maio 19, 2006

Razões

Duas horas para o próximo gole de água

Na claridade do dia seguinte, tudo parece no seu lugar. A ponte e o meio dia permanecem à espera e uma sexta feira esguia ziguezagueia, desatenta aos blocos de betão que se enchem de cor. O maço de cigarros está quase vazio e as garrafas de água são três. Uma está quase vazia. No horizonte as serpentes têm veneno adoçicado e esperam por nós. E nós, obedientes, certos da doutrina que inventámos, despimos os casacos e os relógios e rumamos para um sul privado. Os minutos que entregámos na portagem não tinham troco, nem sequer esperámos pelo seu consentimento. Chamamo-nos livres e sem apelido. Vemos muito além da berma da estrada, arremessando ao vento quente as pontas dos dedos com sabor a mel. O mel do amor com gotas de suor, onde se esculpem caminhos ao longo da perna que repousa. Um segredo que se guarda com lacre de cor púrpura.
Tudo parece no seu lugar. Ao longo da secretária, na estante das bobines de filme, na cama desfeita com os lençóis em desalinho, no frigorífico atulhado com as mesmas coisas de todas as semanas, junto ao cortinado que estremece com a aragem da manhã, na porta que se esqueceu encostada. Tudo parece no seu lugar. Menos nós, que já partimos.

Ao som de Mylene Farmer "XXL (Princker Extended Remix)"

maio 17, 2006

Alguns segundos entre chegadas

Devagar. Mais depressa. Sempre pela rua do casino e da loja de penhores. Tenho no bolso mais de duzentos cheques de pagamento militar, misturados com as gomas habituais e os fósforos de Tijuana. Já não me lembro para onde vou. Como entrei neste carro? Conheço o condutor? E os outros? Acabo com o cigarro do fulano da direita e nem tenho a certeza se é um cigarro. Depois se verá. Mais tarde. Quando acordar. Se acordar. Conheço a canção de algum lado, mas não interessa de onde. Algum sítio. Outro. Longe daqui. Ou perto?
Gostava de passar a mão na cara, mas não me apetece. Estranho este desejo de apetecer e não cumprir. Jovial, era a palavra. A outra era mentira. Bastavam as duas para me atirar ao rio, se ele houvesse. Aqui só asfalto e luzes esbatidas de copos altos e destinos cor de menta. Pela outra rua chegávamos mais depressa, mas é mesmo preciso chegar? É preciso estar atento. Ou acordado, não sei bem. Faz-me falta a enciclopédia. A de capa de marroquim como os chinelos do patrão. Nunca o vi. Sei-lhe bocados do nome. Os que interessam. Ele já me viu. Antes. Agora não o conheço. Nem sei onde está. Estará à porta? Espero que não. Prefiro ninguém à chegada. Só a porta encostada e uma cadeira confortável. De onde tirei esta palavra? Parece uma daquelas estradas de mansões milionárias, que sobe em serpentina e acaba num tufo e algumas pedras. Ao longe, o negócio e a rua principal. Não gosto de avenidas. Fazem-me mal. Provocam-me azia, da que dura toda a noite a passar.
Vou fechar os olhos. Abro-os, quando chegar.

Ao som de The Charlatans "Weirdo"

Tarde de menos

Devagar, fechei a porta do quarto e atirei as chaves do carro para cima de uma das camas. Recusei a tentação de me olhar no espelho e tirei o casaco. Por ser tarde, achei-me com tempo e fui tomar um duche. Fiz também a barba. Se morresse esta noite... um caixão de barba feita fica sempre bem.
Afinal olhei-me no espelho. Como batoteiro militante, nunca recusei um trunfo.

Ao som de Tito & Tarantula "After Dark (Terranova Law And Order Remix)"

maio 13, 2006

Antes dos sete segundos

Vou contar-te um segredo.

Ao som de The Psychedelic Furs "In My Head"

O cinzeiro está cheio


De manhã tudo será diferente.
Agora é tarde. Adormece-se por cansaço e por outros motivos elementares. Despem-se as camisas e atiram-se as meias para os cantos junto às portas. Bebe-se um copo de água que se desejou toda a tarde, fuma-se um último cigarro, inveja-se o vizinho do lado. Um olhar pelo jornal. A página do desporto embebida em usura, as letras que se desviam dos olhos parados, as notícias mornas quase frias. No topo dos prédios, os rebeldes de camisola de manga curta e dedos atentos, roubam os beijos que ainda restam. Um par, um ímpar, todos desejam ser iguais, nem que seja só por uma vez. De manhã tudo será diferente.
Em alguma cozinha ferve-se água e com muito cuidado juntam-se as folhas de chá que não secaram. Frita-se um ovo e come-se sem pão. Ensaia-se um sorriso, apenas porque sim. Porque se quer a lua mesmo sem luar. Lá em baixo os faróis dos carros fogem do sono. Procura-se um destino aberto. Um que não durma. Aqui, adormece-se por cansaço e por motivos confessáveis. Os lápis não se afiam, nem em dias de festa.
Aqui as horas têm sessenta minutos. Mastigam bocados de papel que ficaram em cima de uma mesa ou na caixa de correio que não fecha. No vagar de todos os dias, o bêbado arrasta os pés e de chave na mão, procura a infância. De manhã tudo será diferente. De manhã, tudo será igual.

Ao som de Brian Reitzell & Roger Manning Jr. "On the Subway"

De passagem

Quarto número doze

É um daqueles inícios onde a tarde e a noite perdem as fronteiras e as ruas nunca são as indicadas nas placas. No andar de cima grita-se o atraso. O café é o de anteontem e os lençóis têm migalhas à vinte e um dias. Ao canto, o fato amarrotado que escurece o brilho de uma soirée de lotação esgotada. A gravata foi cortada em pedaços de ligadura, algures na semana passada. A tarde cai, solenemente, guardada pelas persianas corridas em jeito de luto. Uma laranja já seca faz de sentinela ao testamento que amarelece na gaveta da esquerda. Desde ontem que a sentença é oficial. Um de nós tem de morrer.

Ao som de Jacques Higelin "Champagne"