuante. Pouso-as na mesa repleta de histórias. Entreabrindo os olhos, atira-me um resmungo morno. Sei o que quer dizer. Subo para cima da mesa, agacho-me de cócoras e tomo o meu lugar na minha história. Espero pacientemente pelo cliente que me comprará.
novembro 02, 2012
O cinzento não existe. Apenas tem sabor.
Suspenso na essência de ser ou avançar, completo as privações e todos os labirintos que couberem na palma da minha mão. A curiosidade é apenas um jogo, gatos e ratos na mesma gaveta, esperando o primeiro que adormeça. E entrando no quarto, conhecendo o veludo verde por detrás da porta, as gotas de mar na janela, o segundo à espera de ser o próximo, e eu, nariz entre o vidro e a tempestade, morno como só o frio sabe inventar, desejo a fome e a penitência, como se o monge dentro de mim despisse o hábito e renegasse a fé, pechisbeques de ocasião quando a razão foge para longe. O instante torna-se momento e depois vagar, voltas do relógio que só os antigos conhecem, ou então, as avós ao lume, esperando o sono regressar.
outubro 18, 2012
Ponteiros
Consigo contar até dez, ver uma cadeira e sentar-me, abrir um livro e separar os capítulos como quem conta cerejas. Vejo as camadas de gente nas ruas, sombreando as árvores seminuas de Outono, seguindo em frente, uma direcção só por cada um, sem sinuosos vagares ou olhos em movimentos esféricos de criança ou pássaro. Pressinto uma catástrofe, uma das que os livros sagrados decidem enviar com ira. Prevejo os gritos, talvez os do costume. Prevejo também ordens. Dedos em riste e olhares reprovadores. Reflicto e desisto. Na reflexão o tempo escapa-me. No hábito, o tempo mastiga-me. No amor, o tempo foge por entre os dedos. Quando sou eu, o tempo pertence-me.
outubro 15, 2012
Por isso, prefiro a rua ou a praça
Sinto ainda esse travo, a grandeza de um motivo, mesmo quando egoísta, como ponto de partida. Os passos desalinhados por amplitudes que as copas das árvores tornam diversas, como se cada pensamento tivesse uma pausa própria, ou as chávenas de café servissem como berlindes indicando o caminho. Gosto da opinião de um sorriso aberto, ciente do efeito de um céu azul ou outro artifício qualquer, a razão para uns ou apenas a cereja, relatando o pormenor como oração ou beliscando o íntimo com o prazer de uma almofada servindo de amante. A certeza, vista de fora como capricho, é o caminho que se conhece e se repete, procurando aquela emoção que o coração não sabe calibrar, as mesmas pinceladas de um pastel que só existe na recordação, mesmo se imaginada, a garfada que fica a meio pelo aroma. E se desconheço, com garantias, se as gratificantes ousadias da partilha aumentam o sintoma e turvam o diagnóstico, posso testemunhar o paradoxo da tristeza como vitamina da satisfação. Nessa premissa repouso as angústias e alguns dos remorsos, confiante no poder curativo de uma depressão balizada por horas marcadas. A agenda está preenchida, os contratos alinhavados e presos por uma assinatura de tinta alva, e a condição humana de sentir permanece num estado de pausa, serenamente sentada num banco de jardim esperando a manhã ou outra qualquer forma de vida que o tempo deseje encarnar.
maio 16, 2012
Mr. Skarsgård, presumo
Ao cimo da rua, um planalto de meia praceta provoca a calma no rebuliço. Sábado de manhã diferente de algum dia de feira, os passos reduzem o impulso, os olhos levantam-se ao céu e ao cimo dos prédios antigos, quando se vivia e se sacudia o bairro. Parei o carro, abri o vidro e deixei-me estar na certeza de alguma chegada ou janela aberta depois do sono e da paixão. Acendi a última cigarrilha, pois sabe-se que terminam sempre quando se necessitam. A necessidade é um conceito traidor. Na metade da rua à minha frente, vestia um fato claro, desses quase sem recorte ou solenidade, subia com passo regular, talvez algum cansaço. Os óculos de sol castanhos adivinhavam a diferença ou estrangeirismo. Num momento, apoiou-se à parede e olhou para o cimo. Sorriu num esgar, endireitou-se numa pose quase de princípe e percorreu os últimos metros com a dignidade dos de outrora. Rodeou o carro pela esquerda, abriu a porta e entrou sem palavra. Depois de um suspiro, obrigatório digo eu, virou-se para mim, estendeu-me a mão e apresentou-se. Apertei-lhe a mão, parti a cigarrilha, o que restava, em dois e dei-lhe a metade apagada. Os olhos brilharam-lhe enquanto aceitava a chama. Aspirou profundamente, tossiu as réstias do cansaço e com um semblante renovado disse.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.
maio 15, 2012
Esperamos, nós e Tim Robbins
Sobre um bloco de pedra, daqueles que se usam para acrescentar terra ao mar, espera-se. De pé, de cócoras, sentado como se um sapateiro esquecido encolhesse os ombros ao amontoar de sapatos à porta da sua oficina. Espera-se algo da cor do bloco de pedra, alvo como se o novo tivesse cor. Falam-se línguas quentes, rápidas para o compêndio ou a tradução, a rapidez própria da vida se sentida e amada. Laivos de francês, como se algumas palavras fossem o barro para segurar a argamassa. Somos 3, quase 4 se o fulano de panamá branco e calças pelo artelho. Somos 3 sem sabermos quem somos. Cada um inventa o nome que quiser. Hoje quatro letras, amanhã apenas três. E apelidos se servirem de nome próprio. Hoje esperamos, amanhã teremos nomes de dois nomes escritos e nunca verificados. Amanhã, se algum deus quiser.
maio 11, 2012
Bernardo Sassetti, vou procurar-te nas ruas e no cimo dos prédios
Bernardo, falaste comigo pelo teu piano e garanto que os teus dedos me percorreram a face e os braços. Esses dedos que nunca vi, mas que senti no pescoço e no espírito. Bernardo, foi pelos teus dedos que conheci Alice, que lhe soube as ladaínhas e os amuos, quando zangada se sentava no chão e esperava a tormenta passar. Bernardo, foste tu o responsável pelo meu olhar longo e sustenido. Bernardo, quando chegar a casa vou ouvir-te e voltar a sentir esses teus dedos. Verás, verás a alquimia de que ainda és capaz.
Johnny Depp ainda se lembra da porta de vidro verde
Johnny Depp empurra a porta, repara no verde do vidro fosco e agradece a penumbra. Senta-se no terceiro banco a partir da rua, e mesmo quando se pensam idiotices, repete o gesto já sentado, num jeito acostumado de toda a gente. Johnny Depp articula as boas tardes e pede dois shots de bourbon. Um olhar em volta garante-lhe abrir a caixa quadrada das cigarrilhas. Rola-as com a ponta do indicador e escolhe a terceira a contar de si próprio. Tira o isqueiro do bolso do colete e acende-se. Johnny Depp agradece os copos pousados no balcão e com o mesmo indicador que rolou as cigarrilhas, apanha a gota que teima em escorregar, chupando o dedo, satisfeito. Johnny Depp sorri ligeiramente, pega no primeiro shot, se entender que o primeiro é o que encontraria quando entrasse e se estivesse à sua espera, fosse a razão que fosse. Johnny Depp bebe o primeiro shot lentamente, como se o sabor fosse obrigado a confessar-se. Antes de pousar o copo sente a garganta aveludada e encandescente. Johnny Depp sente um arrepio que lhe propaga prazer em ondas analógicas. Puxa o fumo avaliando a subtileza dos músculos dos lábios e expele uma baforada aromática. Johnny Depp sente-se perfeito. Como se a perfeição fosse a melhor das sensações. Olha para o segundo shot e num momento de rara intuição, antevê o último. Imediatamente recorda-se de conceitos, a última ceia, a última refeição do condenado, o último adeus na estação de comboio, o último dos moicanos, a última tarde. Johnny Depp sorri como só ele sabe, levanta-se, pousa uma nota amarrotada, articula as boas tardes e sai. Não só reparou no verde do vidro fosco, como ainda sente o travo misturado de bourbon e cigarrilha. Após uma brevíssima pausa, Johnny Depp decide o lado direito da rua. O último shot, ou o segundo, ficou no balcão. Ainda lá está.
O meu dedo apontador está cansado
Ontem, quando olhava em frente, senti o azul do dia como esse nome que se chama num grito, obrigando a meia dúzia de sobreaviso a virar para trás e confirmar alguma coisa. Hoje, olhando em frente, também sinto. Sinto em cinzento, um cinza ora aberto ora fechado, dependendo do segundo ou minuto que eu decido, transportando-me para alguma coisa ou apenas aqui e sem trajecto para já. São as pequenas grandes coisas que merecem ser escritas, ignorando a substância e aproximando o fósforo aceso aos relatórios, linhas de teleponto e outros encadeamentos de palavras absolutamente inúteis e degradantes. E são as pequenas coisas as que se guardam no bolso com desejo, uma chave, uma bola de matraquilhos, uma caneta, um pedacinho de papel bem dobrado, pevides ou pedras de sal. Nada mais valioso e simples. Nada que provoque absolutismos ou revoluções de sentido único, nada que se catalogue, etiquete ou seja alvo. Nada que seja fatiado em patamares ou deitado em altares. Apenas, e este apenas com alguma graça ou zombaria, alma, espírito e a essencialidade de um pôr do sol ou de uma maré tardia.
abril 27, 2012
A queda e as consequências
Por debaixo da chuva, dos passeios molhados, dos passos com pressa apertados num agasalho, por debaixo do dia que existe no calendário e no ponteiro ritmado dos segundos, guardam-se círculos mornos e húmidos como o labirinto aberto depois da pedra mergulhar no lago. Nas margens, irrompem frutos, alguns proibidos, sumarentos na forma de sorver dos lábios carnudos, onde a demora é doutrina e quase religião. Nesses altares de eternidades, esquece-se o poder e a inveja, flora o egoísmo de todo o prazer num só momento, estrada recortada rumo à clareira.
abril 26, 2012
Esconde-se numa sala ampla, persianas quase fechadas permitindo apenas algum diurno e sussurrares de rua. Vagueia entre um sofá vermelho, pele gasta como numa cama de motel ou confessionário pascal, e a cadeira de metal, cirúrgica de pose e posição. Anda, arrasta o balanço de fera prisioneira ou cativa, ronronando a espera com dentes de sabre. Com os dedos, colhe flores em cada prega do seu corpo, vincos forçados pelas unhas lâminadas de rubro. Faísca os olhos contra a penumbra, sente falta de relâmpagos que lhe massacrem a íris e ataquem o cérebro, deixando-a dormente e submissa. Cada estalar de madeira apodrecida sobressaltam-lhe a medula. Resiste ao sono e revesa o desejo e a anuência. Quando chegar, o momento, quer saber-se inteira.
abril 24, 2012
8 ou 9 ou 10
Preferi atravessar a rua e espreitar o outro lado, como se fosse um gato, como se farejar fosse o meu mistério e perdão. Procurei quem se afastou nesse passo apressado roçando as paredes dos edifícios, um passo escurecido pelo início da noite, um passo vestido de preto, todo preto, numa viuvez apressada como quem procura e foge antes de encontrar. Vagueei como é meu natural, mãos nos bolsos, frio na cara, olhos brilhantes de tanto. E sem ver, olhei as luzes nocturnas, as que desenham recordações e esquadrias cartografadas na memória, olhei-as numa gulodice desenfreada, calada, curiosa na exacta medida que um beijo é salvação e uma noite, salva-vidas.
abril 23, 2012
A meio do bairro
Devagar, debaixo das janelas e dos olhares de meio dia, encerra-se a manhã e começa o dia, lento como só ele deve ser mastigado, com árvores de quando em quando, justificando o que se esconde ou não se quer ver, o furtivo de um desejo quando é mais que desejo por ser violento e repentino. Devagar pelo meio do passeio, sem querer ser mais um nem recusar esse papel, cigarro crepitando como lareira, fumo entrelaçado no arabesco que contém, sede abafada pelo passo caminhante, sede guardada num bolso já carregado onde esperam os prazeres, a vez de quem se mostrar afoito e entregue a si mesmo.
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