fevereiro 17, 2013
Estático
Quando sozinho é cor e janela aberta,
evito debruçar-me sobre o meu caso,
como se a prevenção fosse beijo,
como se todos os poetas se sentassem da mesma forma,
pés assentes num chão de madeira
pensamentos pesados,
estéreis,
repetidos a compasso
na musicalidade de todas as revoluções,
na quietude dos heróis
quando acenam das varandas em ruínas
perigando as verdadeiras vítimas
e seus gemidos.
Sentado,
absorvido em posses e frases escritas,
ouço passar na rua o que existe
e vale a pena.
Já tarde
depois da noite calar a vida,
recordo em vez de viver,
como se tudo o que aconteceu
fossem apenas contos.
Começos sem fins à vista
Sem os passos que me levem,
sem os encontros que me façam olhar as horas,
sem a sede que obrigue a procura,
sem o demónio que me faça fugir,
sem a história que me conte,
sem a vontade de outro lugar,
demoro-me na silhueta que o candeeiro me desenhe
fiel à paixão que ainda sinto
a que pertenço
quando o que
for mais uma desculpa
para permanecer
em vez de ser.
Walker com a Lafayette
Chuto a lata, fazendo rebolar o que permanece inanimado. Nesse beco, palco de misérias e reanimações, amontoa-se o lixo de gerações, como se os tesouros perdessem o valor apenas por não desaparecerem. Nas paredes altas, desenho sem pincel os amores e as tragédias que não chegaram a gregas. Imagino esperar todos os dias, à mesma hora, encostado ao mesmo monte ferrugento de entulho. Imagino uma espera romântica, sobrevivente, emoldurada a dourado envelhecido. Imagino dias sem conta, camisa sempre branca, colete de fantasia, sapatos de atacadores encerados. Relógio de corda oferecido com pompa por algum avô, recortes de revistas imortalizando chegadas e partidas. Acordado pelo silêncio fabricado, usual forma das cidades mostrarem o seu tédio, enterro as mãos nos bolsos, esfrego a ponta do sapato no pó e estico o passo para outro sítio qualquer, onde o silêncio não me toque, e a multidão me faça esquecer quem sou.
Calle Juarez
Agora são 10 horas em algum lugar. Prometem-se amores e desfazem-se malas. Da varanda vê-se a estação e o rebuliço de domingo. Em algum lugar existe esse domingo. Demorado e breve como só um domingo. Poeirento e brilhante, debaixo de um enorme guarda-sol, adiando o gole na cerveja só para que saiba a pérolas. Com a ilusão de ser invisível, paro junto aos rostos suados e olho-lhes os olhos, procurando-lhes a alma. Sôfrego, percorro toda a rua, agitando o soalheiro que deve manter-se sossegado. Envergonhado, deixo-me ficar como uma porta ou uma coluna. Não tenho o direito de ser egoísta. Não pertenço aqui. Ou devo dizer, ali. Eis a cruel realidade dos sentimentos, quer se escondam ou não.
fevereiro 06, 2013
Vidraças e madeiras
Por todas as marés, as matinais que trazem os tufos dobrados pelas brisas, existem janelas de esquadria branca de onde se fazem as romessas. Nos dias de temporal, são as janelas de onde se dizem as orações e os amores impossíveis. Quando as noites trazem luares, das janelas, tecem-se uivos de carícias algo ternas. De madrugada, cotovelos assentes nas janelas, revolvem-se pensamentos que só existem durante o sono alheio. Quando soalheiras as tardes, as janelas aquecem ao sol do aconchego. E nos Invernos húmidos e prolongados, são as janelas os olhos da alma. Das almas.
Único acto
Subtraio e fico adicto. Movo-me e crio as inibições de uma raíz. Flutuo e precipito. Continuo. Prevejo um longo, maduro. Prefiro o pretérito, sulcando e uivando pedidos de entendimento. Renovo ao entender sugestões. Refiro-me aos ocultos, às faixas escondidas, às entradas de cavernas tapadas por lixo. Aponto os escroques e as damas de companhia. Fulmino toda a forma de governação, apenas pela necessidade de pessoas, esses grãos maçadores. Ao primeiro vento, sento-me no chão e saboreio a poeira. As portas e as janelas abandonadas aplaudem o palco. Mesmo se o estrado for raso.
janeiro 29, 2013
Interlúdio
Pela ventura de um ser absorto
recolho restos de bandeiras
frangalhos adoçicados
espessos como o sangue seco
nobres ventanias encharcadas
como viver tenebroso
fosse a vontade de um divino
como um nascimento
tivesse a forca do destino.
recolho restos de bandeiras
frangalhos adoçicados
espessos como o sangue seco
nobres ventanias encharcadas
como viver tenebroso
fosse a vontade de um divino
como um nascimento
tivesse a forca do destino.
janeiro 27, 2013
Cinzento cor de rebentação
Conheço-te de antes, de um pergaminho com cheiro de matiné, de um volteio onde se nada e se perde, chuva torrencial que marca a areia como ferro em brasa. Perdoo-te, sei que um dia me esperaste, um dia só, vestida nesses folhos que te decidiam a palidez enquanto eu, amordaçado, recitava papéis de pele macia e sabores de laranja e baunilha. Depois rodopiava, ou pensava que era capaz. Quando anoitecia, passo depois de passo, encaminhava o isolamento para um quarto onde a porta não fechava. Adormecia com algum frio. O que restava.
Ninando Johnny
Johnny deixou os ténis à porta de casa e correu rua abaixo, ciente da bicicleta sem travões. Conhecia todos os cantos da fábrica, alargando os horizontes à medida que o cheiro a mar lhe enchia os pulmões. A meio da pequena passagem entre o jardim e a mansão das velhas, olhou para cima e não encontrou o azul que procurava. Era noite. As luzes faiscaram, electrificando-lhe partes da alma que julgava desligadas. Subiu a rua da juke-box, ouvindo o matraquear das bolas de bilhar. Eram os sons do seu berço, um dedilhar de ancas e cabelos nem por isso sedosos, onde cada sorriso se obtia com um beijo no pescoço. Johnny procurou nas lembranças e na caixa onde jazem as recordações. Vasculhou os lados ocultos da sua lua. Encontrou-se à espera. À sua espera.
Impressões de um buscador de emoções
A garagem fechada, as luzes acesas do tablier, a sucessão de espécies em extinção, segredo guardado ou partículas de desilusão cobertas de chocolate amargo. Na dita penumbra, precipitação de algum linguista onde letras demasiadas sustêm o perigo de desmoronamento, amontoam-se ideias como caixotes. Comparando um excesso com um dizer incómodo, ofereço-me como pasto de sereias e peixe seco. Tenho o cigarro aceso fumegando o passado e no banco de trás, um amor furtivo. Sentado ao volante, com as chaves no bolso, desenrolo as dúvidas de antemão e repito a canção até onde a exaustão não conhece. O beijo, esse, ficou por dizer. Ou sequer, conhecer o sabor.
janeiro 24, 2013
O guarda-livros comprou cigarros
Eu sei que não vou conseguir escrever o que pretendo, como se o uso de um verbo pudesse definir, ser e sentir ao mesmo tempo, essa miragem de emoções perdidas ou apenas deixadas sobre alguma almofada, na crença de voltar e encontrar tudo igual. Por toda a procura feita busca, estão escondidos ratos na cozinha, apreciando o calor e desenhando futuros esconderijos. Faz-me falta uma janela onde consiga ver uma janela de luz trémula e embaciada antes da meia-noite. Sei porque existem porquês que se comem à colher, e existe um quarto onde a porta não fecha completamente, com armários de surpresas nas gavetas e um cobertor esburacado que cheira sempre a aconchego. E porque sei todas estas coisas, não preciso de escrever o que pretendo. Deixo a adivinha ser eu próprio.
Controvérsias
Novelo e dez libras de pimenta. A canela ficou no cais, os carregadores sentados mordiscando gordura de toucinho. Empunham cartas que atiram sem conhecer os naipes. Sentado no muro, um sonhador. Será levado pela maré. Os capatazes vestidos de azul garganta e laranja demónio esperam o almoço. Beberricam cálices de anis. A água pejada de cravinho servirá de digestivo. Como um chá beligerante. Como velhas empunhando ceptros papais. O arlequim confere contentores. As gruas recortam o poente, bafejando o fim da tarde à laia de bouqué. Ao toque da sirene chega o tatuador. Escolhe, esburaca e craveja. Para uns um Rueben. Outros, apenas pão sem sal.
janeiro 20, 2013
Perdões e pecados
Chegar como se um leme fosse bastante. No sol um limite de horizonte pregado na margem, um salto ou um grito, o que te aprouver, nem que seja maldito pois o prazer tem direitos que as coisas mundanas não têm. Por detrás da porta, da janela e do reposteiro, os copos pousados no piano, a penumbra como máquina de escrever, desfiam-se corpos, percorridos como labirintos, sem pedrinhas para marcar caminhos, sentidos únicos de intensa ventriloquia. O chão, pasto de dolências e carícias, recebe o estio. A seiva corre, livre de intentos e caules, presa a colmeias como prisões, ameias onde se deitam as armas e os cansaços. As bocas caladas, dormentes, seguem o recorte de um dia que se deita, e elas, deitadas, deixam-se apagar, suadas.
E se o tempo decidir acabar
Uma hora do meu tempo
como se cada hora fosse de alguém,
como se a demora tivesse regras
e raízes.
No terreiro
ao cheiro de queimadas,
a igreja como muro,
acendo-me o relento em repouso
seguro da terra que será meu corpo,
regado todos os serões
como se o tempo fosse dos avós.
Uma hora ou algo redondo assim,
como se cada hora,
como se a demora,
me tivesse a mim.
dezembro 21, 2012
Hoje não houve meio-dia
Janelas de sentido único - prezado ouvinte, sinta o cheiro da nova estação - janelas alinhadas ou fatias de bolo, vícios à espreita como quem se esconde e olha a silhueta quase desnuda - são horas, o seu tempo chegou e tomou o nosso - estremecendo copas de árvores e entendendo a geometria de varandas onde se suspende a fantasia, o conforto e o desgosto de ser aqui, a alcatifa, o lençol, o dia cinzento e amargo, salpicos de incerteza por não se conhecer o próximo passo. Quase é um dogma. E mesmo assim, embrulham-se tachos de arroz de tomate em jornais, mexem-se saladas com as mãos, enche-se o copo de vinho só a meio e com o cotovelo apoiado na toalha olha-se a rua pela janela, o apetite à espera, as juras de amor no bolso e o cigarro paciente. E assim, como o locutor de rádio afiançava, estamos aqui toda a tarde, como se a tarde fosse uma vida inteira, e o encosto da cadeira, o único amor de uma vida.
dezembro 14, 2012
Um certo meio-dia depois da hora
Certezas do que não existe, essa invenção de peluche recortando as realidades, as que forem e as escondidas, mais aquelas que são em esplendores de lixo e restos de comida dourada, todo um mundo de fantasia onde nos dizem como olhar e dizer. De fora, daqui, olho estas monstruosidades e espero a chuva para mudar de canal. Na janela, as últimas flores habituam-se à penumbra. Lá fora, nos degraus amarelecidos, juntam-se, em repouso, as entidades cuja invisibilidade perturba. Preparo-lhes chá e amêndoas, como todos os semestres. Oferecem-me a indulgência. E eu, grato, cerro os olhos e sinto-lhes a alma, uma, partilhada como uma especiaria. Olho de relance o canal que agora me parece difuso. Apago-o com o pensamento. Já não preciso dele.
dezembro 05, 2012
Deste lado do paraíso
As moedas guardadas e repetidas, os corredores, as circunstâncias, desmaiadas no sentido descendente da incúria. Os elevadores, as portas fechadas e abertas barafustando filamentos, os dedos indicadores espetados na certeza e no vazio. Deste lado as gaivotas falam, salpicam de leve cada manhã, substituem-se aos deuses que dormem. Do outro lado, o sono acordado é hipnose e logro. O cansaço. A promessa do jardim se prolongar até à ponte. A bicicleta sem travões descendo a rua dos encontros. O linho desfiado, essa personagem, meia miragem, encerrada em livros de lombada descomunal onde se arrumam antigamentes. Deste lado, à guarda da poltrona, folheando vagares, as moedas sabem a rebuçados, os corredores parecem passagens secretas e as circunstâncias são apenas atacadores desapertados.
novembro 29, 2012
Ocular

Digito e por essa causa, virtuo. Pertenço a toda e ao restrito, desventro-me e assemblo-me, projecto o dever e o devir, rodando em mim mesmo, sobre o meu ente no gesto de substituição do divino pelo resto de uma divisão, eu pela consciência, eu como cume e labirinto oculto pela superfície. No movimento atinjo, na pausa renovo, no reinício aprendo. A junção dos sentidos num só, como se a fusão fosse um método religioso, circulando as cores como veículos e os órgãos na exacta medida da sua imponderabilidade. As coisas são objectos ao sol e emoções no escuro. Porque a claridade e escuridão sentem-se, em simultâneo, em contacto com a impressão digital. Uma que se torne causa.
novembro 27, 2012
Atitudes e apetites
Ao descer a rua das montras de vidros tocando o passeio, penso e existo nas três esquinas que do lado esquerdo me desafiam e atrevem-me a alma. Decido esquecer as vírgulas e outras hesitações. O que sai de dentro não deve ser tocado. Como um passo seguindo outro, calçada de cubos assimétricos, revelo os rócocos nas esquadrias e aqueles cetins ou linhos sobre meios-manequins, a forma perfeita de me lembrar de algo. Na primeira esquina exijo-me o título, talvez a capa. O cheiro também. Não se trata de odores nem fragrâncias. Cheiros, assim, crus, dolentes e demorados. Como se a intensidade fosse um minuto inteiro. Acredito numa sensação de recordação e sem remorso atiro-me em frente. Regresso a este tapete de ontem e hoje, impossíveis de separar. Na segunda esquina, faltam os ganchos e a fita cola nunca o foi. O fascínio já lá não está. Adiante. Algum cauteleiro, senhoras de cabelo suspenso, elegâncias e sujidades à mesma mesa de lanche. Alguns dourados. Demasiados sinais de doença. Uma doença arrastada, vivida, resignada em cada refeição, em cada sono, em cada véspera de Natal. Vejo a terceira esquina. Está lá como uma sentinela sem tempo. Há tanto tempo. Paro, olho o chão e a ponta efervescente da bota negra de uma tropa que não o chega ser. Aperto o fecho do blusão até sentir o pescoço fechado. Passo a mão no cabelo aumentando a crista. Sorrio sem que os olhos por detrás dos óculos negros sorriam. Viro à esquerda como um bom soldado faria e de pé em riste, rebento o vidro da montra sem me proteger. Sinto o corte. O fio vermelho compõe-me. Atravesso a rua, faço uma carícia num bebé de carrinho e subo rumo à chávena reconfortante de chá.
Doutrinas
Doze caules feitos samurais, perdidamente apaixonados e sem dote para as filhas de porcelana de doze artesãos. As agruras têm sempre um número, um algarismo seguido de outro e mais outro, álgebra descodificada pelos santos sem religião, que não usam hábito nem virtude, que não conhecem a noção de pecado e abrem os braços com a liberdade de quem acredita no voo, léguas e milhas de campos onde crescem verdes rebentos de uma chuva persistente e mimada. São quatro as divindades que assistem aos fenómenos da vida. Não têm nome. Não precisam. Sabem, com rigor, as mil faces de cada samurai, as cinco mil formas do olhar de uma porcelana. Não se repetem, nem por uma vez: as sabedorias e as formas de ser mulher.
novembro 26, 2012
Ficção não ciêntifica
Seremos as vozes e os lamentos, as discórdias e todos os muros, os tijolos que construiram os fornos e as pás que recolhem as cinzas. Seremos o restolho e a colheita, por essa ordem, porque a numeração está inversa, endemoniada ao serviço de aritméticas perversas por resultados plurais. Seremos autónomos na cólera e na malária, ou cobertos de escamas num cretáceo fabricado com fibra óptica e roldanas. Seremos gritos, submissões, copos cheios e nódoas. Seremos as flores manchadas, arranjos perfeitos de bombardeamentos com hora marcada. E nas reuniões, entre calças vincadas e risco perfeito nos cabelos, surgirão debaixo das mesas, centopeias com viscosas decisões. Seremos então, fósseis.
novembro 22, 2012
Esperando senhores importantes
Na varanda, com vista para os ditadores, havia uma nesga por onde se via a porta do avião. Tinha o copo quase cheio. No parapeito todas as garrafas que quisesse, o suor que pingava, os vestígios habituais de sangue e os buracos de bala nas paredes. Com o sol a pique, o dia era uma dia normal, naquela doutrina específica que afirma o dia como um grupo de vinte e quatro horas, algumas escuras, outras de claridade. Aqui, a claridade era como a escuridão, uma exactidão difícil de conceber. A porta do avião continuava fechada. A risca vermelha ao longo da fuselagem, intocável no rebordo da porta. Alguns guardas de óculos escuros e metralhadora, o trivial. Bebi mais um gole e preparei-me para outro cigarro. No chão restos de maços ameaçavam a espera. Mais um olhar, a porta, encaixe de esquadro na superfície brilhante do avião. Olhei o copo e bebi o resto de uma só vez, adiantando uma impaciência própria de sol lancinante. Tinha no bolso as duas balas de ouro oferecidas no primeiro dia. Gostava de sentir o seu peso no bolso. Emprestavam-me valor. Ou alvo. Não sei ao certo a verdade. Tentei-me pentear mas senti uma pasta de cabelos encharcados e em desalinho. Típico. A cadeira, demasiado pequena para a arma, parecia uma miniatura de casa de bonecas. Sorri. São coisas que enternecem antes de ver o cérebro saltar em gomos.
novembro 21, 2012
Três pancadas com 3 segundos de intervalo
Na contenção, mãos paradas e dedos imóveis, desço o olhar submetendo a hora ao cardeal, ténue alvoroço por detrás da porta enferrujada, camuflada pelos contentores de caracteres cirílicos, longe do comum e muito além do mortal. A corrente do relógio estremece e toma o lugar do pêndulo. Os lábios têm sabor a sangue, como se a saliva fosse definitivamente espessa, textura sinuosa que mantém a sede unida ao prazer. Os passos querem-se vagarosos, desejam-se quase parados, num arrastar demente em direcção a cada recanto onde se desenham cruzes de todas as religiões, essas religiões onde a multidão é a lâmina de um punhal de cabo escaldado. Com o cabelo em desalinho, ombros ensopados pela chuva, o sabor da derradeira maldade permanece intacto. Tão intacto como a palidez de uma criança.
novembro 17, 2012
Aula
As palavras são tão permissíveis, tão atrevidas de memória e despidas de sabor, por pretenderem enfeitar em vez de dizer. As palavras que se dizem, que tu dizes, que eu ouço, que eu digo, baixinho, que eu grito desesperado, que decido entregar por desvario, as palavras presas por filamentos, ditas entre chocolates e trufas, mastigadas de fumo e vinho, as palavras da concordância, da definição carmesim, dos rituais semi-apagados em pergaminhos com sabor a sal e esgoto, as palavras em latim de todas as épocas. Cada letra é um prego na cruz de todos os senhores, senhoras de noite, senhores sem género ao permitir devaneios e risinhos nervosos. Cada letra, cada sílaba, acre, ácida de tanto amargo, escarro de tanto doce, tanto arabesco pintalgado de flores sem cheiro, sem cor, sem amor. Palavras sem sexo, sem orgasmo, palavras sem desejo nem prazer, ou apenas sem vontade. Palavras que se dizem pelos candeeiros ligados em cada sala iluminada e escurecida de carreirinhas de letras em marés absortas e obtusas, chaminés altas de fábricas de palavras, arrumadinhas em caixotes, com carimbos de envio para todos os destinos que se imaginem... menos a alma, mesmo se cheirando a lama.
novembro 13, 2012
Partindo pausas
Secretos restolhos e areais,
cestos de piquenique levados pela maré,
zumbidos à flor de uma pele
na palidez frágil de uma cintilação,
são as cadências
e nuvens feitas de almofada
onde o infantil tem o trono
e a rainha só se recorda dos confeitos amarelos.
Além
na falésia em forma de mesa,
permanecem os druidas desnudos,
sinal de tempos e relógios sem ponteiros,
ferrão espetado na linha de horizonte,
onde o sol já não está
e o laranja ainda existe.
Ruas de portas e números repetidos
Despido, à janela, situando-me tanto nesse quarto andar como no passeio ou no bar da esquina, rigorosamente na esquina, entendo a espera como o passo fulcral do prazer. As vozes, as que deixo entrar, cercam-me de dedos apontados, lençóis esperando calor, copos que se querem meio cheios, deveres e brincos de madre-pérola espalhados por entre os papeis, cinzeiros cheios. Na rua, no passeio por debaixo das árvores sussurrantes, os degraus esperam a pausa ou o vício, o assassino de medo em riste, a mesma espera, os embriagados de rumo incerto descobrindo curiosidades alheias como se o escuro se tratasse com xarope. Na esquina, rigorosamente na esquina, já não existe nada. Tiraram o bar, todo, levaram-no para às escondidas o despirem e o meterem na cama, um sono que não acabe, um sono que faça o esquecimento acordar. O vidro da minha janela tem desenhada a minha respiração. Traço-lhe uma decisão. Alguém, os passos incertos de algum amante, olharão para cima e reconhecerão a senha. A porta está aberta. Sempre esteve.
novembro 10, 2012
Carnegie é antes da próxima esquina
Enquanto espero olho a ponta das calças amarrotadas, aquele afunilar do joelho ao sapato, pretendido na fluidez de uma avenida de luzes ainda acesas, descendo de um pedestal até à praça vazia que ainda há pouco abarrotava de passeantes e gabarolas, esses de cabelo revolto à custa de toques de pulso, cigarros acesos porque sim, portas abertas chamando incautos. Toco com dois dedos no copo, ensaiando movimento que entrechoque o que resta das duas pedras de gelo, pé apoiado nesse tamborim cor de vinho, goles gulosos que daria se fossem menos horas, se as soubesse subtrair e agitar a aritmética do tempo perdido, aquele sorriso feito algoritmo, como se o barman tivesse algo a esconder e aquela mulher, que apenas lhe resta fatalidade, conhecesse os segredos de todos, os que se demoram e os demais, rápidos no prazer e como dobram a esquina. Demorar é o verbo, a coluna jónica do desejo, a dois, o par elevado à condição de único, divindades a meias santificando o prazer à vez. Por cima da última fila de garrafas jaz aquela gravura que insisto homenagear Turner ou algum anónimo, efeito de um ópio envelhecido sem odor nem maleabilidade, mas que se fuma por obrigação. Na esteira, uma gasta partitura. Serve-me de consolo como alguma almofada, se a houvesse. Vejo-a de linhas alinhadas, pontinhos negros ensaiando escadas, a derradeira versão de um testamento roubado em casa de ourives. Sigo-a pelas ruas que circundam o bairro dos quartos alugados, revejo-me no matraqueio regular dos seus saltos altos, serpenteio pela costura da sua meia, colheita preferencial do meu amor que será fumo daqui a duas horas. Serei fiel. Mas apenas enquanto as duas horas demorarem. A demora. A pressa de esperar num banco corrido de madeira numa estação de comboio, malas roçando o chão e esses apressados de farda e boné controlando bilhetes e intenções. Subo a carruagem número sete, amarrotando a ponta da calça, aquela junto ao sapato. Piso a alcatifa adoentada e sigo a geometria básica de um corredor sem extensão. Paro à porta do compartimento vazio, cubículo que tresanda a tabaco e suor. Sento-me revolto em cansaço, moído como farinha, e avisado em demasia dos perigos da fronteira e dos viajantes de última hora.
novembro 09, 2012
Debaixo da mente e à beira da cela
Curvilíneos solares em abóbodas onde se movem as linhas do dedo divino, esse divino chamado ontem, transformação de um medo ou de circulares fechos de contas antigas, uma provocação gerida pelos vulcões, outrora apagados, sediados em alguma cafeteria japonesa onde o tapete rola submisso, soturno, empalidecendo esgares e apetites, daqueles que não terminam, dos que desaguam em hóteis de néon incompleto e camas desfeitas, porque o tempo não demora e os gestos exigem atenção. Somos peças de algemas, encadeados pelo abismo das nossas escolhas, varandas nocturnas onde se espreitam os amantes do prédio próximo, relevos de pêndulo contínuo enquanto a manhã não regressa. Ao longe o comboio, as janelas trémulas de cada passagem, vítimas de horários de conveniência. Já não existe o romântico matraqueio do carril, algum mordomo de ocasião anunciando o sabor e o pecado. Já se esqueceram os furtivos beijos em algum apeadeiro de província, ignorados e motivo de conversa por semanas. Sentado ao balcão, hesitando entre o café frio e a cerveja choca, observo mais do que vejo. E por isso, sou voyeur de mim próprio.
Pretendido
Nesse então,
curiosa cadência
ao ser um
e depois mais outro,
sorvem-se boreais
desaguando na turva
e elementar
copa de árvore,
caduca de um Outono demorado
como se cada erva
e cada chávena de chá,
violentassem a espera
e o odor a sossego.
O perigo de todos os dias,
suaves ou pedregosos,
é a quantidade,
ínfima,
de sangue que impregna
o beijo
e a vontade.
novembro 08, 2012
Onde a falésia decide a planície
Saltos, cabriolas e gritos submersos em areia molhada e cores de manhã infantil, doce como suaves ziguezagues enjeitando o cuidado dos maiores, quando a água é mais do que elemento, mais e mais fundo, cobertos de rochas cobertos de conchas como coladas, vivendo vidas que nem se imagina ou descobre. Sãs sugestões, como pérolas achadas entre ervas esvoaçando à brisa da maré, casas de telhados quase vermelhos onde as janelas antevêem esconderijos e cordas de mar. Essas pausas corridas, perpétuos movimentos de sereias e cabelos revoltos, ali, onde a terra teima em acabar, e os faróis se amontoam enquanto os faroleiros tilintam chávenas de calor e perspicácia. São os dias de bagas e flores amarelas, os serenos pincéis que pretendem diamantes nas paletas de pastel.
A chave, por favor
Existe uma linha que percorre as ruas seguindo o halo dos candeeiros de cor laranja, um filamento de inícios de histórias, olhares fugidios ou apenas gulosos, esses sushis de batom roendo milímetros de lábios sequiosos. São percursos sinuosos, labirínticos mutantes ensinando lições proibidas. São a resposta exacta à fé e ao recato, preciosidades orientais boiando em caldas açucaradas, corredores de um hotel decadente, onde cada porta é um altar e o quarto escolhido, o prolongamento iluminista de uma blasfémia santificada.
novembro 05, 2012
Ao longe, vejo-te a silhueta
Nesse carro onde atravessaste o México e destruiste San Diego, pintei o mural das nossas vidas. E por tua causa, abandonei a arma e o maço de Lucky Strike. Ainda me obriguei a uma cela de mosteiro, mas ao fim de uma semana procurei-te na linha de fronteira. Não acreditei no que todos os criminosos de Tijuana repetiam: que eras demónio de asas brancas. Não acreditei porque não acredito em ninguém de revólver no cinto. Voltei a El Cerrito, casa por casa, árvore por árvore, sem me aperceber que afinal em Logan Heights também existem pessoas. Sentei-me no chão e esperei que o café fumegasse na chávena. No relógio, as horas tinham desaparecido.
Fecharam a catedral
Da janela do hotel, o canal é o prolongamento do meu tempo, da cadência que ficou na cama e depois de calçar os sapatos pretos de camurça, desaguou dali para fora, atravessando a ponte e rumando até à esquina de rebordos curvos, ali, onde os turcos servem jantares e algumas peças de porcelana procuram amantes de ocasião. Procuro a porta onde se acumulam traços fluorescentes e lixo feito obras de arte. Subo as escadas destruídas com o isqueiro chocalhando no bolso. No penúltimo andar ouço os gritos e as linhsa sinuosas de instrumentos de tortura. Sorrio. Subo e encontro o indiano sentado no escuro. Sabe ao que vou. Aceno-lhe com os olhos. Percorro o corredor e na última sala, porque sendo último a verdade pode estar à espreita, encontro o russo. Sentado na cadeira de braços, de sobretudo apertado até à gola, cigarro apagado nos dedos e dormitando infidelidades impossíveis. Tiro do bolso as notas, um pacote de largura insinuante. Pouso-as na mesa repleta de histórias. Entreabrindo os olhos, atira-me um resmungo morno. Sei o que quer dizer. Subo para cima da mesa, agacho-me de cócoras e tomo o meu lugar na minha história. Espero pacientemente pelo cliente que me comprará.
novembro 02, 2012
O cinzento não existe. Apenas tem sabor.
Suspenso na essência de ser ou avançar, completo as privações e todos os labirintos que couberem na palma da minha mão. A curiosidade é apenas um jogo, gatos e ratos na mesma gaveta, esperando o primeiro que adormeça. E entrando no quarto, conhecendo o veludo verde por detrás da porta, as gotas de mar na janela, o segundo à espera de ser o próximo, e eu, nariz entre o vidro e a tempestade, morno como só o frio sabe inventar, desejo a fome e a penitência, como se o monge dentro de mim despisse o hábito e renegasse a fé, pechisbeques de ocasião quando a razão foge para longe. O instante torna-se momento e depois vagar, voltas do relógio que só os antigos conhecem, ou então, as avós ao lume, esperando o sono regressar.
outubro 18, 2012
Ponteiros
Consigo contar até dez, ver uma cadeira e sentar-me, abrir um livro e separar os capítulos como quem conta cerejas. Vejo as camadas de gente nas ruas, sombreando as árvores seminuas de Outono, seguindo em frente, uma direcção só por cada um, sem sinuosos vagares ou olhos em movimentos esféricos de criança ou pássaro. Pressinto uma catástrofe, uma das que os livros sagrados decidem enviar com ira. Prevejo os gritos, talvez os do costume. Prevejo também ordens. Dedos em riste e olhares reprovadores. Reflicto e desisto. Na reflexão o tempo escapa-me. No hábito, o tempo mastiga-me. No amor, o tempo foge por entre os dedos. Quando sou eu, o tempo pertence-me.
outubro 15, 2012
Por isso, prefiro a rua ou a praça
Sinto ainda esse travo, a grandeza de um motivo, mesmo quando egoísta, como ponto de partida. Os passos desalinhados por amplitudes que as copas das árvores tornam diversas, como se cada pensamento tivesse uma pausa própria, ou as chávenas de café servissem como berlindes indicando o caminho. Gosto da opinião de um sorriso aberto, ciente do efeito de um céu azul ou outro artifício qualquer, a razão para uns ou apenas a cereja, relatando o pormenor como oração ou beliscando o íntimo com o prazer de uma almofada servindo de amante. A certeza, vista de fora como capricho, é o caminho que se conhece e se repete, procurando aquela emoção que o coração não sabe calibrar, as mesmas pinceladas de um pastel que só existe na recordação, mesmo se imaginada, a garfada que fica a meio pelo aroma. E se desconheço, com garantias, se as gratificantes ousadias da partilha aumentam o sintoma e turvam o diagnóstico, posso testemunhar o paradoxo da tristeza como vitamina da satisfação. Nessa premissa repouso as angústias e alguns dos remorsos, confiante no poder curativo de uma depressão balizada por horas marcadas. A agenda está preenchida, os contratos alinhavados e presos por uma assinatura de tinta alva, e a condição humana de sentir permanece num estado de pausa, serenamente sentada num banco de jardim esperando a manhã ou outra qualquer forma de vida que o tempo deseje encarnar.
maio 16, 2012
Mr. Skarsgård, presumo
Ao cimo da rua, um planalto de meia praceta provoca a calma no rebuliço. Sábado de manhã diferente de algum dia de feira, os passos reduzem o impulso, os olhos levantam-se ao céu e ao cimo dos prédios antigos, quando se vivia e se sacudia o bairro. Parei o carro, abri o vidro e deixei-me estar na certeza de alguma chegada ou janela aberta depois do sono e da paixão. Acendi a última cigarrilha, pois sabe-se que terminam sempre quando se necessitam. A necessidade é um conceito traidor. Na metade da rua à minha frente, vestia um fato claro, desses quase sem recorte ou solenidade, subia com passo regular, talvez algum cansaço. Os óculos de sol castanhos adivinhavam a diferença ou estrangeirismo. Num momento, apoiou-se à parede e olhou para o cimo. Sorriu num esgar, endireitou-se numa pose quase de princípe e percorreu os últimos metros com a dignidade dos de outrora. Rodeou o carro pela esquerda, abriu a porta e entrou sem palavra. Depois de um suspiro, obrigatório digo eu, virou-se para mim, estendeu-me a mão e apresentou-se. Apertei-lhe a mão, parti a cigarrilha, o que restava, em dois e dei-lhe a metade apagada. Os olhos brilharam-lhe enquanto aceitava a chama. Aspirou profundamente, tossiu as réstias do cansaço e com um semblante renovado disse.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.
maio 15, 2012
Esperamos, nós e Tim Robbins
Sobre um bloco de pedra, daqueles que se usam para acrescentar terra ao mar, espera-se. De pé, de cócoras, sentado como se um sapateiro esquecido encolhesse os ombros ao amontoar de sapatos à porta da sua oficina. Espera-se algo da cor do bloco de pedra, alvo como se o novo tivesse cor. Falam-se línguas quentes, rápidas para o compêndio ou a tradução, a rapidez própria da vida se sentida e amada. Laivos de francês, como se algumas palavras fossem o barro para segurar a argamassa. Somos 3, quase 4 se o fulano de panamá branco e calças pelo artelho. Somos 3 sem sabermos quem somos. Cada um inventa o nome que quiser. Hoje quatro letras, amanhã apenas três. E apelidos se servirem de nome próprio. Hoje esperamos, amanhã teremos nomes de dois nomes escritos e nunca verificados. Amanhã, se algum deus quiser.
maio 11, 2012
Bernardo Sassetti, vou procurar-te nas ruas e no cimo dos prédios
Bernardo, falaste comigo pelo teu piano e garanto que os teus dedos me percorreram a face e os braços. Esses dedos que nunca vi, mas que senti no pescoço e no espírito. Bernardo, foi pelos teus dedos que conheci Alice, que lhe soube as ladaínhas e os amuos, quando zangada se sentava no chão e esperava a tormenta passar. Bernardo, foste tu o responsável pelo meu olhar longo e sustenido. Bernardo, quando chegar a casa vou ouvir-te e voltar a sentir esses teus dedos. Verás, verás a alquimia de que ainda és capaz.
Johnny Depp ainda se lembra da porta de vidro verde
Johnny Depp empurra a porta, repara no verde do vidro fosco e agradece a penumbra. Senta-se no terceiro banco a partir da rua, e mesmo quando se pensam idiotices, repete o gesto já sentado, num jeito acostumado de toda a gente. Johnny Depp articula as boas tardes e pede dois shots de bourbon. Um olhar em volta garante-lhe abrir a caixa quadrada das cigarrilhas. Rola-as com a ponta do indicador e escolhe a terceira a contar de si próprio. Tira o isqueiro do bolso do colete e acende-se. Johnny Depp agradece os copos pousados no balcão e com o mesmo indicador que rolou as cigarrilhas, apanha a gota que teima em escorregar, chupando o dedo, satisfeito. Johnny Depp sorri ligeiramente, pega no primeiro shot, se entender que o primeiro é o que encontraria quando entrasse e se estivesse à sua espera, fosse a razão que fosse. Johnny Depp bebe o primeiro shot lentamente, como se o sabor fosse obrigado a confessar-se. Antes de pousar o copo sente a garganta aveludada e encandescente. Johnny Depp sente um arrepio que lhe propaga prazer em ondas analógicas. Puxa o fumo avaliando a subtileza dos músculos dos lábios e expele uma baforada aromática. Johnny Depp sente-se perfeito. Como se a perfeição fosse a melhor das sensações. Olha para o segundo shot e num momento de rara intuição, antevê o último. Imediatamente recorda-se de conceitos, a última ceia, a última refeição do condenado, o último adeus na estação de comboio, o último dos moicanos, a última tarde. Johnny Depp sorri como só ele sabe, levanta-se, pousa uma nota amarrotada, articula as boas tardes e sai. Não só reparou no verde do vidro fosco, como ainda sente o travo misturado de bourbon e cigarrilha. Após uma brevíssima pausa, Johnny Depp decide o lado direito da rua. O último shot, ou o segundo, ficou no balcão. Ainda lá está.
O meu dedo apontador está cansado
Ontem, quando olhava em frente, senti o azul do dia como esse nome que se chama num grito, obrigando a meia dúzia de sobreaviso a virar para trás e confirmar alguma coisa. Hoje, olhando em frente, também sinto. Sinto em cinzento, um cinza ora aberto ora fechado, dependendo do segundo ou minuto que eu decido, transportando-me para alguma coisa ou apenas aqui e sem trajecto para já. São as pequenas grandes coisas que merecem ser escritas, ignorando a substância e aproximando o fósforo aceso aos relatórios, linhas de teleponto e outros encadeamentos de palavras absolutamente inúteis e degradantes. E são as pequenas coisas as que se guardam no bolso com desejo, uma chave, uma bola de matraquilhos, uma caneta, um pedacinho de papel bem dobrado, pevides ou pedras de sal. Nada mais valioso e simples. Nada que provoque absolutismos ou revoluções de sentido único, nada que se catalogue, etiquete ou seja alvo. Nada que seja fatiado em patamares ou deitado em altares. Apenas, e este apenas com alguma graça ou zombaria, alma, espírito e a essencialidade de um pôr do sol ou de uma maré tardia.
abril 27, 2012
A queda e as consequências
Por debaixo da chuva, dos passeios molhados, dos passos com pressa apertados num agasalho, por debaixo do dia que existe no calendário e no ponteiro ritmado dos segundos, guardam-se círculos mornos e húmidos como o labirinto aberto depois da pedra mergulhar no lago. Nas margens, irrompem frutos, alguns proibidos, sumarentos na forma de sorver dos lábios carnudos, onde a demora é doutrina e quase religião. Nesses altares de eternidades, esquece-se o poder e a inveja, flora o egoísmo de todo o prazer num só momento, estrada recortada rumo à clareira.
abril 26, 2012
Esconde-se numa sala ampla, persianas quase fechadas permitindo apenas algum diurno e sussurrares de rua. Vagueia entre um sofá vermelho, pele gasta como numa cama de motel ou confessionário pascal, e a cadeira de metal, cirúrgica de pose e posição. Anda, arrasta o balanço de fera prisioneira ou cativa, ronronando a espera com dentes de sabre. Com os dedos, colhe flores em cada prega do seu corpo, vincos forçados pelas unhas lâminadas de rubro. Faísca os olhos contra a penumbra, sente falta de relâmpagos que lhe massacrem a íris e ataquem o cérebro, deixando-a dormente e submissa. Cada estalar de madeira apodrecida sobressaltam-lhe a medula. Resiste ao sono e revesa o desejo e a anuência. Quando chegar, o momento, quer saber-se inteira.
abril 24, 2012
8 ou 9 ou 10
Preferi atravessar a rua e espreitar o outro lado, como se fosse um gato, como se farejar fosse o meu mistério e perdão. Procurei quem se afastou nesse passo apressado roçando as paredes dos edifícios, um passo escurecido pelo início da noite, um passo vestido de preto, todo preto, numa viuvez apressada como quem procura e foge antes de encontrar. Vagueei como é meu natural, mãos nos bolsos, frio na cara, olhos brilhantes de tanto. E sem ver, olhei as luzes nocturnas, as que desenham recordações e esquadrias cartografadas na memória, olhei-as numa gulodice desenfreada, calada, curiosa na exacta medida que um beijo é salvação e uma noite, salva-vidas.
abril 23, 2012
A meio do bairro
Devagar, debaixo das janelas e dos olhares de meio dia, encerra-se a manhã e começa o dia, lento como só ele deve ser mastigado, com árvores de quando em quando, justificando o que se esconde ou não se quer ver, o furtivo de um desejo quando é mais que desejo por ser violento e repentino. Devagar pelo meio do passeio, sem querer ser mais um nem recusar esse papel, cigarro crepitando como lareira, fumo entrelaçado no arabesco que contém, sede abafada pelo passo caminhante, sede guardada num bolso já carregado onde esperam os prazeres, a vez de quem se mostrar afoito e entregue a si mesmo.
março 27, 2012
Um conto, um cento
Os momentos que antecedem grandes decisões, proporcionam fenómenos químicos e todas as teorias que os estudiosos do cérebro sabem enunciar. São páginas e páginas escritas de alto abaixo, palestras e conferências doutas, definições matemáticas cujo causa efeito não é simples de compreender. E tudo se passa dentro da pessoa, nas suas entranhas revoltas, revoltosas por meia dúzia de unidades de pagamento, como se a vida fosse uma caixa registadora difícil de saciar. Como se pode quantificar a existência e por quanto? Tudo vale? O valor das coisas é uma das coisas mais estranhas que o índice encerra, e mesmo assim, insistimos na valoração de tudo e mais alguma coisa, como se cada cereja de um cento fosse mais que outra qualquer. Chamam-lhes borboletas, coisas esvoaçantes cativas no duodeno. Chamo-lhe fatalidade... Ou, estupidez.
março 17, 2012
Por causa de um labirinto

Tarde, beije, azul e todo o cinzento que caiba sem manchar, as multiplicações feitas ruas e a questão onde consta um fim, cabelos soltos, botas ou ténis vermelhos de pano, os ícones ao virar a esquina, lentos e expectantes, chávena de café na mão, algum doce ou a gulodice de esperar mais logo, quando a noite trouxer o imaginário e com ela, anjos e demónios unos, preferidos a todas as visões, ritmados pela influência que transportam na pele até montanhas ou apenas edifícios altíssimos, a escalada urbana que um beijo sabe começar e deixar qualquer humano perto do divino, como se cada deus habitasse a palma da mão e a ponta dos dedos. Depois, no cimo dos telhados, procurem-se as pernas que baloiçam e segredam o lugar de cada amante.
março 09, 2012
Do último degrau vejo o teu primeiro dia

Morno. Muito morno. O confesso vagar, perdido em ruas alinhadas onde me desalinho, onde me deito, me banho, suspendo a condição de pessoa e torno-me gente, árvore, escondo uma guloseima no bolso, sorrio antes de verter alguma gargalhada que me escorre a cara e cintila os olhos, ganho vontades de menino apesar do tom grisalho que gosto de olhar. Morno ao pisar cada centímetro, ao pormenor geométrico de algum recanto, o recorte do sol nos degraus, deuses e deusas que se escondem por detrás das janelas, tentando na penumbra actos divinos que só eles querem. Sou suave e rouco ao mesmo tempo, essa medida antiga dizendo os números e gastando os soalhos, mesmo se os lençóis saibam apagar as rugas, os minutos e algum ontem tresmalhado.
Não sei bem como é que fiz isto
O encanto do inesperado, é a sensação de tudo ser possível, mesmo se a razão o deseje impedir ou a lógica decida arrasar o sonho. E tudo acaba por ser tão frágil, ou melhor, inconsequente, quando se substitui um cachecol confortável por um galhardete de pescoço, um sofá por uma bancada, e a análise por uma imaginação fértil, onde existem unicórnios e felinos, ondulando em uníssono por um instante enfeitado a lantejoula, mesmo se o ouro é apenas dourado.
janeiro 21, 2012
Por décimas de segundo
Confesso-te os dias mais compridos, aqueles que terminam sem terminar, onde, em praças com o rio adiante se transformam os sentires e as abóbadas clericais, as que se mantêm vivas por duvidarem do seu poiso e da hierarquia onde foram geradas. Lembras-te a primeira vez? A que te contou o poder e a emoção? Foi o caminho, a casa redonda, a chaminé colhendo o céu e todas essas ervas, benignas e enternecendo antepassados, curvadas ao vento da tarde e da manhã, cordialidade de uma porta aberta, esperando que o mar rebente dentro de casa.
Vidros embaciados
Sentindo as meias e os sapatos, sinto também a linha de horizonte da cidade, esse novelo que me arrasta e me retira algo morno para me atirar ao frio, como se o gelo me entregasse forças e palavras. O segredo é estar sempre pronto, de isqueiro e óculos à mão, um par de notas de algum banco e as canções. Provam-se cafés e cigarros, não necessariamente por esta ordem, escolhem-se beijos da ementa, beijos que podem ser braços e dedos revolvendo o cabelo e atingindo o pescoço, decidem-se os trajectos e as luzes de algum aeroporto nas imediações, porque palcos são sempre poucos. Lembram-se rotas da seda, todas as samarcandas que caibam num quarto de hotel, de preferência num terceiro andar. Se projectar uma esquina da janela, juntamente com os mortos-vivos de ocasião, encostando-se aos carros estacionados, imaginados pelos candeeiros de rua como se vissem coisas de um passado distante e esfomeado. Tantas curiosas contradições, como um guarda-livros num cubículo às tantas da manhã, emoldurado pelo fumo, um certo aconchego impossível de ultrapassar.
janeiro 20, 2012
Misericórdia é nome de punhal
Por tanto e por isso, por antecipar os sorrisos e os orgasmos que se encontram nessa rua, pelas copas das árvores, nocturnas, desfiando o fumo e as garrafas vazias, por toda e qualquer decisão isenta de consequências, por saber e desconhecer amanhas e madrugadas, por conhecer o caminho para o pão matinal e os lugares que nunca fecham, por falar as palavras chinesas e russas que bastam, pelas folhas dos livros que se gastam, pelas folhas escritas que se desfazem ao primeiro travo, pela sorte, o azar e o sol por detrás da ilha, por me saber e saber o que lá está, pelo tempo que pede para não ser guardado no bolso.
janeiro 11, 2012
Cruel
Entre algo de Índia e o betão algures em L.A., estou ciente de ruas pejadas de prédios centenários, tijolo bem à vista, árvores imaginadas à distância de 12 metros cada, mais bares do que se possam beber e uma fauna mais intensa que mil Áfricas. É cruel este mistério do vazio entre dois pontos, o tal segmento de recta, ou um mutante pois descrevem-se demasiadas curvas para unir dois pontos. E mesmo chegados a essa facilidade quase extrema de encomendar o futuro no próprio dia, existe um pegajoso limite entre o impulso e a consequência, travão orgânico de tonelagem insuportável. Num mundo decalcado do pior entre os maus, a sede de sentir o bolso cheio determina o passo seguinte ou o pé descalço mesmo calçado. Aponto através da mira, viso variados alvos numa furiosa carnificina enternecida por um dia de sol ou um café que prolonga o palato. E embalado, desprovido de crueldade suficiente, espero a próxima carruagem, mesmo se tiver no bolso a chave.
janeiro 09, 2012
Acariciar uma escrita
Há bastante que não escrevo. Porque há um que, quebradiço, impedindo a pena ou a tecla, sabe-se lá por quanto, se por demasiado Tejo, se por demasiado sorriso contido, ou então por um estado de sei lá o quê, que mina e disturba, tornando elástica a vontade, até por montras e passeios. Faz-me falta o acre e o doce, algum choque térmico, as mãos geladas e o passo até um café próximo, procurando olhares ou outra coisa qualquer que adoce o a espuma de leite. Faz-me falta aventura, sem capa nem espada, talvez horas tardias e candeeiros de rua acesos, ruas acabadinhas de amanhecer, pão quente que se termina na cama rumo ao meio dia. Longas são as premissas, halls de hotéis, praças e pontes, edifícios a arder de tanta excitação. Prolongar uma semana em um mês e esse mês em um ano. E depois... E depois, rever a matéria dada e expulsar demónios e anjos, como um exorcismo de hora marcada, como se o tédio e a próxima página vivessem em comunhão de fatalidade numa capoeira ferrugenta. Pergunto-me se bastaria um volume, algo hermético onde guardasse a minha essência. As camisas, os livros de cabeceira, um terabyte de mp3, o tabaco, os sapatos, aqueles filmes, o portátil, o isqueiro e os óculos de sol. E os óculos de ver ao perto. Será que a vida tem excesso de peso de bagagem?
agosto 18, 2011
Um mais um são muitos
Televisões, banalidades por repetitivas nas rádios, quilos de jornais e quilómetros de rede enrolados em discursos e comentários, opiniões longe dos temas, sofás e cadeiras, mesas de café e capuccinos, sol e sombra enquanto a fome e guerra acontecem reais em ruas despedaçadas e ombros rotos, fotografias premiadas em jantares de gala enquanto os fotografados, sentados no chão, às escuras, lambem os dedos de nada. Tudo se passa longe, cartazes empunhados e telemóveis nos bolsos, berros em uníssono e uns copos depois. As vítimas, as que importam, bebem água quando cabem algumas gotas a cada um. Sou um hipócrita. Um comodista instalado, cruzando palavras antes da hora de jantar. Sou um hipócrita. Tu também. Somos tantos hipócritas.
agosto 16, 2011
Vamos
Penso nessa "gente linda", nesse buraco debaixo de chuva onde a selva se permite um fôlego e os passos ainda se enlameiam. Nunca soube o que era viver difícil antes de aqui chegar. Nunca soube, nunca senti na pele esta humidade que não desaparece. E ainda assim, os sorrisos são dos mais bonitos que conheci. Quero sentar-me à mesa e comungar, beber do que bebem, tocar os ombros nos ombros ao meu lado e dizer: aqui estou. Porque aqui estou, sem miragens nem ideias concebidas sem pecado. Deixei-as todas no avião. Trouxe uma mochila encharcada e dentro, sem meias palavras, os restos de mim mesmo. E imagino deixar em algum lugar o resto, o outro resto. Ficará esta "gente linda" e o que de mim puder ser bonito.
junho 21, 2011
Arrependimento
Temo que o devagar seja tarde demais. Que este cansaço quando me levanto, signifique tarde demais. O dia, longo, primeiro de alguma coisa, seja demasiado tarde. Nesta sonolência, demorada, partida aos bocados, não pedaços, existem as páginas de um livro onde se morre só, de sorriso nuns lábios, escondidos pelo barulho de algum mar e algum penhasco. E nunca um suspiro foi tão, nunca os dedos afagando os olhos magoaram tanto, os ombros pesados e esse galope felino de tantos, deixando-me pregado ao chão, sem ter sido valioso nem merecer nada. Nesse esquecimento, estão arrumadas as desilusões. E ao chamá-las, curvo-me ao seu bom nome.
junho 17, 2011
Ar re-respirado
Deste lado da rua, se este lado da rua tiver um lado digno de ser contado, como se cada lado fosse muito mais que um todo, mesmo sendo todo, mesmo estando dos dois lados, de todos os lados, olhando para demasiados ângulos, tão demasiados que lhe escapa o essencial, como se a essência fosse exclusivo de algum lado, e o outro, orfão, ali restasse, vazio, sentindo-se numa pequenez alcalina, sentado nesse chão que se suja todo o dia, se o dia amanhecer escurecido, cheio de nódoas, gorduroso como só um dia sabe ser, como só um dia carregasse a gordura que este mundo, mais que o outro, acumula e esbanja, passeio a passeio, bairro a bairro, comendo as vidas desmaiadas de quem chega tarde a casa e nunca, nunca consegue chamar casa à sua, ao seu, ao lugar, ao ninho de gravetos partidos que se encolhe para receber um cansaço esfomeado que o cansaço não consegue curar, aqui, deste lado da rua, onde pensei, onde sempre me pareceu não existir a infâmia, seja em que forma for, seja com o rosto ou as mãos sujas, dignas, deste lado da rua, chão de cada conto, de cada lado, mesmo contado e olhado, mesmo sem lado, aqui, neste degrau, com os pés no chão.
Ar
Sustenido, este sentimento que me faz tocar o abissal, ou então uma emoção pausada, sorvida a gulosos temperamentos, todo o resguardo onde me encosto e descanso os braços e as vontades, os quereres e toda a invenção de beijo ainda por decidir. São as tardes das cerejas, o resto dos dias de vinho e rosas, precipitados pela angústia de saber finita a claridade.
junho 15, 2011
Sei que um agora nunca o será sem ti
Sitiado por entre portas pesadíssimas, metal maciço aquecido por reposteiros da mesma cor do vinho que pretendo fluido sobre a tua pele pálida, sofro do enredo de te situar na penumbra e escondida da claridade do dia. Prefiro vender as imaginações em frascos lacados, guardar em gavetas forradas a veludo verde escuro as carícias de uma violência desejada, frutos de polpas que a língua sabe dissolver, movimentos desordenados pintados por gotas escorrendo até ao chão. E nas vontades, nesses beijos contidos e pincelados, existem afagos rugidos e dedos gulosos de marcar os veios de um capricho. São estas as sinopses de realizações mortais mantidas em segredo dentro de caixas de cinzento metal, à espera de serem abertas e projectadas em algum santuário.
junho 11, 2011
Cruzar a perna como refúgio
Lembro-me e insisto nesta condição. Para me situar, uma sede intensa, motivo irreflectido em que dois chocos ao almoço e alguns desajustes de batatas fritas colhidas em travessas alheias, mais duas mastigadas de carne com demasiada gordura, um café aguado e dois copos de água, são peões de xeque mate ainda por definir. E calor. Muito. Prolongado. Para me situar, ainda mais, uma compra tardia de talho aberto a horas de sesta, algumas garrafas de água depois, dois dedos de conversa e um copo trazido à socapa, entre pinceladas de tinta a escorrer da varanda retocada, anúncios de discos a preços de saldo, notícias a metro e duas pedras de gelo. E em tanta situação, uma canção de décadas atrás, repetida em teimosia e saboreada como cerejas. E entre canções e flashes de manhãs amorosas, lembro-me e recolho alguma frescura de minutos dispersos no tempo, muitos para se colarem e de bocadinhos irregulares de papel, refazer uma página que fosse. E lembro-me, das bolachas belgas depois de amolecidas, de uma tarte dominical quando ainda não bebia café, de um sol rumo ao poente quando as tardes demoravam. Lembro-me, quando não havia segunda-feira sem antes o domingo ser domingo. E lembro-me de a dois passos, se responderem perguntas de Reis, de mais dois passos, se aninharem duas gerações e de tão femininas me deixarem inseguro e reconfortado. E de lembrança em lembrança, um motivo de sofá preto, fumo aromático e uma bebida de âmbar, tudo coisas tremendas que os outros comungavam e lhes conferia a paz acomodada de uma tarde sem poente à vista. É destas confrontações que se constrói cada minuto lembrado. Lembro-me, claro.
maio 25, 2011
Olhares
Inocente
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.
maio 21, 2011
Vela
Turvar-te o olhar
como se o coração
perde-se o lugar
e a tranquiliadade
que ainda consegues,
ficasse arrepiada para sempre.
como se o coração
perde-se o lugar
e a tranquiliadade
que ainda consegues,
ficasse arrepiada para sempre.
Nos olhos, o rio
Perdido em nuvens ou algodões de mesmo carisma, exponho-me ao longo de canções e dores epidérmicas que não se renovam só porque sim. São ruas, motivos de conversa, chávenas de café fatais, como se a seguir a alguma coisa viesse algo. As prateleiras deixam-se ao mofo de garrafas esquecidas pelos donos que morreram ou já não saem de casa. Na praça cada vez menos passos. Na viela, a que sobe e desce e naquela esquina tinha aquilo, já não nascem acontecimentos. As coisas pararam. Mantêm-se quietas. Talvez por não se encontrarem onde se procuram. Nesse guarda-fatos, esse que tem alturas de castelo, ainda se guardam caixas verde escuras com veludo dentro. Estão vazias. Nunca o estarão. E os ossos, por muito que se transladem, voltam e dizem coisas de assombrar. Dizem mesmo se já as ouvimos mil vezes. No andar de cima havia um alfaiate, e as luzes ficavam acesas até tarde. De manhã, acendiam-se cedo. Na igreja ouvia-se o relógio aos quartos de hora. E se o nevoeiro chegasse, avisava-se. Descia-se a ruazinha estreita e a cada passo, o cheiro a mar. Morria-se, talvez se nascesse, ouviam-se gargalhadas e coisas sérias, comiam-se frituras de peixe. A seguir aos domingos encontrava-se uma segunda-feira de outra cor. Aconteciam e acontecia eu. E no Natal, havia frio e coisas onde pousava os olhos. Ainda os sinto.
maio 14, 2011
Nunca precisei disto
Já agora, para onde foram todos? O palco ficou vazio e deixaram-me com alguns doces nas mãos. Para onde foram todos? Será que sentem a minha falta? Sentem a falta do palco? Eu estou aqui, no palco vazio, as câmaras ainda funcionam e as luzinhas vermelhas continuam vermelhas. Sinto a falta de mim. Aqui no palco, sozinho, longe de casa, mesmo se for ao virar da esquina. No caminho comprarei cervejas e bolachas de água e sal. Beberei a primeira sentado nos degraus do alpendre. E continuo a saber cantar a canção, aquela que serviu para me expulsarem do paraíso. Continua na minha cabeça, raivosa e terna como um gato. Sentes a minha falta? Não?
Ritmos loucos
Já criei fogos fátuos pelo prazer de encontrar raposas e meninas de caracóis de oiro no mesmíssimo caminho. Sento-me todos os dias na encruzilhado dos quatro caminhos. Um nunca o chamaria caminho, apenas o modo de chegar onde quero. Outro, o da direita, como se só houvesse uma direita, é preferível numa determinada direcção, como se uma evasão obrigasse a sentido único. O terceiro, só me serve, e ao mesmo tempo, não me serve de nada. É a terceira parte de uma lógica de alguns dias do ano, oficial emenda de uma oficiosa ociosidade ou talvez olhos brilhantes em estado puro de ser pessoa. O que sobe, sobe ao céu. É o quarto de brincar da vontade e dos discos guardados para um dia especial, como a espécie de ser hoje possa ser adiada e vertida em gotas num copo de um qualquer elixir que só serve de branqueador. Tantos que, tanta forma oblíqua de chegar ao ponto, esse centro do mundo, a conversa fulcral de um dia de calor onde fútil é o dogma da vida. Deito-me na relva, olho os ramos hesitantes na brisa e descubro que a única hesitação do mundo se guarda no meu coração. E talvez nesta mania de não me sujar de relva.
Ética
Sim. Proponho as premissas de tardes de calor e sombras indicadas por doentes psiquiátricos, aqueles sempre desejosos de desejar, aqueles que oferecem sonhos em troca de um cigarro, como se as ofertas fossem sempre de um só sentido. Conheço-os, bebe com eles, ensinam-me o meu lugar à mesa, acima de todas as coisas, sabem morder e reconhecem o caminho e a estrada quase sempre pela mesma ordem, são humanos, pelo menos mais que os humanos. Sim. vejo-os rondando a minha porta, vestem cores sem paleta perceptível, desconhecem os caminhos dos museus e dos bares de música punk, viajam em primeira classe convencidos dessa superioridade temporária e copos bem lavados. Sim. Não os reconheço das enfermarias nem sequer dos bancos de jardim. Dão-me vontade do próximo gole e da embriaguez na próxima estação ou na estação seguinte. Sim. Frente a frente, de um lado o doente psiquiátrico, são e objectivo, do outro, a mole humana de uma humanidade barrada a código. Sim. Escolho um dos lados. Escolho sempre.
abril 24, 2011
Forever more
Começar assim, nesse tom propositado de demência, onde me desmaias e me reanimas com o corte profundo da tua voz. Prefiro-te num corredor de betão, um túnel abandonado de algum sistema de comboios, desactivado por alguma guerra, onde me premeias com alguns dos teus passos de dança. Puxas-me para o círculo estranho da tua vontade, cada milímetro feito de carícia e arranhões, as faces que se esfregam num remoinho de vontade absurda, o apetite rasgado de um ramo de flores, pétalas mastigadas e cuspidas sobre os ombros nus, o resto de algum vinho escorregando sobre o peito como se cavalos corressem em círculos. Liberto-me de doçuras cobertas de canela e o meu hálito sabe a prolongados efeitos de embriaguez. Digo-o gentilmente, como quem declama uma quadra escrita por uma criança. Sinto-me divino, e digo-o sem honestidades. Essas caricaturas de franqueza não têm lugar sentado neste salão de baile. Só confio em mãos empunhando copos tingidos de escuro, esses rubis que aprenderam a entregar-me o mundo em sorvos banhados em sorrisos. Aprendi com o teu grito final. Aprendi a ser paciente. Espero esse momento para te puxar os cabelos e olhar-te os olhos. E beber-te até ao fim.
abril 19, 2011
Puro
Levanto esse véu, curiosa forma de velar a inocência, protegendo a tua nudez com o meu segredo. Escondo-me nas sombras das aves de rapina que te anseiam cada bocado. Nelas desmaio o vagar de te percorrer. Olho-te a cada centímetro, deixando esse rasto de pulsação na pele alva. Do teu rubor crio dogmas, na esperança divina de me alimentar com a tua alma. Na transparência deste momento toco o sublime ao desejar-te. Um desejo rouco, fruto do animalesco respirar com que te venero. Morro ao suspeitar a plenitude que possuis. Ressuscito cada respirar no teu peito.
A batuta está roída na ponta
Soam tesouras periclitantes num embuste de cinéfila desilusão. Ao piano, veludos precipitam todo o vagar de soirés, fraques roídos pela presença de arquiduques, lama transbordando os copos boémios de fragilidade óbvia. Eu, sentado no banco dos reprováveis, observo tudo com gula. Nos dentes sinto o freio de dias sem refeição, como se de mendigo apenas a fome. E de fome, construo os diagramas da génese. De sede, conheço o meu sangue. Espesso, frutado. Olho, reviro os globos feitos lustres, cedo à patética cor do meu ventre. Obeso me confesso, porque carrego a vida de outrem, feitos reféns os restantes em torno da minha majestade, título efémero, coisa pouca, fiel depositário de uma dinastia fértil e pegajosa, não fosse o meu único antepassado, rastejante e divino. A noite parece ter o fim que merece. Levanto-me numa pantomina sossegada. Componho-me, perfilo-me, marco o passo pelos burgueses, donos do teatro, e saio da li para fora, respirando fundo o meu fedor. A vós a vénia. A mim, a carótida.
Contraponto
Porventura saberás as ruas e os degraus? Quem se senta e em que cansaço resvalam o dia? Os sussurros que uma sede inusitada pode provocar, as certezas presas ao chão, tapadas por vigas enlameadas, passos de sapatos com a pressa de quem sabe a sua morada, dos tolos que acreditam, das eternas curiosidades em becos escuros, sujidades, cortesãs gastas em posição de lótus. Sabias que as esferas e as arestas foram inventadas por imperadores subjugados ao bocejo? Que as noivas e os poetas sofrem do mesmo mal? As sereias continuam o seu sono, embaladas pelos trejeitos subtis de caixas de música com voz humana dentro. Porventura saberás os gemidos nas cadeias? O choro contido de uma cadência? O dia e a vontade de outro dia, senadores disputando o lugar ao altar, velhos de olhar apagado imitando cegos. Sabias a certeza do teu criador? Esse artesão de mãos longas esculpindo cada ruga e desenhando os sorrisos à beira do precipício, cada hora morta puxando-o para a lápide. Sabias o pianista, lavrando e colhendo as tempestades do seu ardor? Suspiras porque entendes o que te digo, e em cada suspiro, nesse mesmo suspiro, as histórias, as curas, são gavetas de mundos redondos. Os mesmos que à noite, da janela do teu quarto, riem e troçam por depois da noite haver sempre manhã.
Fuga
Conheço este motivo
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.
abril 04, 2011
abril 03, 2011
Dúvida existencial
Lembro-me de tudo. Dos saltos, da cadeira girar alguns segundos a mais após a saída, o compor da saia com quatro dedos, a hesitação entre esquerda e direita. Lembro-me de pagar a conta e não ter hesitado. Lembro-me de obrigar os meus passos a cadências alheias. Lembrei-me sobretudo de uma canção que nunca pensei gostar. Mas estava sol e afinal gostava. E gostava sobretudo de um certo movimento horizontal antes de cada passo. Senti-me tão fútil que não consegui reprimir o riso. Será isto a felicidade?
abril 01, 2011
Rádio silêncio
Limitar os danos sem ferir qualquer alma cadente, é o aviso que se pode ler à porta da surpresa. O telefone toca e algures um concerto com guitarras e sintetizadores passa pelos desprevenidos. Comprei uma vez num antiquário a vontade de ouvir demos de canções. Descubro-lhes os panos que as tapam, e por baixo dessa fina e crocante placa de caramelo, o creme que me adoça. Ora, tudo o escrito pode não colar, nem ser a guarnição perfeita para o Wellington, mas a baunilha, afinal, casa qualquer manhã de sol. E das outras... As murchas ou as cor de hortelã. Logo, a lógica serve-se em fatias finas, de corte italiano, eu que me prometi pastrami e faltei à promessa. Já o tinha feito com cachorros e hamburguers, e halls art déco, como se as juras fossem cobertas por açúcar finíssimo, o pó de Pirlim Pim Pim dos sentimentos infantis. Longe é uma palavra tão longe, mesmo se em cada aeroporto existam destinos como gomas em compartimentos transparentes. Prefiro as cor de laranja, por essa mesma razão: cor de laranja. Tanto pode ser um pequeno passo para a estrada que termina no fim dela própria, porque sempre lhe conheci vida própria, e aqueles tufos de ervas abanando ao vento, tanto de manhã cedo como ao fim da tarde. Perdi a conta às vezes que chamei este canto perfeito. Sempre convencido que não o era, e por isso mesmo, perfeito. Cheguei a morar ali. Agachado na areia, encolhido de encontro a uma duna. E fui soprado por esse fio de prumo, nunca vertical, que tem filamentos de felicidade. De toalha presa ao pescoço e volante nas mãos, como se adulto fosse a criança para se ser.
março 30, 2011
Agridoce
O homem na lua, sem o ser, sem o parecer, procura a altitude com que se compara aos deuses, esses sim, peões de vigarice levados à potência pela simples atitude de serem uma invenção humana, esses humanos que não acreditam na espécie que se esfuma na selva onde se afundam em lodo cor de rosa. Leio os jornais, as revistas de edição fácil, ouço e regurgito os comentários ininterruptos, as colunas de opinião, as democracias em tempo útil, nas gargalhadas dos que bebem e esperam a assistente para os levar ao confessionário. Sou um sem-abrigo, tenho cama e calor. Sinto-me só, na medida do desejo de prolongar. Sinto frio e tenho as costas doridas. A lua já desapareceu e eu continuo a vê-la e a falar-lhe de amor. Um amor que só eu conheço. E, num paradoxo milenar, não o ofereço a ninguém.
março 27, 2011
Chuva e inverno fora de horas
Tantas letras, palavras inventadas por algum mistério, se mistério fosse a palavra certa para assombro, como se electricidade fosse uma cor e as laranjas apenas barras de arco-íris. A minha voz permanece quieta, sem saber se mudez é opção, por opção se compreender uma ou outra, verbo significar algo a acontecer e as refeições terminarem sempre com o copo de água de toda a chuva que se insistir sentada e absorta, no tempo e na tarde que nunca convergem num relógio por se tratar de uma jóia ou até comida de animal. Lembro-me dos porcos por serem pétalas e o engano, tão comum nestes leitos de água sem sono, de se oferecerem em ramo ou simplesmente serem mastigados. Confundo sempre, sempre por se tratar de algo continuado, riso e sorriso, será por fazerem parte um do outro ou serem, por existirem e serem vistos de noite, complemento como um casamento precisa de duas pessoas, se pessoas forem as que sei ver corar. E no fim, provavelmente por todas as estradas acabarem em algum sítio, no caminho, entre as ervas, por se considerar caminho onde há ervas e assim o abandono também é ponto de passagem, há um que. Que se mexe e se torce, entalado na garganta ou atravessado na abertura de um muro, seja escama ou animal empalhado, um que, que entope e encrava e se atravessa pois vive na configuração de ponte e alívio. Tudo, se a lista estiver inteira, se move ou mantém-se imóvel, pela simples, talvez nem sempre, lógica, quero dizer razão, de eu saber olhar, mesmo se não souber o que estou a ver.
março 26, 2011
Relevo debaixo dos lençóis
Conheces o espaço que te encolhe, aquele canto de gaveta longo enquanto esse escorregar entre traves e esquadrias, caprichos de carpintaria onde o artesão é afinal letrado e único barómetro de realeza, tão real é o seu pecado, essa soberba de lentas lascas, violência suprema de mão certa e dogma enrugado. Sei que me reconheces, a mim o inútil, esse violador de lágrimas alheias, o primeiro na fila a sugar o instante de quem o teve. Alimento-me do roubo, abano as barras do que é a prisão que me contém. De cela em cela, perdoo-me estirado em lençóis escuros, luxúria de sorriso apertado com um cinto de cabedal antigo, odorífico o bastante para me aceitar o castigo. Encho-me de dor escondida debaixo de qualquer sofá de inquietação, forrado a vinho. Conheço-te na face que reflectes no copo. Sei que és tu. Reconheço-te mais do que te conheço. E basta o paradoxo para proferir as certezas, pelo menos deste mundo. Gritavas sempre que te pegava ao colo, talvez por tresandar a solidão. Porque me torturo todas as noites antes de engolir o sono? Maturo cada sonho e descasco-o com vagares de Verão. Preferes ver-me de longe, com o choro nas palmas das mãos? Serás assim tão perfeita? Serás uma? Serei um? Serei, sequer?
Lábios cor de...
Os estranhos habitam a meu lado, dentro de mim, no rebordo doa lábios que utilizo para os beijos. Não sei beijar, desconheço intenção e técnica artesanal. Sei algo de artista, apenas no segurar do copo e ver o vinho escorregar lentamente pelo vidro. Nem o rubi me atrevo a avaliar. Aceno com amizade ternurenta todos os ph ferozes e flácidos. Juram-me amor eterno e subjugam a paixão, mesmo se demorar um momento. Nada será devagar. Prometo. Será que ainda sei jurar?
março 13, 2011
Eles erguem as nossas cidades
Construir, constituir, levar o alto até nada ser mais alto, proteger, reciclar. Preferir, atingir, sonhar em democracia, alimentar os ismos e em janelas panorâmicas ousar e ficar sentados à espera de algo acontecer. Motivar, receber, obedecer às traves mestras e conhecer todos os ângulos e arestas. Prever, emudecer, testar as moléculas e todo o adn que se puder agarrar. Idealizar, ver o futuro pelo telescópio, crivar de balas, vender a alma, apodrecer, saborear ostras e finas lamelas de pato lacado. Convencer, rezar, tornar papisas todas as maternas formas de vida. O erro humano julga-se uno e dogmático. Porquê arremessá-lo à parede? Existe o risco dele não escorregar.
Bordel
Violência velada nessa voz de fatalismo e meias pretas de rede, enquanto os machos se perfilam para a pose inicial. Dissimulado, não pertenço a qualquer tribo, vagueio nos territórios dessas feras motivando os ódios que me seringam energia. Tenho os caninos gastos, a lua já não me conhece, o preto que vesti tornou-se amarelado. Porém, o brilho nos meus olhos mantém-se o do primeiro dia. Vivi no século errado. Sei-o desde sempre.
A face de outro recém nascido
Parto para o amor, para esse fulgor de ser vivo, mais do que estar. Agito este meu corpo cansado à cadência desse poder no escuro, onde ser cru é manter vigilância. Não importam as pausas, convertem-nos à divindade que descobrimos em becos pintados de negro. Hesitamos entre o grito e o berro. E essa dúvida por respeito ao momento. Essa criminosa gota de água que só se bebe uma vez.
Dia seguinte, manhã atingida pelos filamentos fundidos da noite que a antecede. Cada dia é decidir o seguinte. Se, seguinte. Tudo parece mais pequeno, menos formal porque aqui também existem beijos e abraços. Uma chávena de chá frio, o pão que alguém deixou por um encolher de ombros, a medida de subtrair o credo, a lembrança de uma casa algures, um céu diferente de cinzento. E nesse mais, ou algum, o poder efémero de se ter alguma carícia.
Indiferente, fecho a porta deste destroço, desço as escadas destruídas por anos de inércia e junto à entrada esqueço-me de todo o antes.
Dia seguinte, manhã atingida pelos filamentos fundidos da noite que a antecede. Cada dia é decidir o seguinte. Se, seguinte. Tudo parece mais pequeno, menos formal porque aqui também existem beijos e abraços. Uma chávena de chá frio, o pão que alguém deixou por um encolher de ombros, a medida de subtrair o credo, a lembrança de uma casa algures, um céu diferente de cinzento. E nesse mais, ou algum, o poder efémero de se ter alguma carícia.
Indiferente, fecho a porta deste destroço, desço as escadas destruídas por anos de inércia e junto à entrada esqueço-me de todo o antes.
Ética
Já. No fim de todas as vielas vazias de desgraça, garrafas desgarradas por todos os chãos que pisei e preferi aos lençóis e cobertores do albergue. Gritei, por ti e por todos os que vi perder a razão, asfixiados em tudo o que é longe e alto. Cometi crimes, reneguei um passado que decidi reescrever, saltei por cima de bancos de jardim, apenas para fugir à velhice. E não paro, não me sei vencido, persigo as palavras das canções, escrevendo-lhes sempre um verso mais. E no arrepio, no vento que me molha a cara, cultivo esta pretensa alienação. Para estar vivo no momento em que declarem morto.
Por tanta fé que encontrei
Recebi um encanto adivinhando o jardim e o labirinto, entardecer sereno de todos os mansos que herdaram a terra, a de alguém, a que ficou perdida em ruínas de falta de querer, lonjuras desses lugares pios onde se altiva o saber, orando a horas certas, quando certa é a ceia e mais nenhum nenúfar. Nessas pedras onde se repousa a penitência, já ecoaram queixumes e cordas de pescoços vincados. Já existiram dias e noites, hábitos e pachos de medronho, olhos piedosos de soslaio nas torres da indiferença. Os peregrinos sabiam o meu nome, o meu bordão, conheciam os brindes que fazia noite alta, a quem ofendi e os hereges que queimaram em meu nome. Viram-me abandonar o poiso, e de longe acenaram-me para que me voltasse e retribuísse. Nunca o fiz. Preferi perder-me nos trilhos que me levam ao mar.
março 12, 2011
Antes de outra coisa qualquer
O amor espera-me
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.
Profecia
Mais e sobre-humano
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.
O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.
O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.
O amarelo será sol para sempre
Tudo em vagas de todo
surgindo ao longo dessa rua estreita
vago relance do mar acabado
repousando nesse recanto
onde nessa escadaria
respaldo a espera.
Já não é hora de véus
nem os fantasmas
se querem em formas de ar
porque as razões
e as atitudes férreas
não se vestem de cores naturais.
Restam os motins
a crença falível
de abrir caminho a golpes de espada.
Sobram os motivos
as árvores pingando
os remoinhos sacrificando sereias.
E do fundo desse mar revolto
encerram-se torres de menagem
por todos os cavalos
que a rainha hesitou tomar.
surgindo ao longo dessa rua estreita
vago relance do mar acabado
repousando nesse recanto
onde nessa escadaria
respaldo a espera.
Já não é hora de véus
nem os fantasmas
se querem em formas de ar
porque as razões
e as atitudes férreas
não se vestem de cores naturais.
Restam os motins
a crença falível
de abrir caminho a golpes de espada.
Sobram os motivos
as árvores pingando
os remoinhos sacrificando sereias.
E do fundo desse mar revolto
encerram-se torres de menagem
por todos os cavalos
que a rainha hesitou tomar.
A verdadeira primeira vez
Delicado em torno dessa romã e beringelas que adoçam os sentidos, esses demónios de freio nos dentes replicando a norma e o amor por coisas acima da ideia. À deriva com os olhos em forma de ouvido, o fato de explorador sobre as gotas de suor, o jerrycan de gasolina ondulando de octanas fartas enquanto o senhor de fato caqui abana notas de banco na esperança de conseguir alguma atenção. São sujas as guerras de diamantes e as do amor. Revelam o ínfimo como se o quilate servisse para alguma coisa. As areias do deserto ocultam os odores e os corpos perdidos em batalha, danos colaterais que nunca o são realmente, pela angústia, pelo remorso e nessa mentira chamada adorno. Tudo parece complicado, enredado em fios de cobre e beijos furtivos. E todas as canções deste lado do mundo falam de crianças dormindo com anjos. E nessas palavras, todo o segredo do lado de cá da duna.
Estuque
Sei todas as coisas que o prazer pensa. Sei por uma noite quase manhã, à beira dessa ponte de salto fácil, junto a tais candeeiros dourados, culpa sombria ao alumiar assassinos e poetas. Sei ignorar os sinos quando me chamam para a culpa. E sei se a vergonha me atrasa os passos, ou quando a porta de fecha antes da minha estocada. Sei em cada possessivo meu, em cada mentirosa minha, todos os filamentos que fragilizam cada dia. E sei todas as orações e todas as blasfémias, talvez por se lerem na mesma página. E tarde, já tarde, percebo então o limite e o acolhimento desse sorriso roubado. Tão tarde que as razões já se encontrarão exangues.
A primeira hora é sagrada
Ao longo dos meus ombros que se escondem da noite, ordeno aos meus dedos que se apressem. Temo a resignação, o poder da biologia ou desse espírito mortal que se empenha em fechar portas e recusar as asas da discórdia. Fora do silêncio existem oscilações, o perigo morno dos compassos, os veludos revelando a pele alva do pecado. Por dever a desses demónios sento-me ao piano, derrubo os castiçais e mergulho no copo de vinho como se a minha morte fosse requisito. São passos e vestes longas roçando o chão, são as concubinas de todos os cardeais devorando cada página onde escondo poesia. E nesse imóvel cárcere de ametistas, reconheço o meu carrasco. Acena de longe com um lenço rendado, cioso de cada gemido e entretido na gula do meu sangue. Devo-lhe a vida e por isso, ironia das ironias, limpo-lhe os sapatos e cuspo, para lhe avivar o brilho.
Tudo por uma visão do outro mundo
Dias aqui, em tons turquesa, em polvorosa por todo o encantamento e desencantamento de todos os dias sem desgoverno, dias onde se procuram pepitas e mesas de café onde se esquecem o relógio e o clima, onde o velho se encontra humano e limpo de inquietação. Todos os velhos e as crianças são levados por criminosos de gravata escurecida pelo esquecimento. Ou então por não se lembrarem de terem nascido. Não se lembrarão de ser velhos, por culpa de uma velha mãe que não os soube afogar no rio à beira da próxima curva. Dias de rapina, processos onde pássaros tentam explicar que sabem voar. Os descalços metem-se a caminho, há sempre um fim de terra algures, um fim de estrada rumo a uma costa onde o passo em falso não merece perjúrio nem cicuta, onde os pecados os levam o vento. Todos os comboios, todas as chávenas de chá, todos os poetas e vendidos se mascaram, há divindades em todas as janelas, das varandas jazem enforcados e cambraias, curiosa encarnação de recém nascidos, onde cada cordão umbilical é nó de pescador e certeza de penitência. Dias de espanto, de vinho e rosas, dias de axioma por não se conhecerem as variáveis. Na cozinha preparam-se manjares nunca vistos. Serão paladares improváveis, mais cordiais que uma abadessa fiel. Serão dias de fartura, cornucópias pejadas de antigas formas de ver o dia. Será o dia da reconquista. E se morrerem multidões, comeremos croissants às varandas, atulhados de açucares e banha, o bastante para pregarmos a bem-aventurança. Dias aqui, à força de chicote, ao bater o coração terno de uma donzela.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
