janeiro 31, 2005

Nunca disse que voltava

Adeus. Rasgar os últimos papéis intactos, pontapear os amarrotados e seguir pela viela que vem a seguir. Adeus. Sem sentir o que acabou por cair. Ficar um momento encostado à moldura da porta e esperar o abraço, os braços das mulheres que se fez por não esquecer, as bebidas, os cantores. Saber de cor uma canção de longe, de limites pulverizados, de um rio que corre no canal, entre barcaças e tufos de relva alta, onde o saber é mais e a dentada tem sabor. E quando o abraço não chega, quando os braços delas não alcançam, é adeus e talvez até à volta. Mesmo se a volta não se quer.

Adeus. Pelos andarilhos e pelas receitas de pão, pelas primeiras filas dos teatros, por uma rua a subir entre os candeeiros altos, entre muros e caras de Verão. Ssob o sol da tarde, sem os travões, com todos os companheiros. Adeus. Pelos terraços e pelas mansões, com os copos cheios de vinho que azedou nas garrafas de antigamente. Por um torrão de sementes, por uma faca sem lâmina, pela mulherzinha que está agachada à espera do freguês. E mesmo sabendo das juras, das promessas de menino, o adeus é quando um dia se faz tarde. E nas horas altas da noite, à janela, a luzinha ensina o que aconchega. E por nunca esquecer o cheiro dos cigarros, a caneta e as folhas de números e paciência, por guardar bem fundo os degraus e a galeria, por ainda saber o nome e a minúcia, a dor magoa mais.

Adeus. Pelas perpendiculares e por todas as tartes de domingo. Pelas fachadas das idades e por todos os ausentes da hora de lembrar... Aquela esquina que me viu crescer, dar os passos e tropeçar nas alturas no esconderijo de sempre, no grito logo pela manhã, ao frio, depois da água gelada. Adeus, por cúmplice e por honraria. Depois das marés e do farol apitar a penumbra. Depois da porta da garagem ser fechada. Depois dela sorrir e dizer adeus.

Adeus. Por mim e por todos os outros.

ao som de The Rolling Stones "Ruby Tuesday"

janeiro 27, 2005


Sisters Posted by Hello

janeiro 23, 2005

Pausa

Sem que possas evitar, junto dois dedos e suavizo-te a pele dos pulsos. Depois, sem olhar para ti, subo os dois dedos pelo teu braço e quando chego a meio, paro. E deixo-te a imaginar...

Omnia Vanitas Posted by Hello

janeiro 21, 2005

Às 11, no mesmo sol

A menina vivia num filamento pintado de cores muito vivas. Sorria a todos os mares que passavam. Deixava-se ficar por ali, pela beira da rua pintada de amarelo claro e alguns brancos, invejada por todos os cinzentos. De cabelo solto, dedos despertos, imaginava as outras ruas e as outras cores. Fazia-lhes perguntas, todas as que já sabia a resposta. Baixinho, pedia aos gatos que a guardavam um pouco do sol das 11 horas. Os gatos olhavam-na, encostavam-se uns nos outros e sabiam o que ele queria. Quando ninguém estava a olhar, esvoaçava um bocadinho. Só um nada. Se alguém surgia na esquina, esticava as pernas e voltava a tocar o passeio. Todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sentiam o perfume a flores de manhã que a menina possuía. E durante todo o dia, todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sorriam por um instante sem saber porquê.

ao som de Organic Audio "Always the Sun"

janeiro 20, 2005


Gaijin Posted by Hello

De súbito

Pelo mar, na areia clara que recebe o momento da onda, dentro de um luar de encomenda, o exorcismo completa a ansiedade. Foi esta sensação que me marcou a espera. A espera de metade da noite mal dormida. Descobri a almofada suada mas não consegui lembrar o sonho. E por isso, quis ficar longe do quarto. Vagueei nos corredores, entre a obsessão do roupeiro e a dádiva de um pequeno-almoço madrugador. Sentia-me sem forças, com os destinos à deriva pelo nevoeiro lá fora. Quando dei pelo copo da noite passada, bebi o que restava. O sabor já não era o mesmo. Em cima da mesa, o isqueiro, o relógio e a caneta. No chão, o telefone e o casaco. Por detrás das cortinas a luz de um dia. E na penumbra, sentei-me no sofá do costume e olhei uma vez mais o piano. Foi talvez este último pormenor, que me recordou a minha condição de fantasma.

ao som de Jay Jay Johanson "Automatic Lover"

janeiro 19, 2005

Pausa

Devagarinho, num sussurro, em almofadas vermelhas, sob lilases, sentir a inocência ao murmurar bocadinhos de alguém. São quase gémeos, os dias bons e os dias maus.

Veias e taças de molho chinês

Na culpa e na carótida, no amor, na presunção, na altitude, no vazio e na tontura, no abraço, na mão, na vigilia, no canto mais escondido do manicómio. Lá longe, na exactidão de algum voluntário perdidamente apaixonado, na inveja, na sorte, na rouquidão, no desespero, no esperanto, na candura, no pretérito, em agridoces milímetros. Ao chegar ao cais, por detrás das gruas e das caixas de pó de arroz, no side car pintado de verde escuro, na surdina, ao de leve, ao cair. Ao acaso, à distância, ao virar da esquina na rua de sol cadente, ao longe, ao menos, escorregando ao longo da parede branca. Na cor, na denúncia, no café, no primeiro degrau, na prudência, no gato, na sombra, no adeus, no então. E com os olhos em ângulo agudo, sob a arcada, em viés, subindo os degraus da escada em frente, espreita-se o primeiro andar. É onde mora o suspiro.

ao som de Pink Floyd "Brain Damage"

janeiro 18, 2005

Granada

Nos mistérios e nas canções, existe sempre uma pausa que sabe a começo. E porque sei este segredo, posso adiar as conclusões. Talvez por isso, ou até talvez por nada, procurei o gorro cor de laranja com flores amarelas e brancas e uso-o sempre que quero. E se me dá prazer, só eu e ele sabemos porquê.
Hoje, penso em matrioskas e rubis de um vermelho impossível. Acho que condizem com a cor do meu coração. O que estou a usar agora. Lembro-me de um salão enorme, com um lustre descomunal que irradia luz para os cantos e cadeiras vazias. Espera-se a multidão. Eu, sentado na cadeira que me convidou, aproveito a bonança e deixo que o salão me mime. Sorrio e sinto-me cúmplice. Como nunca senti. Lembro-me desse salão. E da pausa antes da tempestade, lembro-me de um sol, elíptico.
O gorro ainda está aqui. Comigo.

ao som de Leningrad Cowboys "Knockin´On Heaven´s Door"

O turno da noite

Os dias, os que chamamos pelo nome, aqueles que respiram o sorriso e a carícia, deixam-se navegar e oferecem sempre um porto seguro onde desaguar a ternura. "Há dias que doem um pouco mais que outros", e esses, deixam-nos sós como estátuas. Depois, resta esperar "que a noite chegue" e nos enrole na manta do olhar prolongado. Durante o silêncio, basta procurar dentro de nós. E no fim da noite, quando Feynmann nos acordar, traçaremos a trajectória elíptica de um planeta P em torno do Sol F, e lá na Esfera Celeste procuramos o caminho. O que passa por baixo da nossa janela.

ao som de uma canção que guardo para os momentos de quilate

janeiro 17, 2005

Pausa

Quando o sol se apagar, a avenida ainda estará ali. Seca, fumegante, entretida num torpor de amante e de bordel. Porque a entrega é muda e de ruído. Porque a espera é mesmo assim: suja e dolorida.

Com o corpo

Olhar devagar, subtraindo as escolhas, perseverando a vontade onde o desejo não tem lugar. O desejo que de humano não é bem-vindo. Aqui quer-se o ser animal. O magnetismo. Olhar devagar, sequioso, adivinhando as proibições num esgar sem face. Devagar, passar o polegar no indicador, sentindo a textura, a pele que se quer fragmentada. Devagar, muito devagar, suster o sorriso, deixar cair o não e as virtudes, possuir naquele segundo, naquele minuto, a alma e o corpo. E tirando o sentido ao tempo, mergulhar na carne o olhar, o sabor, o paladar da saliva. Humedecer o lábio, o de cima, inclinar a cabeça ao ritmo da curva da perna, pedir mais e mais, revirar os olhos na pausa e exigir movimento. Olhar devagar os trapos pretos, a pele branca, fazer poesia no encontro dos dois... e depois, querer as cores separadas. Recusar o habitual num rito de elixires guardados. E o fumo, sempre exacto, mais que mordaz. O fumo envolvendo a cenografia que o olhar pretende vagarosa. Bonita. Sumarenta. Sem palavras, sem ordens ou pedidos, o olhar quer desnudar, violar a intimidade que já não é. Sedas, grita-se por sedas. Gritos guturais, bafientos, que se perdem nos minutos que separam da hora. Atrasam-se os ponteiros, os cronómetros, altera-se o ritmo do coração, diminuem-se as pulsações, vitimiza-se o silencio. Só o fumo, o olhar, a pele branca, os acordes de uma musica repetitiva. À luz de uma vela cor de vela, sustenho. Hesito explicar palavras e pontos finais. Decido. E fico-me ali, deitado sobre uma almofada que não é minha, minado por uma pele que não é minha, transpirado, movido por um olhar. O que me pertence.

ao som de Les Jumeaux "Feathercut"

O quarteirão

Os dias, quando passam por nós, ganham as cores que nunca julgamos adivinhar. E depois... Depois, somos atingidos pelo brilho de um anil que não é o nosso. Por muito tempo, pressenti ter o dom da ubiquidade. Vaguear por dimensões que não estavam ali. E assim, percorri guerrilhas, sonorizei estados de alma e deixei-me ficar numa rua cheia de gente, sentado no chão, encostado a uma montra, a rir. Chamam-lhe avenida, mas eu não acredito. Não acreditava. Vagueava pelo sentido de um estado químico, que me arrastava para a completa distorção dos ângulos rectos. E cada vez que ria, era da cor quase exacta. Não sabia que existia o tempo. Nem sequer as horas ou os minutos. Estava ali, cúmplice dos meus cúmplices, vestido de uma forma qualquer, sem ponto cardeal, sem doutrina, sem querer. E ficaria ali toda uma vida, se não me tivesse levantado e caído outra vez. Hoje, tenho pena. Como a teria se fosse ontem. Houve um dia que quis entrar num igreja escolhida a dedo. Fui barrado à entrada. Não possuía a senha. Virei costas aos sinos e aos infiéis e quis-me bastardo. Não voltei. Achei que não valia a pena. Às vezes, ainda circundo as ruas que a limitam, mas já nem olho para ela. Nem ela para mim. Prefiro os becos e as ruas estreitas. Onde as igrejas não sabem os segredos. Ofereço-os, nos restaurantes decrépitos e cheios de mesas vazias. A verdade, só a confesso aos comboios. Aqueles que partem das salas estofadas de rasgões e tectos demasiado altos. Os que levam sempre um bocadinho de mim. E por isso, nunca os vejo partir...

ao som de In The Nursery "Days of Freedom"

janeiro 15, 2005

Pausa

Algures, numa rua escurecida por uma noite tardia, existe um átomo que rege o que sinto. Não o guardo só para mim, porque a cumplicidade não mo permite. E por cúmplice, tenho a verdade de um encanto.


A Culpa

No balanço letal, entre o calor invisível e o paladar adocicado por gotas fiéis de um cúmplice que aguarda no fundo de um copo de cristal, pretendem-se carícias e agulhas. As que marcam na pele o segredo dos vencedores. Subjugando um grito, percorro o olhar pelas heranças e despojos de um tempo ausente. Fixo um veludo esverdeado e encaminho dentro de mim, o infinito apetite por coisas mortais, gastas perante a poeira e apetecíveis quando o deleite se profetiza.

É tarde. À lua, suam encantos e texturas. Provoca-se a vontade de muito mais e canibaliza-se a paixão. Está aberta a porta sagrada do limite. Sem olhar o rasto dos passos de quem me precedeu, entro no salão, vasto de sonoros gemidos e apneias esmeraldas, embaraçando o dote que julguei correcto. É tarde. Ajoelho a humildade que se esvai em segundos. E vociferando urros bestiais, entrego-me à orgia. Sem mágoa, sem pertença ou perigo, cativo o estranho poder que atravessa as almas e destrói os muros altos do prazer. Sou um só. Eles, serão mil.

ao som de Ophelia´s Dream "Fairy Dance"

janeiro 14, 2005

Teatro da Salvação

Como numa ópera, subjugo-me aos coros e sinto-me explodir. Adianto as guitarras e os martelos pneumáticos, peço as pausas que me são devidas e parto para o fundo do palco. Volto-me e olho a plateia imóvel. Levanto o olhar para as frisas e os camarotes, para os tectos barrocos pintados de dourado, embacio-me com os veludos escarlates, ofusco-me nas jóias e pérolas das damas biscainhas e invejo-lhes os decotes. Ante as calvas sorumbáticas e disformes dos banqueiros e ministros, oferto os meus esgares de nojo. A um gesto meu, a orquestra irrompe e o coro grita e gesticula odes infernais. Quero o caos, a virtude e um raio fulminante em direcção a Marte. O céu pode esperar. Para sempre. Com os olhos fixos na fila de violinos, abro os braços em desafio e rejo a orquestra entre trovões e pânicos. Alagado em suor, incito os actores ao assassinato, exijo aleluias frenéticos, sinto as articulações ceder e as artérias a rebentar, prevejo cataclismos e os apocalipses que julguei inventar. Estou lívido, fulcral, pertenço a uma ordem que já não existe, sou templário do adeus e da revolta, precipito perdões e carícias, desperto amores vadios e beijos brutais. Sou divino. E imundo. Ordeno as forças do mal e da verticalidade que me cubram de riquezas e ilusões. Torno-me em trono e ocupo o palco com a autoridade dos antigos reis da lenda. Clamo por dragões e virgens, por santos e violadores, por mendigos e generais. Queimo todos os libretos, editando por decreto a minha baba. E luto, luto incessantemente pelo vazio e o nada, por luas intermitentes em volta do meu cerebro. Tatuo o perfil dos meus fémures no meu tórax ferido. Pretendo observar longamente o meu próprio crânio. E num volte face bestial, renego-me num perfeito reajuste, blasfemo as minhas entranhas e num suspiro final, confesso todas as mortes de que fui carrasco. Ao acorde da derradeira linha da pauta, sorrio, mastigo os dentes que me restam e com o sopro de vida que me mantém, a plenos pulmões exclamo: "A vós, a ignomínia... A todos, a ressurreição... A ti, rosas e ornamentos... E a mim, o descanso que me mitigue a fadiga".

ao som de Dargaard "Underworld Domain"