março 24, 2005

Em frente, na segunda à direita

Do limiar da negação, existe sempre uma rua sem fundo, onde se pode chorar, enterrar subversões, inventar divindades e no fim, seguir o caminho até à esquina seguinte, com a certeza de nunca encontrar becos sem saída. É fatal percorrer uma destas ruas, sem a demora própria de um casamento ou funeral. Deviam ter normas, estas ruas. Avisos ao incauto peão, sugestões de meditação, enfim algo que lhe acordasse a atenção e o incitasse à revolta. O mundo distrai-se com facilidade. Evita parar e perde oportunidades de diamante. Embrenhado numa cadência que não é sua, que lhe foi vendida por alguém sem rosto, segue os passos que fogem à sua frente e acredita em direcções que raramente o levam ao seu destino. Por vezes, esquece o caminho de casa. Por vezes, sabe-o demasiadamente bem. Nestas ruas sem fundo, os outros não importam. Só cada um.

ao som de The The "Kingdom of Rain"

março 22, 2005

Quando ela foge

Sentada à mesa de um café de bairro, esperava o chá arrefecer. Pegou numa revista de ocasião, mas largou-a, certa de não ter pachorra para os sonhos dos outros. Ao balcão, a dona do café quase dormitava. A tarde corria devagar, com pingos de sol furtivos e um calor fora de época. Sorveu o chá, ainda quente demais, sentindo algum veludo na garganta. Abanava a perna ao som de piano, que o rádio desbotado oferecia. Ouviu o eléctrico aproximar-se. Estendeu o olhar e invejou-lhe a rotina. No prédio em frente, algumas janelas abertas, as idosas espreitando junto às cortinas, alguma roupa interior a secar, alguém que escrevia com a outra mão enrolando o cabelo. Nos outros prédios, outros bocados de alguma coisa. Na rua, um estudante de passo rápido e braços pesados de livros e folhas. Uma bicicleta apoiada numa porta de garagem ferrugenta. O cheiro a café usado e coisas de ontem, ruminava-lhe a forma de pensar. Bebeu mais algum chá, morno, ultrapassado. De alguma forma, sentiu-se em casa. Gostava de sonhar que pertencia ali. A este pequeno bocado de vida, pasto de idéias de todos os dias, calado, anónimo, perdido. Queria ficar ali, sem ter de buscar direcções. Ficar ali, alimentando-se de chá e cheiros, abandonada à sua preguiça, vendo os eléctricos levar estrangeiros a outra cidade. Olhou a capa da revista pousada na cadeira e sentiu pena. Das outras e de si. A sua, esqueceu depressa. Recostou-se mais, sentindo as costas da cadeira, tirou um cigarro do maço e acendeu-o com um fósforo. Puxou o fumo com força e deixou-o sair, sem forçar. Pensou na morte, na mãe, no professor que a iniciou para o sexo, no seu quarto, nas poesias que plagiava, nas canções da sua vida, nos bocados de existência que ainda se obrigaria a cumprir.
Levantou a cabeça, como se acordasse de repente de um sono passageiro, bebeu o resto do chá já frio, de um só gole, levantou-se e foi pagar. Agradeceu entre dentes e saiu. Ainda viu o eléctrico a aproximar-se, mas preferiu correr para fora dali. Virou na primeira esquina e desapareceu. Na mesa, agora vazia, só uma chávena e uma revista. Rasgada.

ao som de Paolo Conte "Alle Prese con una Verde Milonga"

março 21, 2005

4 da madrugada

O semáforo está vermelho. Na rua deserta, por entre as sombras das árvores e dos prédios às escuras, pretende encontrar alguém cúmplice. Tem a câmara de video ligada e regista todos os seus pensamentos. Depois do semáforo ter a luz verde acesa, mantém-se imóvel. A música que ouve já a ofereceu em tempos. Com prazer. Ainda se lembra dele.
Sem encontrar quem pretendia, carrega no botão de next e avança para a música seguinte. Esta só a ele lhe pertence. Mete a primeira e arranca. Nem reparou na luz do semáforo.

Primeiro, ao som de Cowboy Junkies "Me and the Devil Blues"... a outra, não digo.

Cirurgias

Primeiro, ao longe, entre as folhas que teimam em cair, ouve o sussurro da estrada molhada, na expectativa do momento seguinte. Depois, no inicio, na justificação de um cheiro, no sabor e na retina, encontra as pistas que ordenou na parede. O branco das paredes, enjoa-lhe a mudança e a arrumação. E na dúvida, sente-lhe a frescura e o espaço. Nas milhares de capas dos discos que lhe compõem as paredes, descobre definições e palavras certeiras, como os tiros que gosta de exibir. Como empenhou o relógio, por ter a correia solta, esquece as horas com avidez. Amontoa os livros de linguagens de programação, num labirinto que só ele sabe desvendar. Fuma. Perfuma-se do cheiro de tabaco, num glamour que só ele conhece. Numa pausa estudada, lê as linhas que a vergonha não sabe omitir. Oferece-lhes um olhar brilhante.
Num segundo, deixa de ouvir o mundo fora da sua janela e estende a sua vida. A que lhe resta. Pega num bisturi e pressiona a incisão. Sabe de cor o nome dos orgãos e o seu lugar de origem. Mas quer mais. Limpa o sangue que se entorna de dentro, pega numa pinça e começa a mudar os orgãos de lugar. Decide-se e deita dois deles no caixote do lixo. Olha-os uma última vez e não lhes sente a falta. Volta a encarar a tarefa, volta a limpar mais sangue e recomeça. A primeira troca não o satisfaz. Retira o orgão mais problemático e coloca-o no cinzeiro, entre as cinzas. Com uma nova pinça, arquitecta os orgãos que mantém dentro. Ao fim de alguns minutos, levanta a cabeça e observa. Está quase perfeito. Olha o cinzeiro e enfrenta a transfusão. Limpa o sangue e à falta de linha e agulha, fecha a abertura com agrafes. Limpa as mãos, passa uma toalha pela testa e fecha o computador.
Escolhe um disco, sem acasos, guarda o isqueiro no bolso e com a chave do carro na mão, fecha a porta de casa com estrondo. Precisa de uma bebida.

ao som de Bolshoi "Crack in Smile"

março 15, 2005

Quase sem querer

Azuis e verdes em vermelho vivo,
com destino marcado,
redondo,
multiplicado por mil ou outro número qualquer.

Um lilás de tarde,
onde um cinzento não é cor,
onde se precipitam as adivinhas açucaradas,
crocantes na surpresa
e na chegada.

Pintar um lilás moderno,
enquanto o pássaro pousa no portão de ferro,
à hora do chá,
no pátio das folhas de Outono
em emaranhados infantis de alguma vez.

Onde os besouros vão acabar o dia,
na tranquilidade da senhora.
A senhora das meias negras,
da boquilha de prata,
da gargalhada sumida,
do anel de faz de conta.

A ternura,
a de sempre,
de um tempo de avós e mel,
onde a frescura se faz
e se ensina.
Onde o beijo não tem lugar,
por noctívago,
por indiferente.

Com as mãos em labirinto,
em novelos desordenados
de cores fundamentais,
a espera toma o sabor da areia depois do vento.

E o lugar,
o que ficou para o fim,
é azul
e verde
e vermelho redondo de céu azul.
Porque as cores só valem por um dia.
Amanhã,
já serão outras.

ao som de Craig Armstrong "Della´s Theme"

março 03, 2005

Do principio

Seguramente a pedra será sempre pedra.
Deitada nos caminhos
nos carreiros,
sentada à janela dos moínhos,
escutando os afazeres das gentes,
das aldeias,
perigando as fúrias
das meninas,
nos ausentes.
Seguramente a pedra será sempre muda.
Agachada de fronte para as vielas,
é testemunha cega dos artistas,
no seio pacato dos autistas.
Sorvendo as migalhas do orvalho,
matam a sede de trezentos anos,
antigas que são na calmaria.
Perturbam as passadas na calçada,
certas de grata companhia.
Caladas,
como murchas de perigo,
candeias de noite alta
de martírio.
Seguramente a pedra será sempre dura.
Fugitiva
entre crimes e ousadias,
nula por vocação
enjeitada,
mordaz entre golpes e morfinas
na dura razão de não ser nada.
Persegue-se a si própria
a rocha escura,
servil
de idioma derrotado,
cortina que se prende ao fechar,
num salão
onde vergonha é acabar.
Seguramente a pedra será sempre só.
Por vontade,
por motivo,
por ser pó.

ao som de Stoa "Tharmas"

Em contemplação

O mundo aqui, mostra-se devagar, silencioso entre o vento que agora é só brisa. Ao longo da curva do monte, em sossego, o mundo parou para ver o fim do dia. Conhece a noite que já sussurra, as trevas de asas de corvo, como os avós diziam. A noite, a de sempre, a que não esquece as cores das almas e das aflições. O mundo aqui, mostra-se inteiro. Um só, pasto de memórias e alfazemas. Um, de todos os invernos.

Quando o dia acaba, os sentidos perdem a justiça. Tornam-se proscritos. Inseguros, tacteiam velhos muros e penedos, em busca de guarida e segredo. Ouvem ao longe reis antigos e gritos incitando à luta. Ferros faiscando ao lume alto. Barbas grisalhas em desalinho. À noite, os lamentos são língua de fogo. São principio e raramente fim. São elixires e sarcófagos. À noite, recitam-se trovas de ontem. Lançam-se sorrisos baixinho. Está-se muito quieto, à beira das horas que passam com lentidão.

De longe, os murmúrios cercam as pedras caídas no chão. Estremecem os medos sob latidos de cães vadios, que procuram alimento pobre. E agachados, os terrores e as ânsias não têm lugar. Até onde a vista alcança, governam as sombras. E aqui, agora, o mundo sente-se devagar. Cheira a erva doce, a rosmaninho, a morte. Escondida sob a caruma, uma lápide de monge. Um que sabia. Fundiu-se com o mundo. Deixou de ser pó, para se tornar fermento. E fez mais depois de morto, do que em mil vidas da sua.

É tarde. E o tempo não manda aqui. Neste ermo, neste canto do universo, as regras não se conhecem. Nem as rezas, nem os nãos. Nem ódios, nem ouros, nem pão. Aqui jaz o velho mundo. Inteiro, de um só pedaço. O único. O verdadeiro.

ao som de Freiburger Spielleyt "Nenbressete, Madre de Deus"