dezembro 20, 2005

Chaves e silêncios

Épicamente balançado pelas luzes que anunciam o fim do dia, herança de uma dança de loucos que se prolonga muito mais que 7 minutos e meio, desejo profundamente acreditar nas missões e nos destinos peculiares.
Moro num sítio onde existe uma passagem secreta para os Natais. Os que se misturam com lenda e açafrão, os que mantém o perigo dos primeiros tempos, os que vão muito para lá das montras e dos enganos mortais. Às vezes tento rodar a chave ferrugenta dessa porta fechada por decreto, ouço alguns mecanismos ranger, cai alguma fuligem cor de antigamente e depois, só o silêncio da recusa por demenciais razões e espíritos menores. Então, espreito pelo buraco da fechadura, largo como só antes era possível e para lá da negritude da escuridão silenciosa, adivinho as formas trôpegas de mistérios de juventude, ogres de voz cintilante e mãos simuladas em luvas de pelica tão fina, que se conhece as veias pelo seu nome próprio. Os cheiros e as comadres agachadas junto ao lume, repetem ditos frugais, enquanto os seus olhinhos brilhantes estalam de gozo pelo fumo das cozeduras e o reflexo dos diamantes que pendem do tecto de madeira escura. Ao primeiro silêncio, as luzes baixam de tom e um coro de marfins alados encomenda um caminho novo de três mil e quatrocentos anos. Como resposta, os cristais em forma de animais e verdades, do alto das prateleiras cerimoniais, ri em gritinhos juvenis tornando tudo em cor branca. Ao segundo silêncio, os guerreiros de lábios gretados e ternura na ponta dos dedos, desembainha as espadas imemoriais e num gesto seco mas majestoso, lança-as para longe, onde um regato se transforma em oceano e as cobre definitivamente. À uma, cantam em coro a canção dos que regressam, ladeados pelas imagens ténues dos que por lá ficaram. As comadres à ordem da avó suprema, distribuem os caldos de mil ervas e as bagas de gengibre e veludo, que se comem às mãos cheias. Por momentos, engole-se o sabor e saboreia-se as virtudes de ter alma. Depois da ceia, todos se sentam virados para Este e sem palavra, espera-se. Ao terceiro silêncio, já ele próprio o esperava. A porta estremece, ouvem-se as formas que batem com os pés na pedra em busca de calor e secura, caem os pesados alforges, rebolando para a parede, acotovelam-se os que prolongam a dúvida e ouve-se em pancadas poderosas a porta anunciar a visita. Ao terceiro silêncio, desde tempos sem idade, chegam para o resto da ceia os quatros ventos, miragem eleita como a mais pura e perfeita num mundo prenhe de tomos vulgares e locuções vazias, que terminam antes do começo. Quando a porta se arrasta pela laje, a visão permanece intacta como a lenda: Os quatro ventos só serão vislumbrados pelas mentes limpas e pelas almas intactas.
Eu não os vi. Não conheço ninguém que os já tenha visto. Não sei de notícia de alguém que encarando-os, os tenha reconhecido e por eles tocado. A porta que separa a passagem secreta continua fechada. Consta que a chave enterrada na fechadura não serve. Que em vez, existem alguns milhões tremendos de chaves, espalhadas por aí. Que eu saiba, ainda ninguém encontrou alguma. A porta permanece fechada. As chaves, sem exigir esconderijo, espreitam quem passa, apressado em motivos menos nobres e essenciais para coisa nenhuma. A porta permance fechada. Espera pela chave. Uma qualquer.

Ao som de Shadow Gallery "Mystified"

dezembro 15, 2005

Sem quase querer















Desejo-te com a fome de sushis impossíveis...

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"

novembro 04, 2005

Depois do baile acabar

Quando a chuva se acabar, quando as nuvens se fartarem da morada, depois de algum percalço menos medido, não restará mais que a última direcção. Já experimentaste todas as outras? Sabes onde acabam?
Eu, por mim, sentei-me durante dias na encruzilhada. Pensei nas direcções, onde terminavam, quem procuravam nas bermas cheias de pó e erva, em que casas passavam a noite. De vez em quando levantava-me e punha-me a caminho. Antes do fim, voltava para trás. Aprendi as respostas sem ter de conhecer os pontos finais. Percorri todas as direcções, menos uma. Percorri-as até antes do fim. Nunca cheguei a saber se o fim estava perto. Sabia que estava lá, e isso bastava-me. Percorri-as todas, menos uma. Não a escolhi por acaso. Tirei-lhe medidas, pesei-a, observei-a de perfil e dos outros ângulos também. Não lhe dirigi palavra. Percorri-as todas. As outras. Quando regressava delas, sentava-me no mesmo sítio e esperava a resposta. Sempre sem conhecer os pontos finais. Não me fazem falta. Quando anoitecia, puxava do meu lenço, abria-o e com o cuidado de quem conhece as respostas, pegava num bocado de laranja e comia descansado.
Passou-se muito tempo, desde estes dias. A encruzilhada está mudada. As direcções já são outras e as respostas também. Dos pontos finais, não ouço falar há muito. Como não gosto de máquinas, deixo-me ficar sentado à espera de voltar a precisar dos meus passos. Antes não. Ainda tenho alguns gomos de laranja.

Ao som de The Smiths "How soon is now"

El Diablo


Sabes reconhecer o diabo, quando se cruzar contigo numa rua de movimento?

outubro 28, 2005

9 menos um quarto

O lado menos colorido das coisas, obriga-nos sempre a conjecturas demasiado simplistas. Olha-se o lado escuro de uma pedra, o leite que espera a sentença no fundo de um copo, o fósforo apagado depois de morto, a meia pegada junto ao passeio. Encolhem-se os ombros, pede-se piedade, pena, jeitinhos de hortelã e mantas gastas, um resto de saúdezinha de um pacote mesmo no fim. Vira-se a cara para o lado, procuram-se natais, ruas iluminadas, esquinas de portas abertas. E depois, escondem-se os sonhos por realizar, as bocas por alimentar, os perfis da derrota e todas as boas intensões do mundo.
Depois de anoitecer, os sem abrigo voltam aos seus caixotes, as ouriversarias fecham as portas de ferro, as meninas jantam nas salas aquecidas junto à cozinha, o velho do quarto alugado por cima da loja de ferragens assusta-se com o fim da vela. Sabe que os fins estão no fim da rua, à espreita. Gostam de apanhar quem se distrái. Gostam de aparecer sem convite, nem porta aberta. Gostam de surpresas. Depois de anoitecer, as chávenas de café têm outro sabor. Sabem a culpa. Sabem a dia gasto.
Se te acontecer encontrar o lado menos colorido das coisas depois de anoitecer, esconde-te no primeiro vão de escada e espera. Espera toda a noite, se for preciso. E se não gostares de fins, espera de olhos abertos.

Ao som de Blackfoot "Diary of a working man"

outubro 11, 2005

Sem esperar

Outro lado do mundo que estiver certo

Nunca fui. Nem sei se terei coragem de lá chegar. Tão pouco adivinho se algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada, porque paciência nem todos a têm. Creio chamar-se Soledad. Mas posso ter-me enganado. Ou então, enganaram-me. Já aconteceu. Deve ter uma família, daquelas cheias de primas e tios, cunhados de olhar diurno e vizinhas que conhecem as histórias e os segredos. Devem almoçar ao domingo, amontoando-se ao lado dos gritos das crianças e das ladainhas dos mais antigos. Reparte-se a fartura com a fome dos outros dias. Dão-se graças, apenas porque sim, porque já os outros as davam. Vive-se.
Eu ainda aqui estou. Preferi sentir-me cómodo. E preferi a segurança da Calle Amberes. Por uma vez, a Zona Rosa possui a cor perfeita. Na varanda do quarto de hotel, fazendo esperar a chávena de café a ferver na Plaza Garibaldi, acabo um cigarro adoçicado e medito no meu egoísmo. O tal que me decidiu esconder aqui, longe de quem já perdeu a paciência de me esperar, de quem olha os filhos numa adoração desmedida e nunca sabe o dia de amanhã. Talvez amanhã procure este destino. Ou então, um outro qualquer. Um que me espere impacientemente.
Deixo cair o que resta do tabaco, piso os vestígios ainda acesos, olho uma última vez o edifício da American Express e saio do quarto deixando a janela aberta. O ar condicionado nunca funciona. Desço, atiro as boas noites ao Salvador que me responde em rima e fundo-me com a multidão. Na esquina com o Paseo de la Reforma, talvez incomodado com este rio de riqueza entre lixeiras e bairros miseráveis, decido deixar esfriar a chávena de café e procuro um táxi para regressar à existência normal. Espero bastante tempo por um vermelho. Não me sinto com muita sorte para tentar outra cor. Vou a Las Aguilas, bem depois da Barranca del Muerto. Ali vive Soledad. Lembrei-me de lhe ir conhecer os olhos, adoçar a boca das crianças com alguns rebuçados, ouvir as frases feitas dos avós. Lembrei-me de sentir a vida como ela realmente é.
A verdade é que sou demasiado óbvio. Não cheguei a Las Aguilas. Não conheci os olhos de Soledad. Apanhei o táxi, um vermelho bem sujo, guiado por um velhote de dentes podres.
- À donde, patrón?
Hesitei, num gesto próprio dos que não sabem o que fazer do tempo.
- À la Tabacalera.
- Si patrón.
Recostei-me. Doíam-me os rins. Tinha passado a tarde a escrever. Baboseiras e lugares comuns. Demasiado tempo livre, esta é a verdade.
- Dejéme en el Oxford. - O condutor sorriu. Conhecia o destino. Olhou-me pelo espelho e tentou adivinhar-me a tara. Voltou a sorrir, encolheu os ombros e acelerou sem vontade.
Boas intenções. O papel de parede do inferno. Enquanto Soledad olha os filhos que adormecem sob o carinho da mãe, eu, egoísta, bebo o álcool viciado e observo as putas com idade de velha, que se bamboleiam ao som dos tristes boleros que Carlitos insiste em tocar. Pacientemente.

Ao som de Brian Eno & David Byrne "Regiment"

outubro 02, 2005

O lado do mundo que estiver certo

Nunca fui ao Tibete, embora sinta que algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada. Algo, ou alguém, enrolado num cobertor, talvez em farrapos, olha de relance quem desce do último autocarro, mede os seus passos, as suas exclamações, e me procura tarde após tarde por entre a poeira e o cheiro a chá requentado dos vendedores de rua. Eu, egoísta, faço-me esperar como se de um alto dignatário me tratasse, empolando a minha vaga importância num mundo tão prenhe como o que existe no Oriente, ignorante de contrapartidas e variações. Em Lhasa, alguém retarda a sua vez de comer algumas migalhas ou molhar os lábios num chá fumegante, sentado num degrau junto aos autocarros parados. De vez em quando levanta-se, estica-se um pouco, olha as águas do Kyichu e retoma a missão que sem razão aparente lhe foi confiada. Eu, sentado ao computador, fumando um charro com um prazer contido, perguntando-me as razões para tanta agressividade infantil, esfregando os olhos para retardar qualquer lágrima, de dentro da minha t-shirt dos New Order não compreendo este provérbio antigo que me espera pacientemente do outro lado do mundo e prefiro, por agora, ignorar o que nem sei que nome dar-lhe. E ainda assim, no meio das cabeças que descem os degraus sujos dos autocarros, procura-se a minha. A minha cabeça está a prémio. Mesmo se um prémio ínfimo, desajustado ao valor que aqui no Ocidente, apreçamos a existência, o tempo ou a necessidade.
Por enquanto, espero. Espero pelo cartaz que valorize a minha captura. Espero é valer alguma coisa que se veje.

Ao som de Aes Dana "Skyclad (High Frequencies Version)"

setembro 30, 2005



É com enorme emoção, que anuncio a minha candidatura ao vício. Mais tarde, direi qual...

agosto 05, 2005

Por ter de ser rápidamente

Por detrás do sono há uma intenção, um dever solene de regularizar os amores, as entregas de carícias e de ódios de estimação. A nicotina e os papéis quimicos levantam as suspeitas do costume, os presos estão presos, os guardas persistem nas suas rondas e todas as formalidades resistem ao tempo e às flores no caminho. A qualidade compra-se a golpes de sabre, a sementes de girassol descuidadas, a lágrimas com sabor a cereja, a chamadas telefónicas de meio segundo, ou talvez menos. A vida vende-se à velocidade do tempo. As velhas engasgam-se, os recém nascidos contam histórias de assombrar, os paraplégicos riem sem conseguir parar, as rotinas mostram conclusões fundamentais e todas as crianças, todas, vestem fatos de macaco amarelos com letras pretas. O sonho é real, bebe café ao nosso lado, encostado ao balcão sempre sujo de açucar e migalhas. O sonho paga com as mesmas moedas e cospe o hálito a queimado para o mesmo canto. Os uivos e os cigarros mal apagados formam coligações colossais, à medida de um faraó qualquer, ou então, daquele imperador que faz ginástica no gabinete do lado e já não se entende com o telefone pintado de algum tom de cor de rosa. Os envelopes continuam a rasgar-se com fúria e as cartas deitam-se fora sem se ler. Uma mera formalidade. Ou qualidade. Já não me lembro bem. À saída da câmara dos lordes, olho o céu e a estrada deserta, penso nos livros e nos programas de televisão que pretendi não conhecer e grito as palavras de ordem que repeti, uma e outra vez, na penumbra da dispensa da casa do lado. Uma formalidade. Nem estou bem, nem estou mal, apenas espero o inicio da mensagem, da profecia que ainda me faz sorrir, da ordem das coisas, dos tons de amarelo que ainda consigo recordar. Prefiro entrar em contradições, em ruas de um sentido só, nos cinemas que nao resistiram á falência. Não estudo, não trabalho, facilito os encontrões nas ruas cheias de gente. Entendo tudo isto com uma mera formalidade. Ou qualidade. Não me lembro muito bem.
À esquina, está um pedinte que um dia imaginei meu amigo. Páro junto dele, olho o seu olhar vazio, dispo o meu casaco, tiro os sapatos e deixo-os junto aos seus sacos. Com eles, deixo a minha chave do carro e de casa. Com ele, deixo as minhas invenções e as minhas desculpas. Uma mera formalidade. Ou uma qualidade. Já não me lembro bem.

Ao som de CCCP "Io Sto Bene"

agosto 03, 2005

O sorriso do senhor deputado

Doido de ciúme, Cravon bateu com a porta e desceu a rua de empedrado, com passos furiosos e recalcados. A aba da casaca batia-lhe na perna, com o compasso de uma tragédia em três movimentos. Os olhos vagamente lacrimejantes, mastigavam a revolta incontida de anos e anos de confiança e solenidade, misturados com a pureza de coração que desejava sentir e acariciar, fruto de uma mãe romântica e dos costumados silêncios do pai. Sentia-se traído, ladeado por vagas de lodo e mentira, mergulhado numa escuridão ateada pela tarde de sol no alto. Acelerando o passo, Cravon percorreu as ruas que julgava conhecer. Palmilhou-as até se sentir exausto. E mesmo com o cansaço a toldar-lhe a vista, não admitia parar. Queria esmagar com aquelas passadas remoídas o desgosto e a mágoa de nada voltar a ser como dantes. Pensava no suicídio, na desonra, na chacota e na solidão. Pensava sobretudo em fugir para longe e esquecer tudo o que sabia. Ou julgava saber.
Parou por um instante e levou a mão ao bolso, procurando o grande lenço branco para lhe enxugar a testa. Estava alagado. O calor do mês de Agosto, era cruel na cidade. Ao tirar o lenço, sentiu algo cair no chão. Olhou abismado para uma pulseira negra, de pontas douradas, que se tocavam como um beijo furtivo. Baixou-se, pegou-lhe e sentiu uma dor aguda. Uma das pontas, demasiado afiadas, entrou-lhe na carne e sugou-lhe algumas gotas do seu sangue. Quando levou a mão à boca, a estancar a ferida, jurou sentir o sabor dos beijos dela. Os que trocavam furtivamente, debaixo das arcadas do convento. Olhou admirado a jóia, como se assistisse a uma assombração. Desejou estar enganado, ser vitima de uma maquinação, estar louco, permanecer defunto. Encostou-se à parede desbotada, como se cambaleasse por uma tontura. Olhou uma vez mais a pulseira, medindo-lhe a infâmia. Olhou em frente, vendo as ondas de calor sobre o lajedo, alcançando a pedra despida dos muros do hospício. Sem saber como, sentiu alento. Compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio, soprando-lhe a poeira e avançou decidido, com um sorriso nos lábios.
Chegado ao portão enferrujado do instituto, tirou o chapéu e pediu para falar com o encarregado. Foi recebido com cortesia e disse ao que vinha:
- Quero fazer-me instalar. Sou doido varrido, perigo a segurança alheia, desejo o mal a todas as criaturas vivas e pretendo a ruína do mundo. Faça o favor, leve-me e proponha-me o vosso tratamento mais rigoroso.
Sem mostrar qualquer surpresa, o encarregado sorriu com gentileza deslocada e com um brilho terno no olhar:
- Meu caro, não pode ser. Acredite que compreendo as suas motivações. Não as conheço, mas compreendo. Mas a verdade é que não pode ser. - A razão da recusa começava a ganhar forma. - Os regulamentos são inequívocos. A maldade, o crime de sangue, o estupro, até o caos, não são prova de demência ou imputabilidade. Apenas humanidade, espirito de sociedade, percebe. Não posso encerrá-lo numa cela, submetê-lo a um tratamento cruel e quiçá feroz, atirá-lo ao esquecimento até ao fim do seu tempo, apenas por demonstrar cidadania e normalidade. Sabe que mais, com esses propósitos empreendedores, essa solenidade discreta e essa filosofia de vida tão vincada, concorra ao Parlamento, faça-se político, ainda vai a ministro.
Cravon ficou imóvel por alguns segundos. Sem atingir completamente o porquê, encontrava nas palavras do encarregado a verdade do mundo. Pelo menos, deste lado de cá do mar. Reconheceu-lhes dignidade, até alguns resquíceos de uma a amizade que podia ter existido. Compôs a gravata, os punhos da camisa e apertou vigorosamente a mão do encarregado:
- Compreendo. Agradeço-lhe a atenção. Acredite no meu eterno reconhecimento. Boas tardes.
Pegou no chapéu e saíu. Desceu o passeio até à entrada, rodeado de árvores e plantas raras, numa alegoria de oásis. Tirou o chapéu ao porteiro e seguiu pela rua junto ao rio. As suas passadas tinham perdido a fúria. O seu sorriso sereno, prometia bonanças. Levou a mão ao bolso e os seus dedos encontraram a pulseira negra. Tirou-a, abriu a mão à luz do fim do dia e com um suspiro milenar, atirou-a ao rio.
Coberto de confiança, Cravon compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio e avançou decidido, com o sorriso nos lábios.

Ao som de Carlos Libedinsky "Otra Luna"

junho 19, 2005

Mesmo se pensares para outro alguém

E depois, por detrás da mesa e das garrafas vazias, dependendo do relógio parado e do telemóvel desligado, com a camisa rasgada por um impulso, fibrilhando a noite com o resto de tarde e preferindo um hálito a cerveja vermelha, fico pouco quieto à procura de palavras vãs. Relego-te para o último lugar da espécie. Prevejo o teu desalinho, as meias rasgadas, as ligas presas no suor. E na boca um cigarro apagado à espera de um isqueiro... ou de um fósforo. Penteio-te com modos virtuais, aspirando o perfume dessa juba negra que me indicia a transgressão. Peso o teu valor de fêmea entre caixotes de tecidos e fardos de palha seca. Pergunto-te a idade, mas respondes-me com um rugido. Ou uma ameaça, não me lembro bem. Enquanto decido passar a língua nos teus pés nus, insisto no grau de condessa que possuis. É tarde, na escala dos humanos. Na tua, apenas atraso.

junho 08, 2005

Três pancadas na porta

As calças de cabedal como almofada e os longos cabelos em forma de lençol, trairam-me a pausa. Olhei para ela como um menino de coro. Creio que corei. Apanhei a camisa amarrotada e atirei-a para cima da cama. Passei as mãos pelo cabelo e senti-me meio adormecido. Estava acordado há quase dois dias. A boca sabia-me a tabaco e a restos de café requentado. Afastei as cortinas e olhei pela janela. A mota estava lá fora. O carro também. Coberto de pó. Sentei-me no sofá vermelho e tirei as botas a custo. Encostei-me e deixei-me ficar.
Quando acordei, não abri logo os olhos. Tinha a certeza que ela se tinha ido embora. Esperei os segundos que me pareceram os bastantes e vi a cama desfeita. Vazia. Na minha inocência, procurei algum bilhete escrito. Sorri. À falta de palavras, estava uma garrafa cheia na mesa. Dois copos. E no cinzeiro, um cigarro quase intacto. Num dos copos, como um presente de Natal, a marca de baton. Levantei-me, entrei na casa de banho e liguei o duche. Despi-me, olhei-me ao espelho com masoquismo e entrei na banheira. Demorei imenso tempo. Fechei as torneiras, usei a toalha e deitei-me na cama, sem me tapar. Não tenho cabelos compridos.

Ao som de The Dickies "Nights in White Satin"

junho 02, 2005

Aos sábados e domingos também

Esta é para quem insiste que estou zangado...

Ao almoço, salada de tofu com laranja, alface e nozes. E água. Muita. Depois, a intenção beliscada com um café. Depois, frases de circunstância avaliadas como verdades universais. O sorriso, a cumplicidade, a porta da saída. Um até logo cheio de coisas que não é preciso repetir. E com o vento na cara, sem reparar nos outros que nos seguem o caminho, regressa a gargalhada, o céu azul com um calor moreno e a intenção de pêssego e ameixa.
Acredito que ainda vale a pena. Quase tudo. Quase, porque não encontro meios absolutos. Acredito que ainda há sol a esperar, nomes para gritar ao fundo da rua, sonos à beira da água, candeeiros de abajour acesos toda a noite, segredos que só se contam baixinho, beijos açucarados, água fresca e letras de canções. E no fim e no depois, ter tudo outra vez. Voltam a ser dez da manhã, os barcos regressam, as janelas estão abertas e o olhar reconhece a candura de todos os dias.
Insistir é a prerrogativa dos complicados. Os outros, os que sabem existir, apanham a maré e deixam-se desaguar. Todos os dias.

Ao som de Steve Harley & The Cockney Rebel "Make Me Smile (Come Up and See Me)"

maio 31, 2005

Evidentemente

Enquanto espero pelo duche, olho o relógio na parede e sei que já é noite. Com o cabelo em desalinho, acabado de levantar de um dia coberto de preguiça, entendo ser prioritário um cigarro e o resto de uma cerveja morna. Olho no tecto o fumo a tentar fugir, procuro em cima da mesa as razões para recusar a inquietação, apago o cigarro e com o robe na mão saio do quarto.
O corredor com a passadeira aveludada é comprido e tem todas as portas fechadas. De um ou outro quarto, ouvem-se ruídos de circunstância. A única circunstância. Sinto que esqueci os chinelos mas nem por um milhão, volto para os buscar. Quando chego a porta da casa de banho, como se de um ritual se tratasse, coloco a palma da mão direita, muito aberta, na superfície polida de madeira escura. Espero um momento e abro a porta. O vapor escapa-se pela abertura. Entro e fecho a porta com algum cuidado.
Lá dentro, a rapariga oriental espera-me. De sorriso indefinido, veste calças carmesim com desenhos dourados, e umas chinelinhas pretas com atilhos dourados. Está despida da cintura para cima. Tem o cabelo solto, ao longo das costas nuas. Sinto uma intimidade violenta neste último pormenor. Ela tira-me o robe das mãos e pendura-mo com alguma solenidade. Com um gesto estudado, oferece-me todo o espaço. Dispo as calças do pijama, passo os dedos pelo cabelo e entrego-me. Ela saberá tratar de mim, melhor que eu.

Ao som de Madonna "Justify My Love (Deep Dish Even Deeper Mix)"

Selva

Remarcar o compasso de um assunto entre dois corpos e depois, insistir na fragrância de um momento a sós. Era cedo, preparava-se uma trovoada com a teimosia de um vento de sul, a roupa à janela ondulava de inquietação, o meu olhar percorreu o corpo dela, sem pensar em apetites nem consequências. Habituei-me a vê-la quase todos os dias, mas desta forma acho que nunca. De mãos nos bolsos, sem sorriso, encostado ao fogão, bastava-me violá-la com os olhos, revirá-la do avesso, sem intenções, demorando solenidades nos seios, nos vincos das coxas, num imperceptível gesto de entrega que se alongava ao ritmo da minha imobilidade. O telefone tocou e nem me apercebi quando o atendedor apitou. Os copos e as chávenas sujas em cima do lavatório, esperavam em silêncio. Ela quis sorrir e não conseguiu. Eu acho que a queria muito séria, quase zangada ou mesmo triste. Acho que fazia parte da fantasia. Acho, mas não tenho a certeza. Avancei, agarrei-a pelos ombros como se a fosse repreender, mas deixei escorregar os braços pelas suas costas suadas. Ela não se mexeu. Beijei-lhe o pescoço com uma sofreguidão que não me conhecia. Mordi-lhe o ombro e lambi a marca dos meus dentes. Olhei-a, olhos nos olhos, passei o meu polegar pelos seus lábios e forcei, à procura da língua. Ela resistiu. Pareceu-me que lhe tinham brilhado os olhos. Nesse preciso segundo, abracei-a e puxei-a com demasiada força para o chão. Sem oferecer qualquer resistência, abriu as pernas e enlaçou-me como se fosse um animal. Então, olhei os seus olhos uma última vez e aceitando o empenho, fui também animal.

Ao som de La Floa Maldita "L´Enfer Confortable"

maio 30, 2005

Permilagens

Em silêncio. Baixinho. Muito ao de leve, sem perturbar, afastando as almofadas como penas, olhando os ângulos das paredes muito quietas, frágeis, tudo no lugar de ontem, sem vozes, sem mãos que procuram mais e mais. Num tom de preguiça descoberto à toa, as páginas não se mexem junto à brisa que fica na janela fechada. Os livros, as cartas seguras por laços cor de mimo, a caneta fechada em dó maior, os segundos sentados no sofá, atentos, com os olhos em desafio de vantagens neutras, secretas, pedras de altar numa cripta isolada em papel de lustro. As faces, imóveis, solarengas, a vela apagada envolta em musgo de Dezembro, a caixa de fósforos vazia, o casaco deitado a dormitar, a porta entreaberta, á espera dos convidados curiosos, pisando tapetes anónimos e nos copos vinho terno. Pela persiana mourisca, a nuvem e a ladaínha que vem do Norte, sobem no parapeito e segredam rebuçados de morango. Nas bocas há paladares furtivos, vontades mornas vendidas a cêntimo, escolas de paredes brancas, dois pés esperando a hora dos barcos passar.
E quando a noite chegar, calada num colar de pérolas fingidas, permitindo o veludo e o suspiro, em silêncio, baixinho, vou murmurar as linhas que ainda me faltam. Só para eu ouvir.

Ao som de Joe Satriani "Canon (Acoustic Version)"

maio 25, 2005


Veludilho Posted by Hello

Pausa

Hesito: Um dia de veludo ou de seda...

De sol no alto

As manhãs são agiotas sem perdão. Exigem esforços impossíveis, dentro de redomas, faíscando ao sol da diferença. Querem-nos mal, as manhãs, reprovam a audácia das noites intermináveis, ferem o romance que só existe no sonho, precipitam o amor que navega por entre almofadas e e gemidos de preguiça. São arautos da manha e da tortura, as manhãs viradas a nascente. Sussurram promessas vãs, paixões desordenadas de silêncios comprometidos onde o beijo é bocejo madrugador. São vis, as manhãs de direcção única. Os becos sem saída dos fiéis.
Gosto de as confundir com uma voz de seda. Uma voz que matina uma canção de encantar. Um cigarro prometido, uma chávena de café sem pátria, um restolhar de lábios ávidos de serão. À beira dos carris de um eléctrico atrasado, um bairro dolente, onde as primeiras horas de luz são fadiga muito atenta. Uma porta entreaberta, uma promessa sem final, um dia de insiste em começar, mesmo quando vazio.
As manhãs perturbam os gestos lentos dos deuses. E como eles, também eu não encontro o norte. A bússola de marfim, ainda dorme, coitada.

Ao som de Eskobar featuring Emma Daumas "You Got Me"

maio 20, 2005

5 e meia da manhã, sob o temporal

Sem horas desfeitas
nem minutos perdidos,
conto histórias de pessoas,
de amores
amanhecidos pela ausência de vento,
sós
nas horas de neblina
e pó de arroz.

Na voz enrouquecida
de um jardim em repouso,
um suspiro
é o bastante.
Procuram-se nas mãos,
os esquecimentos de praia,
os degraus do museu,
a vaga suspeita de quem se apaixona num repente.
Mordisca-se uma maçã
num apetite que tarda em regressar,
ouvem-se canções de embalar
com os olhos muito abertos,
onde sorver é razão.

Nos horizontes
guardados no bolso,
estão as fraquezas,
os beijos intermináveis,
os verbos conjugados em suor.
O colchão ficou perdido,
nas ruínas de uma casa que caminha em paz.
A luz do candeeiro de rua,
já não sabe acender.
A lentidão dos dias sem azul,
a esquina que perdeu a memória,
o cheiro de um bocado de noite,
a capa do disco que fala em armários e balas.

E depois dos calendários,
depois das fadas e dos editais,
à beira do rio
num segundo,
rimos longe um do outro,
mortos para o reencontro,
suaves para a sedução.

Mim

A qualquer hora da noite, esfrangalhando células e faltas de apetite, há um ponto de onde não se pode regressar. São 2 horas e 45 minutos e a distância que me separa da auto-estrada, é maior do que a chave na porta de entrada e do botão do elevador. É esta mania da perfeição, da gravação exacta, das chaves do carro na gaveta, do isqueiro meio cheio e da bebida esquecida no copo. É uma irritação que não descola, um algodão encharcado de álcool que se passa no pescoço e refresca o instante. Um minuto mais na conta que o tempo insiste em apresentar, mesmo antes da sobremesa.
Não gosto de falar em noites perdidas. Não acho que as tenha perdido. Encontrei sempre qualquer coisa brilhante, em todas elas. Começar ou terminar um vício, bocados de sono, canções que nunca tinha ouvido com cuidado, vontades ou amanheceres. Não gosto de falar dos momentos escondidos da minha infância, mas não há noite que deixe passar em claro o que fiz, o que deixei de fazer, os caminhos, as manhãs bem cedo, a areia, os tufos amarelecidos pelo vento, as páginas soltas de histórias que me diziam respeito. Lembro cada momento, cada minuto que vale a pena retornar, como frases e palavras que nunca disse a ninguém. Guardo-as sem lhes reconhecer a dicção. É como uma fábrica que só depois de morta me apaixonou. Vagueei pelos seus escombros, toquei nas paredes esgravatadas, demorei-me junto aos ferros retorcidos, desejei entrar na miragem de algumas placas incompletas, tornei-me curioso da ruína e da desolação. E lembro-me dela como uma mulher. Uma que se quer esquecer, mesmo se regressamos onde a vimos pela primeira vez. Mesmo se fugimos dela em linha pouco recta.
Os fins abruptos provocam-me uma certa amargura, mas este, imponho-me a mim mesmo.

Ao som de Sofa Surfers "Sofa Rockers (Richard Dorfmeister Remix)"

maio 05, 2005

Fresta

No bolso esquerdo, o isqueiro que a mulher da sua vida lhe deu. Na gaveta, o relógio relembrado tantas vezes. Na porta da rua, as chaves e a serigrafia de um homossexual assumido, de dentes amarelos e casaco branco de lã grossa. Nos tímpanos, a canção de sempre. A que fala do amor, do celulóide e de um espasmo calmo e mudo. Na boca, um charuto com sabor a ilha e uma tentativa de sorriso. Nos olhos, os contornos turvos dos prédios e os seios escolhidos. No tacto, as chaves do automóvel. No olfacto, o copo. Na idéia, turbilhões, amidos azul claro, tormentas com chuva curta, peles que se tocam, perfumes. Na alma, seja lá o que isso significa, a encruzilhada. E na realidade, todos os caminhos.

Ao som de The Passions "I´m in love with a german film star"

Chambre de Nuit

No conforto do canto escuro, é bom esperar pelo fim. Mesmo se o fim , não é o que se escolhe. A almofada entre os braços e o amigo imaginário ao lado, muito atento e muito calado, são o começo perfeito para qualquer fim. Trauteie-se uma canção que fale de miragens e deixe-se os minutos tomarem conta do resto. Já não se ouve a vida passar, mesmo se o movimento continua lá fora. E depois, não faz mal se o telefone não toca, ou se as cartas chegam sempre abertas. O interesse é coisa de ontem. Cheira a bafio. Aqui, no canto escuro, as histórias andam por outras estradas. Basta mudar a posição do corpo, nem que seja um milímetro, para o destino ter outro contorno e a razão, sabor diferente. As cores têm tons de pausa. Aqueles tons de quem espera uma fatalidade. É o que acontece nos cantos escuros: Esperam-se fatalidades, como comboios atrasados, convencidos da sua importância capital.
E alturas em que o canto escuro é só um suspiro ou um ronronar aconchegado. São as horas da condescendencia e do chá arrefecido. São as contas de uma pulseira que estava no sotão, coberta de pó. São as migalhas do bocado de pão que enrijece em cima da mesa. São as bolachas que sabem melhor amolecidas. E com a almofada entre os braços, tudo parece flanela e muito limpo.
É assim o canto escuro. Doce e amargo como uma canção do tempo da guerra. O fim tarda em chegar, ficam os pés dormentes a as pernas, doridas. E num repente, o canto escuro é uma sala de baile envelhecida, mal iluminada, onde no canto mais escuro, uma banda ultrapassada toca canções vagas e dolentes que apetece ouvir. As cadeiras são de veludo gasto e os reposteiros pesam nas arcadas. O relógio, descomunal de dourados impossíveis, está parado e o tempo, interrompido. Se existe vida em mais algum lugar, ela é dispensável. Aqui, no canto escuro, espera-se o fim. Um qualquer. Mesmo se não é o que se escolhe.

Ao som de Les Negresses Vertes "Leila"

maio 03, 2005


Makura Posted by Hello

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"

abril 30, 2005

Laço sem corda

Queres-me? Não sei se deva desdobrar-me e mostrar o contorno dos segredos cor de deserto. Vou pensar nisso. Os minutos que demorar a minha escrita. Mais que isso, não. Seria doentio. Ou indiferente.
Sabes, li com vagar algumas linhas que a brisa de fim de tarde teimava em estremecer. Por entre os cortinados, os contornos da cidade são sempre esguios e atraentes. É por isso que baixo os estores quando tenho a janelas abertas. Sinto o sopro do mundo lá fora, mas mantenho o meu egoísmo intacto. Intocável. Imaculado. É isto, arrastar a existência entre tabacos horizontais e alguma filosofia de pacote, ziguezagueando nos passeios e nas esplanadas de café de bairro, esgotando as matrizes rodoviárias em manobras acidentais e repetindo as mesmas ruas, outra e outra vez.
Às vezes, atravesso a ponte, só uma delas, vagueio na outra margem à procura de cenários para um filme, imitando estrelas de rock, cansadas pelo vai-vém do seu sucesso, mudos pelo halo brilhante da ignorância que escolheram. Sofro de vertigens. Encho-me de iogurtes com sabores estranhos, encarando o objectivo de me sentir outra pessoa. Bebo chávenas de café com açucar. Peço sempre a mesma marca de álcool. Repito com fervor religioso, o local de suicídio. Alcanço nas canções que levarei para uma ilha deserta, a perfeição e a fé. Em suma, escrevo por um sentido de estado, uma responsabilidade caótica de desmaiar durante a entrega do prémio nobel, um desvio na maré inconcebível do marasmo. E isso não será amor?
Ainda penso. Nisso? Não sei.

Ao som de Rheingold "Dreiklang Dimensionen"

Mais subtilezas

Sibilando por uma rua íngrime, ladeado por vidros partidos de montras saqueadas, permito-me a derradeira lata de veneno. De olhar firme e sorriso permissivo, sinto um pisar duro sobre o pavimento encharcado. Em desafio, procuro no céu azul claro um sinal de exactidão. Satisfeito pela fugaz vitória, marco a subida com passadas directas, entoando um refrão que não ouvia desde os meus dezasseis. Há duas horas que decretei estado de sítio. Matei com tiros certeiros os oficiais de patente superior e aos sargentos, fechei-os nas masmorras a céu aberto. A comissão que enviei ao palácio presidencial, já deve ter terminado. No fogo posto à assembleia, ainda se vêem as colunas de fumo. Dos civis, mais de três mil permanecem mortos. Os feridos, teimo em não contabilizar. E por desdenhar artilharias pesadas, dispensei os meus guardas rebatizando a sua função. Estão caídos, numa atitude de extermínio.
Ao chegar à esquina, com a rua dos quiosques amarelos, viro à direita e antevejo ao fundo o largo do quartel. Ao pisar o lajedo da praceta, procuro com alguma avidez a porta entreaberta do café. Atravesso o largo, sem pisar os corpos imóveis no chão e preparo o palato num hedonismo violento. Num gesto infantil cravejado de saudade, pontapeio a porta e entro no café. Todos os clientes jazem retorcidos. Sobre o balcão, um empregado desafia a gravidade. Empurro o cadáver para o lado e encarando o criado ainda de pé, ordeno delicadamente.
- Um café, com um pau de canela.

Há prazeres que valem o esforço.

ao som de Oberkampf "Couleurs sur Paris"

abril 22, 2005

Subtilezas

Ela corre rua abaixo, perseguida por três. Vestem roupas justas e escuras. Têm no pulso direito uma marca. Não consigo ver a cor. Ela grita, enquanto na corrida vai esbarrando nos espelhos dos carros. Tem a camisa rasgada. Os olhos também. Chora traços negros e sente perto o fim. Eles, os três, não forçam a passada. Ganham-lhe tempo e provocam-lhe o pavor. Sabem o que podem conseguir e não o querem nem um segundo mais cedo. Sabem do que falam. E calam-se aos gritos da vitima. Sugam cada momento e cada lágrima. Sabem prolongar o prazer.
Um individuo vestido com um fato vulgar, tenta o gesto, contagiado pelo terror dela. Ao passar o segundo dos três, tenta barrar-lhe a passagem. O segundo dos três, sem o olhar, abate-o com dois tiros na cara. Continuou rua abaixo. As pessoas que sobem, fundem-se com as paredes e as montras. Arfam na tensão que lhes elimina o grito. Deixam-se ultrapassar pelo cenário. O primeiro dos três, sem parar, emite a recomendação em tom de ordem. Os outros respondem. Em estrangeiro. Um qualquer. Ela tropeça e cai, esgotada por um remoinho de horror e cansaço abissal. Sem conseguir levantar-se, arranha a garganta com a dor que antecipa. Rasgou a saia e só conserva um sapato. De salto partido.
Quando eles chegam ao pé dela, está alagada em suor. E medo. Tapa a cara com as mãos e sente a pausa. Os três, rodeiam-na. Têm botas pretas, com atacadores azul forte. Um deles raspa com a biqueira no chão. Nas mãos, seguram com saber navalhas de lâmina cónica. A do primeiro tem recortes de traço medieval. Peça única, certamente. Não sorriem, não falam, apenas a olham deitada no chão, admitindo a desigualdade assumida. Sem qualquer ordem ou sinal, exactamente ao mesmo tempo, rasgam-na de cima abaixo, pressionando o metal na carne morna. Não pestanejam aos salpicos de sangue e esboçam formas quase geométricas no corpo pálido. Sem aviso, imobilizam-se ao mesmo tempo e depois de um derradeiro olhar, levantam-se e limpam as lâminas às calças, junto ao joelho. Guardam-nas no bolso de dentro do blusão. Com um olhar mais calmo e repousado, aproximam-se da berma do passeio e chamam um táxi que tinha parado no inicio da rua. O segundo, ainda olhou com firmeza para o líder. Este encolheu os ombros. Nunca se importava com a cor dos táxis.

Ao som de Probot "Shake Your Blood"

Malgré tout

A mulher continuava ali, debaixo do pórtico, fustigada pelo vento da madrugada, um vento frio e teimoso que nos entranha a culpa. De mãos enluvadas, parecia-me uma figura de outros tempos, de filme ou de crime. O baton carregado e uns lábios tensos insistiam a imagem. A poucos metros, as águas em remoinho investiam contra o cais, saudosas de um antes longínquo. De pescadores ou embarcadiços, nem névoa. Nem sequer um bêbado tardio.

Quando saí do café, ainda se viam ao longe, as luzes acesas nos quartos mornos e aquecidos dos mortais. Olhei através da porta, de relance, as cadeiras que se amontoavam pelos braços experimentados do dono. Preferia ter acabado a noite com outro álcool. Aquele irritava-me o gosto. Meti as mãos nos bolsos do sobretudo e em ângulo agudo, enfrentei a ventania, em direcção da ponta norte do cais. Já deviam ser as três. Nunca conseguia chegar a horas que se visse. Nem uma vez. Encolhi os ombros e enrijeci os músculos, como numa birra. Ela espera. Esperava sempre...

À hora de romper o sol, mesmo sem ele, já os estivadores faziam fila no cais. De mãos nos bolsos, batendo os pés para aquecer o que resta da alma, de cigarro mal aceso na boca, esperam o capataz, e algumas moedas no fundo dos bolsos remendados. A tempestade amainou, a água ainda mostra rancor e o dia custará a passar. Os estivadores de olhos no vazio, esperam. Esperam a fadiga e a teimosia da vida. A mesma teimosia de uma luva de mulher, que as ondas da manhã empurram contra o cais.

Ao som de Sopor Aeternus "The house is empty now"

De Galileu, nem sinal

Nos pingos de água que caem do tecto e sonoros, desaguam nas lages frias, leio as sinas dos poderosos. Fechado nestas quatro paredes, há séculos demasiados para uma só vida, acordo todos os dias com vontade de assistir a um massacre. Ao que leio nas sinas dos poderosos. E aqui, só, na cadência dos pingos de água que caem no meu reino, desvendo os segredos dos príncipes, dos papas , dos avaros, dos iludidos, dos senhores do ouro e da prata, dos juízes e das rameiras. Escolhem-me todos para a verdade, mas só aceitam mentiras. As deles e as que roubam aos outros. Só, entre o salitre que escorre das paredes, reguardado por uma manta em fiapos e um hábito enegrecido pelo uso, troco de lugar as peças do xadrez num tabuleiro de marfim, pilhagem de outras épocas. Troco de lugar os reis e rainhas, levedando o sexo de cada um, fervilhando os travestidos do poder. Mudo os bispos de lugar, enviando-os a outras religiões. Faço de cavalos, torres, e vergo-lhes a carne em pedra. E os torreões da conquista, transformo-os em leprosos de feira, tragando-lhes as ameias cruas. Aos peões, simples plebeus, deixo-os ir em santa paz. Mas apenas lhes adio o sofrimento e a promessa. No tabuleiro de avesso, escrevo as vontades, as últimas, as que a eternidade nunca me há-de ofertar. E como louco, percorro o quadrilátero do meu cárcere, urrando berros bestiais, afinal a condição de quem determina as leis, de quem serve os poderosos e de seguida os mata.

Passados mais quatrocentos anos, uma bagatela, eu sei, continuo aqui fechado. Sózinho, amontoado. Ainda leio alguma sina. Ainda espirra salpicos, a água que cai do tecto. Nestes séculos a somar, apenas algo mudou. Algo apenas, quase nada, como um brisa serena em dias de tempestade. Mudou a cor do horizonte. O mundo, desapareceu.

Ao som de Das Zeichen "Hundert Jahre Einsamkeit"

abril 19, 2005

Depois do minuto anterior e antes do próximo

De tempos em tempos, descia a rua até ao jardim, sentava-me num banco de onde pudesse ver o coreto e algum mar e ficava ali, sem decisões nem ponteiros de relógio. Via as senhoras de regresso do mercado, alguns gritos de crianças soltos pelas férias, adivinhava um poeta no olhar vago de alguém que passava, a pressa de um seminarista, o suspiro da vendedora de gelados que ainda não tinha feito um tostão naquela manhã. À volta, um frio miudinho, o lago dos peixes vermelhos, o jardineiro que varre as folhas secas, os restos de orvalho que a escuridão gosta de oferecer. E a vida no andar desajeitado dos patos e na menina que colhe flores, de cócoras, sujando a borda do vestido claro.
De tempos em tempos, descer a rua até ao jardim, era a única forma de me convencer a manter-me vivo. Acordava todas as manhãs bem cedo, perseguindo uma sensação de menino, quando quase de madrugada, tremendo de frio, esperava a janela do meu amigo abrir-se e indicar a brincadeira. Era um arrepio de água gelada na cara, os ténis calçados à pressa e escada abaixo, até à porta que teimava em ranger e que eu abria com cuidados de equilibrista. Era a imagem do alfaiate, das plantas nos vasos, dos restos de jogos no cimento molhado, das traineiras que avisavam a chagada, de horas e minutos simples em amanhãs sossegados. E sobretudo ver as coisas como elas são, sem intenções, sem motivos para mudar só por mudar. Ver o adro da igreja como adro da igreja, o hospital velho como um velho prédio sem significado, o café da rampa como o balcão onde se pediam as pastilhas, a rua como o refúgio das alquimias. E quando o sol desaparecia por detrás das nuvens, levantava-me do banco de jardim, olhava em volta à procura de algo que me esquecera e regressava a casa. De tempos em tempos, sorria. Lembrava-me da doca e do quiosque e sorria. Lembrava-me de existir há muito, antes da vida automática, antes das 7 da manhã e dos bons dias de obrigação. Antes dos cafés e dos pacotes de açucar amachucados no pires.
De tempos em tempos, fico mudo e sonolento. Esqueço o caminho até ao jardim e não consigo recordar a cor dos bancos junto ao coreto. Acendo um cigarro e fico a olhar qualquer coisa, enquanto o fumo me faz companhia. E depois de alguns minutos, volto a existir. Por estar aqui...

ao som de Beth Orton "So Much More"

abril 16, 2005

Uma intimidade

Devagar, no meio do caos e da ternura, com um copo de vinho ao alcance da minha mão, reservo-me a um fim de frase. Com a força que uma casa vazia me oferece, desaguo no egoísmo e quero-me só para mim. Viajo sentado, a três mil quilómetros por momento, ultrapassando as recordações e as tentativas de esconderijo. Empurro as portas entreabertas, vagueio de quarto em quarto, desço as escadas mais que uma vez, olho e procuro só para me lembrar de tudo. E tudo ficou ali, escondido na terra revolvida, nos espinhos das rosas que a minha avó plantava, na água que secou no tanque, nos vasos vazios à espera de ontem. E como ontem, o silêncio vem de fora. Aqui há barulho, pratos arrumados no seu lugar de sempre, passos que não se dão por ser tarde. Demasiado tarde. Lá fora, o céu azul resiste à tentação. Vejo-o daqui, sempre com pressa que a noite chegue. E porque a pressa governa o tempo, lá fora já tudo é diferente, as árvores, os peixes, as pessoas e as vendedoras de pevides. Lá fora, o que existe já acabou. E aqui, o que já acabou continua a existir.

ao som de Eurythmics "I save the world today"

abril 14, 2005


ThePriest Posted by Hello

abril 08, 2005

Pausa forçada

A justificação pareceu-me breve. Breve e desajustada. Afinal, tinha assassinado uma mulher. Linda de morrer...

abril 05, 2005

Pausa

O inferno só é confortável, quando sussurrado por uma mulher de voz celestial.

Retrosarias de iluminuras

Predicados que voam baixinho, ostras e velhas obtusas sacudindo o pó dos corpos, o mel escorre em todos os telhados e a neve, essa, vale mil moedas de ouro. Na vertical, só existem escalenos e cavalos de tróia, cegos por maldizer o mundo livre. Dizem que sonham com elefantes invejosos; e na verdade, são o sonho de um marajá. O de Kampur, decerto ouviram falar. Dá ordens só nos dias de meio sol. Veste brocados cor de escola flamenga, no turbante insiste em mostrar uma ametista e bebe todos os dias, ao bater das 7, um chá de honra e limite. É feio, tem os dentes amarelos e no fim de cada lauta refeição, não arrota.
Na horizontal, passam sem cessar caravanas de camelos e homens de barba cerrada. Guardam nos odres água de frutas escondidas e à cintura, carregam o orgulho na forma de misericórdia antiga. Olham o horizonte com a sábia reflexão dos ausentes. Conhecem o sol, a areia e do tempo, tecem considerações perversas. Falam pouco. Nunca riem. Sabem quase todos os segredos do mundo... Quase. Desviam a sua rota de qualquer oásis e quando chegam a uma cidade, é alecrim, salva e hortelã. Ao entrar o portão pesado da urbe, cruzam-se com os mendigos de olhos rosa. Levam no bornal rasgado as vitualhas de trigo e pó. Bebem água das fontes e ao passar por algum casamento, pedem cabaçinhas de vinho novo. Rezam dezoito vezes por dia. Já esqueceram a que deus. Na torre mais alta do bairro mais perto, junto aos minaretes, vive uma menina de cabelos longos e tez prateada. É filha legítima da lua. Nunca conheceu o pai. Tem duas aias: Uma que lhe penteia os cabelos, manejando com a perícia dos hunos, uma escova de marfim e pelo de crina. A outra, de olhos semicerrados e cabelo cor de açafrão, canta versos da Etiópia, entoando as melodias que aprendeu com os tocadores de alaúde. Às cinco da tarde, sem a aflição dos relógios, as duas, a quatro mãos, servem a taça de azeite e múrmurios. A menina olha os corvos que esvoaçam ao longo da muralha e de um trago, bebe a beberagem antiga.
Quando a noite tenta os corações mais apressados, chegam à praça principal os malabaristas e as aves de rapina. Seguem-nas as dançarinas de ventre inchado, palco de fome e blasfémia. Aos gritos, irrompem por entre a populaça os faunos e as serpentes com voz de homem. Vêm de longe, cobrem-se de peles por curtir, espalham a boa nova dos Onze e de manhã cedo, ao raiar da cotovia, fazem-se ao caminho de outras gentes e negócios. Na praça, pelas horas da noite curta, a algazarra é humana. Acendem-se as fogueiras e os archotes, tombam as malhas de ferro forjado e trocam-se saúdes com vinhos sebentos. Vive-se com o vagar das lentidões. Vive-se e espera-se pelo messias... Um qualquer.
Depois de traçada a vertical e a horizontal, no ponto exacto onde se cruzam, nasce um rio de águas tépidas. Vai desaguar na rua das janelas pouco fechadas, onde passeiam as convenções. E porque hoje é dia de fazer de conta, os que restam, os que valem a pena, esticam os dedos, mostram a palma das mãos e recitam em toada, os versículos da idade de todos os dias. Mesmo se hoje é dia de meio sol.

ao som de Gentle Giant "The Runaway"

março 24, 2005

Em frente, na segunda à direita

Do limiar da negação, existe sempre uma rua sem fundo, onde se pode chorar, enterrar subversões, inventar divindades e no fim, seguir o caminho até à esquina seguinte, com a certeza de nunca encontrar becos sem saída. É fatal percorrer uma destas ruas, sem a demora própria de um casamento ou funeral. Deviam ter normas, estas ruas. Avisos ao incauto peão, sugestões de meditação, enfim algo que lhe acordasse a atenção e o incitasse à revolta. O mundo distrai-se com facilidade. Evita parar e perde oportunidades de diamante. Embrenhado numa cadência que não é sua, que lhe foi vendida por alguém sem rosto, segue os passos que fogem à sua frente e acredita em direcções que raramente o levam ao seu destino. Por vezes, esquece o caminho de casa. Por vezes, sabe-o demasiadamente bem. Nestas ruas sem fundo, os outros não importam. Só cada um.

ao som de The The "Kingdom of Rain"

março 22, 2005

Quando ela foge

Sentada à mesa de um café de bairro, esperava o chá arrefecer. Pegou numa revista de ocasião, mas largou-a, certa de não ter pachorra para os sonhos dos outros. Ao balcão, a dona do café quase dormitava. A tarde corria devagar, com pingos de sol furtivos e um calor fora de época. Sorveu o chá, ainda quente demais, sentindo algum veludo na garganta. Abanava a perna ao som de piano, que o rádio desbotado oferecia. Ouviu o eléctrico aproximar-se. Estendeu o olhar e invejou-lhe a rotina. No prédio em frente, algumas janelas abertas, as idosas espreitando junto às cortinas, alguma roupa interior a secar, alguém que escrevia com a outra mão enrolando o cabelo. Nos outros prédios, outros bocados de alguma coisa. Na rua, um estudante de passo rápido e braços pesados de livros e folhas. Uma bicicleta apoiada numa porta de garagem ferrugenta. O cheiro a café usado e coisas de ontem, ruminava-lhe a forma de pensar. Bebeu mais algum chá, morno, ultrapassado. De alguma forma, sentiu-se em casa. Gostava de sonhar que pertencia ali. A este pequeno bocado de vida, pasto de idéias de todos os dias, calado, anónimo, perdido. Queria ficar ali, sem ter de buscar direcções. Ficar ali, alimentando-se de chá e cheiros, abandonada à sua preguiça, vendo os eléctricos levar estrangeiros a outra cidade. Olhou a capa da revista pousada na cadeira e sentiu pena. Das outras e de si. A sua, esqueceu depressa. Recostou-se mais, sentindo as costas da cadeira, tirou um cigarro do maço e acendeu-o com um fósforo. Puxou o fumo com força e deixou-o sair, sem forçar. Pensou na morte, na mãe, no professor que a iniciou para o sexo, no seu quarto, nas poesias que plagiava, nas canções da sua vida, nos bocados de existência que ainda se obrigaria a cumprir.
Levantou a cabeça, como se acordasse de repente de um sono passageiro, bebeu o resto do chá já frio, de um só gole, levantou-se e foi pagar. Agradeceu entre dentes e saiu. Ainda viu o eléctrico a aproximar-se, mas preferiu correr para fora dali. Virou na primeira esquina e desapareceu. Na mesa, agora vazia, só uma chávena e uma revista. Rasgada.

ao som de Paolo Conte "Alle Prese con una Verde Milonga"

março 21, 2005

4 da madrugada

O semáforo está vermelho. Na rua deserta, por entre as sombras das árvores e dos prédios às escuras, pretende encontrar alguém cúmplice. Tem a câmara de video ligada e regista todos os seus pensamentos. Depois do semáforo ter a luz verde acesa, mantém-se imóvel. A música que ouve já a ofereceu em tempos. Com prazer. Ainda se lembra dele.
Sem encontrar quem pretendia, carrega no botão de next e avança para a música seguinte. Esta só a ele lhe pertence. Mete a primeira e arranca. Nem reparou na luz do semáforo.

Primeiro, ao som de Cowboy Junkies "Me and the Devil Blues"... a outra, não digo.

Cirurgias

Primeiro, ao longe, entre as folhas que teimam em cair, ouve o sussurro da estrada molhada, na expectativa do momento seguinte. Depois, no inicio, na justificação de um cheiro, no sabor e na retina, encontra as pistas que ordenou na parede. O branco das paredes, enjoa-lhe a mudança e a arrumação. E na dúvida, sente-lhe a frescura e o espaço. Nas milhares de capas dos discos que lhe compõem as paredes, descobre definições e palavras certeiras, como os tiros que gosta de exibir. Como empenhou o relógio, por ter a correia solta, esquece as horas com avidez. Amontoa os livros de linguagens de programação, num labirinto que só ele sabe desvendar. Fuma. Perfuma-se do cheiro de tabaco, num glamour que só ele conhece. Numa pausa estudada, lê as linhas que a vergonha não sabe omitir. Oferece-lhes um olhar brilhante.
Num segundo, deixa de ouvir o mundo fora da sua janela e estende a sua vida. A que lhe resta. Pega num bisturi e pressiona a incisão. Sabe de cor o nome dos orgãos e o seu lugar de origem. Mas quer mais. Limpa o sangue que se entorna de dentro, pega numa pinça e começa a mudar os orgãos de lugar. Decide-se e deita dois deles no caixote do lixo. Olha-os uma última vez e não lhes sente a falta. Volta a encarar a tarefa, volta a limpar mais sangue e recomeça. A primeira troca não o satisfaz. Retira o orgão mais problemático e coloca-o no cinzeiro, entre as cinzas. Com uma nova pinça, arquitecta os orgãos que mantém dentro. Ao fim de alguns minutos, levanta a cabeça e observa. Está quase perfeito. Olha o cinzeiro e enfrenta a transfusão. Limpa o sangue e à falta de linha e agulha, fecha a abertura com agrafes. Limpa as mãos, passa uma toalha pela testa e fecha o computador.
Escolhe um disco, sem acasos, guarda o isqueiro no bolso e com a chave do carro na mão, fecha a porta de casa com estrondo. Precisa de uma bebida.

ao som de Bolshoi "Crack in Smile"

março 15, 2005

Quase sem querer

Azuis e verdes em vermelho vivo,
com destino marcado,
redondo,
multiplicado por mil ou outro número qualquer.

Um lilás de tarde,
onde um cinzento não é cor,
onde se precipitam as adivinhas açucaradas,
crocantes na surpresa
e na chegada.

Pintar um lilás moderno,
enquanto o pássaro pousa no portão de ferro,
à hora do chá,
no pátio das folhas de Outono
em emaranhados infantis de alguma vez.

Onde os besouros vão acabar o dia,
na tranquilidade da senhora.
A senhora das meias negras,
da boquilha de prata,
da gargalhada sumida,
do anel de faz de conta.

A ternura,
a de sempre,
de um tempo de avós e mel,
onde a frescura se faz
e se ensina.
Onde o beijo não tem lugar,
por noctívago,
por indiferente.

Com as mãos em labirinto,
em novelos desordenados
de cores fundamentais,
a espera toma o sabor da areia depois do vento.

E o lugar,
o que ficou para o fim,
é azul
e verde
e vermelho redondo de céu azul.
Porque as cores só valem por um dia.
Amanhã,
já serão outras.

ao som de Craig Armstrong "Della´s Theme"

março 03, 2005

Do principio

Seguramente a pedra será sempre pedra.
Deitada nos caminhos
nos carreiros,
sentada à janela dos moínhos,
escutando os afazeres das gentes,
das aldeias,
perigando as fúrias
das meninas,
nos ausentes.
Seguramente a pedra será sempre muda.
Agachada de fronte para as vielas,
é testemunha cega dos artistas,
no seio pacato dos autistas.
Sorvendo as migalhas do orvalho,
matam a sede de trezentos anos,
antigas que são na calmaria.
Perturbam as passadas na calçada,
certas de grata companhia.
Caladas,
como murchas de perigo,
candeias de noite alta
de martírio.
Seguramente a pedra será sempre dura.
Fugitiva
entre crimes e ousadias,
nula por vocação
enjeitada,
mordaz entre golpes e morfinas
na dura razão de não ser nada.
Persegue-se a si própria
a rocha escura,
servil
de idioma derrotado,
cortina que se prende ao fechar,
num salão
onde vergonha é acabar.
Seguramente a pedra será sempre só.
Por vontade,
por motivo,
por ser pó.

ao som de Stoa "Tharmas"

Em contemplação

O mundo aqui, mostra-se devagar, silencioso entre o vento que agora é só brisa. Ao longo da curva do monte, em sossego, o mundo parou para ver o fim do dia. Conhece a noite que já sussurra, as trevas de asas de corvo, como os avós diziam. A noite, a de sempre, a que não esquece as cores das almas e das aflições. O mundo aqui, mostra-se inteiro. Um só, pasto de memórias e alfazemas. Um, de todos os invernos.

Quando o dia acaba, os sentidos perdem a justiça. Tornam-se proscritos. Inseguros, tacteiam velhos muros e penedos, em busca de guarida e segredo. Ouvem ao longe reis antigos e gritos incitando à luta. Ferros faiscando ao lume alto. Barbas grisalhas em desalinho. À noite, os lamentos são língua de fogo. São principio e raramente fim. São elixires e sarcófagos. À noite, recitam-se trovas de ontem. Lançam-se sorrisos baixinho. Está-se muito quieto, à beira das horas que passam com lentidão.

De longe, os murmúrios cercam as pedras caídas no chão. Estremecem os medos sob latidos de cães vadios, que procuram alimento pobre. E agachados, os terrores e as ânsias não têm lugar. Até onde a vista alcança, governam as sombras. E aqui, agora, o mundo sente-se devagar. Cheira a erva doce, a rosmaninho, a morte. Escondida sob a caruma, uma lápide de monge. Um que sabia. Fundiu-se com o mundo. Deixou de ser pó, para se tornar fermento. E fez mais depois de morto, do que em mil vidas da sua.

É tarde. E o tempo não manda aqui. Neste ermo, neste canto do universo, as regras não se conhecem. Nem as rezas, nem os nãos. Nem ódios, nem ouros, nem pão. Aqui jaz o velho mundo. Inteiro, de um só pedaço. O único. O verdadeiro.

ao som de Freiburger Spielleyt "Nenbressete, Madre de Deus"

fevereiro 25, 2005

Tudo

O amor é um cesto de maçãs. Carnudas, de apetites preferidos, de mel e flores colhidas pela manhã.
O amor só faz sentido a todas as horas. As primeiras, frias, aconchegantes, as de oriente, quando sol agarra as veias e brinca com elas. As suadas, corridas, sedentas de atenções e as de fome a dois, sorvidas com vagar ou à pressa, porque o amor as apressa. As soalheiras, lentas, salpicadas de pequenos tudos, solenes e lânguidas como um leito ameno. As seguintes, despertas, onde a luz se mistura com a vida, onde o fim não está à vista. As de poente, mornas, únicas, subjugando torreões e lendas. As de crepusculo, trémulas, escorregadias, onde a calçada permite o beijo. As que a noite empresta no seu reinado, principescas, naturais, começo de qualquer miragem. As ocultas, de memória, de badaladas aldeãs, de todos os juramentos, as que se dizem amanhã. E depois, todas as outras. As que faltam e se querem. E de terminar, se negam.
As maçãs, arrumadas no cesto, deixam-se quietas e mudas. Por amor.

ao som de Chet Baker "My Funny Valentine"

fevereiro 22, 2005

Pausa

A estrada, o traço contínuo amarelo de onde nascem as duvidas, as metades e os beijos gémeos. Este é o labirinto onde esvair não é verbo. E este, é o remoinho onde se deseja mergulhar.

Epitáfio

Na certeza de um tempo ausente, na carícia de uma voz de mulher, no pedido e na ária que ficou atrás das cortinas, no dourado e no azar, na intuição feminina de um olhar hesitante. Na tortura. No poço. Nas almas.

Enternecido pela volúpia, deitado sobre almofadas de fios desbotados, procuro o momento da metamorfose. Espreito o casulo e a roda dentada, encho os copos dos violadores e num assomo de inteligência, brado aos céus que me enterrem num sítio ermo e gélido, onde os vermes não existam e as carpideiras não me encontrem. Morro como poeta. Delego o meu legado aos perdidos, aos fracos e aos eremitas. Que as minhas palavras sejam comidas pelo vento. Que do meu rosto não se lembre ninguém. Que da minha carne, se sacie a fome. E morto, fétido em farrapos de conde, eu seja entregue a alguma amante, para que me trespasse a mortalha. Não quero nojo nem vivalma. Não pressinto feridas imensas. Pretendo apenas o enterro que encontrei numa obra-prima.

Estou à beira do precipício. Vejo as ondas a meus pés e as flechas nos meus braços. Fui coroado rei. Vilmente. Os prados estão cobertos de vassalos que ajoelham a minha soberba. Os cleros e as nobrezas agitam lenços vermelhos. A corte traja de negro. Eu, senhor da terra e do céu, obtenho a promessa dos outros deuses. Serei um. O único. Por dentro sinto a ruindade a trincar-me. Tusso sangue e ouro. Sou filho de Maquiavel. Quero carnes, vinhos quentes, mulheres e homens nus em grupos de oitocentos. Chamo videntes e assassinos, clamo por alguns amigos. Ordeno que me tragam cegos, todos os estropiados do reino, padres de bornal bem cheio e virgens mudas de medo. Se vou morrer, que morra de apoplexia. De fartos concílios e deboche, de orgias descomunais. E que mil olhos me observem toda a noite. Todas as noites daqui até ao apocalipse. E então, entre almas miseráveis e adúlteros manietados, que me seja entregue a coroa da desgraça. Desnudado, com um punhal na mão, que me cubram de mentiras. Ergam a torre mais alta e empurrem-me no abismo.

Rezem-se todas as missas. Celebrem-se três velórios. O rei está morto. Enterrado. Que não descanse em paz.

Kling Klang Absurda Posted by Hello

Ao menos uma vez

No semáforo de todos os dias pares,
reconheço as intenções
dos pioneiros.
Resignam-se a cada passo,
passam ao lado do vento
e das penumbras,
bebem nenúfares
e cantam odes
sem melodia.
De embaraço esquecido no canto da boca,
vejo-os olhar os vectores,
sinto-os trémulos
em feixes de horas tardias.
Tomam a direcção da toca
e encolhem-se
à passagem dos potros amestrados.
São demasiados,
mutantes de fim de dia,
entornados nas sarjetas cristalinas.
São livres.
Mas só nas horas mortas.
Antes de voltarem ao início,
trincam o que resta da vaidade
e brincam,
sob réstias de chocolate amargo.
Todos os dias pares
me afligia a falha da minha pedra da sorte.
Mudei-a de posição
várias vezes,
para esconder o defeito.
Nunca o consegui.
Mas descobri outros raios de sol.
Ofereço-os aos pioneiros.

ao som de Kate Bush "Wow"

fevereiro 21, 2005

Ícaro num dia de chuva

Precipitas querelas de amantes e intriguistas, numa sopa de lentilhas louras, aquecida num bico de Bunsen regular. Realizas os sonhos dos ateus entre as câmaras 1 e 3, desligando a 2 por conveniências múltiplas. Suas, aquecido por decisões ímpias, alagado na saliva dos notáveis. Dormes no oposto e na vantagem, sentes o perigo das rachas na parede, multiplicas os cifrões sem tempo para os gastar. Ginasticas o empenho e a carne, dobras os cabos das tormentas alheias, significas muito pouco para o conselho de administração. Tens família, mas só no notário. Divides os amigos pelas garrafas de álcool, nos sentimentos de elos escancarados, nas paixões de minuto, na velhice. Gargalhas, lacrimejas, terminas os nós por atar. Encaras o sucesso como mortalha e inventas todas as letras do teu alfabeto. Morres na insistência, analfabeto por vocação, vazio, entretido no porém e no vocábulo. És esquecido. E cambaleias a existência.

ao som de The Cure "A Forest (Original 12 inch)"

Orly, manhã cedo

Jurar
Potenciar escárnios e bem dizeres
Minguar

Na solidão,
perdido na vista de um par de cuecas,
nas calças de vinco imperfeito,
na luz fosca
dos segredos no fundo do copo.

À cor da selva que não se molha,
no aeroporto
de madrugada
a claridade que se mantém muda;
o café
a quente,
samaritano,
perdido nas bagagens dos outros,
no autocarro
ao lado da chuva
com o saco sujo entre as pernas,
as mãos nos bolsos,
húmidos,
lentos...
divorciados.

Com a cidade
ao fundo
gemendo,
antecipando vinganças,
a rua de sempre longe
amnésica
no zumbido do motor,
chocalhando o cansaço
de gente
anónima.

E na boca,
o sorriso tímido
de quem alcança.
No verso,
na fagulha,
reentrar na vida
mordiscando um pedaço de céu.

ao som de Talking Heads "Heaven"

fevereiro 18, 2005

Falsos profetas

Subjugado por dúvidas de Flandres,
perdido numa ventania oca,
sem pouso, sem catre,
movido por imagens vãs;
vergo-me à direcção da forca.

A caminho,
a caminho meus irmãos,
vede a luz, trémula,
são quebrantos,
violáceos,
perigos de barbárie terrena,
estupros celestiais
vírgulas extremas.

De noite,
sob as sombras das árvores,
os atalhos são vias sacras.
Pedintes
e vagabundos,
sob as marés
entre velas desfraldadas a jusante,
perseguidos pela fé,
esquecidos pela fortuna,
espezinhados em bolor
fervidos em água tépida.

São os gatunos,
bestas infiéis,
em número redondo de quinze,
sujeitos a mil escrútinios
de idade muito avançada.
São mostrengos,
e devoram luares.
Mostram-se alvos à turba,
permitindo a vergonha
enquanto matam a sede
com lodo de santas fontes.

Tremendo terrores de lenda,
de olhos esbugalhados,
pé ante pé
em pavor,
sumidos de algum alento;
os crentes, as prostitutas,
os antigos
e os batoteiros,
toda a fauna que a memória
insiste em mastigar.

Com as muralhas à vista,
vendo os archotes brilhar,
sente-se um querer maligno,
um cálice de velha cicuta.
De chagas abertas ao frio,
de ventre inchado
de míngua,
o choro babado em ribeiro,
a esperança
é cativeiro.

Só,
longe dos meus irmãos,
errando nas curvas da aurora,
ergo o punho para o céu,
e recito a heresia.

Pobre,
doente,
estafado,
protegido por nenhures,
embalsamado em vida
por feridas descomunais,
a voz transtornada em dor,
a vontade em farrapos,
suja de nada mais.

-Eis-me.
Já não sou meu.
Dou-me de pasto aos malditos.
Fustigo-me em vossas preces.
Comungo do vosso nojo.

Possesso,
encandescente,
num derradeiro arremedo,
babado de tons de ira,
desvendo por fim
o segredo:

- Dos céus,
a ignorância,
dos infernos,
compreensão.
De norte, de sul,
a vida.
Do meu próximo,
podridão.

ao som de Orphaned Land "El Norra Alila"

fevereiro 16, 2005

Divino

Por capricho, ou imprudência, tornei-me num deus para questionar a Natureza. Varri todos os papéis que inundavam a mesa do meu trabalho e com um gesto seco, desfiz-me de todos os traços humanos. Depois, inventei uma taça cor de âmbar, que enchi com água. Coloquei-a num dos cantos da mesa. Recolhi as pétalas de quatro rosas e com elas cobri a água.
Estranhei por alguns momentos, mas descobri-me desprovido de todos os sentidos mortais. Descobri outros. Notei que as diferenças entre os homens, são afinal preconceito. A Natureza, a de verdade, a que regulamenta a vida, não perde tempo em criar barreiras entre machos e fêmeas. Isso é tarefa da outra natureza, a que se escreve com letra minúscula. A que serve os desígnios das doutrinas e da retórica. A que se vende em nome de ideais e religiões. A que se limita a ser pântano. Preocupava-me a noção de pureza. A pretensão de regras impostas, o querer de alguns sobre todos os outros, os limites do animalismo e da sua carga magnética. Enfim, as horas, os costumes, as passadas definidas, os capítulos e os tratados. Preocupava-me toda a certeza. O absolutismo de uma certeza que se vende todos os dias. Tornei-me num deus e descobri a Natureza. E verifiquei que a outra, nem sequer existe.
Ser, como viver, tem as regras inerentes ao vazio, ao vento e ao apetite. Nada mais. O homem, como a mulher, decide a sua direcção. E dela, não fará definição nem dever. O homem, como a mulher, desvenda o seu desejo. E dele, não tornará rumo ou objectivo. A sensação deverá tornar-se emoção e esta, plenitude. O sim de um, não será o sim de outro. O sol, a chuva, o vento e o ocaso, serão as únicas forças a admirar. Os deuses, não serão mais que mensageiros. O homem e a mulher só se completam quando tal for a razão. A mulher e outra mulher, tal como o homem e outro homem, serão as partes inteiras se assim a Natureza o indicar. A Natureza de cada homem e de cada mulher. O vocábulo amor não existirá, porque não será necessário escrever ou dizê-lo. Estará presente. O amor terá forma de homem ou mulher. O amor, será homem ou mulher. E como a eternidade, carece de regras ou proibições.
Sentado, com a taça de pétalas no meu horizonte, fechei os olhos por momentos. Na minha Natureza antevi os risos, o prazer, o restolhar de crianças, as palavras dos sábios, os sons, as fases da lua, as cores e os sabores. Na minha Natureza antevi o brilho de uma mulher, o seu sabor e os seus lábios. Na minha Natureza senti-me ofegante, atento, sequioso. Quando abri os olhos, reconheci nas paredes a partilha e a simbologia divina. E por ser um deus, abri as mãos.

ao som de F.G.T.H. "Welcome to the Pleasure Dome (Fruitness Mix)"

fevereiro 15, 2005

Pausa

Toda a sabedoria de uma biblioteca solene, cabe numa vela acesa. Sobra ainda espaço para uma carícia, um vício e um pecado. Não necessáriamente por esta ordem.

Encontramo-nos no Graal

Tremo só de pensar no momento seguinte. Aceito o cigarro que há anos não experimentava, acendo-o com sofreguidão e sem me saber a nada, viro as costas à capela, aos convidados, ao mestre de cerimónias e a todas as flores que cobrem o chão. Tiro do bolso a chave do carro e antes de arrancar, olho a cruz iluminada. Nada mais resta para me demorar ali. Faço a manobra e acelero com a fúria de alguém que foi ludibriado. Fraude e dinheiro fácil... fraude e dinheiro ágil. E tudo isto, todas as provações, todos os cuidados e lamúrias, as tardes lentas, as beatas dos charutos engelhadas, as cinco horas todos os dias, e a seguir, e amanhã e sem nunca querer dizer adeus. Tudo isto, para nada. Para me sentir vítima e carrasco da sofreguidão. Para me acabrunhar de vez, coberto de milhões, enregelado por dividendos e lucros diários. Fui bem enganado.
Acordei na madrugada da realidade guiando um descapotável. Chovia uma morrinha fértil. A chuva dos silenciosos. Percorria a estrada de asfalto claro que cheguei a duvidar. Com o cinto de segurança a travar-me os impulsos, as bombas de gasolina entre as fábricas compridas e os respectivos edifícios de escritórios, o trânsito de ocasião, habitual, julgava-me invencível. Tinha aprendido a invejar as minhas intuições, sabia-me mordaz e cínico, quase como uma menina de laçarotes cor de rosa que exige bolinhos de cereja para o lanche. Conhecia-me. Há uns anos. Com as duas mãos no volante, actor vestido de almirante ou de fugitivo, desenhava as curvas com aplicação, retomando a cada pedaço de recta, o fatalismo dos mandarins que sofrem de gota. Na mala do carro, um monte de papéis em desordem confirmavam o meu estatuto de rico. Aliás, nem seriam necessários. Tinha saído a minha fotografia em quase todos os jornais. Primeira página. Ou última, conforme os casos. Estava lá tudo: A surpresa mal disfarçada, o ameaço de desmaio, as lágrimas inconformadas, os olhos fechados, os óculos escuros, o copo de água e a fuga repentina. Que me importa, era tudo verdade. Por uma vez, os jornais prescindiam do meu reparo. Que se danem.
Eram seis da tarde, quando decidi parar. Era um restaurante conhecido. Meu conhecido. O parque de estacionamento vazio, suspirou-me o desejo de estar sózinho. Fechei o carro e entrei. Comecei pelo fim: No bar, pedi a garrafa de rótulo negro e sentei-me perto da janela. Não me reconheceram. Depois do segundo copo, pedi uma mesa para jantar. Na segunda sala. A que me conhecia. Sentei-me, pedi logo o vinho habitual e recusei a ementa. O costume chegava. Não mudei os hábitos. Se calhar...
Comi pouco, mas bebi toda a garrafa de vinho. Quis sobremesa, mas não consegui engolir. Bebi dois cafés. Seguidos. Sôfregos, na esperança de me fazerem bem. Na casa de banho lavei a cara e olhei-me ao espelho. Estava velho. Pedi a conta e de pé, acendi um cigarro. Paguei com uma nota alta e voltei a fugir. Nada seria como dantes. Nem os silêncios, nem os sabores, nem a ordem natural das coisas. Aspirei o ar fresco da noite, pensei em segundos toda a história do jornal e evitei sorrir.
Sózinho, com o meu dinheiro, voltei à estrada, rumo a uma encruzilhada. Sabia exactamente onde encontrá-la.

ao som de The Stone Roses "I Wanna Be Adored"

fevereiro 14, 2005

Na caixa com os bichos da seda

...Gosto de comas de sete segundos. Confortam a alma. Quando há alma...

As palavras, as interrogações, os lados errados da culpa e do exílio, provocam as mesuras do remorso. Imaginando o centro estático de um crime, a poça de sangue que teima em aumentar, o estalido da patilha de segurança da arma que retorna a pacatez, a espera por qualquer coisa depois, o embaraço de mais um funeral e de um caixão forrado a lilás. Estas são as variáveis. Ou melhor, os coeficientes a usar e deitar fora. O que fica, depois das operações e dos cálculos, a seguir das contagens e das conferências, além da vergonha, é a ímpia vontade por mais vítimas. E o passatempo, o derradeiro gozo, é recusar pretendentes por motivos idiotas. Rebuscam-se ruas a pente fino, observam-se mesas de café e poltronas de colóquios, mandam-se despir prostitutas e pederastas, esvaziam-se lojas de brinquedos e queimam-se bonecas animadas, insufladas a água salgada e cocaína orgânica, recontam-se os votos de qualquer eleição de esquina, violam-se as bagageiras dos carros estacionados em segunda fila, inventam-se palavras em desordem para manifestações silenciosas. Abre-se a comporta de gaz e sufoca-se devagarinho. Morre-se em fatias.

Sete segundos? Ofereço 17... Vendido!

ao som de Carpathian Forest "A Forest"

fevereiro 10, 2005


Green Tranquility (by Roger Dean) Posted by Hello

Sono escreve-se com oito letras

Preparou o alarme do relógio para as 11 da noite. Abriu a gaveta e tirou as chaves de casa. As do carro, esqueceu-se delas. Fechou a porta com três voltas, aspirou o fresco do fim de tarde e sentiu-se vivo. Já no passeio, tirou um cigarro e acendeu-o com o prazer das noites compridas. Sentindo o frio, pôs as mãos nos bolsos do sobretudo de sempre e com os olhos semicerrados ao sol de poente, procurou um táxi.
Recostou-se no banco de trás e deixou-se ir. No rádio, canções populares que normalmente lhe aguçava o ódio. Agora, apenas sorrisos. No longo percurso, sempre junto ao rio, seduziu-se pelas filas de contentores e cargueiros ferrugentos, inspiração para as poesias que outros musicavam. Outros ainda as cantavam. Um trabalho hipócrita de equipa. Pediu ao "chauffer" se podia fumar. O outro, num resmungo, foi simpático. Acendeu outro cigarro e reparou que lhe restavam dois. Ainda havia tempo.
Pagou e recusou o troco. Ignorou os salamaleques e fechou a porta do táxi. Nem o viu arrancar. Olhou em volta. A praça estava na mesma. Como aquele fim de tarde há que tempos. O frio era diferente. Mais ácido. A luz, mais cinzenta. A memória, porque os anos passaram por aqui e não quiseram parar. Viu a porta do café de antigamente e entrou, um pouco solene. Afinal, já lá iam mais de trinta anos. O balcão de mármore era de inox. As prateleiras de madeira e vidro, alumínio e acrílico. O cheiro, uma miragem. Pediu um café, à procura de outro sabor. Já lá não estava. Riu quase alto. O empregado olhou-o com surpresa. Depois, com desagrado. Encolheu os ombros, deixou uma nota em cima do balcão e saíu. Eram 7 e meia. Chamou outro táxi e não se despediu da praça.
- Para a Alta, por favor. - Não perguntou se podia acender o cigarro e com olhos no vidro, embrenhou-se no começo da noite. Desde pequeno, brilhavam-lhe as idéias aqueles reclames luminosos. Mas nada como os néons do seu tempo. Para seu gosto, os actuais ou eram poucos, ou tinham um brilho baço. Falta de ambição. Ou de querer. As montras das lojas fechadas, impassíveis e superiores, acesas para a sua própria soberba, marcavam-lhe o cérebro disponível. Eram como um fetiche. Sempre que chegava a uma nova cidade, sempre ao anoitecer, jantava e rondava essas montras convencidas, até o cansaço e o sono o chamassem. Um prazer carnal, sem o odor a sexo. O táxi ultrapassava-as com rapidez, como se o desprezo fosse um salvo conduto para os semáforos. Riu quase alto e viu os olhos do "chauffer" no espelho. Estavam parados, com o sobrolho franzido. Não ligou.
Pagou e recolheu o troco. Mal saíu, sentiu o táxi arrancar num impulso. Olhou as moedas e deixou-as escorregar para o chão. O restaurante estava aberto. Entrou com o pé esquerdo à frente e escolheu a mesa de então. Pelos velhos tempos, começou com uma imperial. Leu a ementa com vagar. Nome por nome, prato por prato. 8 e 20, tinha tempo. Decidiu-se pelo arroz de pato no forno e uma meia garrafa de um tinto que tinha esquecido o nome. Ainda esperou pela tentação do pãozinho com manteiga, mas achou que era desnecessário. Os empregados eram todos novos. Que seria feito dos outros? O careca de camisa de manga curta. O magro, baixinho, de borbulhas no queixo. Lembrava-se da voz de ambos. Bebeu um gole de vinho à saúde deles. Boa ou fatal. Comeu sem olhar as horas. Mastigou como há muito não se lembrava. À sobremesa, não recusou o toucinho do céu. O sabor era o mesmo. Estranho. Não bebeu café e deixou uma gorjeta pelo doce. Antes de sair, acendeu um cigarro. Só ficava com um. Ao canto, junto da porta, uma máquina automática de venda de tabaco, mostrou-se. Não tnha moedas e não lhe apeteceu trocar dinheiro. Saíu.
Pensou que seria um boa idéia, caminhar até ao fim da rua. Ainda era longe. Tinha tempo. Passou à porta dos hóteis modernos e abrandou à vista de um dos antigos. Sorriu. Já lá tinha estado. Só durante a tarde. Tardes. Lentas de assumir e rápidas de esquecer. Exactamente ao contrário dos pedaços de chocolate que gostava de chupar. Ao longe, viu uma pastelaria e cedeu à gulodice. Comprou a marca que preferia e esperou o cigarro fugir. Imaginou-se numa cidade estrangeira e entregou com minúcia, os olhos à montras. Começou a pensar num idioma à sorte. Insistia nas palavras que já esquecera e criou diálogos inverosímeis, com empregados de lojas imaginários e alguns encontros casuais. Esqueceu o tempo por alguns minutos. Mais do que se imaginaria. Eram 5 para as 10. Sentiu falta de um álcool.
O táxi parou junto à porta iluminada. Pagou e esqueceu o troco e a boa noite. Entrou, baixou a cabeça ao porteiro da noite e chamou o elevador. O bar era no terceiro andar. Sentou-se numa mesa qualquer e satisfeito com a lisura do empregado, pediu conhaque. Olhou o barman, seguiu-lhe o movimento para a garrafa e descansou. Agarrou o copo em forma de balão com as duas mãos, como se fosse despedir-se de um moribundo. Por um acaso único, ouviu a canção que precisava de ouvir. Sorriu com embaraço e ofereceu a si próprio, a delícia de uma paz sem preço. Eram 10 e 35. Bebeu com pequenos goles, agarrou o sobretudo e desejou as boas noites. Deixou o suficiente para a bebida e muito mais pela canção. Já na rua, com as mãos nos bolsos e o vento nos cabelos, subiu a rua íngreme.
Quando chegou junto do muro, acendeu o cigarro, o último, inspirando muito devagar o primeiro fumo. Passou as duas mãos peos cabelos e olhou a cidade em baixo. A velha cidade suja e andrajosa que aprendeu a desejar. Foi a amante que mais lhe deu prazer. Trauteou a canção que lhe devia. Olhou o relógio e estremeceu por um segundo. Faltavam 4 para as 11. Levantou a cabeça, procurou o horizonte e com a mão por cima do bolso direito do sobretudo, sentiu o revólver. Porque gostava de finais felizes.

ao som de Balanescu Quartet "NoTime Before Time"

fevereiro 02, 2005

Quando os olhos dos gatos brilham

Ela fechou a carteira e recostou-se, gozando o prazer de parecer o que não era. Com um gesto feminino, compôs a meia e seguiu a perna até ao sapato preto que lhe agradava a silhueta. Já tinha bebido o suficiente. Qual suficiente? O de alguém ausente? A medida certa de parar o destino e a compostura? Pelo menos era o que lhe tinham impingido no colégio e na herança. Mas como o testamento já estava rasgado em quatro partes, como a fila certa do cemitério já não tinha nome, para quê esperar o dia seguinte. Porque não viver todos os dias que ainda faltam, no que ainda falta da noite? Fez um gesto discreto ao empregado e esperou o copo cheio. Com a cabeça um pouco pesada, embalou-se numa calma própria de tormenta. E sentiu-se mais feliz que nunca.

ao som de Jim Brickman "Harlem Nocturne"

fevereiro 01, 2005


Velvet Posted by Hello

Sumaríssimo

Cristo. A 200 à hora, parto para uma emboscada num desfiladeiro de pão e rosas. Enfrento a velocidade como um julgamento de togas indecentes, planificando defesas e jurados moles e mentirosos, decidindo as razões que os empoeirados exigiram. As portas e janelas fechadas não me impedem a viagem, arranco as ervas daninhas das bermas da estrada, nivelo o espelho retrovisor e procuro à retaguarda os farrapos dos meus sonhos e das minhas amantes. Fecho os olhos e sinto a estrada, um asfalto dolente e de beijos síncronos. Não recuso qualquer firmamento, não faço planos, não ocupo o lugar de nenhum defunto. Sou só eu aqui. Surdo e mudo de nascença, prevarico em dias de sol e peco em abundância à chuva. Na falésia mais perto do meu indicador direito, deixo-me cair com fúria, prolongando a velocidade do motor que me alumia a decência. Caio, caio de muito alto. Com os cabelos em turbilhão, experimento a impotência dos fracos numa queda em espiral. Voo em linha recta. Na vertical. Descubro em mim uma geometria periclitante. Vomito vectores e coordenadas longitudinais. Sou um peso morto que desfila na passarela da cobiça. E prevejo, antecipo curiosidades mórbidas que encherão milhares e milhares de páginas de jornais cor-de-rosa. Também dos de outras cores. Menos o preto. Serei enterrado com pompa, em circunstâncias inauditas e tradicionais. Rezem-se as missas, as ladainhas habituais, chorem-se as lágrimas cor de rímel, troquem-se os abraços e os votos de nunca mais. Quando os coveiros estiverem ao lado do monte de terra e alumiarem o buraco, abra-se o caixão pela última vez, na despedida alegre do condenado. Quando todos os olhos o encontrarem vazio, sintam na pele a vingança do poeta. Eu já não estarei aqui. E no buraco, muito menos.

ao som de Pop Dell´ Arte "Querelle"

janeiro 31, 2005

Nunca disse que voltava

Adeus. Rasgar os últimos papéis intactos, pontapear os amarrotados e seguir pela viela que vem a seguir. Adeus. Sem sentir o que acabou por cair. Ficar um momento encostado à moldura da porta e esperar o abraço, os braços das mulheres que se fez por não esquecer, as bebidas, os cantores. Saber de cor uma canção de longe, de limites pulverizados, de um rio que corre no canal, entre barcaças e tufos de relva alta, onde o saber é mais e a dentada tem sabor. E quando o abraço não chega, quando os braços delas não alcançam, é adeus e talvez até à volta. Mesmo se a volta não se quer.

Adeus. Pelos andarilhos e pelas receitas de pão, pelas primeiras filas dos teatros, por uma rua a subir entre os candeeiros altos, entre muros e caras de Verão. Ssob o sol da tarde, sem os travões, com todos os companheiros. Adeus. Pelos terraços e pelas mansões, com os copos cheios de vinho que azedou nas garrafas de antigamente. Por um torrão de sementes, por uma faca sem lâmina, pela mulherzinha que está agachada à espera do freguês. E mesmo sabendo das juras, das promessas de menino, o adeus é quando um dia se faz tarde. E nas horas altas da noite, à janela, a luzinha ensina o que aconchega. E por nunca esquecer o cheiro dos cigarros, a caneta e as folhas de números e paciência, por guardar bem fundo os degraus e a galeria, por ainda saber o nome e a minúcia, a dor magoa mais.

Adeus. Pelas perpendiculares e por todas as tartes de domingo. Pelas fachadas das idades e por todos os ausentes da hora de lembrar... Aquela esquina que me viu crescer, dar os passos e tropeçar nas alturas no esconderijo de sempre, no grito logo pela manhã, ao frio, depois da água gelada. Adeus, por cúmplice e por honraria. Depois das marés e do farol apitar a penumbra. Depois da porta da garagem ser fechada. Depois dela sorrir e dizer adeus.

Adeus. Por mim e por todos os outros.

ao som de The Rolling Stones "Ruby Tuesday"

janeiro 27, 2005


Sisters Posted by Hello

janeiro 23, 2005

Pausa

Sem que possas evitar, junto dois dedos e suavizo-te a pele dos pulsos. Depois, sem olhar para ti, subo os dois dedos pelo teu braço e quando chego a meio, paro. E deixo-te a imaginar...

Omnia Vanitas Posted by Hello

janeiro 21, 2005

Às 11, no mesmo sol

A menina vivia num filamento pintado de cores muito vivas. Sorria a todos os mares que passavam. Deixava-se ficar por ali, pela beira da rua pintada de amarelo claro e alguns brancos, invejada por todos os cinzentos. De cabelo solto, dedos despertos, imaginava as outras ruas e as outras cores. Fazia-lhes perguntas, todas as que já sabia a resposta. Baixinho, pedia aos gatos que a guardavam um pouco do sol das 11 horas. Os gatos olhavam-na, encostavam-se uns nos outros e sabiam o que ele queria. Quando ninguém estava a olhar, esvoaçava um bocadinho. Só um nada. Se alguém surgia na esquina, esticava as pernas e voltava a tocar o passeio. Todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sentiam o perfume a flores de manhã que a menina possuía. E durante todo o dia, todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sorriam por um instante sem saber porquê.

ao som de Organic Audio "Always the Sun"

janeiro 20, 2005


Gaijin Posted by Hello

De súbito

Pelo mar, na areia clara que recebe o momento da onda, dentro de um luar de encomenda, o exorcismo completa a ansiedade. Foi esta sensação que me marcou a espera. A espera de metade da noite mal dormida. Descobri a almofada suada mas não consegui lembrar o sonho. E por isso, quis ficar longe do quarto. Vagueei nos corredores, entre a obsessão do roupeiro e a dádiva de um pequeno-almoço madrugador. Sentia-me sem forças, com os destinos à deriva pelo nevoeiro lá fora. Quando dei pelo copo da noite passada, bebi o que restava. O sabor já não era o mesmo. Em cima da mesa, o isqueiro, o relógio e a caneta. No chão, o telefone e o casaco. Por detrás das cortinas a luz de um dia. E na penumbra, sentei-me no sofá do costume e olhei uma vez mais o piano. Foi talvez este último pormenor, que me recordou a minha condição de fantasma.

ao som de Jay Jay Johanson "Automatic Lover"

janeiro 19, 2005

Pausa

Devagarinho, num sussurro, em almofadas vermelhas, sob lilases, sentir a inocência ao murmurar bocadinhos de alguém. São quase gémeos, os dias bons e os dias maus.

Veias e taças de molho chinês

Na culpa e na carótida, no amor, na presunção, na altitude, no vazio e na tontura, no abraço, na mão, na vigilia, no canto mais escondido do manicómio. Lá longe, na exactidão de algum voluntário perdidamente apaixonado, na inveja, na sorte, na rouquidão, no desespero, no esperanto, na candura, no pretérito, em agridoces milímetros. Ao chegar ao cais, por detrás das gruas e das caixas de pó de arroz, no side car pintado de verde escuro, na surdina, ao de leve, ao cair. Ao acaso, à distância, ao virar da esquina na rua de sol cadente, ao longe, ao menos, escorregando ao longo da parede branca. Na cor, na denúncia, no café, no primeiro degrau, na prudência, no gato, na sombra, no adeus, no então. E com os olhos em ângulo agudo, sob a arcada, em viés, subindo os degraus da escada em frente, espreita-se o primeiro andar. É onde mora o suspiro.

ao som de Pink Floyd "Brain Damage"

janeiro 18, 2005

Granada

Nos mistérios e nas canções, existe sempre uma pausa que sabe a começo. E porque sei este segredo, posso adiar as conclusões. Talvez por isso, ou até talvez por nada, procurei o gorro cor de laranja com flores amarelas e brancas e uso-o sempre que quero. E se me dá prazer, só eu e ele sabemos porquê.
Hoje, penso em matrioskas e rubis de um vermelho impossível. Acho que condizem com a cor do meu coração. O que estou a usar agora. Lembro-me de um salão enorme, com um lustre descomunal que irradia luz para os cantos e cadeiras vazias. Espera-se a multidão. Eu, sentado na cadeira que me convidou, aproveito a bonança e deixo que o salão me mime. Sorrio e sinto-me cúmplice. Como nunca senti. Lembro-me desse salão. E da pausa antes da tempestade, lembro-me de um sol, elíptico.
O gorro ainda está aqui. Comigo.

ao som de Leningrad Cowboys "Knockin´On Heaven´s Door"

O turno da noite

Os dias, os que chamamos pelo nome, aqueles que respiram o sorriso e a carícia, deixam-se navegar e oferecem sempre um porto seguro onde desaguar a ternura. "Há dias que doem um pouco mais que outros", e esses, deixam-nos sós como estátuas. Depois, resta esperar "que a noite chegue" e nos enrole na manta do olhar prolongado. Durante o silêncio, basta procurar dentro de nós. E no fim da noite, quando Feynmann nos acordar, traçaremos a trajectória elíptica de um planeta P em torno do Sol F, e lá na Esfera Celeste procuramos o caminho. O que passa por baixo da nossa janela.

ao som de uma canção que guardo para os momentos de quilate

janeiro 17, 2005

Pausa

Quando o sol se apagar, a avenida ainda estará ali. Seca, fumegante, entretida num torpor de amante e de bordel. Porque a entrega é muda e de ruído. Porque a espera é mesmo assim: suja e dolorida.

Com o corpo

Olhar devagar, subtraindo as escolhas, perseverando a vontade onde o desejo não tem lugar. O desejo que de humano não é bem-vindo. Aqui quer-se o ser animal. O magnetismo. Olhar devagar, sequioso, adivinhando as proibições num esgar sem face. Devagar, passar o polegar no indicador, sentindo a textura, a pele que se quer fragmentada. Devagar, muito devagar, suster o sorriso, deixar cair o não e as virtudes, possuir naquele segundo, naquele minuto, a alma e o corpo. E tirando o sentido ao tempo, mergulhar na carne o olhar, o sabor, o paladar da saliva. Humedecer o lábio, o de cima, inclinar a cabeça ao ritmo da curva da perna, pedir mais e mais, revirar os olhos na pausa e exigir movimento. Olhar devagar os trapos pretos, a pele branca, fazer poesia no encontro dos dois... e depois, querer as cores separadas. Recusar o habitual num rito de elixires guardados. E o fumo, sempre exacto, mais que mordaz. O fumo envolvendo a cenografia que o olhar pretende vagarosa. Bonita. Sumarenta. Sem palavras, sem ordens ou pedidos, o olhar quer desnudar, violar a intimidade que já não é. Sedas, grita-se por sedas. Gritos guturais, bafientos, que se perdem nos minutos que separam da hora. Atrasam-se os ponteiros, os cronómetros, altera-se o ritmo do coração, diminuem-se as pulsações, vitimiza-se o silencio. Só o fumo, o olhar, a pele branca, os acordes de uma musica repetitiva. À luz de uma vela cor de vela, sustenho. Hesito explicar palavras e pontos finais. Decido. E fico-me ali, deitado sobre uma almofada que não é minha, minado por uma pele que não é minha, transpirado, movido por um olhar. O que me pertence.

ao som de Les Jumeaux "Feathercut"

O quarteirão

Os dias, quando passam por nós, ganham as cores que nunca julgamos adivinhar. E depois... Depois, somos atingidos pelo brilho de um anil que não é o nosso. Por muito tempo, pressenti ter o dom da ubiquidade. Vaguear por dimensões que não estavam ali. E assim, percorri guerrilhas, sonorizei estados de alma e deixei-me ficar numa rua cheia de gente, sentado no chão, encostado a uma montra, a rir. Chamam-lhe avenida, mas eu não acredito. Não acreditava. Vagueava pelo sentido de um estado químico, que me arrastava para a completa distorção dos ângulos rectos. E cada vez que ria, era da cor quase exacta. Não sabia que existia o tempo. Nem sequer as horas ou os minutos. Estava ali, cúmplice dos meus cúmplices, vestido de uma forma qualquer, sem ponto cardeal, sem doutrina, sem querer. E ficaria ali toda uma vida, se não me tivesse levantado e caído outra vez. Hoje, tenho pena. Como a teria se fosse ontem. Houve um dia que quis entrar num igreja escolhida a dedo. Fui barrado à entrada. Não possuía a senha. Virei costas aos sinos e aos infiéis e quis-me bastardo. Não voltei. Achei que não valia a pena. Às vezes, ainda circundo as ruas que a limitam, mas já nem olho para ela. Nem ela para mim. Prefiro os becos e as ruas estreitas. Onde as igrejas não sabem os segredos. Ofereço-os, nos restaurantes decrépitos e cheios de mesas vazias. A verdade, só a confesso aos comboios. Aqueles que partem das salas estofadas de rasgões e tectos demasiado altos. Os que levam sempre um bocadinho de mim. E por isso, nunca os vejo partir...

ao som de In The Nursery "Days of Freedom"