fevereiro 25, 2005

Tudo

O amor é um cesto de maçãs. Carnudas, de apetites preferidos, de mel e flores colhidas pela manhã.
O amor só faz sentido a todas as horas. As primeiras, frias, aconchegantes, as de oriente, quando sol agarra as veias e brinca com elas. As suadas, corridas, sedentas de atenções e as de fome a dois, sorvidas com vagar ou à pressa, porque o amor as apressa. As soalheiras, lentas, salpicadas de pequenos tudos, solenes e lânguidas como um leito ameno. As seguintes, despertas, onde a luz se mistura com a vida, onde o fim não está à vista. As de poente, mornas, únicas, subjugando torreões e lendas. As de crepusculo, trémulas, escorregadias, onde a calçada permite o beijo. As que a noite empresta no seu reinado, principescas, naturais, começo de qualquer miragem. As ocultas, de memória, de badaladas aldeãs, de todos os juramentos, as que se dizem amanhã. E depois, todas as outras. As que faltam e se querem. E de terminar, se negam.
As maçãs, arrumadas no cesto, deixam-se quietas e mudas. Por amor.

ao som de Chet Baker "My Funny Valentine"

fevereiro 22, 2005

Pausa

A estrada, o traço contínuo amarelo de onde nascem as duvidas, as metades e os beijos gémeos. Este é o labirinto onde esvair não é verbo. E este, é o remoinho onde se deseja mergulhar.

Epitáfio

Na certeza de um tempo ausente, na carícia de uma voz de mulher, no pedido e na ária que ficou atrás das cortinas, no dourado e no azar, na intuição feminina de um olhar hesitante. Na tortura. No poço. Nas almas.

Enternecido pela volúpia, deitado sobre almofadas de fios desbotados, procuro o momento da metamorfose. Espreito o casulo e a roda dentada, encho os copos dos violadores e num assomo de inteligência, brado aos céus que me enterrem num sítio ermo e gélido, onde os vermes não existam e as carpideiras não me encontrem. Morro como poeta. Delego o meu legado aos perdidos, aos fracos e aos eremitas. Que as minhas palavras sejam comidas pelo vento. Que do meu rosto não se lembre ninguém. Que da minha carne, se sacie a fome. E morto, fétido em farrapos de conde, eu seja entregue a alguma amante, para que me trespasse a mortalha. Não quero nojo nem vivalma. Não pressinto feridas imensas. Pretendo apenas o enterro que encontrei numa obra-prima.

Estou à beira do precipício. Vejo as ondas a meus pés e as flechas nos meus braços. Fui coroado rei. Vilmente. Os prados estão cobertos de vassalos que ajoelham a minha soberba. Os cleros e as nobrezas agitam lenços vermelhos. A corte traja de negro. Eu, senhor da terra e do céu, obtenho a promessa dos outros deuses. Serei um. O único. Por dentro sinto a ruindade a trincar-me. Tusso sangue e ouro. Sou filho de Maquiavel. Quero carnes, vinhos quentes, mulheres e homens nus em grupos de oitocentos. Chamo videntes e assassinos, clamo por alguns amigos. Ordeno que me tragam cegos, todos os estropiados do reino, padres de bornal bem cheio e virgens mudas de medo. Se vou morrer, que morra de apoplexia. De fartos concílios e deboche, de orgias descomunais. E que mil olhos me observem toda a noite. Todas as noites daqui até ao apocalipse. E então, entre almas miseráveis e adúlteros manietados, que me seja entregue a coroa da desgraça. Desnudado, com um punhal na mão, que me cubram de mentiras. Ergam a torre mais alta e empurrem-me no abismo.

Rezem-se todas as missas. Celebrem-se três velórios. O rei está morto. Enterrado. Que não descanse em paz.

Kling Klang Absurda Posted by Hello

Ao menos uma vez

No semáforo de todos os dias pares,
reconheço as intenções
dos pioneiros.
Resignam-se a cada passo,
passam ao lado do vento
e das penumbras,
bebem nenúfares
e cantam odes
sem melodia.
De embaraço esquecido no canto da boca,
vejo-os olhar os vectores,
sinto-os trémulos
em feixes de horas tardias.
Tomam a direcção da toca
e encolhem-se
à passagem dos potros amestrados.
São demasiados,
mutantes de fim de dia,
entornados nas sarjetas cristalinas.
São livres.
Mas só nas horas mortas.
Antes de voltarem ao início,
trincam o que resta da vaidade
e brincam,
sob réstias de chocolate amargo.
Todos os dias pares
me afligia a falha da minha pedra da sorte.
Mudei-a de posição
várias vezes,
para esconder o defeito.
Nunca o consegui.
Mas descobri outros raios de sol.
Ofereço-os aos pioneiros.

ao som de Kate Bush "Wow"

fevereiro 21, 2005

Ícaro num dia de chuva

Precipitas querelas de amantes e intriguistas, numa sopa de lentilhas louras, aquecida num bico de Bunsen regular. Realizas os sonhos dos ateus entre as câmaras 1 e 3, desligando a 2 por conveniências múltiplas. Suas, aquecido por decisões ímpias, alagado na saliva dos notáveis. Dormes no oposto e na vantagem, sentes o perigo das rachas na parede, multiplicas os cifrões sem tempo para os gastar. Ginasticas o empenho e a carne, dobras os cabos das tormentas alheias, significas muito pouco para o conselho de administração. Tens família, mas só no notário. Divides os amigos pelas garrafas de álcool, nos sentimentos de elos escancarados, nas paixões de minuto, na velhice. Gargalhas, lacrimejas, terminas os nós por atar. Encaras o sucesso como mortalha e inventas todas as letras do teu alfabeto. Morres na insistência, analfabeto por vocação, vazio, entretido no porém e no vocábulo. És esquecido. E cambaleias a existência.

ao som de The Cure "A Forest (Original 12 inch)"

Orly, manhã cedo

Jurar
Potenciar escárnios e bem dizeres
Minguar

Na solidão,
perdido na vista de um par de cuecas,
nas calças de vinco imperfeito,
na luz fosca
dos segredos no fundo do copo.

À cor da selva que não se molha,
no aeroporto
de madrugada
a claridade que se mantém muda;
o café
a quente,
samaritano,
perdido nas bagagens dos outros,
no autocarro
ao lado da chuva
com o saco sujo entre as pernas,
as mãos nos bolsos,
húmidos,
lentos...
divorciados.

Com a cidade
ao fundo
gemendo,
antecipando vinganças,
a rua de sempre longe
amnésica
no zumbido do motor,
chocalhando o cansaço
de gente
anónima.

E na boca,
o sorriso tímido
de quem alcança.
No verso,
na fagulha,
reentrar na vida
mordiscando um pedaço de céu.

ao som de Talking Heads "Heaven"

fevereiro 18, 2005

Falsos profetas

Subjugado por dúvidas de Flandres,
perdido numa ventania oca,
sem pouso, sem catre,
movido por imagens vãs;
vergo-me à direcção da forca.

A caminho,
a caminho meus irmãos,
vede a luz, trémula,
são quebrantos,
violáceos,
perigos de barbárie terrena,
estupros celestiais
vírgulas extremas.

De noite,
sob as sombras das árvores,
os atalhos são vias sacras.
Pedintes
e vagabundos,
sob as marés
entre velas desfraldadas a jusante,
perseguidos pela fé,
esquecidos pela fortuna,
espezinhados em bolor
fervidos em água tépida.

São os gatunos,
bestas infiéis,
em número redondo de quinze,
sujeitos a mil escrútinios
de idade muito avançada.
São mostrengos,
e devoram luares.
Mostram-se alvos à turba,
permitindo a vergonha
enquanto matam a sede
com lodo de santas fontes.

Tremendo terrores de lenda,
de olhos esbugalhados,
pé ante pé
em pavor,
sumidos de algum alento;
os crentes, as prostitutas,
os antigos
e os batoteiros,
toda a fauna que a memória
insiste em mastigar.

Com as muralhas à vista,
vendo os archotes brilhar,
sente-se um querer maligno,
um cálice de velha cicuta.
De chagas abertas ao frio,
de ventre inchado
de míngua,
o choro babado em ribeiro,
a esperança
é cativeiro.

Só,
longe dos meus irmãos,
errando nas curvas da aurora,
ergo o punho para o céu,
e recito a heresia.

Pobre,
doente,
estafado,
protegido por nenhures,
embalsamado em vida
por feridas descomunais,
a voz transtornada em dor,
a vontade em farrapos,
suja de nada mais.

-Eis-me.
Já não sou meu.
Dou-me de pasto aos malditos.
Fustigo-me em vossas preces.
Comungo do vosso nojo.

Possesso,
encandescente,
num derradeiro arremedo,
babado de tons de ira,
desvendo por fim
o segredo:

- Dos céus,
a ignorância,
dos infernos,
compreensão.
De norte, de sul,
a vida.
Do meu próximo,
podridão.

ao som de Orphaned Land "El Norra Alila"

fevereiro 16, 2005

Divino

Por capricho, ou imprudência, tornei-me num deus para questionar a Natureza. Varri todos os papéis que inundavam a mesa do meu trabalho e com um gesto seco, desfiz-me de todos os traços humanos. Depois, inventei uma taça cor de âmbar, que enchi com água. Coloquei-a num dos cantos da mesa. Recolhi as pétalas de quatro rosas e com elas cobri a água.
Estranhei por alguns momentos, mas descobri-me desprovido de todos os sentidos mortais. Descobri outros. Notei que as diferenças entre os homens, são afinal preconceito. A Natureza, a de verdade, a que regulamenta a vida, não perde tempo em criar barreiras entre machos e fêmeas. Isso é tarefa da outra natureza, a que se escreve com letra minúscula. A que serve os desígnios das doutrinas e da retórica. A que se vende em nome de ideais e religiões. A que se limita a ser pântano. Preocupava-me a noção de pureza. A pretensão de regras impostas, o querer de alguns sobre todos os outros, os limites do animalismo e da sua carga magnética. Enfim, as horas, os costumes, as passadas definidas, os capítulos e os tratados. Preocupava-me toda a certeza. O absolutismo de uma certeza que se vende todos os dias. Tornei-me num deus e descobri a Natureza. E verifiquei que a outra, nem sequer existe.
Ser, como viver, tem as regras inerentes ao vazio, ao vento e ao apetite. Nada mais. O homem, como a mulher, decide a sua direcção. E dela, não fará definição nem dever. O homem, como a mulher, desvenda o seu desejo. E dele, não tornará rumo ou objectivo. A sensação deverá tornar-se emoção e esta, plenitude. O sim de um, não será o sim de outro. O sol, a chuva, o vento e o ocaso, serão as únicas forças a admirar. Os deuses, não serão mais que mensageiros. O homem e a mulher só se completam quando tal for a razão. A mulher e outra mulher, tal como o homem e outro homem, serão as partes inteiras se assim a Natureza o indicar. A Natureza de cada homem e de cada mulher. O vocábulo amor não existirá, porque não será necessário escrever ou dizê-lo. Estará presente. O amor terá forma de homem ou mulher. O amor, será homem ou mulher. E como a eternidade, carece de regras ou proibições.
Sentado, com a taça de pétalas no meu horizonte, fechei os olhos por momentos. Na minha Natureza antevi os risos, o prazer, o restolhar de crianças, as palavras dos sábios, os sons, as fases da lua, as cores e os sabores. Na minha Natureza antevi o brilho de uma mulher, o seu sabor e os seus lábios. Na minha Natureza senti-me ofegante, atento, sequioso. Quando abri os olhos, reconheci nas paredes a partilha e a simbologia divina. E por ser um deus, abri as mãos.

ao som de F.G.T.H. "Welcome to the Pleasure Dome (Fruitness Mix)"

fevereiro 15, 2005

Pausa

Toda a sabedoria de uma biblioteca solene, cabe numa vela acesa. Sobra ainda espaço para uma carícia, um vício e um pecado. Não necessáriamente por esta ordem.

Encontramo-nos no Graal

Tremo só de pensar no momento seguinte. Aceito o cigarro que há anos não experimentava, acendo-o com sofreguidão e sem me saber a nada, viro as costas à capela, aos convidados, ao mestre de cerimónias e a todas as flores que cobrem o chão. Tiro do bolso a chave do carro e antes de arrancar, olho a cruz iluminada. Nada mais resta para me demorar ali. Faço a manobra e acelero com a fúria de alguém que foi ludibriado. Fraude e dinheiro fácil... fraude e dinheiro ágil. E tudo isto, todas as provações, todos os cuidados e lamúrias, as tardes lentas, as beatas dos charutos engelhadas, as cinco horas todos os dias, e a seguir, e amanhã e sem nunca querer dizer adeus. Tudo isto, para nada. Para me sentir vítima e carrasco da sofreguidão. Para me acabrunhar de vez, coberto de milhões, enregelado por dividendos e lucros diários. Fui bem enganado.
Acordei na madrugada da realidade guiando um descapotável. Chovia uma morrinha fértil. A chuva dos silenciosos. Percorria a estrada de asfalto claro que cheguei a duvidar. Com o cinto de segurança a travar-me os impulsos, as bombas de gasolina entre as fábricas compridas e os respectivos edifícios de escritórios, o trânsito de ocasião, habitual, julgava-me invencível. Tinha aprendido a invejar as minhas intuições, sabia-me mordaz e cínico, quase como uma menina de laçarotes cor de rosa que exige bolinhos de cereja para o lanche. Conhecia-me. Há uns anos. Com as duas mãos no volante, actor vestido de almirante ou de fugitivo, desenhava as curvas com aplicação, retomando a cada pedaço de recta, o fatalismo dos mandarins que sofrem de gota. Na mala do carro, um monte de papéis em desordem confirmavam o meu estatuto de rico. Aliás, nem seriam necessários. Tinha saído a minha fotografia em quase todos os jornais. Primeira página. Ou última, conforme os casos. Estava lá tudo: A surpresa mal disfarçada, o ameaço de desmaio, as lágrimas inconformadas, os olhos fechados, os óculos escuros, o copo de água e a fuga repentina. Que me importa, era tudo verdade. Por uma vez, os jornais prescindiam do meu reparo. Que se danem.
Eram seis da tarde, quando decidi parar. Era um restaurante conhecido. Meu conhecido. O parque de estacionamento vazio, suspirou-me o desejo de estar sózinho. Fechei o carro e entrei. Comecei pelo fim: No bar, pedi a garrafa de rótulo negro e sentei-me perto da janela. Não me reconheceram. Depois do segundo copo, pedi uma mesa para jantar. Na segunda sala. A que me conhecia. Sentei-me, pedi logo o vinho habitual e recusei a ementa. O costume chegava. Não mudei os hábitos. Se calhar...
Comi pouco, mas bebi toda a garrafa de vinho. Quis sobremesa, mas não consegui engolir. Bebi dois cafés. Seguidos. Sôfregos, na esperança de me fazerem bem. Na casa de banho lavei a cara e olhei-me ao espelho. Estava velho. Pedi a conta e de pé, acendi um cigarro. Paguei com uma nota alta e voltei a fugir. Nada seria como dantes. Nem os silêncios, nem os sabores, nem a ordem natural das coisas. Aspirei o ar fresco da noite, pensei em segundos toda a história do jornal e evitei sorrir.
Sózinho, com o meu dinheiro, voltei à estrada, rumo a uma encruzilhada. Sabia exactamente onde encontrá-la.

ao som de The Stone Roses "I Wanna Be Adored"

fevereiro 14, 2005

Na caixa com os bichos da seda

...Gosto de comas de sete segundos. Confortam a alma. Quando há alma...

As palavras, as interrogações, os lados errados da culpa e do exílio, provocam as mesuras do remorso. Imaginando o centro estático de um crime, a poça de sangue que teima em aumentar, o estalido da patilha de segurança da arma que retorna a pacatez, a espera por qualquer coisa depois, o embaraço de mais um funeral e de um caixão forrado a lilás. Estas são as variáveis. Ou melhor, os coeficientes a usar e deitar fora. O que fica, depois das operações e dos cálculos, a seguir das contagens e das conferências, além da vergonha, é a ímpia vontade por mais vítimas. E o passatempo, o derradeiro gozo, é recusar pretendentes por motivos idiotas. Rebuscam-se ruas a pente fino, observam-se mesas de café e poltronas de colóquios, mandam-se despir prostitutas e pederastas, esvaziam-se lojas de brinquedos e queimam-se bonecas animadas, insufladas a água salgada e cocaína orgânica, recontam-se os votos de qualquer eleição de esquina, violam-se as bagageiras dos carros estacionados em segunda fila, inventam-se palavras em desordem para manifestações silenciosas. Abre-se a comporta de gaz e sufoca-se devagarinho. Morre-se em fatias.

Sete segundos? Ofereço 17... Vendido!

ao som de Carpathian Forest "A Forest"

fevereiro 10, 2005


Green Tranquility (by Roger Dean) Posted by Hello

Sono escreve-se com oito letras

Preparou o alarme do relógio para as 11 da noite. Abriu a gaveta e tirou as chaves de casa. As do carro, esqueceu-se delas. Fechou a porta com três voltas, aspirou o fresco do fim de tarde e sentiu-se vivo. Já no passeio, tirou um cigarro e acendeu-o com o prazer das noites compridas. Sentindo o frio, pôs as mãos nos bolsos do sobretudo de sempre e com os olhos semicerrados ao sol de poente, procurou um táxi.
Recostou-se no banco de trás e deixou-se ir. No rádio, canções populares que normalmente lhe aguçava o ódio. Agora, apenas sorrisos. No longo percurso, sempre junto ao rio, seduziu-se pelas filas de contentores e cargueiros ferrugentos, inspiração para as poesias que outros musicavam. Outros ainda as cantavam. Um trabalho hipócrita de equipa. Pediu ao "chauffer" se podia fumar. O outro, num resmungo, foi simpático. Acendeu outro cigarro e reparou que lhe restavam dois. Ainda havia tempo.
Pagou e recusou o troco. Ignorou os salamaleques e fechou a porta do táxi. Nem o viu arrancar. Olhou em volta. A praça estava na mesma. Como aquele fim de tarde há que tempos. O frio era diferente. Mais ácido. A luz, mais cinzenta. A memória, porque os anos passaram por aqui e não quiseram parar. Viu a porta do café de antigamente e entrou, um pouco solene. Afinal, já lá iam mais de trinta anos. O balcão de mármore era de inox. As prateleiras de madeira e vidro, alumínio e acrílico. O cheiro, uma miragem. Pediu um café, à procura de outro sabor. Já lá não estava. Riu quase alto. O empregado olhou-o com surpresa. Depois, com desagrado. Encolheu os ombros, deixou uma nota em cima do balcão e saíu. Eram 7 e meia. Chamou outro táxi e não se despediu da praça.
- Para a Alta, por favor. - Não perguntou se podia acender o cigarro e com olhos no vidro, embrenhou-se no começo da noite. Desde pequeno, brilhavam-lhe as idéias aqueles reclames luminosos. Mas nada como os néons do seu tempo. Para seu gosto, os actuais ou eram poucos, ou tinham um brilho baço. Falta de ambição. Ou de querer. As montras das lojas fechadas, impassíveis e superiores, acesas para a sua própria soberba, marcavam-lhe o cérebro disponível. Eram como um fetiche. Sempre que chegava a uma nova cidade, sempre ao anoitecer, jantava e rondava essas montras convencidas, até o cansaço e o sono o chamassem. Um prazer carnal, sem o odor a sexo. O táxi ultrapassava-as com rapidez, como se o desprezo fosse um salvo conduto para os semáforos. Riu quase alto e viu os olhos do "chauffer" no espelho. Estavam parados, com o sobrolho franzido. Não ligou.
Pagou e recolheu o troco. Mal saíu, sentiu o táxi arrancar num impulso. Olhou as moedas e deixou-as escorregar para o chão. O restaurante estava aberto. Entrou com o pé esquerdo à frente e escolheu a mesa de então. Pelos velhos tempos, começou com uma imperial. Leu a ementa com vagar. Nome por nome, prato por prato. 8 e 20, tinha tempo. Decidiu-se pelo arroz de pato no forno e uma meia garrafa de um tinto que tinha esquecido o nome. Ainda esperou pela tentação do pãozinho com manteiga, mas achou que era desnecessário. Os empregados eram todos novos. Que seria feito dos outros? O careca de camisa de manga curta. O magro, baixinho, de borbulhas no queixo. Lembrava-se da voz de ambos. Bebeu um gole de vinho à saúde deles. Boa ou fatal. Comeu sem olhar as horas. Mastigou como há muito não se lembrava. À sobremesa, não recusou o toucinho do céu. O sabor era o mesmo. Estranho. Não bebeu café e deixou uma gorjeta pelo doce. Antes de sair, acendeu um cigarro. Só ficava com um. Ao canto, junto da porta, uma máquina automática de venda de tabaco, mostrou-se. Não tnha moedas e não lhe apeteceu trocar dinheiro. Saíu.
Pensou que seria um boa idéia, caminhar até ao fim da rua. Ainda era longe. Tinha tempo. Passou à porta dos hóteis modernos e abrandou à vista de um dos antigos. Sorriu. Já lá tinha estado. Só durante a tarde. Tardes. Lentas de assumir e rápidas de esquecer. Exactamente ao contrário dos pedaços de chocolate que gostava de chupar. Ao longe, viu uma pastelaria e cedeu à gulodice. Comprou a marca que preferia e esperou o cigarro fugir. Imaginou-se numa cidade estrangeira e entregou com minúcia, os olhos à montras. Começou a pensar num idioma à sorte. Insistia nas palavras que já esquecera e criou diálogos inverosímeis, com empregados de lojas imaginários e alguns encontros casuais. Esqueceu o tempo por alguns minutos. Mais do que se imaginaria. Eram 5 para as 10. Sentiu falta de um álcool.
O táxi parou junto à porta iluminada. Pagou e esqueceu o troco e a boa noite. Entrou, baixou a cabeça ao porteiro da noite e chamou o elevador. O bar era no terceiro andar. Sentou-se numa mesa qualquer e satisfeito com a lisura do empregado, pediu conhaque. Olhou o barman, seguiu-lhe o movimento para a garrafa e descansou. Agarrou o copo em forma de balão com as duas mãos, como se fosse despedir-se de um moribundo. Por um acaso único, ouviu a canção que precisava de ouvir. Sorriu com embaraço e ofereceu a si próprio, a delícia de uma paz sem preço. Eram 10 e 35. Bebeu com pequenos goles, agarrou o sobretudo e desejou as boas noites. Deixou o suficiente para a bebida e muito mais pela canção. Já na rua, com as mãos nos bolsos e o vento nos cabelos, subiu a rua íngreme.
Quando chegou junto do muro, acendeu o cigarro, o último, inspirando muito devagar o primeiro fumo. Passou as duas mãos peos cabelos e olhou a cidade em baixo. A velha cidade suja e andrajosa que aprendeu a desejar. Foi a amante que mais lhe deu prazer. Trauteou a canção que lhe devia. Olhou o relógio e estremeceu por um segundo. Faltavam 4 para as 11. Levantou a cabeça, procurou o horizonte e com a mão por cima do bolso direito do sobretudo, sentiu o revólver. Porque gostava de finais felizes.

ao som de Balanescu Quartet "NoTime Before Time"

fevereiro 02, 2005

Quando os olhos dos gatos brilham

Ela fechou a carteira e recostou-se, gozando o prazer de parecer o que não era. Com um gesto feminino, compôs a meia e seguiu a perna até ao sapato preto que lhe agradava a silhueta. Já tinha bebido o suficiente. Qual suficiente? O de alguém ausente? A medida certa de parar o destino e a compostura? Pelo menos era o que lhe tinham impingido no colégio e na herança. Mas como o testamento já estava rasgado em quatro partes, como a fila certa do cemitério já não tinha nome, para quê esperar o dia seguinte. Porque não viver todos os dias que ainda faltam, no que ainda falta da noite? Fez um gesto discreto ao empregado e esperou o copo cheio. Com a cabeça um pouco pesada, embalou-se numa calma própria de tormenta. E sentiu-se mais feliz que nunca.

ao som de Jim Brickman "Harlem Nocturne"

fevereiro 01, 2005


Velvet Posted by Hello

Sumaríssimo

Cristo. A 200 à hora, parto para uma emboscada num desfiladeiro de pão e rosas. Enfrento a velocidade como um julgamento de togas indecentes, planificando defesas e jurados moles e mentirosos, decidindo as razões que os empoeirados exigiram. As portas e janelas fechadas não me impedem a viagem, arranco as ervas daninhas das bermas da estrada, nivelo o espelho retrovisor e procuro à retaguarda os farrapos dos meus sonhos e das minhas amantes. Fecho os olhos e sinto a estrada, um asfalto dolente e de beijos síncronos. Não recuso qualquer firmamento, não faço planos, não ocupo o lugar de nenhum defunto. Sou só eu aqui. Surdo e mudo de nascença, prevarico em dias de sol e peco em abundância à chuva. Na falésia mais perto do meu indicador direito, deixo-me cair com fúria, prolongando a velocidade do motor que me alumia a decência. Caio, caio de muito alto. Com os cabelos em turbilhão, experimento a impotência dos fracos numa queda em espiral. Voo em linha recta. Na vertical. Descubro em mim uma geometria periclitante. Vomito vectores e coordenadas longitudinais. Sou um peso morto que desfila na passarela da cobiça. E prevejo, antecipo curiosidades mórbidas que encherão milhares e milhares de páginas de jornais cor-de-rosa. Também dos de outras cores. Menos o preto. Serei enterrado com pompa, em circunstâncias inauditas e tradicionais. Rezem-se as missas, as ladainhas habituais, chorem-se as lágrimas cor de rímel, troquem-se os abraços e os votos de nunca mais. Quando os coveiros estiverem ao lado do monte de terra e alumiarem o buraco, abra-se o caixão pela última vez, na despedida alegre do condenado. Quando todos os olhos o encontrarem vazio, sintam na pele a vingança do poeta. Eu já não estarei aqui. E no buraco, muito menos.

ao som de Pop Dell´ Arte "Querelle"