junho 04, 2014

O outro lado, a mesma face


Estranho as hesitações que abrem as portas aos vampiros. Imagino que as promessas não entrem apenas pela caixa de correio, ou a cor do sangue não pode ser imaginada, nem o seu sabor ou a visão do que está por acontecer. Mas sei contar essas histórias. Conheço-as sem precisar de as viver, pois picam-me a pele ao pousar sobre a minha atenção. E sem acontecer, têm algo do corpo que a penumbra deixa adivinhar. Sei o seu contorno, visto-me da sua silhueta e comungo estados de tristeza e euforia no mesmo instante que respiro a sua intoxicação. E deixar-me-ia trespassar se pudesse ser em vez de sentir, se contrariasse as premissas e fosse o que não posso conseguir. Ser dois e apenas um. Como um conto de crianças, segredado através de uma porta. Entreaberta.

maio 30, 2014

Antes que o anoitecer seja outro algo


Chove dentro de mim, como se monções prolongassem as veias e enchessem as margens que me impedem de cair. Flutuando o desequilíbrio, julgaria misérias como misericórdias e começava um enorme soneto sem compreender o que significa melodia ou intenção. Por um caminho de ervas submersas e lírios altos, deixar-me-ia guiar por alguma estrela como se os astros soubessem o meu naufrágio. Então, a chuva dentro dos meus olhos aprenderia que o fragor não resulta da altura da onda ou da força da maré. E a tormenta saberia cadenciar o relâmpago pelo bater do meu coração.

No espelho vivem mentirosos e bajuladores


Insisto na geometria que me oblíqua na vontade e no torpor, razões fartas para me desvanecer e reassemblar de seguida, como se nada fosse, nem os caminhos rumassem a luzes ou aos potes de ouro marcados na íris. Movo-me em trajectos pequenos, medo de assumir as vontades ou apenas o peso da carapaça que me provoca arrastos e vómitos, agora que me vejo zoológico e refém de público e parafernálias que não são mais que documentos fora do cofre. Abro a janela da minha cela, olho para o chão, longínquo desta altura de céus, e entendo que ao mergulhar reviverei a sensação de atravessar a onda e saber onde está o outro lado. Na teoria dos restantes sábios, e de alguns ignorantes, conseguirei somente desfigurar o que já é monstruoso.

maio 22, 2014

Houston, nós somos o problema


Pontos cardeais e direcções sem dogma, cadeiras alinhadas e carreiros de gente em modo centopeia, vírgulas porque se quer perigar por decreto enquanto os becos se enchem e a semântica ocupa o lugar do alimento. As ruas transbordam de uma futilidade pegajosa, o espontâneo tem agora raízes e em cada floresta os troncos são amordaçados com medo. Nas prateleiras não faltam fatias de carne e em cada embalagem de manteiga reside o aconchego do moderno. As divindades perderam as teclas e o indicador procura incessantemente a redenção vestida de insatisfação. O suficiente e o demasiado foram despejados e os arrendatários são agora os donos.

maio 15, 2014

No sofrimento, até que a minha decisão nos separe


Cada campânula no lugar de cada chefe de estado, o anfiteatro repleto, assassinos, silhuetas esboçando sorrisos, sempre a ocasião acima de suspeitas, braços de punho fácil, seja na mesa ou no decreto, indicadores genéticos e percentagens em pasta de papel como se algo fosse terminar hoje. Em cada lugar, correntes e cadeados como conforto. O burburinho é audível enquanto controlo um semáforo algures no México. Três vítimas, antes do meio dia. Pronto para a videoconferência, apago o cigarro na parede acrescentando arte à sujidade. Sorrio para a câmara enquanto determino o abate da terceira fila a partir de baixo. Gosto de me sentir bem...

maio 14, 2014

A praia desapareceu


Nesse momento, a onda tomou-lhe a mão e levou-a dali. Sabia que as recordações e os lamentos guardados no seu coração, seriam o antídoto para tanto sal. Levaria os remoinhos a vê-la e dir-lhes-ia que era sua, como se uma mentira em alto mar fosse inofensiva. Enfeitaria os cabelos com quantas estrelas pudesse apanhar, rompendo as constelações num logro que só seria visto por olhos ágeis e moribundos. Quando o vento se escondesse, dançaria valsas e arrastaria a cauda do vestido de algas como se o salão fosse uma maré. Por ciúme, arrastaria o braço inerte até ao fundo, onde os luares não encontram as almas. E num estremunho de amor, daqueles verdadeiros que só as histórias contam, correu sem fôlego e pousou-a na areia, com a luz do farol varrendo a carícia, uma gota de sal sobre a face adormecida, sinal indelével de que a paixão pode apenas ser.

Nos poetas guardam-se os cuidados


Adivinhar o que perturba, como se cada halo fosse de água, manhã dentro, manhã fora, salpicos de certezas fugindo à casual indiferença de cada passo de rua, silhuetas esbatidas nas montras e os telhados observando as histórias como se as fossem contar ao serão. Protejo a ousadia e pela espada enfrentaria a anónima forma de julgar, os olhos que espreitam a partida e não a compreendem, mesmo se a verdade se estampe nos rostos. A estação coberta de escuro ainda alberga os últimos fios de sussurro e intenção. Serão os últimos pelo tempo que se esfumar depois da partida. E depois, mesmo depois de desaparecer na primeira curva, fica sentada no banco mais afastado da porta, a vontade de chorar. Deixo-a lá, assim saberei onde a encontrar.

abril 28, 2014

Testamento


Sigo na vertigem de todos os passados que me sulcaram a pele. Não reconheço as rugas nem os risos abafados que o guarda-fatos esconde, olho por entre as lâminas de bruma e vejo ao longe o barco que me assombra os domingos, desta vez quieto, então saltitante e de brilho no costado. Quero dominar o que me lembro, manter as memórias debaixo da língua, vestir-me de recordações e atirar-me ao mar como quem se deita num sarcófago. Quero continuar a boiar, ser submissão em berço de ondas, passar os dedos na água e encontrar o fio de prumo na horizontal. Por quereres impossíveis, estou agora sentado num banco de jardim, muito direito de costas em espaldar, na atenção de uma borboleta ou fazendo-me tronco de árvore. Olho em frente evadindo todo o periférico que me pertence. Sinto na essência de me esquecer dos cinco sentidos. Sou apenas o que a pele me transmite. A que me cobre a vergonha e o amor. Levanto o olhar e espero a chuva. A eterna forma de me cobrir de pureza e ao mesmo tempo, encharcado, repetir as luxúrias ternas do meu esquecimento. Aos primeiros pingos, fecho os olhos e deixo-me trespassar. Já não sou eu. Não conheço em que me tornei. Ou se, ainda existo.

abril 16, 2014

Quieto


Enquanto o dia se senta e conta histórias sem ninguém para as ouvir, as multidões, porque existem muitas na medida de cada solitário deseja outro solitário, enfrentam a fatalidade do caminho carregando a culpa a tiracolo porque é mais fácil de largar. Ao longe, o rio saboreia o seu reinado, absoluto num leito onde não conjuga, ferido no seu egoísmo e imune na antecipação da foz. Um barco ou um cadáver a boiar são o mesmo divagar nesse correr manso onde cada um, multidão ou náufrago, entende como espera e usa como moeda de troca. Uma cadeira, uma absolvição, um mito deitado num altar, apodrecendo à medida que o dia se levanta e se deita, depois de olhar a margem deserta.

abril 15, 2014

Aviso amarelo


Nesse lugar da mente onde se guardam os segredos escuros, aqueles que saem de noite quando a escuridão se despe e a terra esfria sem se mostrar morna ou arrependida, existe uma gaveta onde os papéis têm cor própria e as letras compõem as frases indispensáveis para serem outros os destinatários das minhas cartas. É um pormenor sem importância, como o papel esquecido na gaveta, porque há outros papéis e outras gavetas, longe, inacessíveis, perdidas na pressa de ninguém e no vagar dos apressados que não conhecem a pressa, a que magoa ou a que molda o desespero dos assassinos. Após uma pausa há um porém, na certeza ou no porquê de serem os pormenores os remos da vida ou as velas do mundo, mesmo se redondo, mesmo sem forma definida ou definição construída sem conclusões. Nas gavetas, os pormenores misturam-se com todas as quinquilharias que se vão guardando. E quando damos por isso, um pormenor é apenas uma quinquilharia.

Deixei a esperança no bengaleiro


Submerso e mesmo assim, liberto de constrangimentos nesse ideal de louros e transfusões de sangue, como se fosse açucar ou moeda de troca na ansiedade de melhor ou talvez fugie de um sem abrigo, por lembrar o caminho ou o fim dele, muro tapando o ângulo de visão e o salto que alcança a pedra tumular ou o jardim do outro lado da vida de alguém. Os espelhos ferem como as janelas que antecipam varandas onde se expõe o tronco seminu da atracção obrigatória. Fazes-me cair, esperar a rebentação sobre o meu frágil escalpe, remar a areia até onde ninguém me vê e só tu, que sabes o caminho de volta, e talvez te tenhas esquecido. Sobrevoo a multidão enquanto deitado no passeio, tarde que se ri e as horas passando rente às montras. O logro e a calçada fria sob o meu corpo, mesmo se nem importa que se tenha corpo. Um dia, uma altura presa em algum telhado, roçava o sobretudo pelo chão, apertava os atacadores dos sapatos herdados e julgava esse telhado como planeta. Sempre soube do meu erro.

abril 10, 2014

Da oração sómente os calibres


Brutalidades sem fim à vista, blocos de intenções regados a sumo de lilases, a verdade cortada como vítima e os corpos caindo de qualquer céu perdido na planície, bem no cimo da virtude ou quieto inferno sentado ao sol esperando a bonança passar. Ver é amor sem vogais, apenas um ronronar onde amigo é insecto e incesto e todo o chocolate que cobrir o oceano Índico, aquele resto de maré que molha os degraus do templo, bem a tempo da última pira incendiar e esculpir o pôr do sol. Não quero conhecer as divindades, bastam-me os pecadores acocorados numa oração pedindo impossíveis em forma de preciosidades indiferentes. O tempo ordena a divisão, e a vida, parca unidade de troca, dissolve-se em ponteiros e foge do relógio.

abril 04, 2014

Licantropia piedosa


Enquanto os lobos bebem as últimas chuvas da manhã, regressam os rumores de multidões desaparecidas, pegadas que deixam de existir, nomes sem chamamento na mudez da ignorância. No topo da colina ainda se erguem as colunas da passagem, porta ou altar não se sabe, os fiapos e as manchas de sangue seco não respondem e a dúvida já percorre o chão em forma de ervas daninhas. Como fiéis, os lobos olham o céu buscando a neve final, sinal divino do caminho repetido da mudança. Nós, os que escrevemos humanos, deitados e ocultos sob pedras descomunais, somos afinal de quatro patas, óbvia encarnação de algo antigo que se jura antes de entender.

abril 01, 2014

Despertares antes do sono


Sorvos em regatos deixados no seu sítio, como se o esquecimento fosse um mapa rabiscado. Não te peço horas nem metades de dia, apenas que esperes por mim, sem pausas, com o tempo como margem e o leito feito testemunha. No saber que se encarna em mim, sei as águas e as chuvas como videntes do meu quieto estar. Guardam-me a palidez dos invernos que respiram pelo meus poros. Passam por detrás dos meus olhos um adro de igreja, barcos submersos de remos flutuantes, folhas orvalhadas escudando os muros desbotados das traseiras onde o fio de luz da oficina de alfaiate enfrenta o tarde e o cedo. Na quietude tecem-se os linhos do coração. E mesmo sem te olhar, sem entender a tua falta ou o teu nome apagado, regresso ao limiar dos portões enferrujados que sabem ser a espera uma forma de cura. A cura onde os males repousam e sorriem como se fossem doces.

março 28, 2014

Os jurados já decidiram?


A sentença foi pintada a cores, encontradas a monte num éden de entulho e brilho, na verdade um dejecto de corte fino mutilado a golpes de indiferença. O tempo tem o valor da fruta do fundo do caixote, norma de sentido único repenicada a ósculos de corte cirúrgico. Ao percorrer o longo corredor dos condenados, a palidez dos rostos cheira aos desinfectantes das noites de emigração clandestina rumo ao cintilante dos altares, onde a religião é insonsa ou oculta. As palavras desintegram-se contra os muros altos da indiferença. E são tantos os quilómetros de baldios murados.

março 24, 2014

Espera por nós, João


Numa correria desenfreada pisas o chão de calçada, rua abaixo, vida acima, onde nos procuramos mutuamente, tu a mil à hora, eu nas palavras que escreves e berras, ambos na vontade de dias mais claros e de intenções puras. Gostava de dizer que fazes falta, talvez porque fazes mesmo falta e por não mereceres frases vãs. Gostava de beber aquela cerveja e ouvir a tua gargalhada rouca, pelo menos mais uma vez. Enquanto corres à nossa frente, à minha frente, insisto-me em ouvir-te nas tuas canções, grãos de areia que ao escorregar nunca esvaziarão a palma da mão. Não sei o depois, apenas te imagino braços no ar, punhos cerrados, peito ao vento e cara às balas, porque sei que serás um sempre e um nunca mais. Espera por nós, João, um dia essa cerveja ainda ecoará a tua voz.

março 12, 2014

Sejam e não sejam


Curtas metragens anunciando desastres cuja naturalidade só poderá ser comprovada em dias de sol, ou em livros antigos enterrados em cemitérios de Providence. Com esta premissa, pressinto as margens do Volga assentes num deserto mexicano, como se cada candidato a divindade fosse na realidade um saltimbanco cansado de se enlamear de terra em terra, professando o desejo da decisão ou apenas o de sentir-se enxuto. A dualidade é coisa séria, pertencer ou obliterar, avançar ou regredir até pontos sem retorno, meias medidas que tanto podem significar barris de cereais ao vento como anciãos de cócoras observando a velhice na terra batida. A escolha é indiferente, as direcções partem sempre de cruzes pintadas no chão, o mar, esse cúmplice, estará, como sempre, à espreita e à espera, farol molhado semicerrando os olhos rumo ao areal suspirando pela falésia. Como todas as coisas, se coisa é uma coisa, alinham-se as dúvidas e hipóteses em forma de tempo, faz-se de cada minuto um arrumo e de cada hora uma gaveta, respeitam-se as convenções por razões raramente desenhadas, e todo o papel, gravata ou corte de cabelo é elevado à potência, ruralidade de um número primo, factorizado porque sim. Nas canções, redigem-se as leis do mundo, este em vez de outro qualquer. O retrato da ingerência chamada vida, são as linhas que escrevo, testamento autenticado pela vírgula que todo o estado alterado contém. Nas entrelinhas, escondem-se os arco-íris que desconhecem o ouro, mas antecipam as cabriolas dos planetas. E cada ponto não será final. Os inícios vendem-se em cada esquina, e por cada um, oferece-se a palma da mão.

dezembro 24, 2013

No divino a embriaguez da demora


Tenho-te debaixo da pele, como tantas vezes te senti com a pele gasta dos meus dedos, mesmo se a chuva me lava as imperfeições dos sentidos e me escorre os demónios dos pensamentos, tornando-me limpo à imagem de algo que se inventou e escondeu com medo do que erra e se arrasta pelas paredes imundas dos cemitérios e das fábricas abandonadas, pastos de infâmia e doçura, vislumbres feitos de almas passadas que brilham no escuro. Com o meu isqueiro entrego-lhes o que de solidário tenho no íntimo, ínfimo que ofereço na ilusão de lhes dar a provar o meu sabor e a minha carne. No sorriso, o que de humano me resta, há restos dessa poção que os antigos chamavam amor. E dos antigos admito uma lenda, existem deuses. Eles aqui estão, sentados pesadamente enquanto trocam olhares e hálitos. Eu, no meio da tempestade, olho-os com a deferência da tradição e a altivez da rebeldia, ciente e esquecido da condição de ser um deles.

Mikhail morreu

Sim Mikhail, compreendes agora? Afinal o calibre é mais duradouro. E custa menos manter a culatra limpa que uma mão cheia de arroz. Compreendes a vantagem? Os olhos brilhantes sentados na poltrona, contando os zeros na soma final e as baixas na coluna ao lado. Tão democrático, varrer silhuetas sem nome e sem preferência, ligados uns aos outros porque apenas estavam ali. Porque as mãos erradas podem pagar. E as mãos limpas estão sujas de procurar no lixo a mão cheia de arroz. Sim Mikhail, compreendes agora? O porquê de um bicho do mato se lembra de te ter, chapeado a ouro, num capricho de senhor e a realidade de menino? A arte de eliminar como quem deseja um sonho ou pinta um anjo. Não sofres com o frio nem com o calor. És um sem-abrigo ideal, imune às intempéries e às flutuações dos mercados, indiferente à água tal como ela falta às crianças, ignoras a areia tal como ela encolhe os ombros ao sangue quente que a molha. Sim Mikhail, compreendes agora porque gostam tantos e tão poucos de ti? Tantos que não sonham que tão poucos ganham o que eles desconhecem, mesmo de dedo em riste e coração enegrecido. Sim Mikhail, compreendes agora o teu erro?

dezembro 19, 2013

Um, dois, nada

O poder de chamar as coisas pelos nomes que lhes são devidos, é a exaltação de todos os pequenos nadas que permanecem quietos até ao estrondo do trovão. Das janelas avistam-se as vidas dos outros, enormes como paquidermes lentos e saciados, na certeza de amanhã chegar sem sobressalto ou aviso amarelo. As cores são etiquetadas por decreto, o mesmo que determina quotas na arte de existir. Nas paredes e nos postes de electricidade, faltam os cartazes onde se anuncia o desaparecimento de animais sem estimação, as pessoas, elas mesmas, que antes tinham o direito a contribuir e hoje são códigos de barra desactualizados, mas que sei eu... Um pedinte que se recorda de punks de negro descendo a rua em correria, pontapeando montras e pára-choques de carros estacionados, sob um céu cinzento de chuva adiada e ao ritmo de estranguladores e campaínhas. As mesas sob a luz de néons lilazes e o cheiro de ketchup gasto e mostarda seca, onde eram grandes as manias com a grandeza que o coração ordenava. As gargalhadas desvaneceram e pelo chão ficaram os guardanapos de papel rabiscados a rumos e destinos. Ainda lá devem estar. E aqui, esmurrando a parede com restos de transistores e pontos de solda, espero a última hora com o esmero dos degolados.

dezembro 18, 2013

Houve uma época



Um pensamento é uma teimosia que a pele agarra e esmaga contra os poros. Dessa teimosia retira-se a fatia, sempre a mesma, que ano para ano matura como se marinada em fel adocicado, mel quebradiço sujeito ao engano e à ocasião. Roído, o pensamento vai ganhando fiapos, a eterna razão para se manter inteiro, banhado por um sangue espesso que o renova como uma respiração onde a boca desmaia a cada sopro. E cada passo, cada medida de passeio que se pisa, deixa-lhe marcas indeléveis, preço de uma raiva contida alimentada a iguarias que amargam algum sol escondido.

dezembro 17, 2013

Cruel



Sinto-me perdido nesta extensão de nada, sufocado por uma praia que se deixou raptar em vez dos teus braços me agarrarem e me obrigares a olhar esse teu lado que insisto em ver como monumento e obra litúrgica. Preso nesta camisa de forças, coberto pela cinza que cai do meu capricho, enfrento todos os corredores e pontapeio as portas fechadas procurando pornografias alheias onde me possa enroscar e encontrar abrigo silencioso. Abro a carta pela enésima vez, e de todas as vezes não sei ler. Os hábitos, perdi-os no campo de batalha, onde as rotinas sangram e o gibão despedaçado deixa ver o peito imaculado. Cobardias decerto, essas migalhas que satisfazem a fome aos cinzentos e arrancam gargalhadas aos invisíveis que se alimentam de ouro colhido sobre as barrigas inchadas dos mortos de fome. Eu não vi estas atrocidades. Em vez disso, rebusquei as gavetas dos tesouros menores convencido de riquezas que saciassem o meu egoísmo. Como um ovo, almejei a perfeição que só encontrei em botões de punho desadequados. Na tradição, descobri a ordem do universo. Um projecto de universo, onde as galáxias se discutiam em programas de televisão. Olhei as estrelas e sorri com um leve escárnio de mim próprio. Era incapaz de saber o que eram estrelas. Olhei em volta, para os corpos nus copulando desenfreadamente entre o suor das aves de rapina, deitei-me lentamente e adormeci. Que a crueldade me assombrasse o sono e os dedos sentissem a vertigem.

dezembro 13, 2013

Diário sem virgindade nem amor

Algum prisma ou forma geométrica dos infernos seria ideal para explicar as notas fora de tom, que me servem de capa de super-herói e ao longe, desenham a silhueta de escarpa ou edifício nocturno de luzes em labirinto. Como um sem-abrigo encadeado pelos faróis da desistência, tapo-me com cartões de êxitos populares e escondo-me por trás de um tapume de glória e glamour, como se cada rasgão do meu traje fosse cortado com intenção e ciência. Depois bastava colar os restos com fita adesiva castanha e tracejar a camisa branca das grandes ocasiões com essa pedra-pomes do desenrascanço. No céu, sobram poucos aviões e à chuva os táxis não são amarelos o suficiente. Em cada beata saboreio o charuto que deixei no porta-luvas e sem espelhos conheço cada centímetro da minha face. Estes sinais, nada mais que isso, revelam a inconsistência como dogma, berço de uma religião que não abraço por me sentir virginal em mais cantos que o mundo pode dispôr. As calendas, escritas de véspera, assinaram o veridicto com nenhuma pompa e toda a circunstância que se puder encontrar nos manuais. Assim, vencerão os já vitoriosos, num uivo final de satisfação animal, que os próprios animais desdenham. Quando a meia-noite for alta, puxarei o corbertor imundo para os ombros, deixando os pés destapados, frios e inertes nas botas da obrigação.

dezembro 12, 2013

Guardam-se as profecias, atadas com cordas de baixo

Os destinos estão escritos em livros de capa amarelecida. Cada passo e cada exclamação jazem em páginas cobertas de uma escrita inclinada, cursiva em tons de obsessão, fechando encruzilhadas e tapando janelas obrigando as portas a permanecer abertas, encaminhando humanos como animais. Entre musgos e ramos torcidos pelo vento, encontram-se lajes com milenares símbolos de revolta, como se os antigos soubessem tornear o inevitável. Talvez o conseguissem. Talvez fossem menos fúteis, ao ponto de saborear cada beijo como se fosse o último. Mantinham-se alerta com os pés nus bem fincados em tufos de erva. Do céu, obtinham favores, conhecendo a morada das estrelas de brilho generoso. E sobre restos de vida, desafiavam o desejo animal, como animais. Aqui, desde este promontório onde me tento e desejo ser antigo, sei da página de um livro de capa amarelecida onde o próximo segundo está escrito. E o outro, o outro e o seguinte. Por isso, não vos maço mais e darei o salto. Ou não, se a caligrafia for legível.

dezembro 10, 2013

Às seis ainda o dia já foi dia

Baixou-se para apanhar aquele algo que lhe faltava. Olhou-o na surpresa de reconhecer, negando a consequência de uma busca, como se os segredos fossem afinal fruto de um esquecimento. Hesitou entre o bolso da gabardine ou a palma da mão, num trajecto quase de procissão. Hesitou como quase sempre em que a decisão navegava entre o fútil e o sistema nervoso arrasado pela espera. Antecipou os pingos de chuva e deixou-se molhar de palma da mão aberta. Assim seria apontado a dedo por incúria e ao mesmo tempo a sua rebeldia ecoaria nas gargalhadas de boca aberta. É o som desse riso que desagua por entre contentores e lixo subatómico. O cenário perfeito para pontapear pesadas portas fechadas e exigir esse copo meio cheio que é a dúvida.

novembro 21, 2013

Os homens máquina ficam melhor de bigode

Depois do primeiro café, olhou o espelho e sentiu a tentação de se benzer, mas era só tentação, uma réstia de sonho e como costume já não se lembrava dos contornos com a clareza desejada. Alisou o cabelo dos lados, naquele monumento a uma arquitectura ultrapassada, mas que gostava de preservar. Passou três dedos pelas bandas do casaco, amaciando entretelas imaginárias, verificou o bigode e sorriu aos trejeitos que a sua rotina fora de horas obrigava. Acendeu o primeiro cigarro ainda antes de fechar a porta. Quis dizer qualquer coisa alto mas desistiu na redundância de estar só. Desceu os degraus em ritmo de mambo, beijou a mão da porteira, derretida aos seus avanços de instante, mergulhou na rua barulhenta e decidiu-se pelo labirinto de ruelas do bairro 56. Contou duas avenidas, uma praça imensa e 4 ruas até lá chegar. Não há dúvida que metódico era o seu nome do meio. Estendeu o braço, virou o pulso para si e nas teclas dissimuladas na pele, teclou o destino. Porque não tinha tempo a perder...

setembro 09, 2013

Fatiando o orvalho

Dentro dessa gaveta, os novelos estão calados, misturando as cores com o mesmo empenho que se escondem dos visitantes inesperados. Tardam em construir um céu onde caibam, prolongando a dúvida de quanto medem ou que espaço ocupam. Como um areal, adiam contar todos os grãos de areia, pois a repetição mata e mói. E ainda assim, alimentam-se dela, e nela depositam os seus ovos e esperanças. Da outra margem, a que vêm ao longe ao princípio da manhã e antes da tarde cair, recolhem a imaginação de nunca lá chegar, como se a linha do horizonte não fosse feita de açucar. Lembram-se e repetem a lembrança, como se cada fio de recordação ficasse preso na porta enferrujada. Mordem pêssegos e molham a lã com os pingos de calor. E deixam-se ficar, enrolados, sem forma, na espera proverbial da nova madrugada, uma que lave e arraste o restolho, na purificação magnânime das certezas.

setembro 02, 2013

Aquela esquina desbotou o céu anil

A caneta, como as cartas, envergonham-me cada minuto, desfazendo a serenidade que anseio, aqui sentado, disforme por dentro e com os dentes amarelos de décadas. Descobri hoje que sou de carne e osso, mortal como todos e aprazado como quem preza cada dia, mesmo na consequência de ser o último. Já não escolho as palavras, deixei-me purista. Abraço agora a condição de medíocre como se amanuense não fosse um pretérito. Nas canções de outros, e porque sou incapaz de escrever as minhas, descubro cada centímetro de mim. Suspiro lentamente e respiro, quase transpiração, as horas enterradas pela fuligem dos ponteiros, lápides e degraus, passeios fora da agenda e cafés vazios depois do almoço. Aceito com solenidade a esquina onde uma velhinha vendia tremoços e pevides aos domingos, gente sem passar segunda vez, como a batota num jogo com um só jogador. No regresso, fechada a gaveta das mangas curtas, rebolavamos na garagem escurecida ou adormecíamos nas escadas do museu, certos que existiamos sem nós. na praia deserta avistava-se no mar a chuva que não tardava, e encharcava-me na doce carícia da transgressão. Faz-me falta purificar na areia molhada e sentir que amanhã, é apenas um quadrado de calendário que me trará o outra vez. Antes, muito antes de descobrir, que o calendário pode desprender-se da parede.

História completa da humanidade em fragmentos de volume

Somos vários,
agimos, perpendiculares,
existindo na essência de um não acontecimento.

Aos remorsos
chamamos vírgulas,
protegemos o imenso, guardado debaixo das unhas.

Reis e reinos
vegetam sob a nossa demora,
as violências desmoronam a capacidade de acreditar.

Traça-se uma ideia,
a perfeição,
medida e pesada como mercadoria.

Eis a nossa história,
bifurcada em ameias e pactos solares.

Seremos vários,
quando se acordarem os adormecidos.

agosto 05, 2013

Diário de bordo, número 50

Os macacos dirigem-se ao veio indicado na fórmula e confirmado pelo memorando, afinal as regras e as determinações estão afixadas no quadro junto à cantina. Descem-se as escadas em compasso. Cada cadeira, cada tabuleiro, 6 cavidades e a música referenciada de multi-qualquer coisa. Pedem-se rodelas e algo mais sem querer ou vontade de terminar. Olha-se o tecto numa oração morna e circular. Cada cadeira, cada par de mãos juntas apoiadas em formica branca, estímulos guardados nas gavetas etiquetadas, sonolência em tons de cinzento difundida por todos os altifalantes. Não me lembro se alguma vez vi alguma porta por aqui. Coço o focinho com a mão peluda e tento sorrir. Não me lembro como.

agosto 01, 2013

Adorno em praia e pêssegos

Ao suceder,
reflectem-se os humores e os caminhos das lendas,
momentos reais afinal
adornados com orvalhos e morangos.

Ao estar,
multiplicam-se caminhos e paredes em ruínas,
os passos miraculosos
da fadiga e do sorriso.

Ao amar,
vêm-se fantasmas e a cor dos ventos,
os beijos vivem para sempre
e na ternura de um arrebatamento
todos os nadas são intentos,
como se a copa das árvores
fosse um aconchego.

julho 26, 2013

Precipitando

Refeita e repleta, revolves a areia antecipando o teu andar ao sol.

Sumarenta, privada, particular na cadência e no despertar, reiventas a maneira de dizer bom dia e permaneces dia durante a noite.

Nocturna, revelas o segredo de ser, enlevo de imprevisto e inesperado com sabor a frutos do bosque.

Solar, alimentas o sorvo de uma sede esfomeada, colher de prata remexendo o meu círculo, mesmo desenhado sem compasso.

julho 24, 2013

Couraça e feno

A fúria dos calmos e das pétalas
em resguardos de cidadelas em chamas,
pernoita no agacho e bem quieto
frondosamente podridos e rasgados.

Do serão
apenas a discordia,
vereda descoberta na latada,
quando a mó se cala encoberta.

Na mão
o copo enformado,
disforme no vidro de mau trabalho.

Nos dedos
a virtude e a mudança,
velhice, pessimismo e aventurança.

julho 23, 2013

E se acordar durante o sono?


No segredo
na dúvida de uma chuva de Verão
na correria em círculo rumo ao pensamento
como as flores e os silêncios
na ânsia do desenho que o beijo sulca a areia.

E se o sono me visitar
pegajoso e quando se insinua
pergunta-me os passos trocados da dúvida
realejo afinado pelo caruncho
a parte da minha alma que se vê
em suaves perigos veniais.

De repente


Porventura imaginar é lição?
Brilhar ao longo de um cais
ou de um amor,
fervilhando vontades e serenidade,
provocação ou desejo,
cacto doce, esse sobressalto
onde a respiração anseia
e o nó é laço e seda.

julho 01, 2013

Quarto 222, por favor

Havia algo de liceal, como de definitivo. E se a espera era quieta e morna, o desespero agarrava a roupa da cama ameaçando a palidez. Sempre imaginei a doçura de um quarto de hotel, entrecortada pelo desvario incontrolável de uma profunda decepção. Tudo por uma violenta emoção, mesmo se terminasse em carícia ou num fulminante disparo.

junho 27, 2013

Telhados de cristal

Como uma garrafa de champanhe em mil sítios diferentes, também eu me sentia infalível.

junho 19, 2013

8 minutos mais 5

Estou em casa. Descalço as linhas rectas, centro o olhar em perpendiculares traçadas a olho, como se a justificação caísse no chão e ali ficasse. Aqui estou em casa. Inteiro e sem submissões. Perverso, clerical e em pleno road movie, saltando de estrada em estrada, guloso de moteis desenhados em negativo onde se assombra e se é engolido. Apetece-me suspirar fundo como não seria capaz, apetece-me chorar, estender os braços ao longo dos ombros, fechar os olhos e gritar como um carnívoro. Alguém inventou o tempo e eu preciso de tempo. Obrigo-me por esse alguém, odioso por me escravizar e para onde estendo a mão, pedindo-lhe do seu veneno. Olho para cima e os muros dos palácios à beira do canal, estão ainda lá. As ruas ora pejadas, ora vazias só com as copas das árvores zunindo, estão ainda lá. O rio, a ponte, a esquina, o prédio, estão ainda lá. Eu, sentado num comboio, resvalando na superfície, percorro todas as arestas, sejam bares de sushi ou casas de chá. E rendi-me ao café, por não me importar, ora aí está. Recuso largar os vícios e todas as noites, depois dos candeeiros comporem o seu halo, procuro à janela a janela iluminada do quase 1º andar. Já não a encontro, mesmo se nunca a tenha perdido.

junho 17, 2013

Armários e roupa espalhada por todo o lado

Na curiosidade de ver quem se deita no chapéu do lado, antecipam-se os desejos mastigados pela manhã de areia clara e sol encoberto. Existe uma brisa que só o calor sabe. Os olhos semicerram, as ondas são apenas ondulação e o mar tem aquele aspecto denso que só o petróleo. Os dedos sulcam à procura de justificações, perigos que os amores alheios insinuam como anzóis. O incómodo está lá por inteiro, a visão de um destino sem partida também, e as ideias, atabalhoadas, respiram as ilusões próprias de um confuso estado de inquietação. A palavra adulto viaja ainda longe, da mesma forma que a imaturidade é um trunfo. A ambição só existe até fora de pé, onde cada coisa simples é a mais complicada do mundo. Uma expressão, uma só, define todo o mundo que aqui se conhece. Acho que os "amores de Verão" sabem do que falo.

junho 12, 2013

Perdido no fundo do mar

Preciso desse teu passo
Esse perigo de queda, onde se perdem inocências
Maiores que as aldeias mimadas pela geada.

Construo o banco de jardim
Onde te quero deitada,
Perfilada ao Outono, à chuva dos meus dedos
Ventos fugazes sentindo o sinuoso do teu cheiro.

Venero esse candeeiro de rua,
Halo espraiado sobre ti, feito degrau ou altar,
Cálice carnal que me ordena o trago
Num excesso temente
Ou orgulho desmesurado.

Não te quero rima
Nem medida, nem sequer alma final.

Exijo o etéreo, o fugaz,
A eterna fantasmagoria.

E sempre que disser fim
Que a espada me decepe,
Faça-se justiça.

Alguma divindade recolherá meu coração.

junho 08, 2013

Em violência

Confrontação pelo interior de um vasto início incómodo, aqueles momentos desconcertantes, como se as urtigas viajassem ao colo. Dói-me. Prevejo as decências harmonizando a chuva miudinha, perdidos na praça vasta de catedrais impossíveis, torres desmaiando ao longo do caótico cheiro a fumo. As correntes libertaram os pulsos e a espera terminou, como se houvesse muito a dizer. Os dedos correm e choram virtuosos sobre a pele curtida de virgens invisíveis. A viagem, o pouso de aves de migração, a lauta refeição irremediavelmente fria, a ferida, o pau e o olho morto e azul. Na avenida, o rosto ilumina-se e as janelas enchem-se de emotivos restos de sentimentos. Sinto muito, nas quantidades habituais para esta época. E nos porquês, rebentam fogos de artifício rendados à mão. Nunca o belo gerou tantos esgares.

maio 23, 2013

Lamento

Suspirar o peso do centro da praça, nas paredes como altares da catedral, um coração roído pelas culpas dos séculos que não chegaram a passar. Fervendo, o sangue dimensiona a tontura, vilã prendada de sonoros sobressaltos perigando o sentido de gravidade. Nos olhos, o levedar de uma carícia que uma era de antes não compartilhou. Das janelas fechadas com o peso do proibido, descobrem-se fios de uma espera de toda a noite, talvez uns dedos delicados suavizando arminho, porventura um cálice esquecido de aroma contagiante. Uma chuva miudinha enternece a palidez dos passos imóveis e das mãos caídas em desuso. Passos que se recusam a sê-lo, apenas no desejo de estar, torpor carmélico de uma devoção. No fim da noite, levadas as folhas encharcadas pelo remoínho da madrugada, o corpo será de pedra, nesse aviso colérico de ogre. Por amor se oferece a carne, e por amor, se assume a imortalidade.

(ao som de Abandoned Toys)

maio 13, 2013

Axioma ou antibiótico

Pinceladas em todo o preto e branco, as garrafas abertas sem fecho, a pressa de alguma coisa que saiba a adrenalina, subindo as escadas e revolvendo os lençóis ou algo que os substitua. Os olhos sem ser azuis ou avelã, o livro aberto marcado por um cigarro e nas escadas de incêndio o encontro a dois ou sómente um. E se um for demais, engendram-se forças que provoquem a chuva numa dança ridícula e incapaz, o que se julga parecer poesia ou um minuto de arte, jogo de esferas descendo o relvado em direcção ao rio. Deitado, procuro o rumor do peixe e da estrada até ao oceano. Conheces esta história? Consegues comover-te?

abril 21, 2013

Corpete ou colete de forças



Espalhados os papéis e as línguas de sede borbulhante
retomo a constante e míseras migalhas,
proíbo cálices de absinto ou água barrenta
resultados ermos da conquista sangrenta do meu ninho.

Balanço hérculeas decisões
de linhas rectas e horários definidos
como se conhecesse as heras
que deformam o meu corpo.

Tenho a pele salgada
crepitando nos lumes da concórdia,
pastos soberbos e demais liberdades,
as bastantes para tornar um homem
num cumpridor de normas e leis numeradas.

Leio os sinais,
as bulas,
os fermentos alheios que me tentam.

Sou um peixe e um nababo,
cruel e disforme,
dono de suaves incrementos.

abril 09, 2013

O que dizem as estrelas.

Anuncio tardios desvarios, dores pretendendo atenção desmesurada, um caminho de aspas e felizes acasos apalavrando todas as suavidades que caibam num atormentado coração. Gelam as curas e mesmo os desígnios são meras hipóteses sem fundamento. Nos campanários agitam-se as horas, como numa orgia de incenso e mentiras. As meias verdades emcabeçam os tomos, as regras escrevem os índices e os números sentam-se nas cadeiras vazias. O mundo fugiu. Refugiou-se nessas cavernas que as montanhas escondem. Os tempos regressam aos tempos sem tempo. Restam as palavras escritas nos muros. Não por muito tempo. Ou talvez, porque não haverá ninguém para ler.

março 20, 2013

O bilhete vermelho



Parado junto a uma porta qualquer, seja esse restaurante vazio ou o café às escuras, os bolos esperando ser de ontem, o pó de café repousado e silencioso, as cadeiras imóveis, frias depois da multidão desaparecer. Algures na penumbra, cumplicidade de algum candeeiro de rua, tardio como só eles sabem, um jornal esquecido ou um recado onde o amor se recusa. Sossegado, talvez por me sentir acompanhado pelo silêncio das formas e das sombras, permito-me sorrir e engendrar fugas para a frente. A rua desce suavemente debaixo das árvores, precipita-se em algumas dezenas de metros como se fosse a pique, espraindo-se depois até a margem ser de água. Empurro a perna de encontro a parede, nesse gesto de balanço que implica decisão. Não olho para trás onde a curva é esquina. Não me fazem falta emoções de hora e meia. Incito o passo numa cadência que ouvi em algum lado, uma linha de baixo como moínha açucarada, arrepio de sentidos afinados. Encolho os ombros às casas senhoriais com o mesmo desdém desenhado pelos ferros entrançados do imenso mercado antigo, vidas e histórias, rostos e olhares suspensos pela recordação ou sonhos deslocados pelo tempo. Deixei de estranhar as ruas desertas, os semáforos piscando em alertas desconhecidos, a sensação de sózinho multiplicada por muitos. Ao longo das lojas, das praças numeradas, de sítios que um dia tiveram outro nome, vou declamando ladaínhas de apelidos e instantes, afinal o sal dos pensamentos. No momento da decisão, as três avenidas são as paralelas de algum mito ou civilização fora de moda. Sabia, desde sempre, escolher a da direita. Ao fundo a estação. A carruagem de luzes preocupadamente apagadas. Percorro as centenas de metros sem palavras e de ideias desligadas. Procuro, em antecipação, uma porta aberta, algo que não me abrande a passada. No cais, ladeado por portas de vidros indiscretos, a carga sistémica dos carris. Sem escolha, forço as portas enferrujadas da automotora. Habituo-me aos contornos e sento-me no lugar. Espero. Como se a partida fosse uma fatalidade. Ou um dever.

março 14, 2013

Johnny Sundown



Como uma segunda pele, senti, quando fechei a porta do carro. Agarrei o volante e deslizei os dedos ao longo desse circular deleite, não imaginando melhor substituto da pele de uma mulher. Senti na cara os resquícios da típica poeira das estradas mexicanas, e interroguei-me se o desvio tinha valido a pena. Afinal, se o destino fosse à vista desse oceano azul o que seria essa dose de pó... Verifiquei se tinha cigarros e sintonizei uma banda de mariachis modernaços. Olhei o espelho retrovisor e agradeci-lhe mentalmente os óculos escuros. Nunca teria comprado aquele modelo, mas ela tinha acertado em cheio. Geralmente acertava. Relembrei-lhe o cabelo em desordem calculada, a camisa branca que adorava sobre aquela pele bronzeada, até as calças rasgadas e os pés nus que adorava estender sobre o tablier. Olhei o lugar vazio. Acendi um cigarro, liguei o carro e depois de um derradeiro semicerrar dos olhos, arranquei. Talvez a encontrasse em San Diego. Ou pelo menos, a sua pedra tumular.

março 12, 2013

Súbitamente a vontade



Quando as palavras não ocorrem, surgem as imagens e aquele travo que algures guarda o seu sabor, um que saiba a anil e me faça perder num realismo só meu. E quando o momento for luminoso existirá um salto, uma velocidade oposta à pressa e à realidade, uma mudez onde o som seja apenas o meu. Quando as palavras não ocorrem, abrem-se janelas e procuram-se as portas de entrada e saída. Calam-se as pedras e os guindastes e só se ouve o vento e todas as formas de água. Até os beijos são esquecidos. Restam duas pegadas na areia, em espera. E da vontade far-se-á baunilha e canela. Como risos de crianças distraídas, enquanto a vida segue lá fora.

março 04, 2013

Roleta russa



Perdido na geometria dos contentores, encontro-me só neste cais de serpentes e mulheres sem amor. Para onde olhe, recebo lições de humildade e cuidado. Se quero estender os braços, a dormência impede-me. Se escolher atirar um beijo, sou esmurrado pelo escuro. Alinho divindades sem ordem aparente. Serão o meu socorro, a suprema hipocrisia neste momento aflito. Sou rodeado por existências que se alongaram demasiado e porque acredito em vértices, entrego o sistema nervoso como caução. Os dedos e as mãos que me moldam a cara e os ombros não têm face. Têm hálitos proibidos e sussurram pedidos assombrosos. No instante em que devo soltar-me, distendo os músculos e entrego-me. Sou um alvo e devo portar-me como tal.

Paradoxo



A gabardine solta-se da minha pele e alonga-se nas enchurradas que tenho de sentir, encharcando cada polígono do ser enquanto o espírito teimosamente se mantém enchuto. Venero as cidades, as quilométricas avenidas entre norte e sul, as luzes que sabem conceber galáxias, as pessoas arrumadas em caixas com janelas, as que se sentam ao balcão esperando a chávena fumegante ou apenas olhares que fogem, expectantes, tímidos na sua vergonha de encarnar a desonra. Gosto do fumo que esculpe cenários no meu interior, das silhuetas fugindo de si mesmas enquanto correm a abrigar-se. Entendo observar estes mundos como se fosse nomeado curador do emaranhado de ruas e corações que batem. Quando a chuva me desenha caminhos na face, deixo correr essas lágrimas do céu, adivinhando escolherem-me a pele como santuário. A certeza assalta-me nessas noites. Eu resisto, como se a vida dependesse de dúvidas e hipóteses. Depende sim, uma hera que sobe pelo tempo acima, sem se importar com o que se passa à sua volta.

fevereiro 21, 2013

Sapatos de atacadores e meias de costura



Apoiei as mãos na mesa, as duas, com as palmas sentindo a madeira algo rugosa, como alguém que pretende um salto felino sem sair do mesmo lugar. Tamborilei os dedos numa impaciência fugidia, aquele estado de paciência esgotada que dura apenas alguns segundos. Peguei no copo e bebi com generosidade. Sou generoso... Foi então que me lembrei de cruzar prazeres. Meti a mão no bolso, sentindo a caixa quadrada. Tirei, abri e escolhi com a soberba habitual. Acendi e puxei o fumo com vontade. O fumo envolveu-me e pediu-me outro gole. Obedeci. Estava nesse duelo de delícias, quando ela se aproximou. Apoiou-se nas costas da cadeira, ainda vaga - Estou a pensar se lhe consigo dizer o que me provocam as cigarrilhas. - Sorriu e senti-a controlar os músculos dos ombros - Mais logo... - Acrescentou de mansinho.

fevereiro 19, 2013

Planos inclinados



Nas ruas, sujeitos páram e olham mesas de restaurante vazias. Sem ímpeto, olham apenas, um apenas que demora o regresso a casa. Certos dessa demora, encostam-se a uma parede qualquer e deixam de ser sujeitos. Permanecem vazios, mas são agora, eleitos. Pertencem uns aos outros, uma legião sem lanças ou insígnias. Esperam ordens de conquista, prebendas futuras, céus mais azuis que estes dias cinzentos. Espreitam as esquinas, como se profetas corressem ao seu silêncio. Nas sobrancelhas desalinhadas mostram a sua alma desenhada a carvão e cinza. Nas mãos, cigarros e rugas como palavra-passe. Nos olhos, nesses olhos profundos e assustados, a resignação ou a necessidade de vítimas. Tudo depende da hora do dia.

fevereiro 17, 2013

Estático



Quando sozinho é cor e janela aberta,
evito debruçar-me sobre o meu caso,
como se a prevenção fosse beijo,
como se todos os poetas se sentassem da mesma forma,
pés assentes num chão de madeira
pensamentos pesados,
estéreis,
repetidos a compasso
na musicalidade de todas as revoluções,
na quietude dos heróis
quando acenam das varandas em ruínas
perigando as verdadeiras vítimas
e seus gemidos.

Sentado,
absorvido em posses e frases escritas,
ouço passar na rua o que existe
e vale a pena.

Já tarde
depois da noite calar a vida,
recordo em vez de viver,
como se tudo o que aconteceu
fossem apenas contos.

Começos sem fins à vista



Sem os passos que me levem,
sem os encontros que me façam olhar as horas,
sem a sede que obrigue a procura,
sem o demónio que me faça fugir,
sem a história que me conte,
sem a vontade de outro lugar,
demoro-me na silhueta que o candeeiro me desenhe
fiel à paixão que ainda sinto
a que pertenço
quando o que
for mais uma desculpa
para permanecer
em vez de ser.

Walker com a Lafayette



Chuto a lata, fazendo rebolar o que permanece inanimado. Nesse beco, palco de misérias e reanimações, amontoa-se o lixo de gerações, como se os tesouros perdessem o valor apenas por não desaparecerem. Nas paredes altas, desenho sem pincel os amores e as tragédias que não chegaram a gregas. Imagino esperar todos os dias, à mesma hora, encostado ao mesmo monte ferrugento de entulho. Imagino uma espera romântica, sobrevivente, emoldurada a dourado envelhecido. Imagino dias sem conta, camisa sempre branca, colete de fantasia, sapatos de atacadores encerados. Relógio de corda oferecido com pompa por algum avô, recortes de revistas imortalizando chegadas e partidas. Acordado pelo silêncio fabricado, usual forma das cidades mostrarem o seu tédio, enterro as mãos nos bolsos, esfrego a ponta do sapato no pó e estico o passo para outro sítio qualquer, onde o silêncio não me toque, e a multidão me faça esquecer quem sou.

Calle Juarez



Agora são 10 horas em algum lugar. Prometem-se amores e desfazem-se malas. Da varanda vê-se a estação e o rebuliço de domingo. Em algum lugar existe esse domingo. Demorado e breve como só um domingo. Poeirento e brilhante, debaixo de um enorme guarda-sol, adiando o gole na cerveja só para que saiba a pérolas. Com a ilusão de ser invisível, paro junto aos rostos suados e olho-lhes os olhos, procurando-lhes a alma. Sôfrego, percorro toda a rua, agitando o soalheiro que deve manter-se sossegado. Envergonhado, deixo-me ficar como uma porta ou uma coluna. Não tenho o direito de ser egoísta. Não pertenço aqui. Ou devo dizer, ali. Eis a cruel realidade dos sentimentos, quer se escondam ou não.

fevereiro 06, 2013

Vidraças e madeiras



Por todas as marés, as matinais que trazem os tufos dobrados pelas brisas, existem janelas de esquadria branca de onde se fazem as romessas. Nos dias de temporal, são as janelas de onde se dizem as orações e os amores impossíveis. Quando as noites trazem luares, das janelas, tecem-se uivos de carícias algo ternas. De madrugada, cotovelos assentes nas janelas, revolvem-se pensamentos que só existem durante o sono alheio. Quando soalheiras as tardes, as janelas aquecem ao sol do aconchego. E nos Invernos húmidos e prolongados, são as janelas os olhos da alma. Das almas.

Único acto



Subtraio e fico adicto. Movo-me e crio as inibições de uma raíz. Flutuo e precipito. Continuo. Prevejo um longo, maduro. Prefiro o pretérito, sulcando e uivando pedidos de entendimento. Renovo ao entender sugestões. Refiro-me aos ocultos, às faixas escondidas, às entradas de cavernas tapadas por lixo. Aponto os escroques e as damas de companhia. Fulmino toda a forma de governação, apenas pela necessidade de pessoas, esses grãos maçadores. Ao primeiro vento, sento-me no chão e saboreio a poeira. As portas e as janelas abandonadas aplaudem o palco. Mesmo se o estrado for raso.

janeiro 29, 2013

Interlúdio

Pela ventura de um ser absorto
recolho restos de bandeiras
frangalhos adoçicados
espessos como o sangue seco
nobres ventanias encharcadas
como viver tenebroso
fosse a vontade de um divino
como um nascimento
tivesse a forca do destino.

janeiro 27, 2013

Cinzento cor de rebentação



Conheço-te de antes, de um pergaminho com cheiro de matiné, de um volteio onde se nada e se perde, chuva torrencial que marca a areia como ferro em brasa. Perdoo-te, sei que um dia me esperaste, um dia só, vestida nesses folhos que te decidiam a palidez enquanto eu, amordaçado, recitava papéis de pele macia e sabores de laranja e baunilha. Depois rodopiava, ou pensava que era capaz. Quando anoitecia, passo depois de passo, encaminhava o isolamento para um quarto onde a porta não fechava. Adormecia com algum frio. O que restava.

Ninando Johnny



Johnny deixou os ténis à porta de casa e correu rua abaixo, ciente da bicicleta sem travões. Conhecia todos os cantos da fábrica, alargando os horizontes à medida que o cheiro a mar lhe enchia os pulmões. A meio da pequena passagem entre o jardim e a mansão das velhas, olhou para cima e não encontrou o azul que procurava. Era noite. As luzes faiscaram, electrificando-lhe partes da alma que julgava desligadas. Subiu a rua da juke-box, ouvindo o matraquear das bolas de bilhar. Eram os sons do seu berço, um dedilhar de ancas e cabelos nem por isso sedosos, onde cada sorriso se obtia com um beijo no pescoço. Johnny procurou nas lembranças e na caixa onde jazem as recordações. Vasculhou os lados ocultos da sua lua. Encontrou-se à espera. À sua espera.

Impressões de um buscador de emoções



A garagem fechada, as luzes acesas do tablier, a sucessão de espécies em extinção, segredo guardado ou partículas de desilusão cobertas de chocolate amargo. Na dita penumbra, precipitação de algum linguista onde letras demasiadas sustêm o perigo de desmoronamento, amontoam-se ideias como caixotes. Comparando um excesso com um dizer incómodo, ofereço-me como pasto de sereias e peixe seco. Tenho o cigarro aceso fumegando o passado e no banco de trás, um amor furtivo. Sentado ao volante, com as chaves no bolso, desenrolo as dúvidas de antemão e repito a canção até onde a exaustão não conhece. O beijo, esse, ficou por dizer. Ou sequer, conhecer o sabor.

janeiro 24, 2013

O guarda-livros comprou cigarros



Eu sei que não vou conseguir escrever o que pretendo, como se o uso de um verbo pudesse definir, ser e sentir ao mesmo tempo, essa miragem de emoções perdidas ou apenas deixadas sobre alguma almofada, na crença de voltar e encontrar tudo igual. Por toda a procura feita busca, estão escondidos ratos na cozinha, apreciando o calor e desenhando futuros esconderijos. Faz-me falta uma janela onde consiga ver uma janela de luz trémula e embaciada antes da meia-noite. Sei porque existem porquês que se comem à colher, e existe um quarto onde a porta não fecha completamente, com armários de surpresas nas gavetas e um cobertor esburacado que cheira sempre a aconchego. E porque sei todas estas coisas, não preciso de escrever o que pretendo. Deixo a adivinha ser eu próprio.

Controvérsias



Novelo e dez libras de pimenta. A canela ficou no cais, os carregadores sentados mordiscando gordura de toucinho. Empunham cartas que atiram sem conhecer os naipes. Sentado no muro, um sonhador. Será levado pela maré. Os capatazes vestidos de azul garganta e laranja demónio esperam o almoço. Beberricam cálices de anis. A água pejada de cravinho servirá de digestivo. Como um chá beligerante. Como velhas empunhando ceptros papais. O arlequim confere contentores. As gruas recortam o poente, bafejando o fim da tarde à laia de bouqué. Ao toque da sirene chega o tatuador. Escolhe, esburaca e craveja. Para uns um Rueben. Outros, apenas pão sem sal.

janeiro 20, 2013

Perdões e pecados



Chegar como se um leme fosse bastante. No sol um limite de horizonte pregado na margem, um salto ou um grito, o que te aprouver, nem que seja maldito pois o prazer tem direitos que as coisas mundanas não têm. Por detrás da porta, da janela e do reposteiro, os copos pousados no piano, a penumbra como máquina de escrever, desfiam-se corpos, percorridos como labirintos, sem pedrinhas para marcar caminhos, sentidos únicos de intensa ventriloquia. O chão, pasto de dolências e carícias, recebe o estio. A seiva corre, livre de intentos e caules, presa a colmeias como prisões, ameias onde se deitam as armas e os cansaços. As bocas caladas, dormentes, seguem o recorte de um dia que se deita, e elas, deitadas, deixam-se apagar, suadas.

E se o tempo decidir acabar



Uma hora do meu tempo
como se cada hora fosse de alguém,
como se a demora tivesse regras
e raízes.

No terreiro
ao cheiro de queimadas,
a igreja como muro,
acendo-me o relento em repouso
seguro da terra que será meu corpo,
regado todos os serões
como se o tempo fosse dos avós.

Uma hora ou algo redondo assim,
como se cada hora,
como se a demora,
me tivesse a mim.

dezembro 21, 2012

Hoje não houve meio-dia



Janelas de sentido único - prezado ouvinte, sinta o cheiro da nova estação - janelas alinhadas ou fatias de bolo, vícios à espreita como quem se esconde e olha a silhueta quase desnuda - são horas, o seu tempo chegou e tomou o nosso - estremecendo copas de árvores e entendendo a geometria de varandas onde se suspende a fantasia, o conforto e o desgosto de ser aqui, a alcatifa, o lençol, o dia cinzento e amargo, salpicos de incerteza por não se conhecer o próximo passo. Quase é um dogma. E mesmo assim, embrulham-se tachos de arroz de tomate em jornais, mexem-se saladas com as mãos, enche-se o copo de vinho só a meio e com o cotovelo apoiado na toalha olha-se a rua pela janela, o apetite à espera, as juras de amor no bolso e o cigarro paciente. E assim, como o locutor de rádio afiançava, estamos aqui toda a tarde, como se a tarde fosse uma vida inteira, e o encosto da cadeira, o único amor de uma vida.

dezembro 14, 2012

Um certo meio-dia depois da hora



Certezas do que não existe, essa invenção de peluche recortando as realidades, as que forem e as escondidas, mais aquelas que são em esplendores de lixo e restos de comida dourada, todo um mundo de fantasia onde nos dizem como olhar e dizer. De fora, daqui, olho estas monstruosidades e espero a chuva para mudar de canal. Na janela, as últimas flores habituam-se à penumbra. Lá fora, nos degraus amarelecidos, juntam-se, em repouso, as entidades cuja invisibilidade perturba. Preparo-lhes chá e amêndoas, como todos os semestres. Oferecem-me a indulgência. E eu, grato, cerro os olhos e sinto-lhes a alma, uma, partilhada como uma especiaria. Olho de relance o canal que agora me parece difuso. Apago-o com o pensamento. Já não preciso dele.

dezembro 05, 2012

Deste lado do paraíso

As moedas guardadas e repetidas, os corredores, as circunstâncias, desmaiadas no sentido descendente da incúria. Os elevadores, as portas fechadas e abertas barafustando filamentos, os dedos indicadores espetados na certeza e no vazio. Deste lado as gaivotas falam, salpicam de leve cada manhã, substituem-se aos deuses que dormem. Do outro lado, o sono acordado é hipnose e logro. O cansaço. A promessa do jardim se prolongar até à ponte. A bicicleta sem travões descendo a rua dos encontros. O linho desfiado, essa personagem, meia miragem, encerrada em livros de lombada descomunal onde se arrumam antigamentes. Deste lado, à guarda da poltrona, folheando vagares, as moedas sabem a rebuçados, os corredores parecem passagens secretas e as circunstâncias são apenas atacadores desapertados.

novembro 29, 2012

Ocular




Digito e por essa causa, virtuo. Pertenço a toda e ao restrito, desventro-me e assemblo-me, projecto o dever e o devir, rodando em mim mesmo, sobre o meu ente no gesto de substituição do divino pelo resto de uma divisão, eu pela consciência, eu como cume e labirinto oculto pela superfície. No movimento atinjo, na pausa renovo, no reinício aprendo. A junção dos sentidos num só, como se a fusão fosse um método religioso, circulando as cores como veículos e os órgãos na exacta medida da sua imponderabilidade. As coisas são objectos ao sol e emoções no escuro. Porque a claridade e escuridão sentem-se, em simultâneo, em contacto com a impressão digital. Uma que se torne causa.

novembro 27, 2012

Atitudes e apetites



Ao descer a rua das montras de vidros tocando o passeio, penso e existo nas três esquinas que do lado esquerdo me desafiam e atrevem-me a alma. Decido esquecer as vírgulas e outras hesitações. O que sai de dentro não deve ser tocado. Como um passo seguindo outro, calçada de cubos assimétricos, revelo os rócocos nas esquadrias e aqueles cetins ou linhos sobre meios-manequins, a forma perfeita de me lembrar de algo. Na primeira esquina exijo-me o título, talvez a capa. O cheiro também. Não se trata de odores nem fragrâncias. Cheiros, assim, crus, dolentes e demorados. Como se a intensidade fosse um minuto inteiro. Acredito numa sensação de recordação e sem remorso atiro-me em frente. Regresso a este tapete de ontem e hoje, impossíveis de separar. Na segunda esquina, faltam os ganchos e a fita cola nunca o foi. O fascínio já lá não está. Adiante. Algum cauteleiro, senhoras de cabelo suspenso, elegâncias e sujidades à mesma mesa de lanche. Alguns dourados. Demasiados sinais de doença. Uma doença arrastada, vivida, resignada em cada refeição, em cada sono, em cada véspera de Natal. Vejo a terceira esquina. Está lá como uma sentinela sem tempo. Há tanto tempo. Paro, olho o chão e a ponta efervescente da bota negra de uma tropa que não o chega ser. Aperto o fecho do blusão até sentir o pescoço fechado. Passo a mão no cabelo aumentando a crista. Sorrio sem que os olhos por detrás dos óculos negros sorriam. Viro à esquerda como um bom soldado faria e de pé em riste, rebento o vidro da montra sem me proteger. Sinto o corte. O fio vermelho compõe-me. Atravesso a rua, faço uma carícia num bebé de carrinho e subo rumo à chávena reconfortante de chá.

Doutrinas



Doze caules feitos samurais, perdidamente apaixonados e sem dote para as filhas de porcelana de doze artesãos. As agruras têm sempre um número, um algarismo seguido de outro e mais outro, álgebra descodificada pelos santos sem religião, que não usam hábito nem virtude, que não conhecem a noção de pecado e abrem os braços com a liberdade de quem acredita no voo, léguas e milhas de campos onde crescem verdes rebentos de uma chuva persistente e mimada. São quatro as divindades que assistem aos fenómenos da vida. Não têm nome. Não precisam. Sabem, com rigor, as mil faces de cada samurai, as cinco mil formas do olhar de uma porcelana. Não se repetem, nem por uma vez: as sabedorias e as formas de ser mulher.

novembro 26, 2012

Ficção não ciêntifica



Seremos as vozes e os lamentos, as discórdias e todos os muros, os tijolos que construiram os fornos e as pás que recolhem as cinzas. Seremos o restolho e a colheita, por essa ordem, porque a numeração está inversa, endemoniada ao serviço de aritméticas perversas por resultados plurais. Seremos autónomos na cólera e na malária, ou cobertos de escamas num cretáceo fabricado com fibra óptica e roldanas. Seremos gritos, submissões, copos cheios e nódoas. Seremos as flores manchadas, arranjos perfeitos de bombardeamentos com hora marcada. E nas reuniões, entre calças vincadas e risco perfeito nos cabelos, surgirão debaixo das mesas, centopeias com viscosas decisões. Seremos então, fósseis.

novembro 22, 2012

Esperando senhores importantes

Na varanda, com vista para os ditadores, havia uma nesga por onde se via a porta do avião. Tinha o copo quase cheio. No parapeito todas as garrafas que quisesse, o suor que pingava, os vestígios habituais de sangue e os buracos de bala nas paredes. Com o sol a pique, o dia era uma dia normal, naquela doutrina específica que afirma o dia como um grupo de vinte e quatro horas, algumas escuras, outras de claridade. Aqui, a claridade era como a escuridão, uma exactidão difícil de conceber. A porta do avião continuava fechada. A risca vermelha ao longo da fuselagem, intocável no rebordo da porta. Alguns guardas de óculos escuros e metralhadora, o trivial. Bebi mais um gole e preparei-me para outro cigarro. No chão restos de maços ameaçavam a espera. Mais um olhar, a porta, encaixe de esquadro na superfície brilhante do avião. Olhei o copo e bebi o resto de uma só vez, adiantando uma impaciência própria de sol lancinante. Tinha no bolso as duas balas de ouro oferecidas no primeiro dia. Gostava de sentir o seu peso no bolso. Emprestavam-me valor. Ou alvo. Não sei ao certo a verdade. Tentei-me pentear mas senti uma pasta de cabelos encharcados e em desalinho. Típico. A cadeira, demasiado pequena para a arma, parecia uma miniatura de casa de bonecas. Sorri. São coisas que enternecem antes de ver o cérebro saltar em gomos.

novembro 21, 2012

Três pancadas com 3 segundos de intervalo



Na contenção, mãos paradas e dedos imóveis, desço o olhar submetendo a hora ao cardeal, ténue alvoroço por detrás da porta enferrujada, camuflada pelos contentores de caracteres cirílicos, longe do comum e muito além do mortal. A corrente do relógio estremece e toma o lugar do pêndulo. Os lábios têm sabor a sangue, como se a saliva fosse definitivamente espessa, textura sinuosa que mantém a sede unida ao prazer. Os passos querem-se vagarosos, desejam-se quase parados, num arrastar demente em direcção a cada recanto onde se desenham cruzes de todas as religiões, essas religiões onde a multidão é a lâmina de um punhal de cabo escaldado. Com o cabelo em desalinho, ombros ensopados pela chuva, o sabor da derradeira maldade permanece intacto. Tão intacto como a palidez de uma criança.

novembro 17, 2012

Aula

As palavras são tão permissíveis, tão atrevidas de memória e despidas de sabor, por pretenderem enfeitar em vez de dizer. As palavras que se dizem, que tu dizes, que eu ouço, que eu digo, baixinho, que eu grito desesperado, que decido entregar por desvario, as palavras presas por filamentos, ditas entre chocolates e trufas, mastigadas de fumo e vinho, as palavras da concordância, da definição carmesim, dos rituais semi-apagados em pergaminhos com sabor a sal e esgoto, as palavras em latim de todas as épocas. Cada letra é um prego na cruz de todos os senhores, senhoras de noite, senhores sem género ao permitir devaneios e risinhos nervosos. Cada letra, cada sílaba, acre, ácida de tanto amargo, escarro de tanto doce, tanto arabesco pintalgado de flores sem cheiro, sem cor, sem amor. Palavras sem sexo, sem orgasmo, palavras sem desejo nem prazer, ou apenas sem vontade. Palavras que se dizem pelos candeeiros ligados em cada sala iluminada e escurecida de carreirinhas de letras em marés absortas e obtusas, chaminés altas de fábricas de palavras, arrumadinhas em caixotes, com carimbos de envio para todos os destinos que se imaginem... menos a alma, mesmo se cheirando a lama.

novembro 13, 2012

Partindo pausas



Secretos restolhos e areais,
cestos de piquenique levados pela maré,
zumbidos à flor de uma pele
na palidez frágil de uma cintilação,
são as cadências
e nuvens feitas de almofada
onde o infantil tem o trono
e a rainha só se recorda dos confeitos amarelos.

Além
na falésia em forma de mesa,
permanecem os druidas desnudos,
sinal de tempos e relógios sem ponteiros,
ferrão espetado na linha de horizonte,
onde o sol já não está
e o laranja ainda existe.

Ruas de portas e números repetidos



Despido, à janela, situando-me tanto nesse quarto andar como no passeio ou no bar da esquina, rigorosamente na esquina, entendo a espera como o passo fulcral do prazer. As vozes, as que deixo entrar, cercam-me de dedos apontados, lençóis esperando calor, copos que se querem meio cheios, deveres e brincos de madre-pérola espalhados por entre os papeis, cinzeiros cheios. Na rua, no passeio por debaixo das árvores sussurrantes, os degraus esperam a pausa ou o vício, o assassino de medo em riste, a mesma espera, os embriagados de rumo incerto descobrindo curiosidades alheias como se o escuro se tratasse com xarope. Na esquina, rigorosamente na esquina, já não existe nada. Tiraram o bar, todo, levaram-no para às escondidas o despirem e o meterem na cama, um sono que não acabe, um sono que faça o esquecimento acordar. O vidro da minha janela tem desenhada a minha respiração. Traço-lhe uma decisão. Alguém, os passos incertos de algum amante, olharão para cima e reconhecerão a senha. A porta está aberta. Sempre esteve.

novembro 10, 2012

Carnegie é antes da próxima esquina



Enquanto espero olho a ponta das calças amarrotadas, aquele afunilar do joelho ao sapato, pretendido na fluidez de uma avenida de luzes ainda acesas, descendo de um pedestal até à praça vazia que ainda há pouco abarrotava de passeantes e gabarolas, esses de cabelo revolto à custa de toques de pulso, cigarros acesos porque sim, portas abertas chamando incautos. Toco com dois dedos no copo, ensaiando movimento que entrechoque o que resta das duas pedras de gelo, pé apoiado nesse tamborim cor de vinho, goles gulosos que daria se fossem menos horas, se as soubesse subtrair e agitar a aritmética do tempo perdido, aquele sorriso feito algoritmo, como se o barman tivesse algo a esconder e aquela mulher, que apenas lhe resta fatalidade, conhecesse os segredos de todos, os que se demoram e os demais, rápidos no prazer e como dobram a esquina. Demorar é o verbo, a coluna jónica do desejo, a dois, o par elevado à condição de único, divindades a meias santificando o prazer à vez. Por cima da última fila de garrafas jaz aquela gravura que insisto homenagear Turner ou algum anónimo, efeito de um ópio envelhecido sem odor nem maleabilidade, mas que se fuma por obrigação. Na esteira, uma gasta partitura. Serve-me de consolo como alguma almofada, se a houvesse. Vejo-a de linhas alinhadas, pontinhos negros ensaiando escadas, a derradeira versão de um testamento roubado em casa de ourives. Sigo-a pelas ruas que circundam o bairro dos quartos alugados, revejo-me no matraqueio regular dos seus saltos altos, serpenteio pela costura da sua meia, colheita preferencial do meu amor que será fumo daqui a duas horas. Serei fiel. Mas apenas enquanto as duas horas demorarem. A demora. A pressa de esperar num banco corrido de madeira numa estação de comboio, malas roçando o chão e esses apressados de farda e boné controlando bilhetes e intenções. Subo a carruagem número sete, amarrotando a ponta da calça, aquela junto ao sapato. Piso a alcatifa adoentada e sigo a geometria básica de um corredor sem extensão. Paro à porta do compartimento vazio, cubículo que tresanda a tabaco e suor. Sento-me revolto em cansaço, moído como farinha, e avisado em demasia dos perigos da fronteira e dos viajantes de última hora.

novembro 09, 2012

Debaixo da mente e à beira da cela

Curvilíneos solares em abóbodas onde se movem as linhas do dedo divino, esse divino chamado ontem, transformação de um medo ou de circulares fechos de contas antigas, uma provocação gerida pelos vulcões, outrora apagados, sediados em alguma cafeteria japonesa onde o tapete rola submisso, soturno, empalidecendo esgares e apetites, daqueles que não terminam, dos que desaguam em hóteis de néon incompleto e camas desfeitas, porque o tempo não demora e os gestos exigem atenção. Somos peças de algemas, encadeados pelo abismo das nossas escolhas, varandas nocturnas onde se espreitam os amantes do prédio próximo, relevos de pêndulo contínuo enquanto a manhã não regressa. Ao longe o comboio, as janelas trémulas de cada passagem, vítimas de horários de conveniência. Já não existe o romântico matraqueio do carril, algum mordomo de ocasião anunciando o sabor e o pecado. Já se esqueceram os furtivos beijos em algum apeadeiro de província, ignorados e motivo de conversa por semanas. Sentado ao balcão, hesitando entre o café frio e a cerveja choca, observo mais do que vejo. E por isso, sou voyeur de mim próprio.

Pretendido



Nesse então,
curiosa cadência
ao ser um
e depois mais outro,
sorvem-se boreais
desaguando na turva
e elementar
copa de árvore,
caduca de um Outono demorado
como se cada erva
e cada chávena de chá,
violentassem a espera
e o odor a sossego.

O perigo de todos os dias,
suaves ou pedregosos,
é a quantidade,
ínfima,
de sangue que impregna
o beijo
e a vontade.

novembro 08, 2012

Onde a falésia decide a planície



Saltos, cabriolas e gritos submersos em areia molhada e cores de manhã infantil, doce como suaves ziguezagues enjeitando o cuidado dos maiores, quando a água é mais do que elemento, mais e mais fundo, cobertos de rochas cobertos de conchas como coladas, vivendo vidas que nem se imagina ou descobre. Sãs sugestões, como pérolas achadas entre ervas esvoaçando à brisa da maré, casas de telhados quase vermelhos onde as janelas antevêem esconderijos e cordas de mar. Essas pausas corridas, perpétuos movimentos de sereias e cabelos revoltos, ali, onde a terra teima em acabar, e os faróis se amontoam enquanto os faroleiros tilintam chávenas de calor e perspicácia. São os dias de bagas e flores amarelas, os serenos pincéis que pretendem diamantes nas paletas de pastel.

A chave, por favor



Existe uma linha que percorre as ruas seguindo o halo dos candeeiros de cor laranja, um filamento de inícios de histórias, olhares fugidios ou apenas gulosos, esses sushis de batom roendo milímetros de lábios sequiosos. São percursos sinuosos, labirínticos mutantes ensinando lições proibidas. São a resposta exacta à fé e ao recato, preciosidades orientais boiando em caldas açucaradas, corredores de um hotel decadente, onde cada porta é um altar e o quarto escolhido, o prolongamento iluminista de uma blasfémia santificada.

novembro 05, 2012

Ao longe, vejo-te a silhueta



Nesse carro onde atravessaste o México e destruiste San Diego, pintei o mural das nossas vidas. E por tua causa, abandonei a arma e o maço de Lucky Strike. Ainda me obriguei a uma cela de mosteiro, mas ao fim de uma semana procurei-te na linha de fronteira. Não acreditei no que todos os criminosos de Tijuana repetiam: que eras demónio de asas brancas. Não acreditei porque não acredito em ninguém de revólver no cinto. Voltei a El Cerrito, casa por casa, árvore por árvore, sem me aperceber que afinal em Logan Heights também existem pessoas. Sentei-me no chão e esperei que o café fumegasse na chávena. No relógio, as horas tinham desaparecido.

Fecharam a catedral



Da janela do hotel, o canal é o prolongamento do meu tempo, da cadência que ficou na cama e depois de calçar os sapatos pretos de camurça, desaguou dali para fora, atravessando a ponte e rumando até à esquina de rebordos curvos, ali, onde os turcos servem jantares e algumas peças de porcelana procuram amantes de ocasião. Procuro a porta onde se acumulam traços fluorescentes e lixo feito obras de arte. Subo as escadas destruídas com o isqueiro chocalhando no bolso. No penúltimo andar ouço os gritos e as linhsa sinuosas de instrumentos de tortura. Sorrio. Subo e encontro o indiano sentado no escuro. Sabe ao que vou. Aceno-lhe com os olhos. Percorro o corredor e na última sala, porque sendo último a verdade pode estar à espreita, encontro o russo. Sentado na cadeira de braços, de sobretudo apertado até à gola, cigarro apagado nos dedos e dormitando infidelidades impossíveis. Tiro do bolso as notas, um pacote de largura insinuante. Pouso-as na mesa repleta de histórias. Entreabrindo os olhos, atira-me um resmungo morno. Sei o que quer dizer. Subo para cima da mesa, agacho-me de cócoras e tomo o meu lugar na minha história. Espero pacientemente pelo cliente que me comprará.

novembro 02, 2012

O cinzento não existe. Apenas tem sabor.



Suspenso na essência de ser ou avançar, completo as privações e todos os labirintos que couberem na palma da minha mão. A curiosidade é apenas um jogo, gatos e ratos na mesma gaveta, esperando o primeiro que adormeça. E entrando no quarto, conhecendo o veludo verde por detrás da porta, as gotas de mar na janela, o segundo à espera de ser o próximo, e eu, nariz entre o vidro e a tempestade, morno como só o frio sabe inventar, desejo a fome e a penitência, como se o monge dentro de mim despisse o hábito e renegasse a fé, pechisbeques de ocasião quando a razão foge para longe. O instante torna-se momento e depois vagar, voltas do relógio que só os antigos conhecem, ou então, as avós ao lume, esperando o sono regressar.

outubro 18, 2012

Ponteiros

Consigo contar até dez, ver uma cadeira e sentar-me, abrir um livro e separar os capítulos como quem conta cerejas. Vejo as camadas de gente nas ruas, sombreando as árvores seminuas de Outono, seguindo em frente, uma direcção só por cada um, sem sinuosos vagares ou olhos em movimentos esféricos de criança ou pássaro. Pressinto uma catástrofe, uma das que os livros sagrados decidem enviar com ira. Prevejo os gritos, talvez os do costume. Prevejo também ordens. Dedos em riste e olhares reprovadores. Reflicto e desisto. Na reflexão o tempo escapa-me. No hábito, o tempo mastiga-me. No amor, o tempo foge por entre os dedos. Quando sou eu, o tempo pertence-me.

outubro 15, 2012

Por isso, prefiro a rua ou a praça

Sinto ainda esse travo, a grandeza de um motivo, mesmo quando egoísta, como ponto de partida. Os passos desalinhados por amplitudes que as copas das árvores tornam diversas, como se cada pensamento tivesse uma pausa própria, ou as chávenas de café servissem como berlindes indicando o caminho. Gosto da opinião de um sorriso aberto, ciente do efeito de um céu azul ou outro artifício qualquer, a razão para uns ou apenas a cereja, relatando o pormenor como oração ou beliscando o íntimo com o prazer de uma almofada servindo de amante. A certeza, vista de fora como capricho, é o caminho que se conhece e se repete, procurando aquela emoção que o coração não sabe calibrar, as mesmas pinceladas de um pastel que só existe na recordação, mesmo se imaginada, a garfada que fica a meio pelo aroma. E se desconheço, com garantias, se as gratificantes ousadias da partilha aumentam o sintoma e turvam o diagnóstico, posso testemunhar o paradoxo da tristeza como vitamina da satisfação. Nessa premissa repouso as angústias e alguns dos remorsos, confiante no poder curativo de uma depressão balizada por horas marcadas. A agenda está preenchida, os contratos alinhavados e presos por uma assinatura de tinta alva, e a condição humana de sentir permanece num estado de pausa, serenamente sentada num banco de jardim esperando a manhã ou outra qualquer forma de vida que o tempo deseje encarnar.

maio 16, 2012

Mr. Skarsgård, presumo

Ao cimo da rua, um planalto de meia praceta provoca a calma no rebuliço. Sábado de manhã diferente de algum dia de feira, os passos reduzem o impulso, os olhos levantam-se ao céu e ao cimo dos prédios antigos, quando se vivia e se sacudia o bairro. Parei o carro, abri o vidro e deixei-me estar na certeza de alguma chegada ou janela aberta depois do sono e da paixão. Acendi a última cigarrilha, pois sabe-se que terminam sempre quando se necessitam. A necessidade é um conceito traidor. Na metade da rua à minha frente, vestia um fato claro, desses quase sem recorte ou solenidade, subia com passo regular, talvez algum cansaço. Os óculos de sol castanhos adivinhavam a diferença ou estrangeirismo. Num momento, apoiou-se à parede e olhou para o cimo. Sorriu num esgar, endireitou-se numa pose quase de princípe e percorreu os últimos metros com a dignidade dos de outrora. Rodeou o carro pela esquerda, abriu a porta e entrou sem palavra. Depois de um suspiro, obrigatório digo eu, virou-se para mim, estendeu-me a mão e apresentou-se. Apertei-lhe a mão, parti a cigarrilha, o que restava, em dois e dei-lhe a metade apagada. Os olhos brilharam-lhe enquanto aceitava a chama. Aspirou profundamente, tossiu as réstias do cansaço e com um semblante renovado disse.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.

maio 15, 2012

Esperamos, nós e Tim Robbins

Sobre um bloco de pedra, daqueles que se usam para acrescentar terra ao mar, espera-se. De pé, de cócoras, sentado como se um sapateiro esquecido encolhesse os ombros ao amontoar de sapatos à porta da sua oficina. Espera-se algo da cor do bloco de pedra, alvo como se o novo tivesse cor. Falam-se línguas quentes, rápidas para o compêndio ou a tradução, a rapidez própria da vida se sentida e amada. Laivos de francês, como se algumas palavras fossem o barro para segurar a argamassa. Somos 3, quase 4 se o fulano de panamá branco e calças pelo artelho. Somos 3 sem sabermos quem somos. Cada um inventa o nome que quiser. Hoje quatro letras, amanhã apenas três. E apelidos se servirem de nome próprio. Hoje esperamos, amanhã teremos nomes de dois nomes escritos e nunca verificados. Amanhã, se algum deus quiser.

maio 11, 2012

Bernardo Sassetti, vou procurar-te nas ruas e no cimo dos prédios

Bernardo, falaste comigo pelo teu piano e garanto que os teus dedos me percorreram a face e os braços. Esses dedos que nunca vi, mas que senti no pescoço e no espírito. Bernardo, foi pelos teus dedos que conheci Alice, que lhe soube as ladaínhas e os amuos, quando zangada se sentava no chão e esperava a tormenta passar. Bernardo, foste tu o responsável pelo meu olhar longo e sustenido. Bernardo, quando chegar a casa vou ouvir-te e voltar a sentir esses teus dedos. Verás, verás a alquimia de que ainda és capaz.

Johnny Depp ainda se lembra da porta de vidro verde

Johnny Depp empurra a porta, repara no verde do vidro fosco e agradece a penumbra. Senta-se no terceiro banco a partir da rua, e mesmo quando se pensam idiotices, repete o gesto já sentado, num jeito acostumado de toda a gente. Johnny Depp articula as boas tardes e pede dois shots de bourbon. Um olhar em volta garante-lhe abrir a caixa quadrada das cigarrilhas. Rola-as com a ponta do indicador e escolhe a terceira a contar de si próprio. Tira o isqueiro do bolso do colete e acende-se. Johnny Depp agradece os copos pousados no balcão e com o mesmo indicador que rolou as cigarrilhas, apanha a gota que teima em escorregar, chupando o dedo, satisfeito. Johnny Depp sorri ligeiramente, pega no primeiro shot, se entender que o primeiro é o que encontraria quando entrasse e se estivesse à sua espera, fosse a razão que fosse. Johnny Depp bebe o primeiro shot lentamente, como se o sabor fosse obrigado a confessar-se. Antes de pousar o copo sente a garganta aveludada e encandescente. Johnny Depp sente um arrepio que lhe propaga prazer em ondas analógicas. Puxa o fumo avaliando a subtileza dos músculos dos lábios e expele uma baforada aromática. Johnny Depp sente-se perfeito. Como se a perfeição fosse a melhor das sensações. Olha para o segundo shot e num momento de rara intuição, antevê o último. Imediatamente recorda-se de conceitos, a última ceia, a última refeição do condenado, o último adeus na estação de comboio, o último dos moicanos, a última tarde. Johnny Depp sorri como só ele sabe, levanta-se, pousa uma nota amarrotada, articula as boas tardes e sai. Não só reparou no verde do vidro fosco, como ainda sente o travo misturado de bourbon e cigarrilha. Após uma brevíssima pausa, Johnny Depp decide o lado direito da rua. O último shot, ou o segundo, ficou no balcão. Ainda lá está.

O meu dedo apontador está cansado

Ontem, quando olhava em frente, senti o azul do dia como esse nome que se chama num grito, obrigando a meia dúzia de sobreaviso a virar para trás e confirmar alguma coisa. Hoje, olhando em frente, também sinto. Sinto em cinzento, um cinza ora aberto ora fechado, dependendo do segundo ou minuto que eu decido, transportando-me para alguma coisa ou apenas aqui e sem trajecto para já. São as pequenas grandes coisas que merecem ser escritas, ignorando a substância e aproximando o fósforo aceso aos relatórios, linhas de teleponto e outros encadeamentos de palavras absolutamente inúteis e degradantes. E são as pequenas coisas as que se guardam no bolso com desejo, uma chave, uma bola de matraquilhos, uma caneta, um pedacinho de papel bem dobrado, pevides ou pedras de sal. Nada mais valioso e simples. Nada que provoque absolutismos ou revoluções de sentido único, nada que se catalogue, etiquete ou seja alvo. Nada que seja fatiado em patamares ou deitado em altares. Apenas, e este apenas com alguma graça ou zombaria, alma, espírito e a essencialidade de um pôr do sol ou de uma maré tardia.

abril 27, 2012

A queda e as consequências

Por debaixo da chuva, dos passeios molhados, dos passos com pressa apertados num agasalho, por debaixo do dia que existe no calendário e no ponteiro ritmado dos segundos, guardam-se círculos mornos e húmidos como o labirinto aberto depois da pedra mergulhar no lago. Nas margens, irrompem frutos, alguns proibidos, sumarentos na forma de sorver dos lábios carnudos, onde a demora é doutrina e quase religião. Nesses altares de eternidades, esquece-se o poder e a inveja, flora o egoísmo de todo o prazer num só momento, estrada recortada rumo à clareira.

abril 26, 2012

Esconde-se numa sala ampla, persianas quase fechadas permitindo apenas algum diurno e sussurrares de rua. Vagueia entre um sofá vermelho, pele gasta como numa cama de motel ou confessionário pascal, e a cadeira de metal, cirúrgica de pose e posição. Anda, arrasta o balanço de fera prisioneira ou cativa, ronronando a espera com dentes de sabre. Com os dedos, colhe flores em cada prega do seu corpo, vincos forçados pelas unhas lâminadas de rubro. Faísca os olhos contra a penumbra, sente falta de relâmpagos que lhe massacrem a íris e ataquem o cérebro, deixando-a dormente e submissa. Cada estalar de madeira apodrecida sobressaltam-lhe a medula. Resiste ao sono e revesa o desejo e a anuência. Quando chegar, o momento, quer saber-se inteira.

abril 24, 2012

8 ou 9 ou 10

Preferi atravessar a rua e espreitar o outro lado, como se fosse um gato, como se farejar fosse o meu mistério e perdão. Procurei quem se afastou nesse passo apressado roçando as paredes dos edifícios, um passo escurecido pelo início da noite, um passo vestido de preto, todo preto, numa viuvez apressada como quem procura e foge antes de encontrar. Vagueei como é meu natural, mãos nos bolsos, frio na cara, olhos brilhantes de tanto. E sem ver, olhei as luzes nocturnas, as que desenham recordações e esquadrias cartografadas na memória, olhei-as numa gulodice desenfreada, calada, curiosa na exacta medida que um beijo é salvação e uma noite, salva-vidas.

abril 23, 2012

A meio do bairro

Devagar, debaixo das janelas e dos olhares de meio dia, encerra-se a manhã e começa o dia, lento como só ele deve ser mastigado, com árvores de quando em quando, justificando o que se esconde ou não se quer ver, o furtivo de um desejo quando é mais que desejo por ser violento e repentino. Devagar pelo meio do passeio, sem querer ser mais um nem recusar esse papel, cigarro crepitando como lareira, fumo entrelaçado no arabesco que contém, sede abafada pelo passo caminhante, sede guardada num bolso já carregado onde esperam os prazeres, a vez de quem se mostrar afoito e entregue a si mesmo.

março 27, 2012

Um conto, um cento

Os momentos que antecedem grandes decisões, proporcionam fenómenos químicos e todas as teorias que os estudiosos do cérebro sabem enunciar. São páginas e páginas escritas de alto abaixo, palestras e conferências doutas, definições matemáticas cujo causa efeito não é simples de compreender. E tudo se passa dentro da pessoa, nas suas entranhas revoltas, revoltosas por meia dúzia de unidades de pagamento, como se a vida fosse uma caixa registadora difícil de saciar. Como se pode quantificar a existência e por quanto? Tudo vale? O valor das coisas é uma das coisas mais estranhas que o índice encerra, e mesmo assim, insistimos na valoração de tudo e mais alguma coisa, como se cada cereja de um cento fosse mais que outra qualquer. Chamam-lhes borboletas, coisas esvoaçantes cativas no duodeno. Chamo-lhe fatalidade... Ou, estupidez.

março 17, 2012

Por causa de um labirinto


Tarde, beije, azul e todo o cinzento que caiba sem manchar, as multiplicações feitas ruas e a questão onde consta um fim, cabelos soltos, botas ou ténis vermelhos de pano, os ícones ao virar a esquina, lentos e expectantes, chávena de café na mão, algum doce ou a gulodice de esperar mais logo, quando a noite trouxer o imaginário e com ela, anjos e demónios unos, preferidos a todas as visões, ritmados pela influência que transportam na pele até montanhas ou apenas edifícios altíssimos, a escalada urbana que um beijo sabe começar e deixar qualquer humano perto do divino, como se cada deus habitasse a palma da mão e a ponta dos dedos. Depois, no cimo dos telhados, procurem-se as pernas que baloiçam e segredam o lugar de cada amante.

março 09, 2012

Do último degrau vejo o teu primeiro dia


Morno. Muito morno. O confesso vagar, perdido em ruas alinhadas onde me desalinho, onde me deito, me banho, suspendo a condição de pessoa e torno-me gente, árvore, escondo uma guloseima no bolso, sorrio antes de verter alguma gargalhada que me escorre a cara e cintila os olhos, ganho vontades de menino apesar do tom grisalho que gosto de olhar. Morno ao pisar cada centímetro, ao pormenor geométrico de algum recanto, o recorte do sol nos degraus, deuses e deusas que se escondem por detrás das janelas, tentando na penumbra actos divinos que só eles querem. Sou suave e rouco ao mesmo tempo, essa medida antiga dizendo os números e gastando os soalhos, mesmo se os lençóis saibam apagar as rugas, os minutos e algum ontem tresmalhado.