maio 14, 2014
Nos poetas guardam-se os cuidados
Adivinhar o que perturba, como se cada halo fosse de água, manhã dentro, manhã fora, salpicos de certezas fugindo à casual indiferença de cada passo de rua, silhuetas esbatidas nas montras e os telhados observando as histórias como se as fossem contar ao serão. Protejo a ousadia e pela espada enfrentaria a anónima forma de julgar, os olhos que espreitam a partida e não a compreendem, mesmo se a verdade se estampe nos rostos. A estação coberta de escuro ainda alberga os últimos fios de sussurro e intenção. Serão os últimos pelo tempo que se esfumar depois da partida. E depois, mesmo depois de desaparecer na primeira curva, fica sentada no banco mais afastado da porta, a vontade de chorar. Deixo-a lá, assim saberei onde a encontrar.
abril 28, 2014
Testamento
Sigo na vertigem de todos os passados que me sulcaram a pele. Não reconheço as rugas nem os risos abafados que o guarda-fatos esconde, olho por entre as lâminas de bruma e vejo ao longe o barco que me assombra os domingos, desta vez quieto, então saltitante e de brilho no costado. Quero dominar o que me lembro, manter as memórias debaixo da língua, vestir-me de recordações e atirar-me ao mar como quem se deita num sarcófago. Quero continuar a boiar, ser submissão em berço de ondas, passar os dedos na água e encontrar o fio de prumo na horizontal. Por quereres impossíveis, estou agora sentado num banco de jardim, muito direito de costas em espaldar, na atenção de uma borboleta ou fazendo-me tronco de árvore. Olho em frente evadindo todo o periférico que me pertence. Sinto na essência de me esquecer dos cinco sentidos. Sou apenas o que a pele me transmite. A que me cobre a vergonha e o amor. Levanto o olhar e espero a chuva. A eterna forma de me cobrir de pureza e ao mesmo tempo, encharcado, repetir as luxúrias ternas do meu esquecimento. Aos primeiros pingos, fecho os olhos e deixo-me trespassar. Já não sou eu. Não conheço em que me tornei. Ou se, ainda existo.
abril 16, 2014
Quieto
Enquanto o dia se senta e conta histórias sem ninguém para as ouvir, as multidões, porque existem muitas na medida de cada solitário deseja outro solitário, enfrentam a fatalidade do caminho carregando a culpa a tiracolo porque é mais fácil de largar. Ao longe, o rio saboreia o seu reinado, absoluto num leito onde não conjuga, ferido no seu egoísmo e imune na antecipação da foz. Um barco ou um cadáver a boiar são o mesmo divagar nesse correr manso onde cada um, multidão ou náufrago, entende como espera e usa como moeda de troca. Uma cadeira, uma absolvição, um mito deitado num altar, apodrecendo à medida que o dia se levanta e se deita, depois de olhar a margem deserta.
abril 15, 2014
Aviso amarelo
Nesse lugar da mente onde se guardam os segredos escuros, aqueles que saem de noite quando a escuridão se despe e a terra esfria sem se mostrar morna ou arrependida, existe uma gaveta onde os papéis têm cor própria e as letras compõem as frases indispensáveis para serem outros os destinatários das minhas cartas. É um pormenor sem importância, como o papel esquecido na gaveta, porque há outros papéis e outras gavetas, longe, inacessíveis, perdidas na pressa de ninguém e no vagar dos apressados que não conhecem a pressa, a que magoa ou a que molda o desespero dos assassinos. Após uma pausa há um porém, na certeza ou no porquê de serem os pormenores os remos da vida ou as velas do mundo, mesmo se redondo, mesmo sem forma definida ou definição construída sem conclusões. Nas gavetas, os pormenores misturam-se com todas as quinquilharias que se vão guardando. E quando damos por isso, um pormenor é apenas uma quinquilharia.
Deixei a esperança no bengaleiro
Submerso e mesmo assim, liberto de constrangimentos nesse ideal de louros e transfusões de sangue, como se fosse açucar ou moeda de troca na ansiedade de melhor ou talvez fugie de um sem abrigo, por lembrar o caminho ou o fim dele, muro tapando o ângulo de visão e o salto que alcança a pedra tumular ou o jardim do outro lado da vida de alguém. Os espelhos ferem como as janelas que antecipam varandas onde se expõe o tronco seminu da atracção obrigatória. Fazes-me cair, esperar a rebentação sobre o meu frágil escalpe, remar a areia até onde ninguém me vê e só tu, que sabes o caminho de volta, e talvez te tenhas esquecido. Sobrevoo a multidão enquanto deitado no passeio, tarde que se ri e as horas passando rente às montras. O logro e a calçada fria sob o meu corpo, mesmo se nem importa que se tenha corpo. Um dia, uma altura presa em algum telhado, roçava o sobretudo pelo chão, apertava os atacadores dos sapatos herdados e julgava esse telhado como planeta. Sempre soube do meu erro.
abril 10, 2014
Da oração sómente os calibres

Brutalidades sem fim à vista, blocos de intenções regados a sumo de lilases, a verdade cortada como vítima e os corpos caindo de qualquer céu perdido na planície, bem no cimo da virtude ou quieto inferno sentado ao sol esperando a bonança passar. Ver é amor sem vogais, apenas um ronronar onde amigo é insecto e incesto e todo o chocolate que cobrir o oceano Índico, aquele resto de maré que molha os degraus do templo, bem a tempo da última pira incendiar e esculpir o pôr do sol. Não quero conhecer as divindades, bastam-me os pecadores acocorados numa oração pedindo impossíveis em forma de preciosidades indiferentes. O tempo ordena a divisão, e a vida, parca unidade de troca, dissolve-se em ponteiros e foge do relógio.
abril 04, 2014
Licantropia piedosa
Enquanto os lobos bebem as últimas chuvas da manhã, regressam os rumores de multidões desaparecidas, pegadas que deixam de existir, nomes sem chamamento na mudez da ignorância. No topo da colina ainda se erguem as colunas da passagem, porta ou altar não se sabe, os fiapos e as manchas de sangue seco não respondem e a dúvida já percorre o chão em forma de ervas daninhas. Como fiéis, os lobos olham o céu buscando a neve final, sinal divino do caminho repetido da mudança. Nós, os que escrevemos humanos, deitados e ocultos sob pedras descomunais, somos afinal de quatro patas, óbvia encarnação de algo antigo que se jura antes de entender.
abril 01, 2014
Despertares antes do sono

Sorvos em regatos deixados no seu sítio, como se o esquecimento fosse um mapa rabiscado. Não te peço horas nem metades de dia, apenas que esperes por mim, sem pausas, com o tempo como margem e o leito feito testemunha. No saber que se encarna em mim, sei as águas e as chuvas como videntes do meu quieto estar. Guardam-me a palidez dos invernos que respiram pelo meus poros. Passam por detrás dos meus olhos um adro de igreja, barcos submersos de remos flutuantes, folhas orvalhadas escudando os muros desbotados das traseiras onde o fio de luz da oficina de alfaiate enfrenta o tarde e o cedo. Na quietude tecem-se os linhos do coração. E mesmo sem te olhar, sem entender a tua falta ou o teu nome apagado, regresso ao limiar dos portões enferrujados que sabem ser a espera uma forma de cura. A cura onde os males repousam e sorriem como se fossem doces.
março 28, 2014
Os jurados já decidiram?
A sentença foi pintada a cores, encontradas a monte num éden de entulho e brilho, na verdade um dejecto de corte fino mutilado a golpes de indiferença. O tempo tem o valor da fruta do fundo do caixote, norma de sentido único repenicada a ósculos de corte cirúrgico. Ao percorrer o longo corredor dos condenados, a palidez dos rostos cheira aos desinfectantes das noites de emigração clandestina rumo ao cintilante dos altares, onde a religião é insonsa ou oculta. As palavras desintegram-se contra os muros altos da indiferença. E são tantos os quilómetros de baldios murados.
março 24, 2014
Espera por nós, João
Numa correria desenfreada pisas o chão de calçada, rua abaixo, vida acima, onde nos procuramos mutuamente, tu a mil à hora, eu nas palavras que escreves e berras, ambos na vontade de dias mais claros e de intenções puras. Gostava de dizer que fazes falta, talvez porque fazes mesmo falta e por não mereceres frases vãs. Gostava de beber aquela cerveja e ouvir a tua gargalhada rouca, pelo menos mais uma vez. Enquanto corres à nossa frente, à minha frente, insisto-me em ouvir-te nas tuas canções, grãos de areia que ao escorregar nunca esvaziarão a palma da mão. Não sei o depois, apenas te imagino braços no ar, punhos cerrados, peito ao vento e cara às balas, porque sei que serás um sempre e um nunca mais. Espera por nós, João, um dia essa cerveja ainda ecoará a tua voz.
março 12, 2014
Sejam e não sejam
Curtas metragens anunciando desastres cuja naturalidade só poderá ser comprovada em dias de sol, ou em livros antigos enterrados em cemitérios de Providence. Com esta premissa, pressinto as margens do Volga assentes num deserto mexicano, como se cada candidato a divindade fosse na realidade um saltimbanco cansado de se enlamear de terra em terra, professando o desejo da decisão ou apenas o de sentir-se enxuto. A dualidade é coisa séria, pertencer ou obliterar, avançar ou regredir até pontos sem retorno, meias medidas que tanto podem significar barris de cereais ao vento como anciãos de cócoras observando a velhice na terra batida. A escolha é indiferente, as direcções partem sempre de cruzes pintadas no chão, o mar, esse cúmplice, estará, como sempre, à espreita e à espera, farol molhado semicerrando os olhos rumo ao areal suspirando pela falésia. Como todas as coisas, se coisa é uma coisa, alinham-se as dúvidas e hipóteses em forma de tempo, faz-se de cada minuto um arrumo e de cada hora uma gaveta, respeitam-se as convenções por razões raramente desenhadas, e todo o papel, gravata ou corte de cabelo é elevado à potência, ruralidade de um número primo, factorizado porque sim. Nas canções, redigem-se as leis do mundo, este em vez de outro qualquer. O retrato da ingerência chamada vida, são as linhas que escrevo, testamento autenticado pela vírgula que todo o estado alterado contém. Nas entrelinhas, escondem-se os arco-íris que desconhecem o ouro, mas antecipam as cabriolas dos planetas. E cada ponto não será final. Os inícios vendem-se em cada esquina, e por cada um, oferece-se a palma da mão.
dezembro 24, 2013
No divino a embriaguez da demora
Tenho-te debaixo da pele, como tantas vezes te senti com a pele gasta dos meus dedos, mesmo se a chuva me lava as imperfeições dos sentidos e me escorre os demónios dos pensamentos, tornando-me limpo à imagem de algo que se inventou e escondeu com medo do que erra e se arrasta pelas paredes imundas dos cemitérios e das fábricas abandonadas, pastos de infâmia e doçura, vislumbres feitos de almas passadas que brilham no escuro. Com o meu isqueiro entrego-lhes o que de solidário tenho no íntimo, ínfimo que ofereço na ilusão de lhes dar a provar o meu sabor e a minha carne. No sorriso, o que de humano me resta, há restos dessa poção que os antigos chamavam amor. E dos antigos admito uma lenda, existem deuses. Eles aqui estão, sentados pesadamente enquanto trocam olhares e hálitos. Eu, no meio da tempestade, olho-os com a deferência da tradição e a altivez da rebeldia, ciente e esquecido da condição de ser um deles.
Mikhail morreu
Sim Mikhail, compreendes agora? Afinal o calibre é mais duradouro. E custa menos manter a culatra limpa que uma mão cheia de arroz. Compreendes a vantagem? Os olhos brilhantes sentados na poltrona, contando os zeros na soma final e as baixas na coluna ao lado. Tão democrático, varrer silhuetas sem nome e sem preferência, ligados uns aos outros porque apenas estavam ali. Porque as mãos erradas podem pagar. E as mãos limpas estão sujas de procurar no lixo a mão cheia de arroz. Sim Mikhail, compreendes agora? O porquê de um bicho do mato se lembra de te ter, chapeado a ouro, num capricho de senhor e a realidade de menino? A arte de eliminar como quem deseja um sonho ou pinta um anjo. Não sofres com o frio nem com o calor. És um sem-abrigo ideal, imune às intempéries e às flutuações dos mercados, indiferente à água tal como ela falta às crianças, ignoras a areia tal como ela encolhe os ombros ao sangue quente que a molha. Sim Mikhail, compreendes agora porque gostam tantos e tão poucos de ti? Tantos que não sonham que tão poucos ganham o que eles desconhecem, mesmo de dedo em riste e coração enegrecido. Sim Mikhail, compreendes agora o teu erro?
dezembro 19, 2013
Um, dois, nada
O poder de chamar as coisas pelos nomes que lhes são devidos, é a exaltação de todos os pequenos nadas que permanecem quietos até ao estrondo do trovão. Das janelas avistam-se as vidas dos outros, enormes como paquidermes lentos e saciados, na certeza de amanhã chegar sem sobressalto ou aviso amarelo. As cores são etiquetadas por decreto, o mesmo que determina quotas na arte de existir. Nas paredes e nos postes de electricidade, faltam os cartazes onde se anuncia o desaparecimento de animais sem estimação, as pessoas, elas mesmas, que antes tinham o direito a contribuir e hoje são códigos de barra desactualizados, mas que sei eu... Um pedinte que se recorda de punks de negro descendo a rua em correria, pontapeando montras e pára-choques de carros estacionados, sob um céu cinzento de chuva adiada e ao ritmo de estranguladores e campaínhas. As mesas sob a luz de néons lilazes e o cheiro de ketchup gasto e mostarda seca, onde eram grandes as manias com a grandeza que o coração ordenava. As gargalhadas desvaneceram e pelo chão ficaram os guardanapos de papel rabiscados a rumos e destinos. Ainda lá devem estar. E aqui, esmurrando a parede com restos de transistores e pontos de solda, espero a última hora com o esmero dos degolados.
dezembro 18, 2013
Houve uma época
Um pensamento é uma teimosia que a pele agarra e esmaga contra os poros. Dessa teimosia retira-se a fatia, sempre a mesma, que ano para ano matura como se marinada em fel adocicado, mel quebradiço sujeito ao engano e à ocasião. Roído, o pensamento vai ganhando fiapos, a eterna razão para se manter inteiro, banhado por um sangue espesso que o renova como uma respiração onde a boca desmaia a cada sopro. E cada passo, cada medida de passeio que se pisa, deixa-lhe marcas indeléveis, preço de uma raiva contida alimentada a iguarias que amargam algum sol escondido.
dezembro 17, 2013
Cruel
Sinto-me perdido nesta extensão de nada, sufocado por uma praia que se deixou raptar em vez dos teus braços me agarrarem e me obrigares a olhar esse teu lado que insisto em ver como monumento e obra litúrgica. Preso nesta camisa de forças, coberto pela cinza que cai do meu capricho, enfrento todos os corredores e pontapeio as portas fechadas procurando pornografias alheias onde me possa enroscar e encontrar abrigo silencioso. Abro a carta pela enésima vez, e de todas as vezes não sei ler. Os hábitos, perdi-os no campo de batalha, onde as rotinas sangram e o gibão despedaçado deixa ver o peito imaculado. Cobardias decerto, essas migalhas que satisfazem a fome aos cinzentos e arrancam gargalhadas aos invisíveis que se alimentam de ouro colhido sobre as barrigas inchadas dos mortos de fome. Eu não vi estas atrocidades. Em vez disso, rebusquei as gavetas dos tesouros menores convencido de riquezas que saciassem o meu egoísmo. Como um ovo, almejei a perfeição que só encontrei em botões de punho desadequados. Na tradição, descobri a ordem do universo. Um projecto de universo, onde as galáxias se discutiam em programas de televisão. Olhei as estrelas e sorri com um leve escárnio de mim próprio. Era incapaz de saber o que eram estrelas. Olhei em volta, para os corpos nus copulando desenfreadamente entre o suor das aves de rapina, deitei-me lentamente e adormeci. Que a crueldade me assombrasse o sono e os dedos sentissem a vertigem.
dezembro 13, 2013
Diário sem virgindade nem amor
Algum prisma ou forma geométrica dos infernos seria ideal para explicar as notas fora de tom, que me servem de capa de super-herói e ao longe, desenham a silhueta de escarpa ou edifício nocturno de luzes em labirinto. Como um sem-abrigo encadeado pelos faróis da desistência, tapo-me com cartões de êxitos populares e escondo-me por trás de um tapume de glória e glamour, como se cada rasgão do meu traje fosse cortado com intenção e ciência. Depois bastava colar os restos com fita adesiva castanha e tracejar a camisa branca das grandes ocasiões com essa pedra-pomes do desenrascanço. No céu, sobram poucos aviões e à chuva os táxis não são amarelos o suficiente. Em cada beata saboreio o charuto que deixei no porta-luvas e sem espelhos conheço cada centímetro da minha face. Estes sinais, nada mais que isso, revelam a inconsistência como dogma, berço de uma religião que não abraço por me sentir virginal em mais cantos que o mundo pode dispôr. As calendas, escritas de véspera, assinaram o veridicto com nenhuma pompa e toda a circunstância que se puder encontrar nos manuais. Assim, vencerão os já vitoriosos, num uivo final de satisfação animal, que os próprios animais desdenham. Quando a meia-noite for alta, puxarei o corbertor imundo para os ombros, deixando os pés destapados, frios e inertes nas botas da obrigação.
dezembro 12, 2013
Guardam-se as profecias, atadas com cordas de baixo
Os destinos estão escritos em livros de capa amarelecida. Cada passo e cada exclamação jazem em páginas cobertas de uma escrita inclinada, cursiva em tons de obsessão, fechando encruzilhadas e tapando janelas obrigando as portas a permanecer abertas, encaminhando humanos como animais. Entre musgos e ramos torcidos pelo vento, encontram-se lajes com milenares símbolos de revolta, como se os antigos soubessem tornear o inevitável. Talvez o conseguissem. Talvez fossem menos fúteis, ao ponto de saborear cada beijo como se fosse o último. Mantinham-se alerta com os pés nus bem fincados em tufos de erva. Do céu, obtinham favores, conhecendo a morada das estrelas de brilho generoso. E sobre restos de vida, desafiavam o desejo animal, como animais. Aqui, desde este promontório onde me tento e desejo ser antigo, sei da página de um livro de capa amarelecida onde o próximo segundo está escrito. E o outro, o outro e o seguinte. Por isso, não vos maço mais e darei o salto. Ou não, se a caligrafia for legível.
dezembro 10, 2013
Às seis ainda o dia já foi dia
Baixou-se para apanhar aquele algo que lhe faltava. Olhou-o na surpresa de reconhecer, negando a consequência de uma busca, como se os segredos fossem afinal fruto de um esquecimento. Hesitou entre o bolso da gabardine ou a palma da mão, num trajecto quase de procissão. Hesitou como quase sempre em que a decisão navegava entre o fútil e o sistema nervoso arrasado pela espera. Antecipou os pingos de chuva e deixou-se molhar de palma da mão aberta. Assim seria apontado a dedo por incúria e ao mesmo tempo a sua rebeldia ecoaria nas gargalhadas de boca aberta. É o som desse riso que desagua por entre contentores e lixo subatómico. O cenário perfeito para pontapear pesadas portas fechadas e exigir esse copo meio cheio que é a dúvida.
novembro 21, 2013
Os homens máquina ficam melhor de bigode
Depois do primeiro café, olhou o espelho e sentiu a tentação de se benzer, mas era só tentação, uma réstia de sonho e como costume já não se lembrava dos contornos com a clareza desejada. Alisou o cabelo dos lados, naquele monumento a uma arquitectura ultrapassada, mas que gostava de preservar. Passou três dedos pelas bandas do casaco, amaciando entretelas imaginárias, verificou o bigode e sorriu aos trejeitos que a sua rotina fora de horas obrigava. Acendeu o primeiro cigarro ainda antes de fechar a porta. Quis dizer qualquer coisa alto mas desistiu na redundância de estar só. Desceu os degraus em ritmo de mambo, beijou a mão da porteira, derretida aos seus avanços de instante, mergulhou na rua barulhenta e decidiu-se pelo labirinto de ruelas do bairro 56. Contou duas avenidas, uma praça imensa e 4 ruas até lá chegar. Não há dúvida que metódico era o seu nome do meio. Estendeu o braço, virou o pulso para si e nas teclas dissimuladas na pele, teclou o destino. Porque não tinha tempo a perder...
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