dezembro 20, 2005

Chaves e silêncios

Épicamente balançado pelas luzes que anunciam o fim do dia, herança de uma dança de loucos que se prolonga muito mais que 7 minutos e meio, desejo profundamente acreditar nas missões e nos destinos peculiares.
Moro num sítio onde existe uma passagem secreta para os Natais. Os que se misturam com lenda e açafrão, os que mantém o perigo dos primeiros tempos, os que vão muito para lá das montras e dos enganos mortais. Às vezes tento rodar a chave ferrugenta dessa porta fechada por decreto, ouço alguns mecanismos ranger, cai alguma fuligem cor de antigamente e depois, só o silêncio da recusa por demenciais razões e espíritos menores. Então, espreito pelo buraco da fechadura, largo como só antes era possível e para lá da negritude da escuridão silenciosa, adivinho as formas trôpegas de mistérios de juventude, ogres de voz cintilante e mãos simuladas em luvas de pelica tão fina, que se conhece as veias pelo seu nome próprio. Os cheiros e as comadres agachadas junto ao lume, repetem ditos frugais, enquanto os seus olhinhos brilhantes estalam de gozo pelo fumo das cozeduras e o reflexo dos diamantes que pendem do tecto de madeira escura. Ao primeiro silêncio, as luzes baixam de tom e um coro de marfins alados encomenda um caminho novo de três mil e quatrocentos anos. Como resposta, os cristais em forma de animais e verdades, do alto das prateleiras cerimoniais, ri em gritinhos juvenis tornando tudo em cor branca. Ao segundo silêncio, os guerreiros de lábios gretados e ternura na ponta dos dedos, desembainha as espadas imemoriais e num gesto seco mas majestoso, lança-as para longe, onde um regato se transforma em oceano e as cobre definitivamente. À uma, cantam em coro a canção dos que regressam, ladeados pelas imagens ténues dos que por lá ficaram. As comadres à ordem da avó suprema, distribuem os caldos de mil ervas e as bagas de gengibre e veludo, que se comem às mãos cheias. Por momentos, engole-se o sabor e saboreia-se as virtudes de ter alma. Depois da ceia, todos se sentam virados para Este e sem palavra, espera-se. Ao terceiro silêncio, já ele próprio o esperava. A porta estremece, ouvem-se as formas que batem com os pés na pedra em busca de calor e secura, caem os pesados alforges, rebolando para a parede, acotovelam-se os que prolongam a dúvida e ouve-se em pancadas poderosas a porta anunciar a visita. Ao terceiro silêncio, desde tempos sem idade, chegam para o resto da ceia os quatros ventos, miragem eleita como a mais pura e perfeita num mundo prenhe de tomos vulgares e locuções vazias, que terminam antes do começo. Quando a porta se arrasta pela laje, a visão permanece intacta como a lenda: Os quatro ventos só serão vislumbrados pelas mentes limpas e pelas almas intactas.
Eu não os vi. Não conheço ninguém que os já tenha visto. Não sei de notícia de alguém que encarando-os, os tenha reconhecido e por eles tocado. A porta que separa a passagem secreta continua fechada. Consta que a chave enterrada na fechadura não serve. Que em vez, existem alguns milhões tremendos de chaves, espalhadas por aí. Que eu saiba, ainda ninguém encontrou alguma. A porta permanece fechada. As chaves, sem exigir esconderijo, espreitam quem passa, apressado em motivos menos nobres e essenciais para coisa nenhuma. A porta permance fechada. Espera pela chave. Uma qualquer.

Ao som de Shadow Gallery "Mystified"

dezembro 15, 2005

Sem quase querer















Desejo-te com a fome de sushis impossíveis...

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"