maio 31, 2005

Evidentemente

Enquanto espero pelo duche, olho o relógio na parede e sei que já é noite. Com o cabelo em desalinho, acabado de levantar de um dia coberto de preguiça, entendo ser prioritário um cigarro e o resto de uma cerveja morna. Olho no tecto o fumo a tentar fugir, procuro em cima da mesa as razões para recusar a inquietação, apago o cigarro e com o robe na mão saio do quarto.
O corredor com a passadeira aveludada é comprido e tem todas as portas fechadas. De um ou outro quarto, ouvem-se ruídos de circunstância. A única circunstância. Sinto que esqueci os chinelos mas nem por um milhão, volto para os buscar. Quando chego a porta da casa de banho, como se de um ritual se tratasse, coloco a palma da mão direita, muito aberta, na superfície polida de madeira escura. Espero um momento e abro a porta. O vapor escapa-se pela abertura. Entro e fecho a porta com algum cuidado.
Lá dentro, a rapariga oriental espera-me. De sorriso indefinido, veste calças carmesim com desenhos dourados, e umas chinelinhas pretas com atilhos dourados. Está despida da cintura para cima. Tem o cabelo solto, ao longo das costas nuas. Sinto uma intimidade violenta neste último pormenor. Ela tira-me o robe das mãos e pendura-mo com alguma solenidade. Com um gesto estudado, oferece-me todo o espaço. Dispo as calças do pijama, passo os dedos pelo cabelo e entrego-me. Ela saberá tratar de mim, melhor que eu.

Ao som de Madonna "Justify My Love (Deep Dish Even Deeper Mix)"

Selva

Remarcar o compasso de um assunto entre dois corpos e depois, insistir na fragrância de um momento a sós. Era cedo, preparava-se uma trovoada com a teimosia de um vento de sul, a roupa à janela ondulava de inquietação, o meu olhar percorreu o corpo dela, sem pensar em apetites nem consequências. Habituei-me a vê-la quase todos os dias, mas desta forma acho que nunca. De mãos nos bolsos, sem sorriso, encostado ao fogão, bastava-me violá-la com os olhos, revirá-la do avesso, sem intenções, demorando solenidades nos seios, nos vincos das coxas, num imperceptível gesto de entrega que se alongava ao ritmo da minha imobilidade. O telefone tocou e nem me apercebi quando o atendedor apitou. Os copos e as chávenas sujas em cima do lavatório, esperavam em silêncio. Ela quis sorrir e não conseguiu. Eu acho que a queria muito séria, quase zangada ou mesmo triste. Acho que fazia parte da fantasia. Acho, mas não tenho a certeza. Avancei, agarrei-a pelos ombros como se a fosse repreender, mas deixei escorregar os braços pelas suas costas suadas. Ela não se mexeu. Beijei-lhe o pescoço com uma sofreguidão que não me conhecia. Mordi-lhe o ombro e lambi a marca dos meus dentes. Olhei-a, olhos nos olhos, passei o meu polegar pelos seus lábios e forcei, à procura da língua. Ela resistiu. Pareceu-me que lhe tinham brilhado os olhos. Nesse preciso segundo, abracei-a e puxei-a com demasiada força para o chão. Sem oferecer qualquer resistência, abriu as pernas e enlaçou-me como se fosse um animal. Então, olhei os seus olhos uma última vez e aceitando o empenho, fui também animal.

Ao som de La Floa Maldita "L´Enfer Confortable"

maio 30, 2005

Permilagens

Em silêncio. Baixinho. Muito ao de leve, sem perturbar, afastando as almofadas como penas, olhando os ângulos das paredes muito quietas, frágeis, tudo no lugar de ontem, sem vozes, sem mãos que procuram mais e mais. Num tom de preguiça descoberto à toa, as páginas não se mexem junto à brisa que fica na janela fechada. Os livros, as cartas seguras por laços cor de mimo, a caneta fechada em dó maior, os segundos sentados no sofá, atentos, com os olhos em desafio de vantagens neutras, secretas, pedras de altar numa cripta isolada em papel de lustro. As faces, imóveis, solarengas, a vela apagada envolta em musgo de Dezembro, a caixa de fósforos vazia, o casaco deitado a dormitar, a porta entreaberta, á espera dos convidados curiosos, pisando tapetes anónimos e nos copos vinho terno. Pela persiana mourisca, a nuvem e a ladaínha que vem do Norte, sobem no parapeito e segredam rebuçados de morango. Nas bocas há paladares furtivos, vontades mornas vendidas a cêntimo, escolas de paredes brancas, dois pés esperando a hora dos barcos passar.
E quando a noite chegar, calada num colar de pérolas fingidas, permitindo o veludo e o suspiro, em silêncio, baixinho, vou murmurar as linhas que ainda me faltam. Só para eu ouvir.

Ao som de Joe Satriani "Canon (Acoustic Version)"

maio 25, 2005


Veludilho Posted by Hello

Pausa

Hesito: Um dia de veludo ou de seda...

De sol no alto

As manhãs são agiotas sem perdão. Exigem esforços impossíveis, dentro de redomas, faíscando ao sol da diferença. Querem-nos mal, as manhãs, reprovam a audácia das noites intermináveis, ferem o romance que só existe no sonho, precipitam o amor que navega por entre almofadas e e gemidos de preguiça. São arautos da manha e da tortura, as manhãs viradas a nascente. Sussurram promessas vãs, paixões desordenadas de silêncios comprometidos onde o beijo é bocejo madrugador. São vis, as manhãs de direcção única. Os becos sem saída dos fiéis.
Gosto de as confundir com uma voz de seda. Uma voz que matina uma canção de encantar. Um cigarro prometido, uma chávena de café sem pátria, um restolhar de lábios ávidos de serão. À beira dos carris de um eléctrico atrasado, um bairro dolente, onde as primeiras horas de luz são fadiga muito atenta. Uma porta entreaberta, uma promessa sem final, um dia de insiste em começar, mesmo quando vazio.
As manhãs perturbam os gestos lentos dos deuses. E como eles, também eu não encontro o norte. A bússola de marfim, ainda dorme, coitada.

Ao som de Eskobar featuring Emma Daumas "You Got Me"

maio 20, 2005

5 e meia da manhã, sob o temporal

Sem horas desfeitas
nem minutos perdidos,
conto histórias de pessoas,
de amores
amanhecidos pela ausência de vento,
sós
nas horas de neblina
e pó de arroz.

Na voz enrouquecida
de um jardim em repouso,
um suspiro
é o bastante.
Procuram-se nas mãos,
os esquecimentos de praia,
os degraus do museu,
a vaga suspeita de quem se apaixona num repente.
Mordisca-se uma maçã
num apetite que tarda em regressar,
ouvem-se canções de embalar
com os olhos muito abertos,
onde sorver é razão.

Nos horizontes
guardados no bolso,
estão as fraquezas,
os beijos intermináveis,
os verbos conjugados em suor.
O colchão ficou perdido,
nas ruínas de uma casa que caminha em paz.
A luz do candeeiro de rua,
já não sabe acender.
A lentidão dos dias sem azul,
a esquina que perdeu a memória,
o cheiro de um bocado de noite,
a capa do disco que fala em armários e balas.

E depois dos calendários,
depois das fadas e dos editais,
à beira do rio
num segundo,
rimos longe um do outro,
mortos para o reencontro,
suaves para a sedução.

Mim

A qualquer hora da noite, esfrangalhando células e faltas de apetite, há um ponto de onde não se pode regressar. São 2 horas e 45 minutos e a distância que me separa da auto-estrada, é maior do que a chave na porta de entrada e do botão do elevador. É esta mania da perfeição, da gravação exacta, das chaves do carro na gaveta, do isqueiro meio cheio e da bebida esquecida no copo. É uma irritação que não descola, um algodão encharcado de álcool que se passa no pescoço e refresca o instante. Um minuto mais na conta que o tempo insiste em apresentar, mesmo antes da sobremesa.
Não gosto de falar em noites perdidas. Não acho que as tenha perdido. Encontrei sempre qualquer coisa brilhante, em todas elas. Começar ou terminar um vício, bocados de sono, canções que nunca tinha ouvido com cuidado, vontades ou amanheceres. Não gosto de falar dos momentos escondidos da minha infância, mas não há noite que deixe passar em claro o que fiz, o que deixei de fazer, os caminhos, as manhãs bem cedo, a areia, os tufos amarelecidos pelo vento, as páginas soltas de histórias que me diziam respeito. Lembro cada momento, cada minuto que vale a pena retornar, como frases e palavras que nunca disse a ninguém. Guardo-as sem lhes reconhecer a dicção. É como uma fábrica que só depois de morta me apaixonou. Vagueei pelos seus escombros, toquei nas paredes esgravatadas, demorei-me junto aos ferros retorcidos, desejei entrar na miragem de algumas placas incompletas, tornei-me curioso da ruína e da desolação. E lembro-me dela como uma mulher. Uma que se quer esquecer, mesmo se regressamos onde a vimos pela primeira vez. Mesmo se fugimos dela em linha pouco recta.
Os fins abruptos provocam-me uma certa amargura, mas este, imponho-me a mim mesmo.

Ao som de Sofa Surfers "Sofa Rockers (Richard Dorfmeister Remix)"

maio 05, 2005

Fresta

No bolso esquerdo, o isqueiro que a mulher da sua vida lhe deu. Na gaveta, o relógio relembrado tantas vezes. Na porta da rua, as chaves e a serigrafia de um homossexual assumido, de dentes amarelos e casaco branco de lã grossa. Nos tímpanos, a canção de sempre. A que fala do amor, do celulóide e de um espasmo calmo e mudo. Na boca, um charuto com sabor a ilha e uma tentativa de sorriso. Nos olhos, os contornos turvos dos prédios e os seios escolhidos. No tacto, as chaves do automóvel. No olfacto, o copo. Na idéia, turbilhões, amidos azul claro, tormentas com chuva curta, peles que se tocam, perfumes. Na alma, seja lá o que isso significa, a encruzilhada. E na realidade, todos os caminhos.

Ao som de The Passions "I´m in love with a german film star"

Chambre de Nuit

No conforto do canto escuro, é bom esperar pelo fim. Mesmo se o fim , não é o que se escolhe. A almofada entre os braços e o amigo imaginário ao lado, muito atento e muito calado, são o começo perfeito para qualquer fim. Trauteie-se uma canção que fale de miragens e deixe-se os minutos tomarem conta do resto. Já não se ouve a vida passar, mesmo se o movimento continua lá fora. E depois, não faz mal se o telefone não toca, ou se as cartas chegam sempre abertas. O interesse é coisa de ontem. Cheira a bafio. Aqui, no canto escuro, as histórias andam por outras estradas. Basta mudar a posição do corpo, nem que seja um milímetro, para o destino ter outro contorno e a razão, sabor diferente. As cores têm tons de pausa. Aqueles tons de quem espera uma fatalidade. É o que acontece nos cantos escuros: Esperam-se fatalidades, como comboios atrasados, convencidos da sua importância capital.
E alturas em que o canto escuro é só um suspiro ou um ronronar aconchegado. São as horas da condescendencia e do chá arrefecido. São as contas de uma pulseira que estava no sotão, coberta de pó. São as migalhas do bocado de pão que enrijece em cima da mesa. São as bolachas que sabem melhor amolecidas. E com a almofada entre os braços, tudo parece flanela e muito limpo.
É assim o canto escuro. Doce e amargo como uma canção do tempo da guerra. O fim tarda em chegar, ficam os pés dormentes a as pernas, doridas. E num repente, o canto escuro é uma sala de baile envelhecida, mal iluminada, onde no canto mais escuro, uma banda ultrapassada toca canções vagas e dolentes que apetece ouvir. As cadeiras são de veludo gasto e os reposteiros pesam nas arcadas. O relógio, descomunal de dourados impossíveis, está parado e o tempo, interrompido. Se existe vida em mais algum lugar, ela é dispensável. Aqui, no canto escuro, espera-se o fim. Um qualquer. Mesmo se não é o que se escolhe.

Ao som de Les Negresses Vertes "Leila"

maio 03, 2005


Makura Posted by Hello

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"