junho 19, 2005

Mesmo se pensares para outro alguém

E depois, por detrás da mesa e das garrafas vazias, dependendo do relógio parado e do telemóvel desligado, com a camisa rasgada por um impulso, fibrilhando a noite com o resto de tarde e preferindo um hálito a cerveja vermelha, fico pouco quieto à procura de palavras vãs. Relego-te para o último lugar da espécie. Prevejo o teu desalinho, as meias rasgadas, as ligas presas no suor. E na boca um cigarro apagado à espera de um isqueiro... ou de um fósforo. Penteio-te com modos virtuais, aspirando o perfume dessa juba negra que me indicia a transgressão. Peso o teu valor de fêmea entre caixotes de tecidos e fardos de palha seca. Pergunto-te a idade, mas respondes-me com um rugido. Ou uma ameaça, não me lembro bem. Enquanto decido passar a língua nos teus pés nus, insisto no grau de condessa que possuis. É tarde, na escala dos humanos. Na tua, apenas atraso.

junho 08, 2005

Três pancadas na porta

As calças de cabedal como almofada e os longos cabelos em forma de lençol, trairam-me a pausa. Olhei para ela como um menino de coro. Creio que corei. Apanhei a camisa amarrotada e atirei-a para cima da cama. Passei as mãos pelo cabelo e senti-me meio adormecido. Estava acordado há quase dois dias. A boca sabia-me a tabaco e a restos de café requentado. Afastei as cortinas e olhei pela janela. A mota estava lá fora. O carro também. Coberto de pó. Sentei-me no sofá vermelho e tirei as botas a custo. Encostei-me e deixei-me ficar.
Quando acordei, não abri logo os olhos. Tinha a certeza que ela se tinha ido embora. Esperei os segundos que me pareceram os bastantes e vi a cama desfeita. Vazia. Na minha inocência, procurei algum bilhete escrito. Sorri. À falta de palavras, estava uma garrafa cheia na mesa. Dois copos. E no cinzeiro, um cigarro quase intacto. Num dos copos, como um presente de Natal, a marca de baton. Levantei-me, entrei na casa de banho e liguei o duche. Despi-me, olhei-me ao espelho com masoquismo e entrei na banheira. Demorei imenso tempo. Fechei as torneiras, usei a toalha e deitei-me na cama, sem me tapar. Não tenho cabelos compridos.

Ao som de The Dickies "Nights in White Satin"

junho 02, 2005

Aos sábados e domingos também

Esta é para quem insiste que estou zangado...

Ao almoço, salada de tofu com laranja, alface e nozes. E água. Muita. Depois, a intenção beliscada com um café. Depois, frases de circunstância avaliadas como verdades universais. O sorriso, a cumplicidade, a porta da saída. Um até logo cheio de coisas que não é preciso repetir. E com o vento na cara, sem reparar nos outros que nos seguem o caminho, regressa a gargalhada, o céu azul com um calor moreno e a intenção de pêssego e ameixa.
Acredito que ainda vale a pena. Quase tudo. Quase, porque não encontro meios absolutos. Acredito que ainda há sol a esperar, nomes para gritar ao fundo da rua, sonos à beira da água, candeeiros de abajour acesos toda a noite, segredos que só se contam baixinho, beijos açucarados, água fresca e letras de canções. E no fim e no depois, ter tudo outra vez. Voltam a ser dez da manhã, os barcos regressam, as janelas estão abertas e o olhar reconhece a candura de todos os dias.
Insistir é a prerrogativa dos complicados. Os outros, os que sabem existir, apanham a maré e deixam-se desaguar. Todos os dias.

Ao som de Steve Harley & The Cockney Rebel "Make Me Smile (Come Up and See Me)"