outubro 28, 2005

9 menos um quarto

O lado menos colorido das coisas, obriga-nos sempre a conjecturas demasiado simplistas. Olha-se o lado escuro de uma pedra, o leite que espera a sentença no fundo de um copo, o fósforo apagado depois de morto, a meia pegada junto ao passeio. Encolhem-se os ombros, pede-se piedade, pena, jeitinhos de hortelã e mantas gastas, um resto de saúdezinha de um pacote mesmo no fim. Vira-se a cara para o lado, procuram-se natais, ruas iluminadas, esquinas de portas abertas. E depois, escondem-se os sonhos por realizar, as bocas por alimentar, os perfis da derrota e todas as boas intensões do mundo.
Depois de anoitecer, os sem abrigo voltam aos seus caixotes, as ouriversarias fecham as portas de ferro, as meninas jantam nas salas aquecidas junto à cozinha, o velho do quarto alugado por cima da loja de ferragens assusta-se com o fim da vela. Sabe que os fins estão no fim da rua, à espreita. Gostam de apanhar quem se distrái. Gostam de aparecer sem convite, nem porta aberta. Gostam de surpresas. Depois de anoitecer, as chávenas de café têm outro sabor. Sabem a culpa. Sabem a dia gasto.
Se te acontecer encontrar o lado menos colorido das coisas depois de anoitecer, esconde-te no primeiro vão de escada e espera. Espera toda a noite, se for preciso. E se não gostares de fins, espera de olhos abertos.

Ao som de Blackfoot "Diary of a working man"

outubro 11, 2005

Sem esperar

Outro lado do mundo que estiver certo

Nunca fui. Nem sei se terei coragem de lá chegar. Tão pouco adivinho se algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada, porque paciência nem todos a têm. Creio chamar-se Soledad. Mas posso ter-me enganado. Ou então, enganaram-me. Já aconteceu. Deve ter uma família, daquelas cheias de primas e tios, cunhados de olhar diurno e vizinhas que conhecem as histórias e os segredos. Devem almoçar ao domingo, amontoando-se ao lado dos gritos das crianças e das ladainhas dos mais antigos. Reparte-se a fartura com a fome dos outros dias. Dão-se graças, apenas porque sim, porque já os outros as davam. Vive-se.
Eu ainda aqui estou. Preferi sentir-me cómodo. E preferi a segurança da Calle Amberes. Por uma vez, a Zona Rosa possui a cor perfeita. Na varanda do quarto de hotel, fazendo esperar a chávena de café a ferver na Plaza Garibaldi, acabo um cigarro adoçicado e medito no meu egoísmo. O tal que me decidiu esconder aqui, longe de quem já perdeu a paciência de me esperar, de quem olha os filhos numa adoração desmedida e nunca sabe o dia de amanhã. Talvez amanhã procure este destino. Ou então, um outro qualquer. Um que me espere impacientemente.
Deixo cair o que resta do tabaco, piso os vestígios ainda acesos, olho uma última vez o edifício da American Express e saio do quarto deixando a janela aberta. O ar condicionado nunca funciona. Desço, atiro as boas noites ao Salvador que me responde em rima e fundo-me com a multidão. Na esquina com o Paseo de la Reforma, talvez incomodado com este rio de riqueza entre lixeiras e bairros miseráveis, decido deixar esfriar a chávena de café e procuro um táxi para regressar à existência normal. Espero bastante tempo por um vermelho. Não me sinto com muita sorte para tentar outra cor. Vou a Las Aguilas, bem depois da Barranca del Muerto. Ali vive Soledad. Lembrei-me de lhe ir conhecer os olhos, adoçar a boca das crianças com alguns rebuçados, ouvir as frases feitas dos avós. Lembrei-me de sentir a vida como ela realmente é.
A verdade é que sou demasiado óbvio. Não cheguei a Las Aguilas. Não conheci os olhos de Soledad. Apanhei o táxi, um vermelho bem sujo, guiado por um velhote de dentes podres.
- À donde, patrón?
Hesitei, num gesto próprio dos que não sabem o que fazer do tempo.
- À la Tabacalera.
- Si patrón.
Recostei-me. Doíam-me os rins. Tinha passado a tarde a escrever. Baboseiras e lugares comuns. Demasiado tempo livre, esta é a verdade.
- Dejéme en el Oxford. - O condutor sorriu. Conhecia o destino. Olhou-me pelo espelho e tentou adivinhar-me a tara. Voltou a sorrir, encolheu os ombros e acelerou sem vontade.
Boas intenções. O papel de parede do inferno. Enquanto Soledad olha os filhos que adormecem sob o carinho da mãe, eu, egoísta, bebo o álcool viciado e observo as putas com idade de velha, que se bamboleiam ao som dos tristes boleros que Carlitos insiste em tocar. Pacientemente.

Ao som de Brian Eno & David Byrne "Regiment"

outubro 02, 2005

O lado do mundo que estiver certo

Nunca fui ao Tibete, embora sinta que algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada. Algo, ou alguém, enrolado num cobertor, talvez em farrapos, olha de relance quem desce do último autocarro, mede os seus passos, as suas exclamações, e me procura tarde após tarde por entre a poeira e o cheiro a chá requentado dos vendedores de rua. Eu, egoísta, faço-me esperar como se de um alto dignatário me tratasse, empolando a minha vaga importância num mundo tão prenhe como o que existe no Oriente, ignorante de contrapartidas e variações. Em Lhasa, alguém retarda a sua vez de comer algumas migalhas ou molhar os lábios num chá fumegante, sentado num degrau junto aos autocarros parados. De vez em quando levanta-se, estica-se um pouco, olha as águas do Kyichu e retoma a missão que sem razão aparente lhe foi confiada. Eu, sentado ao computador, fumando um charro com um prazer contido, perguntando-me as razões para tanta agressividade infantil, esfregando os olhos para retardar qualquer lágrima, de dentro da minha t-shirt dos New Order não compreendo este provérbio antigo que me espera pacientemente do outro lado do mundo e prefiro, por agora, ignorar o que nem sei que nome dar-lhe. E ainda assim, no meio das cabeças que descem os degraus sujos dos autocarros, procura-se a minha. A minha cabeça está a prémio. Mesmo se um prémio ínfimo, desajustado ao valor que aqui no Ocidente, apreçamos a existência, o tempo ou a necessidade.
Por enquanto, espero. Espero pelo cartaz que valorize a minha captura. Espero é valer alguma coisa que se veje.

Ao som de Aes Dana "Skyclad (High Frequencies Version)"