dezembro 28, 2006

Um pouco de alguma coisa

De propósito, sem acaso, procurar alguns degraus junto ao mar e sentar, deixando alguma distância entre os pés e a areia. É um começo. Juntar as mãos virginalmente e esboçar um suspiro. Sustê-lo. Franzir os olhos e percorrer o horizonte. Manter as mãos juntas sem pensamentos impuros. Sorrir. Diminuir o sorriso e prolongá-lo. Lentamente diminuir a tensão nos ombros e nos dedos e soltar o suspiro.

Olhar a areia e adivinhar-lhe a temperatura. Deter o impulso de avançar e pegar-lhe, mantendo as mãos juntas mas com as pontas dos dedos a passear na impressão digital. Juntar os pés. Pressionar as coxas contra a madeira e evitar contar os segundos. Olhar o mar e procurar ao longe uma onda. A primeira que encontrar não vale. Seguir-lhe os avanços, vê-la aproximar e desaguar na areia. Desejar-lhe um bom regresso. De relance olhar o ceú e esperar o consentimento. Ao levantar, fazer um esforço por não afastar os pés. Pisar com firmeza os restantes degraus como se pisasse almofadas. Ao primeiro contacto dos pés na areia, deixar cair os braços, distender os dedos e fechar os olhos. Quando a sensação chegar a areia já estará à espera.

Tudo o resto também.

Ao som de Vangelis O. Papathanassiou "Lei It Happen"

dezembro 27, 2006

Terceira parte

Depois de mexer, um minuto nunca perdido, provou e voltou a pousar a chávena. Gostava de prolongar o prazer. Olhou os bocados de asfalto húmido, por entre os carros estacionados um pouco por todo o lado. Ninguém. As mesas da esplanada continuavam vazias. Quase todas. No cimo do baldio um cão farejava os restos do que foram compras e impulsos. Parecia ter a cor do tempo. Desafiando a penúria do animal, pegou na chávena e bebeu. Sentiu uma onda quente atravessar-lhe a garganta e o íntimo. Olhou o cão e desejou-lhe um fim de tarde morno. Bebeu o resto do chá e recusou-se a segunda chávena. De propósito. Deixou-se ficar por alguns minutos. Os bastantes. Levantou-se, deixou uma nota exagerada em cima da mesa e virou-se para a direita. Ninguém. Tinha adivinhado. Aninhou o pescoço no cachecol preto e subiu a rua. Talvez no cruzamento...

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

dezembro 24, 2006

Feliz Natal

Segunda parte

Virou à esquerda e atravessou a rua num bocado de asfalto seco de velhice. Sustenido por um ritmo constante, enfrentou os restos de multidão com pressa de calor. Seguiu em linha quase recta de uma geometria quebrada por algum individuo distraído ou entristecido por teimosias. Na esquina só olhou em frente e atravessou em diagnoal por entre o trânsito de autocarros de sentido único. No passeio, insistiu na direita e antes da farmácia esqueceu-se igreja e da mercearia. Caminhou no bocado de rua esvaziado por lojas que não existem, virou ao sabor dos prédios e ao longe viu as paragens cheias e as luzes das compras. Espaçou a passada como por medo da agitação. Na penúltima esquina virou à esquerda e fugiu da inquietude da multidão. Forçou o passo na subida e lembrou-se da loja de antigamente, no outro lado do passeio. Sorriu ao baldio que ainda existia e por entre alguns carros abandonados e outros que apenas esperam, apressou-se para o café entalado entre a descida e a subida, num pedaço de vale imaginário e mesas vazias da esplanada de Inverno. Porque raio não se teria lembrado deste lugar? Era perfeito como interrupção.

Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?

Ao som de GOL "No Bounds"

dezembro 19, 2006

Primeira parte

Levantou-se do sofá e atirou o comando da televisão para o monte de almofadas junto à janela fechada. Bebeu um gole do copo de água e pouso-o com cuidado em cima de uma revista. Olhou em volta à procura de algo que lhe tivesse escapado. Não encontrou. Aconchegou o cachecol, procurou nos bolsos o isqueiro e o comprimido. Bateu com as palmas das mãos nas pernas e avançou para a porta. Olhou o telemóvel e esqueceu-o de imediato. Abriu a porta, deixando as chaves na fechadura do lado de dentro. Fechou a porta com os cuidados de um homem velho. Sorriu.

No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.

Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?

Ao som de Riverside "The Same River"

dezembro 18, 2006

Outro

A moeda tinha duas caras

Sem saber porquê, decidiu acompanhar a música com dois dedos. Nem gostava da canção. Enfim, não tinha a certeza. Olhou para o copo, o terceiro. Decidiu beber a cada pormenor que gostava nela. Sorriu e bebeu de uma vez. Era um pormenor irresistível. - Outro... Por favor. - Do outro lado do balcão, alguém sorriu. Ele retribuiu. Cumplicidades. Pegou no copo e observou a transparência. Hesitava o próximo detalhe. Como detestava batotices, decidia o seguinte com minúcia. Depois de quase um minuto, pousou o copo. Olhou em volta e tomando uma adolescente insinuante como inspiração, bebeu em dois goles generosos. Tinha escolhido dois de uma só vez.

Ao som de A.R. Rahman "Musafir"

dezembro 14, 2006

Em qualquer lado

Saiu do motel entalado entre a capela de casamentos e o carpinteiro de caixões, gingando a vontade de uma última noite de liberdade. Desceu a rua até ao cruzamento. Passavam camiões cheios de gado vindos do vale. Olhou o chão no momento que um pequeno lagarto lhe roçava o passo. Sorriu e esperou que desaparecesse na erva alta dos baldios. Atravessou a rua e dirigiu-se para as luzes. Do cigarro no canto da boca, apenas restava o filtro. Não se habituava aos fios de tabaco à solta na língua. Sossegou a ansiedade aos primeiros acordes de música poeirenta. Sentiu nos bolsos as moedas e entrou no primeiro bar.
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.

Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"

Culpado por não saber parar o tempo

Subindo os degraus parei onde nos últimos dias de vida, punks e homens velhos debatiam estados de confissão. Encostei-me ao corrimão e de costas voltadas à noite, ri-me até sujar a tosse de bílis. Encolhi-me na camisola escura de gola alta, rota nos mesmos sitios de há tanto tempo e de mãos nos bolsos, invejei uma noite de uma fuga que não me lembro onde terminei. Tirei a mão do bolso, verifiquei-lhe as rugas mais recentes e crispei os dedos ao ritmo do esquecimento. Talvez por me sentir melhor por um momento, comecei a descer os degraus.

Ao som de Dean Wareham & Laetitia Sadier "Bonnie and Clyde"

Gritar ao passar a ponte

Desejo umas mãos frias de escritor à beira do colapso. Desejo um copo meio vazio, na impressão de meio cheio, enquanto as esporas e os estribos rezam sózinhos à entrada do estábulo. Desejo um domingo requentado de quem não precisa da segunda feira. Um fio rouco em goles de café mastigado. Desejo uma surpresa logo de manhã, ao último suspiro quente da cama. Desejo um golpe fatal perante o rio e o lodo, como se a hora fosse feita de fitas enroladas e missangas de cor. Desejo uma canção que nunca acabe. Desejo um mostrengo só para mim. Desejo a cor do céu que uso para marcar a minha impressão digital. Desejo pintar uma parede com as palavras da guerra, do amor, da magia e da dinastia. Desejo um fósforo que apague a água que não me chega. Desejo uma mortalha de gomos sumarentos. Desejo a fortuna de um fim de dia quente.

Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"

novembro 27, 2006

Três degraus

De ocaso em ocaso,
um bolso intenso
de uma gabardine habituada
a esperar o momento
e o néon súbito
da espera
e do soluço,
revolta de não ter chave
nem porta para abrir
os lençóis
para esconder alguma parte do corpo.

Segundo a sua doutrina,
elevou algo que conseguiu lembrar
e num relevo
que sempre lhe marca o rosto,
decide andar mais um pouco
na certeza de algum sorriso
ou lágrima
que consiga suportar
e esquecer.

Quando passar por ele
não o conhecerá,
perdido
em desvendar traços
e espessuras
iluminadas por tons banais,
cinturas
e ombros encolhidos
entrelaçados por olheiras
e por instantes.

Sentado no passeio,
deixou-se seduzir
por um candeeiro insinuante,
véu significado de desmaio
na epiderme de vontades
e prazeres,
panos sumptuosos
de oiro carmesim,
ignorâncias assumidas
por desconhecer a cor.

Da varanda agastada
pelo arrepio
do escuro,
seguiu o sulco deste homem
serpenteando alguns minutos
no epílogo
de tantas noites,
querela de pontos cardeais
e de uma coroa de conde,
vénia de ciscunstância amarga
e proveito
de quem espera
e sabe,
estar a porta aberta
e os lençóis
aquecidos.

Ao som de Ratnabali Adhikari "The One part II"

novembro 26, 2006

Aconchegadamente

No sustenido da berma
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.

Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.

Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.

Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.

É tarde.

No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.

Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.

Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.

Prometem desassossego
e os dias seguintes.

Ao som de Godsmack "Serenity"

novembro 22, 2006

O trunfo

Por ser necessário, perdem-se as razões e os motivos em cantos de relva fresca, junto ao canal, onde as horas de almoço se recortam mais além, surgidas de nadas e chiares de qualquer coisa longínqua. Mais uma dentada na sanduíche e as migalhas vão e vêm, servidas em papel de lustro que custa algumas piastras numa loja escondida e limpa, numa rua qualquer apenas por ninguém a conhecer, centro de frágeis atenções e com avós pelos passeios, debaixo de árvores de Outono e olhares na esquina, enquanto o horizonte não regressa e o sol não retoma o dia.

Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.

E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.

Ao som de Love "Old Man"

novembro 17, 2006

Mordiscando

Dás-me fome de sushis impossiveis, onde o sabor é o teu lábio multiplicado por mil.

Ao som de Airstream "Welcome to Lycira"

novembro 04, 2006

Régua e esquadro

Tinha prometido deixar de beber. Saía antes das dez da noite, via umas montras, talvez acabar o resto da cigarrilha e pasmar diante dos reclames luminosos. Andei quatro quarteirões e vi-os a entrar num café mal iluminado. Um daqueles antros de inox e alumínio, cheios de motivos descartáveis e empregados vestidos de branco. Eles, de fato preto e gravata fina, escolheram a mesa certa e não pediram nada. Em silêncio, olhavam o empregado do meio que abria as garrafas e procurava os copos exactos. Atulhou uma bandeja metalizada e rápidamente serviu. Como relógios, eles encheram os copos e ao mesmo tempo deram o primeiro trago. Só depois sorriram. Com um movimento estudado, o empregado compreendeu e voltou para trás do balcão. Na televisão, um programa típico de horário nobre, cheio de luzes e histerias. Eles, em silêncio, bebiam pausadamente. Acenderam cigarros. Os nós imaculados das gravatas levantavam dúvidas e hábitos. Mais dúvidas que hábitos. Da cozinha ouvia-se algo a fritar. No ar um cheiro adocicado. O chão estava limpo, nas mesas os ketchups e os molhos arrumados, a ventoínha do tecto girava sem ruído e do exterior só barulhos inquietantes.
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.

Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"

outubro 31, 2006

Edital

Revogando tudo o que se disse aqui, decreto meia hora de conflito armado segundo critérios acordados em assembleia geral e com as seguintes limitações:

1 - Estão proibidas balas cor de rosa;

2 - Gatilhos de seda ou veludo só de modelo soviético;

3 - Extremismos apenas com botas de salto alto;

4 - Não se permitem quaisquer cápsulas de cianeto;

5 - Beijos, só de cinco em cinco minutos.

Boa tarde

Horas

Ouvi mas não me lembro onde

Depois da única curva da rua, via-se a porta, a varanda e eles. Costumavam sentar-se no degrau da porta ou no passeio. Às vezes, no muro. Olhavam e gritavam um sorriso. Outras vezes não estavam lá. Olhava o rio pela fresta da rua estreita e segurava-me no rebordo da porta da garagem, à espera de qualquer coisa. Como banda sonora, lá fora tinha os barulhos de quem ia vivendo. Lá dentro, as intermináveis listas de descoberta e fitas com guitarras de quatro cordas de todas as cores. O tapete branco com geometrias azuis e verdes fazia parte da família e as fotografias mostravam gente desconhecida. A porta nunca se fechava e só por isso eu não consegui ser mais eu. Só me apercebi no dia que vi a sala sem o tapete e pude finalmente fechar a porta. Não cheguei a fechá-la.

Ao som de The Stranglers "The Raven"

outubro 20, 2006

O sol, o anjo e a fogueira

Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.

Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"

outubro 13, 2006

Ámen duas vezes

As vinganças são bisturis coloridos, retalhando com dois mil cuidados o desalento de tardes de sol ou meias manhãs de chuva miudinha, onde os passeios desistem e os passos se repetem. Ao fundo da rua, junto aos restos de ontem, adormecendo o seu tédio, senta-se um deus em posição de espera, alumiando o reino que prefere privado. Não atende súplicas nem queixumes. Não oferece curas nem segreda sílabas doces. Observa, reduz o horizonte a instante e num esforço incapaz de conter a galáxia, mantém transparente a razão humana. É viciado no jogo, este deus urgente. Tomou como igual o ás de espadas e corrompe damas e valetes a seu contento. Cheira a vão de escada. É estéril. Afinal é filantropo .

Ao som de OMD "Statues"

outubro 09, 2006

Vista actual

Semelhanças de casos furtivos,
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.

Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.

Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.

Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"

setembro 22, 2006

18 horas de certezas

Dia 22

Se calhar a chuva da manhã tinha sabor. Bebi o café, o que me escorre o encolher de ombros e me liberta o sorriso, mesmo se o tenha guardado no porta luvas do carro. Olho a empregada nos olhos, corrijo-me e acendo a luz do resto da tarde, lembrando as pessoas pelos seus nomes e ouvindo os segredos dos miúdos. No relógio ainda sobram horas e planos para a semana seguinte. Na prateleira não encontrei o livro de versos. Desci a escada, olhei as revistas, sai e nem sequer deixei cair os olhos no passeio. É bom sinal. Os anos continuam arredondados, mas as arestas têm falhas cada vez mais suaves.

Ao som de Peter Ellis "Angel"

setembro 16, 2006

Adro

Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.

Ao som de The Church "Under the Milky Way"

Redondos

Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita.
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.

Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"

setembro 13, 2006

Despertador

Depois de pegar na chave, cuspiu na fechadura e sorriu lentamente. Tinha tempo. Todo. Só voltariam de manhã. Tinha a noite toda. Talvez por isso, decidiu deitar-se.

Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"

Esta, não é uma mensagem

Julgava que era sexta feira. Tinha metido um dia de férias para acabar com tudo de uma vez. Levantei-me às onze. Mais cedo seria traição. Calçei os ténis sem meias. Fui até à varanda, nu e fumei um cigarro. Voltei à sala e bebi um resto de café. Frio. Arrepiei-me. Não sei se foi o café. No quarto, vesti as calças e a camisa do costume. Saí à pressa, sem a chave de casa nem a estatueta. O elevador estava parado entre o terceiro e o vizinho de baixo. Encolhi os ombros e desci as escadas. Parei no segundo e encostei-me à parede. Tentei ouvir os gemidos. Não consegui. Devia estar a dormir. Junto à porta da rua, por debaixo das caixas do correio, um fulano, já velho, sentado no chão, observava fatias de pão. Depois escrevia qualquer coisa num pequeno bloco, dava uma dentada e deitava fora o resto. À quarta fatia, fui-me embora.
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

setembro 05, 2006

198?

Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.
Encostada à mesa de tampo de mármore, mãos esquecidas, mordia mais um naco de história amarga, polvilhava com o açucar que encontrasse e semicerrava os olhos, esperando a porta abrir e alguma brisa lhe lembrar a morada. Levantava-se, olhava as migalhas como amigas e com o suspiro que alguém lhe ensinara, murmurava as boas noites e perdia-se na rua de sempre.
No outro dia, já toda a gente comentava. Tinham-na visto no telhado. Tinha fugido.

Ao som de The Smiths "Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me"

setembro 04, 2006

Liquidez

Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.

Ao som de Yello "Pinball Cha Cha"

Com a mão no bolso

Debaixo do lençol, as notas amontoadas têm a forma da nora do Afonso. Aquele do olho avermelhado e da t-shirt com o macaco azul. Acho que continua fora. Já à dois meses. Foi no comboio das sete. Fui-me despedir e aproveitei para um cafézinho. Qualquer desculpa serve e como estava perto do rio... Tinha ido provar uns vinhos à socapa. Com um amigo, o Teles, o do Alfa azul escuro. Cravo-lhe sempre um charutinho. Gosto de fumar junto ao rio. É dos poucos prazeres que me restam. Os outros, a maioria, ou meti-os no correio ou perdi-os ao póquer. Não tenho jeito nenhum para bluffs.

Ao som de The Stranglers "Hanging Around"

Medidas mais ou menos drásticas

As contas não batiam certo. Nunca batiam certo desde o golpe de estado. Fuzilaram-se os bons contabilistas. E os porteiros. Raio de ideia, largar tudo para ir abrir a porta ou um simples "quem é". Raio de ideia. E depois ainda as formalidades idiotas dos gajos dos bancos da Suiça. Se fosse por cá, era tudo fuzilado.

Ao som de Trust "H & D"

setembro 01, 2006

Depois da bonança

Conheces o personagem? Lembras-te dele? A última entrevista correu-lhe bem não foi? Eu também achei. Vi-a até ao fim. Depois fui ler os recortes. Só os desta semana. Reli os de hoje e ainda liguei a televisão. Queria apanhar alguma reportagem. Tive sorte, um dos canais estava a falar dele. Uma festa ou algo assim. Estava bem vestido. Enfim, apresentável, mas a roupa era de marca. Ele disse qual. Não me lembro. Mas foi discreto. A posição não lhe permite exageros. Nem figuras tristes. Ou demasiado alegres. Li que só bebe duas marcas. Tem de haver pelo menos uma. Tem um acessor para isso. O outro é novo. Parece que é para os fins de semana. Alguns, pelo menos. Uma vez teve de ir buscar uma mala. Tinha de ser aquela. Ainda estava longe. É extremamente rigoroso. E exacto. Estava no outro carro. Não, não, a cilindrada era mesmo aquela. Ele sabe do assunto. A pele é que era muito escura. Tiveram de mudar. Demorou dois dias. Ele foi compreensivo. É um senhor. Era. Achas demais, quatro balas?

Ao som de Trust "L´Elite"

agosto 31, 2006

Mais uma última ceia

- Mostar, vem cá. Traz-me o teu cachimbo e a tua alma.
- Ofereço-ta. Leva-a e dorme com ela esta noite. O cachimbo, deixa-o em cima da mesa. Cheio.

Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Danza Transilvanica"

agosto 30, 2006

Por um dia número vinte e seis

Por todas as meias horas de meios dias cheios de meadas de lã, de chávenas com liquidos de plasticina e muitos, muitos ramos de alfazema e jasmins que aprendem a crescer sózinhos, sem risos por cozinhar nem caras de cem riscos oblíquos e gargalhadas altas de quebrar vitrais.

Por idas ao circo de mão dada, pelas cascas de pevides atiradas ao rio, por tartes e bolos de geléia e bolachas a sair do forno, estaladiças e únicas em migalhas que nunca são restos, entre pêssegos e baldes de areia que duram até ao Natal, debaixo da mesa da saia comprida onde se decidem a sorte e as manhãs seguintes.

Por acaso e por tudo o que é da lenda, por isso e por aquele passo a mais no jardim, por cima enquanto o telhado aguenta e por alguma razão que me escapou, por ser domingo ou a segunda feira ao pé do meio dia e o tempo durar e durar muito além do cabo das tormentas.

Porque sim.

Ao som de The Rolling Stones "She´s a Rainbow"

agosto 28, 2006

250 gramas de sono

3 e meia da manhã.
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.

Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"

Pausa

É terrível a desolação da caixa de madeira com forro de veludo verde. Nem sequer os dobrões do costume.

agosto 08, 2006

Na borda do precipício

No helicóptero, os três do costume. Nem vou dizer os seus nomes. Faz mesmo muita diferença? É realmente importante? Atreves-te a olhá-los de outra forma, depois de conheceres os nomes? Farás outras perguntas? Não vou dizer os nomes. Os seus olhos muito atentos que te contem as histórias. As verdadeiras. As que são incómodas, que corroem as articulações de tanto desviares o olhar.
O piloto é de uma vilazinha junto a um mar. Uma ilha. Sonhou voar para fugir aos dias sempre iguais. Não sabia que fora dali, os dias ainda são mais iguais. O da máquina fotográfica a tiracolo vem de uma grande cidade. Uma das maiores, das mais ruidosas. Sente falta de um certo café, vai para oito ou nove dias. Não faz a barba desde esse último café. Penteia-se rudemente com os dedos sujos de gordura. Tem os olhos inchados e duas novas rugas que ainda não conhecia. Tem um bebé, lá na grande cidade. O terceiro... a terceira, esfrega as mãos uma na outra, mesmo se as luvas distraiam o frio. Tem o cabelo pelo pescoço, castanho de um claro estranho. Bebe um resto de chá em pequeninos goles. Olha com atenção os pingos de chuva que se estatelam no vidro da frente. Já não lembra do sol e da praia junto ao resto do farol. Só amanhã. Ou depois... Quer dizer qualquer coisa, mas o barulho das pás e do rotor torturam-lhe o silêncio. Faltam duas horas para a noite. Para o destino, um pouco mais. Se tudo correr bem.
Se este momento fosse o momento certo, talvez descrevesse as condições e as consequências, ao mesmo tempo que omitiria as razões. Nem sempre a presença de todas as faces dos dados é necessária. E quase nunca indispensável. Deixava escapar alguns pormenores sem interesse, alguma migalha biográfica, um vício ou dois, um canção cantarolada e mesmo assim cada um imaginaria na sua conveniência o motivo e a moral de cada um. Mas este nem é o momento certo, nem eu sou o anfitrião de uma história que nem é história. Às vezes tudo acontece sem argumento, porque tem de acontecer ou apenas porque sim. Os seus olhos muito atentos, cruzaram-se oito ou nove dias atrás na mesma sala do mesmo concerto. E muito atentos, ouviram as explicações e os momentos de euforia. Comungaram a estranheza de se encontrarem ali, em desviar o olhar. Não costumavam sonhar acordados, seguiam lógicas encarreiradas, não fumavam e sorriam com a preocupação do exagero. Não gostavam do amanhã sem agenda.
O helicóptero descreveu uma ligeira curva para a direita e descaiu teimosamente de encontro às ondas. Ela agarrou-se à pega junto à janela e deixou cair a caneca que rebolou para os pés do fotógrafo. Com os pés em esforço, rangeu os dentes. O piloto esmagou o punho e fez força em vez de imaginar trajectórias. Todos, muito atentos, partilharam o mesmo lamento. Não encontravam a palavra certa.

Ao som de Tangerine Dream "3 AM at the border of the Marsh from Okefenokee"

Já são sete horas?

Podia ser Outubro. Umas onze da noite, por qualquer motivo. Ou Novembro, às seis e meia tarde. Podia estar encostado ao segundo prédio depois da esquina, pé na parede e pé pisando um resto de uma folha cor de rosa, de à três dias e onze e meia da noite de encontro marcado. Podia ter o cigarro a meio, a vontade de acender outro sem acabar este, a sede de uma cerveja belga ou outra à escolha, um lugar sentado no primeiro autocarro de número primo que parar, ou uma lata de caviar e algumas tostas partilhadas nas escadas do metro com um sem abrigo húngaro. Podia ser a sessão da meia noite no cinema junto ao quartel, apenas porque me lembro de algo interessante. Podia ser quase amanhã, os carros estacionados só do lado direito, as árvores quase caladas e o caminho de volta a casa, depois de um serão com um casal de franceses que ainda se lembra do comboio a vapor. Podia ser quase Natal. E quando passasse pelo segundo prédio depois da esquina, via no chão um bocado de papel cor de rosa, as beatas de dois cigarros e a vontade irresistível de abraçar a primeira pessoa que passasse. Mesmo se fosse a pessoa certa.

Ao som de Tangerine Dream "Tangram set 1"

agosto 07, 2006

Paragem

Devagar. Muito devagar, um pé a seguir ao outro, ver a sombra mudar de carril e esperar que ninguém se mova nem que o céu caia no esquecimento. A electricidade parou e as margens estão muito quietas, quase sinceras. O telefone está esquecido no fundo de uma gaveta. Dorme com o passaporte do seu lado e o relógio parado à cabeceira. Devagar, muito devagar, a sombra dobra a esquina. Procura sinais de fumo ou outra desculpa qualquer. O pneu do camião continua furado como na véspera. E a véspera nunca foi ontem.
Devagar, muito devagar, a cidade sorri a si mesma. Tal e qual como num verso.

Ao som de GOL "No Bounds"

agosto 04, 2006

Choque de carrinhos de choque

Ao som de Tangerine Dream "Ultima Thule (Teil 1)"

Recatos

Estou farto de me dizer que o calor não é meu. O frio, deixa-o sossegado. Há-de chegar um domingo ao fim da tarde, com as luzes já acesas e o cachimbo finalmente apagado. O dia estará silencioso na rua das casas todas iguais com o mar ao fundo e barulhento como sempre, na cidade. Mas o calor veio hoje almoçar. E eu, anfitrião, recebo-o com paisagens cor de palha holandesa e álcool agridoce. Ele sorri, como todos os calores que se sentam nas cadeiras de palhinha e sorvem o refresco com vagar. Eu sorrio, como todos os anfitriões que têm as garrafas cheias e todo o tempo do mundo.

Ao som de Fish "Moving Targets"

agosto 03, 2006

Dúvidas

Entre os pingos de calor, junto à estrada e seguindo as pegadas das árvores ao longe, esqueço a ilha e os que regateiam ao sol. Tenho o maço de tabaco vazio e resta-me um único cigarro indiano, daqueles que o brasileiro de sotaque europeu me oferecia sempre. Não tenho fósforos. A segunda e a terceira passa, sabem-me sempre melhor depois de acendê-las com madeira. A quarta também. Fico-me pelo isqueiro que a diva me ofereceu. Ao olhar os campos, abano levemente a cabeça ao ritmo de um bazar que não cheguei a conhecer. Talvez um dia, à tardinha, quando o calor se começar a desfazer enquanto as conversas ganham cor. Hoje não. Hoje, tenho uma missão.
Se não a cumprir, matam-me. Se o fizer, mato-me.

Ao som de Vaguement la Jungle "Donner"

julho 11, 2006

Pausa

Os castelos de areia raramente têm damas ou reis. Ases, têm sempre muitos. Às vezes, demasiados.

junho 28, 2006

Horas trocadas


Depois de sete horas de caminho, as ruas parecem-me rigorosamente parecidas. Nas paredes vazias e sujas, algumas janelas iluminadas têm a forma de um sofá velho, confortável nos fins de dia, onde o serão é açucarado e se possível lento. Nos prédios pintados com todos os tons de betão, as estrelas não estremecem e as luas não têm forma. Os gritos pretendem-se calados e os silêncios nunca são de ouro. Prolonga-se a noite e espera-se que a manhã demore a chegar. Os meninos são aconchegados nos cobertores e antes do corredor, um último olhar à respiração de criança, provoca um sorriso de outros tempos. A luz do abajour amarelecido é morna. A pausa antes dos derradeiros afazeres, esfria. Lá fora o vento ameaça.
Passo a passo, o passeio não quer terminar. A rua atravessa-se no meu caminho, por todas as sete horas de vadiagem rumo a qualquer avenida com nome de herói da guerra, onde os semáforos intermitentes são detonadores de suspiros. É tarde. No bolso apenas a chave do quarto de hotel, a carteira de fósforos meia vazia e os dois cigarros que ainda restam. No bar depois da estação ainda há luz. Puxo a gola do sobretudo para cima, olho em volta à procura de algo que me tenha escapado e atravesso a rua. São 2 horas da manhã, a neblina promete cair e o último comboio não trouxe ninguém. Está na hora da saudade.

Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"

junho 09, 2006

O assassinozinho

Começar o fim de qualquer vestígio de crime, permite a intuição de conhecer o criminoso, entrar-lhe na pele e reviver o assassinato. É uma virtude, escolher no conjunto descomunal de minutos que o dia oferece, o instante correcto da arma faiscar ao sol e penetrar no ventre da vítima. É uma arte. Um dom. Uma pincelada ao de leve, onde o íntimo encontra a tela.
Um crime só faz sentido no momento exacto. Proporcionar a facada dois segundos depois, transforma a obra prima em andaime. Um segundo antes é apenas uma garotada. Deixar a tragédia para o dia seguinte, é mimar com misericórdia o punhal, é preguiça de letrado. Não deixes para amanhã o que podes sangrar hoje. É por estas e por outras que investigar o crime é fugaz. Voyeurismo muito depois do evento. Um longo encolher de ombros de quem não lhe conhece interesse e vontade. Um bocejo.
O segredo para além do assassino é pegar o seu vestígio com as duas mãos. Lentamente, com cuidados, acariciá-lo com minúcia e com a intuição com que ele se entrega, afagar o hálito do criminoso, sentindo-lhe o bafo final com que um malogrado qualquer se despede. E no fim, como uma sobremesa que se espera com gulodices aveludadas, resta o fio de sangue que no passeio irregular traça caminhos imaginários, rumo ao Sul. Assassino? Poeta, é o que é.

Ao som de Uriah Heep "Return to Fantasy"

A quinta badalada

Das cinco horas da tarde, duas, ofereço-as à multidão que espera pacientemente ao sol, junto da porta do Ministério dos Assuntos de um Dia Qualquer. O ministro à muito que fechou a pasta na gaveta e se evadiu para não sei ao certo. O secretário em estado novo, jaz nas areias da praia regulamentar. Os funcionários mantém-se fechados na cave. Acreditam numa guerra mundial. Uma qualquer. Os serviços ao público nunca chegaram a abrir... mas a multidão nunca o soube. Espera com a paciência de santo em dia de feira no Vaticano. Espera sequiosa sem conhecer o sabor da água. Nos cantis, só sal. Grosso. Por tudo isso, duas, ofereço-as à multidão.
A terceira, a de canícula, doei-a a um velho que nunca conheceu outra pátria, que a sua cadeira de rodas. Tem uma tez paraplégica e um esgar nocturno. Vive com a certeza de os pés e as pernas serem artigos de luxo, supérfluos à matilha indigente das três da tarde. Bebe chávenas de café. Muitas. Demasiadas. E se o vício se entreter, porquê hesitar? Bebe-as sem açucar. Faz-lhe mal à circulação dos membros. Dos que lhe faltam. No intervalo dos goles de café, lê velhos tomos desirmanados que o camião do lixo lhe deixa. São as suas refeições. Costuma saltar o pequeno-almoço.
A quarta hora, pouco uso lhe posso dar. Geralmente tenho-a como impecilho. É redonda e mesmo assim, lisa de sentimentos. Não provoca paixões. Não faz desmaiar donzelas. Apenas está ali, entre as três e as cinco, absorta, vaga, preocupada com toilletes que não conhecem galas. É uma hora vulgar. Nem sequer ordinária. Deixo que a senhora da limpeza a varra para debaixo do tapete. Arquive-se a sua inutilidade.
Cinco da tarde. Das cinco horas da tarde, duas ofereço-as eu. A terceira é doação de família. A quinta, guardo-a avaramente numa gaveta. Não quero que ninguém a ouça. Filantropices...

Ao som de Moonspell "Nocturna"

maio 19, 2006

Razões

Duas horas para o próximo gole de água

Na claridade do dia seguinte, tudo parece no seu lugar. A ponte e o meio dia permanecem à espera e uma sexta feira esguia ziguezagueia, desatenta aos blocos de betão que se enchem de cor. O maço de cigarros está quase vazio e as garrafas de água são três. Uma está quase vazia. No horizonte as serpentes têm veneno adoçicado e esperam por nós. E nós, obedientes, certos da doutrina que inventámos, despimos os casacos e os relógios e rumamos para um sul privado. Os minutos que entregámos na portagem não tinham troco, nem sequer esperámos pelo seu consentimento. Chamamo-nos livres e sem apelido. Vemos muito além da berma da estrada, arremessando ao vento quente as pontas dos dedos com sabor a mel. O mel do amor com gotas de suor, onde se esculpem caminhos ao longo da perna que repousa. Um segredo que se guarda com lacre de cor púrpura.
Tudo parece no seu lugar. Ao longo da secretária, na estante das bobines de filme, na cama desfeita com os lençóis em desalinho, no frigorífico atulhado com as mesmas coisas de todas as semanas, junto ao cortinado que estremece com a aragem da manhã, na porta que se esqueceu encostada. Tudo parece no seu lugar. Menos nós, que já partimos.

Ao som de Mylene Farmer "XXL (Princker Extended Remix)"

maio 17, 2006

Alguns segundos entre chegadas

Devagar. Mais depressa. Sempre pela rua do casino e da loja de penhores. Tenho no bolso mais de duzentos cheques de pagamento militar, misturados com as gomas habituais e os fósforos de Tijuana. Já não me lembro para onde vou. Como entrei neste carro? Conheço o condutor? E os outros? Acabo com o cigarro do fulano da direita e nem tenho a certeza se é um cigarro. Depois se verá. Mais tarde. Quando acordar. Se acordar. Conheço a canção de algum lado, mas não interessa de onde. Algum sítio. Outro. Longe daqui. Ou perto?
Gostava de passar a mão na cara, mas não me apetece. Estranho este desejo de apetecer e não cumprir. Jovial, era a palavra. A outra era mentira. Bastavam as duas para me atirar ao rio, se ele houvesse. Aqui só asfalto e luzes esbatidas de copos altos e destinos cor de menta. Pela outra rua chegávamos mais depressa, mas é mesmo preciso chegar? É preciso estar atento. Ou acordado, não sei bem. Faz-me falta a enciclopédia. A de capa de marroquim como os chinelos do patrão. Nunca o vi. Sei-lhe bocados do nome. Os que interessam. Ele já me viu. Antes. Agora não o conheço. Nem sei onde está. Estará à porta? Espero que não. Prefiro ninguém à chegada. Só a porta encostada e uma cadeira confortável. De onde tirei esta palavra? Parece uma daquelas estradas de mansões milionárias, que sobe em serpentina e acaba num tufo e algumas pedras. Ao longe, o negócio e a rua principal. Não gosto de avenidas. Fazem-me mal. Provocam-me azia, da que dura toda a noite a passar.
Vou fechar os olhos. Abro-os, quando chegar.

Ao som de The Charlatans "Weirdo"

Tarde de menos

Devagar, fechei a porta do quarto e atirei as chaves do carro para cima de uma das camas. Recusei a tentação de me olhar no espelho e tirei o casaco. Por ser tarde, achei-me com tempo e fui tomar um duche. Fiz também a barba. Se morresse esta noite... um caixão de barba feita fica sempre bem.
Afinal olhei-me no espelho. Como batoteiro militante, nunca recusei um trunfo.

Ao som de Tito & Tarantula "After Dark (Terranova Law And Order Remix)"

maio 13, 2006

Antes dos sete segundos

Vou contar-te um segredo.

Ao som de The Psychedelic Furs "In My Head"

O cinzeiro está cheio


De manhã tudo será diferente.
Agora é tarde. Adormece-se por cansaço e por outros motivos elementares. Despem-se as camisas e atiram-se as meias para os cantos junto às portas. Bebe-se um copo de água que se desejou toda a tarde, fuma-se um último cigarro, inveja-se o vizinho do lado. Um olhar pelo jornal. A página do desporto embebida em usura, as letras que se desviam dos olhos parados, as notícias mornas quase frias. No topo dos prédios, os rebeldes de camisola de manga curta e dedos atentos, roubam os beijos que ainda restam. Um par, um ímpar, todos desejam ser iguais, nem que seja só por uma vez. De manhã tudo será diferente.
Em alguma cozinha ferve-se água e com muito cuidado juntam-se as folhas de chá que não secaram. Frita-se um ovo e come-se sem pão. Ensaia-se um sorriso, apenas porque sim. Porque se quer a lua mesmo sem luar. Lá em baixo os faróis dos carros fogem do sono. Procura-se um destino aberto. Um que não durma. Aqui, adormece-se por cansaço e por motivos confessáveis. Os lápis não se afiam, nem em dias de festa.
Aqui as horas têm sessenta minutos. Mastigam bocados de papel que ficaram em cima de uma mesa ou na caixa de correio que não fecha. No vagar de todos os dias, o bêbado arrasta os pés e de chave na mão, procura a infância. De manhã tudo será diferente. De manhã, tudo será igual.

Ao som de Brian Reitzell & Roger Manning Jr. "On the Subway"

De passagem

Quarto número doze

É um daqueles inícios onde a tarde e a noite perdem as fronteiras e as ruas nunca são as indicadas nas placas. No andar de cima grita-se o atraso. O café é o de anteontem e os lençóis têm migalhas à vinte e um dias. Ao canto, o fato amarrotado que escurece o brilho de uma soirée de lotação esgotada. A gravata foi cortada em pedaços de ligadura, algures na semana passada. A tarde cai, solenemente, guardada pelas persianas corridas em jeito de luto. Uma laranja já seca faz de sentinela ao testamento que amarelece na gaveta da esquerda. Desde ontem que a sentença é oficial. Um de nós tem de morrer.

Ao som de Jacques Higelin "Champagne"

abril 26, 2006

Sul

Ao sul, debaixo de um sol de filme e embalado pela violência de um beijo adiado para o próximo quilómetro, recuso-me a contar os minutos que sobram. Entrego-me à velocidade e ao corpo inerte da mulher de cabelo negro, que adormece ao meu lado. Adivinho-lhe os sonhos e alguma pressa por um destino perto do mar ou de uma cama de lençóis leves. Antecipo a gulodice de lhe mimar o pescoço e mergulhar no seu ronronar. Invejo-lhe a lânguidez.
Tenho na boca um sabor a pó que faz parte do resto. Da distância, do calor, da pressa que não se procura, do amor em pausa. Passo a mão na cara e torno macia a barba por fazer. Insisto em guiar encostado à porta, por desleixo e por vontade do vento. Acaricio o volante com a ponta dos dedos. Sorrio e sem olhar para o lado, regresso à estrada.

Ao som de Motorcycle Boy "Run Run Run"

abril 20, 2006

Café Tóquio


Quarenta e cinco minutos em serpenteios calados e quietos, sorvendo com cuidado momentos de café, onde o vagar se entrega a doces pózinhos de surpresa. Nas mãos, um isqueiro prateado, escurecido por uma azulada certeza com sabor aniz. Não sei quantos segundos mais, nem se passaram tantos assim. Apenas que o relógio está parado, a hora é a que apetece e o tempo não costuma vir aqui tomar café.

Ao som de 34 Puñaladas "Packard"

O anel

Da esplanada no café de praia, observava as raparigas no recorte dos fatos de banho. Fumava os cigarros que o tinham iniciado na juventude e o copo de groselha aquecia ao sol amarelecido de Setembro. Apetecia-lhe álcool, mas o cenário perfeito de ontem exigia-lhe o sacríficio. Tinha desenterrado os óculos de sol das idas à piscina e o sorriso ensaiado das tardes logo a seguir ao almoço. Batia o pé com a canção que lhe lembrava antiguidades. Encaixava cada corpo na fantasia que melhor se adaptava. Tinha muitas. Usadas, muito poucas.

Ao som de Patrick Coutin "J´Aime regarder les filles"

abril 19, 2006

O giz continua azul

Um domingo de verão, uma carambola galhofeira percorre o pano esverdeado rumo ao canto escuro. É véspera de segunda feira, sem motivo de urgência. Junto ao balcão, um pires com pastilhas de alcaçuz e um resto de café frio no fundo de uma chávena lascada. Meio copo de cerveja. Algumas cascas de amendoim. São da véspera. Hoje não se limpa. Espera-se. Amontoa-se a preguiça ao longo de cadeiras gastas.
Do fundo do corredor de azulejo, bocados de tarde. Um sol claro e um céu que nunca é demasiado azul. Nas mesas vazias, pó e algum triângulo cansado. Na do canto escuro, uma carambola galhofeira rasga o pano esverdeado. Lá fora, o domingo. Cá dentro, o dia que passa.

Ao som de Madrugada "Hold on to you"

abril 17, 2006

abril 13, 2006

Pausa

E ao terceiro sinal, a hora já não será a mesma.

Amor num comboio real

Caótico

Depois da chávena de café, uma olhadela ao espelho e as costas à rua encharcada. As mãos no bolso descosido procuram alguma chave, seja o que ela abrir. Uma troca de olhos cansados enchem a chávena pela terceira vez. O esmero de uma contabilidade vertical, engana o relógio atrasado e as poucas moedas que restam. Um sorriso detém o suspiro. Afinal, bebe-se a felicidade a goles pausados.

Ao som de The Bambi Molesters "Corazon del Loco Jorge"

abril 04, 2006

Ontem, agora e já são verbos

Depois de fazer o inventário, lembro-me ter deixado um sofá beije e bordeaux, desconfortável, forrado a vinil, onde sentado junto à janela da varanda, perdi dias de nuvens e alguma chuva. Escrevia incontáveis linhas de uma espécie de dicionário infalível, onde me revia em todas as letras. Depois, pousava a caneta e olhava a rua, à procura de alguma camisola de cor ou de qualquer grito cúmplice. Retomava por mais uns minutos e sem deixar de manter a rua atenta, ouvia os ruídos da casa grande que se misturavam com cheiros de cozinha de provincia e ladaínhas próprias dos dias reconfortantes. Na sala principal o aquecedor ruminava com um ronronar de hábitos antigos. Aqui, na sala do piano, o frio costumava vir passar a noite. Sentado junto à janela da varanda, deixava a tarde terminar, sabia o momento certo das luzes se acenderem, esticava-me para ver a última traineira do dia e deixava-me estar com uma canção nos lábios à laia de moinha. Só o jantar me retirava deste entorpecimento e me devolvia ao mundo.
Será que vão longe essas dias?

Ao som de Talking Heads "Heaven"

Tudo



Entre a pureza de um organismo vivo e a exactidão de acordes de sintetizador, porque não escolher os dois?...

março 31, 2006

março 30, 2006

março 23, 2006

Nem sim nem não

Depois da hora que encerra a noite, volto-me na cama sem encontrar nem o espelho, nem a alma. Acendo a luz e antes de voltar a reconhecer o qaurto, recordo-lhe os contornos e as arestas. Do frio já só sinto as primeiras meias horas, embalado que estou nas histórias e recordações de peles que convidam a entrega. Já revolvi todas as gavetas e continuo sem as encontrar. Resta-me o isqueiro e pequenos pedaços de vícios sortidos, compras em lojas que já nem existem, em ruas onde não passo porque me esqueci. Tenho na boca o sabor ao contrário. Se calhar por pisar os segredos em vez das palavras. E mesmo assim, se já as escrevi não as vou apagar. Por teimosia, por desleixo e por mentira. Adeus.

Ao som de OMD "Statues"

Navegações


Os abismos existem quando os sabemos encontrar.

março 22, 2006

Especiarias

Lentamente uso o olhar para a rever. Sentada numa almofada oriental, de olhos semicerrados e respiração sonolenta, motiva sabores tranquilos e temperos acres, próprio de um capricho. As velas acesas transformam-na num altar. Eu, calado, de sorriso oculto, prefiro senti-la no recanto de uma ideia. Aquela ideia que não se confessa nem se partilha, como um egoísmo mudo e solene, imune ao remorso e de cor morna. Por decreto, decido-a minha, registo-a como propriedade imensa, num acto ignóbil como quem rouba a obra de arte e a destrói, para mais ninguém a desejar. Lentamente, fecho os olhos e deixo-me ficar gravado na sua presença. Lentamente o espírito constrói-lhe uma fortaleza inexpugnável e ali a algema com fitas de seda e incensos. Depois de enterrar a chave, escondo o desejo e a certeza e invento uma religião. O seu deus, mantenho-o em cativeiro.

Ao som de "You Started Laughing"

março 21, 2006

Pausa

No lugar das coisas
um momento calado
e ténue,
onde todos os pertences
sossegam no que é seu,
por agora.

Os gritos despertos lá fora,
prometem a seiva
e a luz.

Neste momento calado,
todas as coisas
têm o seu lugar.

março 18, 2006

Preferir uma manhã cedo, uma mesa limpa, uns damascos, a virgindade de algum sol e um espírito limpo de certezas.

Começar a manhã ao som de Amadou & Mariam "Coulibaly"

março 14, 2006

Recado por dentro

Como um tango, a morte desbrava intempéries e bonanças, elos onde o momento e a emoção tomam conta, onde remoem e apertam num laço que custa luzir, esperando que se desfaça num instante, tal como o sonho se evapora depois de abrir os olhos. A vontade mastiga-se em migalhas, o sorriso sabe sempre a forçado, suspende-se a garfada no ar, com a culpa de um apetite inocente, hesita-se uma canção ou um adjectivo por ser longo demais. Como um tango, a morte desprende os linhos frágeis, revelando as cadências ferrugentas, alumiando ténuamente o lamento e um longo adeus pausado pelas lágrimas que nem se conseguem definir. É um piano demasiado afinado, onde a nota se multiplica na direcção errada. E tudo gira mais devagar, o tempo teima em diminuir o empenho, a flor permanece atenta e viçosa e ao longe o rio ondeia até à foz.
Eu estou aqui, junto à foz. Estou aqui, parado, encostado ao farol de paredes picadas por um mar que se obriga todos os dias, esperar por mais alguém. E mesmo se esse alguém não voltar a encostar-se ao farol, a luz irá varrer as águas à meia noite e o mar, teimoso, vai esperar como se não soubesse a notícia.

Ao som de Men Without Hats "Cocoricci (Le Tango des Voleurs)"