dezembro 12, 2013
Guardam-se as profecias, atadas com cordas de baixo
Os destinos estão escritos em livros de capa amarelecida. Cada passo e cada exclamação jazem em páginas cobertas de uma escrita inclinada, cursiva em tons de obsessão, fechando encruzilhadas e tapando janelas obrigando as portas a permanecer abertas, encaminhando humanos como animais. Entre musgos e ramos torcidos pelo vento, encontram-se lajes com milenares símbolos de revolta, como se os antigos soubessem tornear o inevitável. Talvez o conseguissem. Talvez fossem menos fúteis, ao ponto de saborear cada beijo como se fosse o último. Mantinham-se alerta com os pés nus bem fincados em tufos de erva. Do céu, obtinham favores, conhecendo a morada das estrelas de brilho generoso. E sobre restos de vida, desafiavam o desejo animal, como animais. Aqui, desde este promontório onde me tento e desejo ser antigo, sei da página de um livro de capa amarelecida onde o próximo segundo está escrito. E o outro, o outro e o seguinte. Por isso, não vos maço mais e darei o salto. Ou não, se a caligrafia for legível.
dezembro 10, 2013
Às seis ainda o dia já foi dia
Baixou-se para apanhar aquele algo que lhe faltava. Olhou-o na surpresa de reconhecer, negando a consequência de uma busca, como se os segredos fossem afinal fruto de um esquecimento. Hesitou entre o bolso da gabardine ou a palma da mão, num trajecto quase de procissão. Hesitou como quase sempre em que a decisão navegava entre o fútil e o sistema nervoso arrasado pela espera. Antecipou os pingos de chuva e deixou-se molhar de palma da mão aberta. Assim seria apontado a dedo por incúria e ao mesmo tempo a sua rebeldia ecoaria nas gargalhadas de boca aberta. É o som desse riso que desagua por entre contentores e lixo subatómico. O cenário perfeito para pontapear pesadas portas fechadas e exigir esse copo meio cheio que é a dúvida.
novembro 21, 2013
Os homens máquina ficam melhor de bigode
Depois do primeiro café, olhou o espelho e sentiu a tentação de se benzer, mas era só tentação, uma réstia de sonho e como costume já não se lembrava dos contornos com a clareza desejada. Alisou o cabelo dos lados, naquele monumento a uma arquitectura ultrapassada, mas que gostava de preservar. Passou três dedos pelas bandas do casaco, amaciando entretelas imaginárias, verificou o bigode e sorriu aos trejeitos que a sua rotina fora de horas obrigava. Acendeu o primeiro cigarro ainda antes de fechar a porta. Quis dizer qualquer coisa alto mas desistiu na redundância de estar só. Desceu os degraus em ritmo de mambo, beijou a mão da porteira, derretida aos seus avanços de instante, mergulhou na rua barulhenta e decidiu-se pelo labirinto de ruelas do bairro 56. Contou duas avenidas, uma praça imensa e 4 ruas até lá chegar. Não há dúvida que metódico era o seu nome do meio. Estendeu o braço, virou o pulso para si e nas teclas dissimuladas na pele, teclou o destino. Porque não tinha tempo a perder...
setembro 09, 2013
Fatiando o orvalho
Dentro dessa gaveta, os novelos estão calados, misturando as cores com o mesmo empenho que se escondem dos visitantes inesperados. Tardam em construir um céu onde caibam, prolongando a dúvida de quanto medem ou que espaço ocupam. Como um areal, adiam contar todos os grãos de areia, pois a repetição mata e mói. E ainda assim, alimentam-se dela, e nela depositam os seus ovos e esperanças. Da outra margem, a que vêm ao longe ao princípio da manhã e antes da tarde cair, recolhem a imaginação de nunca lá chegar, como se a linha do horizonte não fosse feita de açucar. Lembram-se e repetem a lembrança, como se cada fio de recordação ficasse preso na porta enferrujada. Mordem pêssegos e molham a lã com os pingos de calor. E deixam-se ficar, enrolados, sem forma, na espera proverbial da nova madrugada, uma que lave e arraste o restolho, na purificação magnânime das certezas.
setembro 02, 2013
Aquela esquina desbotou o céu anil
A caneta, como as cartas, envergonham-me cada minuto, desfazendo a serenidade que anseio, aqui sentado, disforme por dentro e com os dentes amarelos de décadas. Descobri hoje que sou de carne e osso, mortal como todos e aprazado como quem preza cada dia, mesmo na consequência de ser o último. Já não escolho as palavras, deixei-me purista. Abraço agora a condição de medíocre como se amanuense não fosse um pretérito. Nas canções de outros, e porque sou incapaz de escrever as minhas, descubro cada centímetro de mim. Suspiro lentamente e respiro, quase transpiração, as horas enterradas pela fuligem dos ponteiros, lápides e degraus, passeios fora da agenda e cafés vazios depois do almoço. Aceito com solenidade a esquina onde uma velhinha vendia tremoços e pevides aos domingos, gente sem passar segunda vez, como a batota num jogo com um só jogador. No regresso, fechada a gaveta das mangas curtas, rebolavamos na garagem escurecida ou adormecíamos nas escadas do museu, certos que existiamos sem nós. na praia deserta avistava-se no mar a chuva que não tardava, e encharcava-me na doce carícia da transgressão. Faz-me falta purificar na areia molhada e sentir que amanhã, é apenas um quadrado de calendário que me trará o outra vez. Antes, muito antes de descobrir, que o calendário pode desprender-se da parede.
História completa da humanidade em fragmentos de volume
Somos vários,
agimos, perpendiculares,
existindo na essência de um não acontecimento.
Aos remorsos
chamamos vírgulas,
protegemos o imenso, guardado debaixo das unhas.
Reis e reinos
vegetam sob a nossa demora,
as violências desmoronam a capacidade de acreditar.
Traça-se uma ideia,
a perfeição,
medida e pesada como mercadoria.
Eis a nossa história,
bifurcada em ameias e pactos solares.
Seremos vários,
quando se acordarem os adormecidos.
agimos, perpendiculares,
existindo na essência de um não acontecimento.
Aos remorsos
chamamos vírgulas,
protegemos o imenso, guardado debaixo das unhas.
Reis e reinos
vegetam sob a nossa demora,
as violências desmoronam a capacidade de acreditar.
Traça-se uma ideia,
a perfeição,
medida e pesada como mercadoria.
Eis a nossa história,
bifurcada em ameias e pactos solares.
Seremos vários,
quando se acordarem os adormecidos.
agosto 05, 2013
Diário de bordo, número 50
Os macacos dirigem-se ao veio indicado na fórmula e confirmado pelo memorando, afinal as regras e as determinações estão afixadas no quadro junto à cantina. Descem-se as escadas em compasso. Cada cadeira, cada tabuleiro, 6 cavidades e a música referenciada de multi-qualquer coisa. Pedem-se rodelas e algo mais sem querer ou vontade de terminar. Olha-se o tecto numa oração morna e circular. Cada cadeira, cada par de mãos juntas apoiadas em formica branca, estímulos guardados nas gavetas etiquetadas, sonolência em tons de cinzento difundida por todos os altifalantes. Não me lembro se alguma vez vi alguma porta por aqui. Coço o focinho com a mão peluda e tento sorrir. Não me lembro como.
agosto 01, 2013
Adorno em praia e pêssegos
Ao suceder,
reflectem-se os humores e os caminhos das lendas,
momentos reais afinal
adornados com orvalhos e morangos.
Ao estar,
multiplicam-se caminhos e paredes em ruínas,
os passos miraculosos
da fadiga e do sorriso.
Ao amar,
vêm-se fantasmas e a cor dos ventos,
os beijos vivem para sempre
e na ternura de um arrebatamento
todos os nadas são intentos,
como se a copa das árvores
fosse um aconchego.
reflectem-se os humores e os caminhos das lendas,
momentos reais afinal
adornados com orvalhos e morangos.
Ao estar,
multiplicam-se caminhos e paredes em ruínas,
os passos miraculosos
da fadiga e do sorriso.
Ao amar,
vêm-se fantasmas e a cor dos ventos,
os beijos vivem para sempre
e na ternura de um arrebatamento
todos os nadas são intentos,
como se a copa das árvores
fosse um aconchego.
julho 26, 2013
Precipitando
Refeita e repleta, revolves a areia antecipando o teu andar ao sol.
Sumarenta, privada, particular na cadência e no despertar, reiventas a maneira de dizer bom dia e permaneces dia durante a noite.
Nocturna, revelas o segredo de ser, enlevo de imprevisto e inesperado com sabor a frutos do bosque.
Solar, alimentas o sorvo de uma sede esfomeada, colher de prata remexendo o meu círculo, mesmo desenhado sem compasso.
Sumarenta, privada, particular na cadência e no despertar, reiventas a maneira de dizer bom dia e permaneces dia durante a noite.
Nocturna, revelas o segredo de ser, enlevo de imprevisto e inesperado com sabor a frutos do bosque.
Solar, alimentas o sorvo de uma sede esfomeada, colher de prata remexendo o meu círculo, mesmo desenhado sem compasso.
julho 24, 2013
Couraça e feno
A fúria dos calmos e das pétalas
em resguardos de cidadelas em chamas,
pernoita no agacho e bem quieto
frondosamente podridos e rasgados.
Do serão
apenas a discordia,
vereda descoberta na latada,
quando a mó se cala encoberta.
Na mão
o copo enformado,
disforme no vidro de mau trabalho.
Nos dedos
a virtude e a mudança,
velhice, pessimismo e aventurança.
em resguardos de cidadelas em chamas,
pernoita no agacho e bem quieto
frondosamente podridos e rasgados.
Do serão
apenas a discordia,
vereda descoberta na latada,
quando a mó se cala encoberta.
Na mão
o copo enformado,
disforme no vidro de mau trabalho.
Nos dedos
a virtude e a mudança,
velhice, pessimismo e aventurança.
julho 23, 2013
E se acordar durante o sono?

No segredo
na dúvida de uma chuva de Verão
na correria em círculo rumo ao pensamento
como as flores e os silêncios
na ânsia do desenho que o beijo sulca a areia.
E se o sono me visitar
pegajoso e quando se insinua
pergunta-me os passos trocados da dúvida
realejo afinado pelo caruncho
a parte da minha alma que se vê
em suaves perigos veniais.
De repente
julho 01, 2013
Quarto 222, por favor
Havia algo de liceal, como de definitivo. E se a espera era quieta e morna, o desespero agarrava a roupa da cama ameaçando a palidez. Sempre imaginei a doçura de um quarto de hotel, entrecortada pelo desvario incontrolável de uma profunda decepção. Tudo por uma violenta emoção, mesmo se terminasse em carícia ou num fulminante disparo.
junho 27, 2013
junho 19, 2013
8 minutos mais 5
Estou em casa. Descalço as linhas rectas, centro o olhar em perpendiculares traçadas a olho, como se a justificação caísse no chão e ali ficasse. Aqui estou em casa. Inteiro e sem submissões. Perverso, clerical e em pleno road movie, saltando de estrada em estrada, guloso de moteis desenhados em negativo onde se assombra e se é engolido. Apetece-me suspirar fundo como não seria capaz, apetece-me chorar, estender os braços ao longo dos ombros, fechar os olhos e gritar como um carnívoro. Alguém inventou o tempo e eu preciso de tempo. Obrigo-me por esse alguém, odioso por me escravizar e para onde estendo a mão, pedindo-lhe do seu veneno. Olho para cima e os muros dos palácios à beira do canal, estão ainda lá. As ruas ora pejadas, ora vazias só com as copas das árvores zunindo, estão ainda lá. O rio, a ponte, a esquina, o prédio, estão ainda lá. Eu, sentado num comboio, resvalando na superfície, percorro todas as arestas, sejam bares de sushi ou casas de chá. E rendi-me ao café, por não me importar, ora aí está. Recuso largar os vícios e todas as noites, depois dos candeeiros comporem o seu halo, procuro à janela a janela iluminada do quase 1º andar. Já não a encontro, mesmo se nunca a tenha perdido.
junho 17, 2013
Armários e roupa espalhada por todo o lado
Na curiosidade de ver quem se deita no chapéu do lado, antecipam-se os desejos mastigados pela manhã de areia clara e sol encoberto. Existe uma brisa que só o calor sabe. Os olhos semicerram, as ondas são apenas ondulação e o mar tem aquele aspecto denso que só o petróleo. Os dedos sulcam à procura de justificações, perigos que os amores alheios insinuam como anzóis. O incómodo está lá por inteiro, a visão de um destino sem partida também, e as ideias, atabalhoadas, respiram as ilusões próprias de um confuso estado de inquietação. A palavra adulto viaja ainda longe, da mesma forma que a imaturidade é um trunfo. A ambição só existe até fora de pé, onde cada coisa simples é a mais complicada do mundo. Uma expressão, uma só, define todo o mundo que aqui se conhece. Acho que os "amores de Verão" sabem do que falo.
junho 12, 2013
Perdido no fundo do mar
Preciso desse teu passo
Esse perigo de queda, onde se perdem inocências
Maiores que as aldeias mimadas pela geada.
Construo o banco de jardim
Onde te quero deitada,
Perfilada ao Outono, à chuva dos meus dedos
Ventos fugazes sentindo o sinuoso do teu cheiro.
Venero esse candeeiro de rua,
Halo espraiado sobre ti, feito degrau ou altar,
Cálice carnal que me ordena o trago
Num excesso temente
Ou orgulho desmesurado.
Não te quero rima
Nem medida, nem sequer alma final.
Exijo o etéreo, o fugaz,
A eterna fantasmagoria.
E sempre que disser fim
Que a espada me decepe,
Faça-se justiça.
Alguma divindade recolherá meu coração.
Esse perigo de queda, onde se perdem inocências
Maiores que as aldeias mimadas pela geada.
Construo o banco de jardim
Onde te quero deitada,
Perfilada ao Outono, à chuva dos meus dedos
Ventos fugazes sentindo o sinuoso do teu cheiro.
Venero esse candeeiro de rua,
Halo espraiado sobre ti, feito degrau ou altar,
Cálice carnal que me ordena o trago
Num excesso temente
Ou orgulho desmesurado.
Não te quero rima
Nem medida, nem sequer alma final.
Exijo o etéreo, o fugaz,
A eterna fantasmagoria.
E sempre que disser fim
Que a espada me decepe,
Faça-se justiça.
Alguma divindade recolherá meu coração.
junho 08, 2013
Em violência
Confrontação pelo interior de um vasto início incómodo, aqueles momentos desconcertantes, como se as urtigas viajassem ao colo. Dói-me. Prevejo as decências harmonizando a chuva miudinha, perdidos na praça vasta de catedrais impossíveis, torres desmaiando ao longo do caótico cheiro a fumo. As correntes libertaram os pulsos e a espera terminou, como se houvesse muito a dizer. Os dedos correm e choram virtuosos sobre a pele curtida de virgens invisíveis. A viagem, o pouso de aves de migração, a lauta refeição irremediavelmente fria, a ferida, o pau e o olho morto e azul. Na avenida, o rosto ilumina-se e as janelas enchem-se de emotivos restos de sentimentos. Sinto muito, nas quantidades habituais para esta época. E nos porquês, rebentam fogos de artifício rendados à mão. Nunca o belo gerou tantos esgares.
maio 23, 2013
Lamento
Suspirar o peso do centro da praça, nas paredes como altares da catedral, um coração roído pelas culpas dos séculos que não chegaram a passar. Fervendo, o sangue dimensiona a tontura, vilã prendada de sonoros sobressaltos perigando o sentido de gravidade. Nos olhos, o levedar de uma carícia que uma era de antes não compartilhou. Das janelas fechadas com o peso do proibido, descobrem-se fios de uma espera de toda a noite, talvez uns dedos delicados suavizando arminho, porventura um cálice esquecido de aroma contagiante. Uma chuva miudinha enternece a palidez dos passos imóveis e das mãos caídas em desuso. Passos que se recusam a sê-lo, apenas no desejo de estar, torpor carmélico de uma devoção. No fim da noite, levadas as folhas encharcadas pelo remoínho da madrugada, o corpo será de pedra, nesse aviso colérico de ogre. Por amor se oferece a carne, e por amor, se assume a imortalidade.
(ao som de Abandoned Toys)
(ao som de Abandoned Toys)
maio 13, 2013
Axioma ou antibiótico
Pinceladas em todo o preto e branco, as garrafas abertas sem fecho, a pressa de alguma coisa que saiba a adrenalina, subindo as escadas e revolvendo os lençóis ou algo que os substitua. Os olhos sem ser azuis ou avelã, o livro aberto marcado por um cigarro e nas escadas de incêndio o encontro a dois ou sómente um. E se um for demais, engendram-se forças que provoquem a chuva numa dança ridícula e incapaz, o que se julga parecer poesia ou um minuto de arte, jogo de esferas descendo o relvado em direcção ao rio. Deitado, procuro o rumor do peixe e da estrada até ao oceano. Conheces esta história? Consegues comover-te?
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