março 04, 2013

Paradoxo



A gabardine solta-se da minha pele e alonga-se nas enchurradas que tenho de sentir, encharcando cada polígono do ser enquanto o espírito teimosamente se mantém enchuto. Venero as cidades, as quilométricas avenidas entre norte e sul, as luzes que sabem conceber galáxias, as pessoas arrumadas em caixas com janelas, as que se sentam ao balcão esperando a chávena fumegante ou apenas olhares que fogem, expectantes, tímidos na sua vergonha de encarnar a desonra. Gosto do fumo que esculpe cenários no meu interior, das silhuetas fugindo de si mesmas enquanto correm a abrigar-se. Entendo observar estes mundos como se fosse nomeado curador do emaranhado de ruas e corações que batem. Quando a chuva me desenha caminhos na face, deixo correr essas lágrimas do céu, adivinhando escolherem-me a pele como santuário. A certeza assalta-me nessas noites. Eu resisto, como se a vida dependesse de dúvidas e hipóteses. Depende sim, uma hera que sobe pelo tempo acima, sem se importar com o que se passa à sua volta.

fevereiro 21, 2013

Sapatos de atacadores e meias de costura



Apoiei as mãos na mesa, as duas, com as palmas sentindo a madeira algo rugosa, como alguém que pretende um salto felino sem sair do mesmo lugar. Tamborilei os dedos numa impaciência fugidia, aquele estado de paciência esgotada que dura apenas alguns segundos. Peguei no copo e bebi com generosidade. Sou generoso... Foi então que me lembrei de cruzar prazeres. Meti a mão no bolso, sentindo a caixa quadrada. Tirei, abri e escolhi com a soberba habitual. Acendi e puxei o fumo com vontade. O fumo envolveu-me e pediu-me outro gole. Obedeci. Estava nesse duelo de delícias, quando ela se aproximou. Apoiou-se nas costas da cadeira, ainda vaga - Estou a pensar se lhe consigo dizer o que me provocam as cigarrilhas. - Sorriu e senti-a controlar os músculos dos ombros - Mais logo... - Acrescentou de mansinho.

fevereiro 19, 2013

Planos inclinados



Nas ruas, sujeitos páram e olham mesas de restaurante vazias. Sem ímpeto, olham apenas, um apenas que demora o regresso a casa. Certos dessa demora, encostam-se a uma parede qualquer e deixam de ser sujeitos. Permanecem vazios, mas são agora, eleitos. Pertencem uns aos outros, uma legião sem lanças ou insígnias. Esperam ordens de conquista, prebendas futuras, céus mais azuis que estes dias cinzentos. Espreitam as esquinas, como se profetas corressem ao seu silêncio. Nas sobrancelhas desalinhadas mostram a sua alma desenhada a carvão e cinza. Nas mãos, cigarros e rugas como palavra-passe. Nos olhos, nesses olhos profundos e assustados, a resignação ou a necessidade de vítimas. Tudo depende da hora do dia.

fevereiro 17, 2013

Estático



Quando sozinho é cor e janela aberta,
evito debruçar-me sobre o meu caso,
como se a prevenção fosse beijo,
como se todos os poetas se sentassem da mesma forma,
pés assentes num chão de madeira
pensamentos pesados,
estéreis,
repetidos a compasso
na musicalidade de todas as revoluções,
na quietude dos heróis
quando acenam das varandas em ruínas
perigando as verdadeiras vítimas
e seus gemidos.

Sentado,
absorvido em posses e frases escritas,
ouço passar na rua o que existe
e vale a pena.

Já tarde
depois da noite calar a vida,
recordo em vez de viver,
como se tudo o que aconteceu
fossem apenas contos.

Começos sem fins à vista



Sem os passos que me levem,
sem os encontros que me façam olhar as horas,
sem a sede que obrigue a procura,
sem o demónio que me faça fugir,
sem a história que me conte,
sem a vontade de outro lugar,
demoro-me na silhueta que o candeeiro me desenhe
fiel à paixão que ainda sinto
a que pertenço
quando o que
for mais uma desculpa
para permanecer
em vez de ser.

Walker com a Lafayette



Chuto a lata, fazendo rebolar o que permanece inanimado. Nesse beco, palco de misérias e reanimações, amontoa-se o lixo de gerações, como se os tesouros perdessem o valor apenas por não desaparecerem. Nas paredes altas, desenho sem pincel os amores e as tragédias que não chegaram a gregas. Imagino esperar todos os dias, à mesma hora, encostado ao mesmo monte ferrugento de entulho. Imagino uma espera romântica, sobrevivente, emoldurada a dourado envelhecido. Imagino dias sem conta, camisa sempre branca, colete de fantasia, sapatos de atacadores encerados. Relógio de corda oferecido com pompa por algum avô, recortes de revistas imortalizando chegadas e partidas. Acordado pelo silêncio fabricado, usual forma das cidades mostrarem o seu tédio, enterro as mãos nos bolsos, esfrego a ponta do sapato no pó e estico o passo para outro sítio qualquer, onde o silêncio não me toque, e a multidão me faça esquecer quem sou.

Calle Juarez



Agora são 10 horas em algum lugar. Prometem-se amores e desfazem-se malas. Da varanda vê-se a estação e o rebuliço de domingo. Em algum lugar existe esse domingo. Demorado e breve como só um domingo. Poeirento e brilhante, debaixo de um enorme guarda-sol, adiando o gole na cerveja só para que saiba a pérolas. Com a ilusão de ser invisível, paro junto aos rostos suados e olho-lhes os olhos, procurando-lhes a alma. Sôfrego, percorro toda a rua, agitando o soalheiro que deve manter-se sossegado. Envergonhado, deixo-me ficar como uma porta ou uma coluna. Não tenho o direito de ser egoísta. Não pertenço aqui. Ou devo dizer, ali. Eis a cruel realidade dos sentimentos, quer se escondam ou não.

fevereiro 06, 2013

Vidraças e madeiras



Por todas as marés, as matinais que trazem os tufos dobrados pelas brisas, existem janelas de esquadria branca de onde se fazem as romessas. Nos dias de temporal, são as janelas de onde se dizem as orações e os amores impossíveis. Quando as noites trazem luares, das janelas, tecem-se uivos de carícias algo ternas. De madrugada, cotovelos assentes nas janelas, revolvem-se pensamentos que só existem durante o sono alheio. Quando soalheiras as tardes, as janelas aquecem ao sol do aconchego. E nos Invernos húmidos e prolongados, são as janelas os olhos da alma. Das almas.

Único acto



Subtraio e fico adicto. Movo-me e crio as inibições de uma raíz. Flutuo e precipito. Continuo. Prevejo um longo, maduro. Prefiro o pretérito, sulcando e uivando pedidos de entendimento. Renovo ao entender sugestões. Refiro-me aos ocultos, às faixas escondidas, às entradas de cavernas tapadas por lixo. Aponto os escroques e as damas de companhia. Fulmino toda a forma de governação, apenas pela necessidade de pessoas, esses grãos maçadores. Ao primeiro vento, sento-me no chão e saboreio a poeira. As portas e as janelas abandonadas aplaudem o palco. Mesmo se o estrado for raso.

janeiro 29, 2013

Interlúdio

Pela ventura de um ser absorto
recolho restos de bandeiras
frangalhos adoçicados
espessos como o sangue seco
nobres ventanias encharcadas
como viver tenebroso
fosse a vontade de um divino
como um nascimento
tivesse a forca do destino.

janeiro 27, 2013

Cinzento cor de rebentação



Conheço-te de antes, de um pergaminho com cheiro de matiné, de um volteio onde se nada e se perde, chuva torrencial que marca a areia como ferro em brasa. Perdoo-te, sei que um dia me esperaste, um dia só, vestida nesses folhos que te decidiam a palidez enquanto eu, amordaçado, recitava papéis de pele macia e sabores de laranja e baunilha. Depois rodopiava, ou pensava que era capaz. Quando anoitecia, passo depois de passo, encaminhava o isolamento para um quarto onde a porta não fechava. Adormecia com algum frio. O que restava.

Ninando Johnny



Johnny deixou os ténis à porta de casa e correu rua abaixo, ciente da bicicleta sem travões. Conhecia todos os cantos da fábrica, alargando os horizontes à medida que o cheiro a mar lhe enchia os pulmões. A meio da pequena passagem entre o jardim e a mansão das velhas, olhou para cima e não encontrou o azul que procurava. Era noite. As luzes faiscaram, electrificando-lhe partes da alma que julgava desligadas. Subiu a rua da juke-box, ouvindo o matraquear das bolas de bilhar. Eram os sons do seu berço, um dedilhar de ancas e cabelos nem por isso sedosos, onde cada sorriso se obtia com um beijo no pescoço. Johnny procurou nas lembranças e na caixa onde jazem as recordações. Vasculhou os lados ocultos da sua lua. Encontrou-se à espera. À sua espera.

Impressões de um buscador de emoções



A garagem fechada, as luzes acesas do tablier, a sucessão de espécies em extinção, segredo guardado ou partículas de desilusão cobertas de chocolate amargo. Na dita penumbra, precipitação de algum linguista onde letras demasiadas sustêm o perigo de desmoronamento, amontoam-se ideias como caixotes. Comparando um excesso com um dizer incómodo, ofereço-me como pasto de sereias e peixe seco. Tenho o cigarro aceso fumegando o passado e no banco de trás, um amor furtivo. Sentado ao volante, com as chaves no bolso, desenrolo as dúvidas de antemão e repito a canção até onde a exaustão não conhece. O beijo, esse, ficou por dizer. Ou sequer, conhecer o sabor.

janeiro 24, 2013

O guarda-livros comprou cigarros



Eu sei que não vou conseguir escrever o que pretendo, como se o uso de um verbo pudesse definir, ser e sentir ao mesmo tempo, essa miragem de emoções perdidas ou apenas deixadas sobre alguma almofada, na crença de voltar e encontrar tudo igual. Por toda a procura feita busca, estão escondidos ratos na cozinha, apreciando o calor e desenhando futuros esconderijos. Faz-me falta uma janela onde consiga ver uma janela de luz trémula e embaciada antes da meia-noite. Sei porque existem porquês que se comem à colher, e existe um quarto onde a porta não fecha completamente, com armários de surpresas nas gavetas e um cobertor esburacado que cheira sempre a aconchego. E porque sei todas estas coisas, não preciso de escrever o que pretendo. Deixo a adivinha ser eu próprio.

Controvérsias



Novelo e dez libras de pimenta. A canela ficou no cais, os carregadores sentados mordiscando gordura de toucinho. Empunham cartas que atiram sem conhecer os naipes. Sentado no muro, um sonhador. Será levado pela maré. Os capatazes vestidos de azul garganta e laranja demónio esperam o almoço. Beberricam cálices de anis. A água pejada de cravinho servirá de digestivo. Como um chá beligerante. Como velhas empunhando ceptros papais. O arlequim confere contentores. As gruas recortam o poente, bafejando o fim da tarde à laia de bouqué. Ao toque da sirene chega o tatuador. Escolhe, esburaca e craveja. Para uns um Rueben. Outros, apenas pão sem sal.

janeiro 20, 2013

Perdões e pecados



Chegar como se um leme fosse bastante. No sol um limite de horizonte pregado na margem, um salto ou um grito, o que te aprouver, nem que seja maldito pois o prazer tem direitos que as coisas mundanas não têm. Por detrás da porta, da janela e do reposteiro, os copos pousados no piano, a penumbra como máquina de escrever, desfiam-se corpos, percorridos como labirintos, sem pedrinhas para marcar caminhos, sentidos únicos de intensa ventriloquia. O chão, pasto de dolências e carícias, recebe o estio. A seiva corre, livre de intentos e caules, presa a colmeias como prisões, ameias onde se deitam as armas e os cansaços. As bocas caladas, dormentes, seguem o recorte de um dia que se deita, e elas, deitadas, deixam-se apagar, suadas.

E se o tempo decidir acabar



Uma hora do meu tempo
como se cada hora fosse de alguém,
como se a demora tivesse regras
e raízes.

No terreiro
ao cheiro de queimadas,
a igreja como muro,
acendo-me o relento em repouso
seguro da terra que será meu corpo,
regado todos os serões
como se o tempo fosse dos avós.

Uma hora ou algo redondo assim,
como se cada hora,
como se a demora,
me tivesse a mim.

dezembro 21, 2012

Hoje não houve meio-dia



Janelas de sentido único - prezado ouvinte, sinta o cheiro da nova estação - janelas alinhadas ou fatias de bolo, vícios à espreita como quem se esconde e olha a silhueta quase desnuda - são horas, o seu tempo chegou e tomou o nosso - estremecendo copas de árvores e entendendo a geometria de varandas onde se suspende a fantasia, o conforto e o desgosto de ser aqui, a alcatifa, o lençol, o dia cinzento e amargo, salpicos de incerteza por não se conhecer o próximo passo. Quase é um dogma. E mesmo assim, embrulham-se tachos de arroz de tomate em jornais, mexem-se saladas com as mãos, enche-se o copo de vinho só a meio e com o cotovelo apoiado na toalha olha-se a rua pela janela, o apetite à espera, as juras de amor no bolso e o cigarro paciente. E assim, como o locutor de rádio afiançava, estamos aqui toda a tarde, como se a tarde fosse uma vida inteira, e o encosto da cadeira, o único amor de uma vida.

dezembro 14, 2012

Um certo meio-dia depois da hora



Certezas do que não existe, essa invenção de peluche recortando as realidades, as que forem e as escondidas, mais aquelas que são em esplendores de lixo e restos de comida dourada, todo um mundo de fantasia onde nos dizem como olhar e dizer. De fora, daqui, olho estas monstruosidades e espero a chuva para mudar de canal. Na janela, as últimas flores habituam-se à penumbra. Lá fora, nos degraus amarelecidos, juntam-se, em repouso, as entidades cuja invisibilidade perturba. Preparo-lhes chá e amêndoas, como todos os semestres. Oferecem-me a indulgência. E eu, grato, cerro os olhos e sinto-lhes a alma, uma, partilhada como uma especiaria. Olho de relance o canal que agora me parece difuso. Apago-o com o pensamento. Já não preciso dele.

dezembro 05, 2012

Deste lado do paraíso

As moedas guardadas e repetidas, os corredores, as circunstâncias, desmaiadas no sentido descendente da incúria. Os elevadores, as portas fechadas e abertas barafustando filamentos, os dedos indicadores espetados na certeza e no vazio. Deste lado as gaivotas falam, salpicam de leve cada manhã, substituem-se aos deuses que dormem. Do outro lado, o sono acordado é hipnose e logro. O cansaço. A promessa do jardim se prolongar até à ponte. A bicicleta sem travões descendo a rua dos encontros. O linho desfiado, essa personagem, meia miragem, encerrada em livros de lombada descomunal onde se arrumam antigamentes. Deste lado, à guarda da poltrona, folheando vagares, as moedas sabem a rebuçados, os corredores parecem passagens secretas e as circunstâncias são apenas atacadores desapertados.