junho 28, 2006

Horas trocadas


Depois de sete horas de caminho, as ruas parecem-me rigorosamente parecidas. Nas paredes vazias e sujas, algumas janelas iluminadas têm a forma de um sofá velho, confortável nos fins de dia, onde o serão é açucarado e se possível lento. Nos prédios pintados com todos os tons de betão, as estrelas não estremecem e as luas não têm forma. Os gritos pretendem-se calados e os silêncios nunca são de ouro. Prolonga-se a noite e espera-se que a manhã demore a chegar. Os meninos são aconchegados nos cobertores e antes do corredor, um último olhar à respiração de criança, provoca um sorriso de outros tempos. A luz do abajour amarelecido é morna. A pausa antes dos derradeiros afazeres, esfria. Lá fora o vento ameaça.
Passo a passo, o passeio não quer terminar. A rua atravessa-se no meu caminho, por todas as sete horas de vadiagem rumo a qualquer avenida com nome de herói da guerra, onde os semáforos intermitentes são detonadores de suspiros. É tarde. No bolso apenas a chave do quarto de hotel, a carteira de fósforos meia vazia e os dois cigarros que ainda restam. No bar depois da estação ainda há luz. Puxo a gola do sobretudo para cima, olho em volta à procura de algo que me tenha escapado e atravesso a rua. São 2 horas da manhã, a neblina promete cair e o último comboio não trouxe ninguém. Está na hora da saudade.

Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"

junho 09, 2006

O assassinozinho

Começar o fim de qualquer vestígio de crime, permite a intuição de conhecer o criminoso, entrar-lhe na pele e reviver o assassinato. É uma virtude, escolher no conjunto descomunal de minutos que o dia oferece, o instante correcto da arma faiscar ao sol e penetrar no ventre da vítima. É uma arte. Um dom. Uma pincelada ao de leve, onde o íntimo encontra a tela.
Um crime só faz sentido no momento exacto. Proporcionar a facada dois segundos depois, transforma a obra prima em andaime. Um segundo antes é apenas uma garotada. Deixar a tragédia para o dia seguinte, é mimar com misericórdia o punhal, é preguiça de letrado. Não deixes para amanhã o que podes sangrar hoje. É por estas e por outras que investigar o crime é fugaz. Voyeurismo muito depois do evento. Um longo encolher de ombros de quem não lhe conhece interesse e vontade. Um bocejo.
O segredo para além do assassino é pegar o seu vestígio com as duas mãos. Lentamente, com cuidados, acariciá-lo com minúcia e com a intuição com que ele se entrega, afagar o hálito do criminoso, sentindo-lhe o bafo final com que um malogrado qualquer se despede. E no fim, como uma sobremesa que se espera com gulodices aveludadas, resta o fio de sangue que no passeio irregular traça caminhos imaginários, rumo ao Sul. Assassino? Poeta, é o que é.

Ao som de Uriah Heep "Return to Fantasy"

A quinta badalada

Das cinco horas da tarde, duas, ofereço-as à multidão que espera pacientemente ao sol, junto da porta do Ministério dos Assuntos de um Dia Qualquer. O ministro à muito que fechou a pasta na gaveta e se evadiu para não sei ao certo. O secretário em estado novo, jaz nas areias da praia regulamentar. Os funcionários mantém-se fechados na cave. Acreditam numa guerra mundial. Uma qualquer. Os serviços ao público nunca chegaram a abrir... mas a multidão nunca o soube. Espera com a paciência de santo em dia de feira no Vaticano. Espera sequiosa sem conhecer o sabor da água. Nos cantis, só sal. Grosso. Por tudo isso, duas, ofereço-as à multidão.
A terceira, a de canícula, doei-a a um velho que nunca conheceu outra pátria, que a sua cadeira de rodas. Tem uma tez paraplégica e um esgar nocturno. Vive com a certeza de os pés e as pernas serem artigos de luxo, supérfluos à matilha indigente das três da tarde. Bebe chávenas de café. Muitas. Demasiadas. E se o vício se entreter, porquê hesitar? Bebe-as sem açucar. Faz-lhe mal à circulação dos membros. Dos que lhe faltam. No intervalo dos goles de café, lê velhos tomos desirmanados que o camião do lixo lhe deixa. São as suas refeições. Costuma saltar o pequeno-almoço.
A quarta hora, pouco uso lhe posso dar. Geralmente tenho-a como impecilho. É redonda e mesmo assim, lisa de sentimentos. Não provoca paixões. Não faz desmaiar donzelas. Apenas está ali, entre as três e as cinco, absorta, vaga, preocupada com toilletes que não conhecem galas. É uma hora vulgar. Nem sequer ordinária. Deixo que a senhora da limpeza a varra para debaixo do tapete. Arquive-se a sua inutilidade.
Cinco da tarde. Das cinco horas da tarde, duas ofereço-as eu. A terceira é doação de família. A quinta, guardo-a avaramente numa gaveta. Não quero que ninguém a ouça. Filantropices...

Ao som de Moonspell "Nocturna"