agosto 31, 2006

Mais uma última ceia

- Mostar, vem cá. Traz-me o teu cachimbo e a tua alma.
- Ofereço-ta. Leva-a e dorme com ela esta noite. O cachimbo, deixa-o em cima da mesa. Cheio.

Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Danza Transilvanica"

agosto 30, 2006

Por um dia número vinte e seis

Por todas as meias horas de meios dias cheios de meadas de lã, de chávenas com liquidos de plasticina e muitos, muitos ramos de alfazema e jasmins que aprendem a crescer sózinhos, sem risos por cozinhar nem caras de cem riscos oblíquos e gargalhadas altas de quebrar vitrais.

Por idas ao circo de mão dada, pelas cascas de pevides atiradas ao rio, por tartes e bolos de geléia e bolachas a sair do forno, estaladiças e únicas em migalhas que nunca são restos, entre pêssegos e baldes de areia que duram até ao Natal, debaixo da mesa da saia comprida onde se decidem a sorte e as manhãs seguintes.

Por acaso e por tudo o que é da lenda, por isso e por aquele passo a mais no jardim, por cima enquanto o telhado aguenta e por alguma razão que me escapou, por ser domingo ou a segunda feira ao pé do meio dia e o tempo durar e durar muito além do cabo das tormentas.

Porque sim.

Ao som de The Rolling Stones "She´s a Rainbow"

agosto 28, 2006

250 gramas de sono

3 e meia da manhã.
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.

Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"

Pausa

É terrível a desolação da caixa de madeira com forro de veludo verde. Nem sequer os dobrões do costume.

agosto 08, 2006

Na borda do precipício

No helicóptero, os três do costume. Nem vou dizer os seus nomes. Faz mesmo muita diferença? É realmente importante? Atreves-te a olhá-los de outra forma, depois de conheceres os nomes? Farás outras perguntas? Não vou dizer os nomes. Os seus olhos muito atentos que te contem as histórias. As verdadeiras. As que são incómodas, que corroem as articulações de tanto desviares o olhar.
O piloto é de uma vilazinha junto a um mar. Uma ilha. Sonhou voar para fugir aos dias sempre iguais. Não sabia que fora dali, os dias ainda são mais iguais. O da máquina fotográfica a tiracolo vem de uma grande cidade. Uma das maiores, das mais ruidosas. Sente falta de um certo café, vai para oito ou nove dias. Não faz a barba desde esse último café. Penteia-se rudemente com os dedos sujos de gordura. Tem os olhos inchados e duas novas rugas que ainda não conhecia. Tem um bebé, lá na grande cidade. O terceiro... a terceira, esfrega as mãos uma na outra, mesmo se as luvas distraiam o frio. Tem o cabelo pelo pescoço, castanho de um claro estranho. Bebe um resto de chá em pequeninos goles. Olha com atenção os pingos de chuva que se estatelam no vidro da frente. Já não lembra do sol e da praia junto ao resto do farol. Só amanhã. Ou depois... Quer dizer qualquer coisa, mas o barulho das pás e do rotor torturam-lhe o silêncio. Faltam duas horas para a noite. Para o destino, um pouco mais. Se tudo correr bem.
Se este momento fosse o momento certo, talvez descrevesse as condições e as consequências, ao mesmo tempo que omitiria as razões. Nem sempre a presença de todas as faces dos dados é necessária. E quase nunca indispensável. Deixava escapar alguns pormenores sem interesse, alguma migalha biográfica, um vício ou dois, um canção cantarolada e mesmo assim cada um imaginaria na sua conveniência o motivo e a moral de cada um. Mas este nem é o momento certo, nem eu sou o anfitrião de uma história que nem é história. Às vezes tudo acontece sem argumento, porque tem de acontecer ou apenas porque sim. Os seus olhos muito atentos, cruzaram-se oito ou nove dias atrás na mesma sala do mesmo concerto. E muito atentos, ouviram as explicações e os momentos de euforia. Comungaram a estranheza de se encontrarem ali, em desviar o olhar. Não costumavam sonhar acordados, seguiam lógicas encarreiradas, não fumavam e sorriam com a preocupação do exagero. Não gostavam do amanhã sem agenda.
O helicóptero descreveu uma ligeira curva para a direita e descaiu teimosamente de encontro às ondas. Ela agarrou-se à pega junto à janela e deixou cair a caneca que rebolou para os pés do fotógrafo. Com os pés em esforço, rangeu os dentes. O piloto esmagou o punho e fez força em vez de imaginar trajectórias. Todos, muito atentos, partilharam o mesmo lamento. Não encontravam a palavra certa.

Ao som de Tangerine Dream "3 AM at the border of the Marsh from Okefenokee"

Já são sete horas?

Podia ser Outubro. Umas onze da noite, por qualquer motivo. Ou Novembro, às seis e meia tarde. Podia estar encostado ao segundo prédio depois da esquina, pé na parede e pé pisando um resto de uma folha cor de rosa, de à três dias e onze e meia da noite de encontro marcado. Podia ter o cigarro a meio, a vontade de acender outro sem acabar este, a sede de uma cerveja belga ou outra à escolha, um lugar sentado no primeiro autocarro de número primo que parar, ou uma lata de caviar e algumas tostas partilhadas nas escadas do metro com um sem abrigo húngaro. Podia ser a sessão da meia noite no cinema junto ao quartel, apenas porque me lembro de algo interessante. Podia ser quase amanhã, os carros estacionados só do lado direito, as árvores quase caladas e o caminho de volta a casa, depois de um serão com um casal de franceses que ainda se lembra do comboio a vapor. Podia ser quase Natal. E quando passasse pelo segundo prédio depois da esquina, via no chão um bocado de papel cor de rosa, as beatas de dois cigarros e a vontade irresistível de abraçar a primeira pessoa que passasse. Mesmo se fosse a pessoa certa.

Ao som de Tangerine Dream "Tangram set 1"

agosto 07, 2006

Paragem

Devagar. Muito devagar, um pé a seguir ao outro, ver a sombra mudar de carril e esperar que ninguém se mova nem que o céu caia no esquecimento. A electricidade parou e as margens estão muito quietas, quase sinceras. O telefone está esquecido no fundo de uma gaveta. Dorme com o passaporte do seu lado e o relógio parado à cabeceira. Devagar, muito devagar, a sombra dobra a esquina. Procura sinais de fumo ou outra desculpa qualquer. O pneu do camião continua furado como na véspera. E a véspera nunca foi ontem.
Devagar, muito devagar, a cidade sorri a si mesma. Tal e qual como num verso.

Ao som de GOL "No Bounds"

agosto 04, 2006

Choque de carrinhos de choque

Ao som de Tangerine Dream "Ultima Thule (Teil 1)"

Recatos

Estou farto de me dizer que o calor não é meu. O frio, deixa-o sossegado. Há-de chegar um domingo ao fim da tarde, com as luzes já acesas e o cachimbo finalmente apagado. O dia estará silencioso na rua das casas todas iguais com o mar ao fundo e barulhento como sempre, na cidade. Mas o calor veio hoje almoçar. E eu, anfitrião, recebo-o com paisagens cor de palha holandesa e álcool agridoce. Ele sorri, como todos os calores que se sentam nas cadeiras de palhinha e sorvem o refresco com vagar. Eu sorrio, como todos os anfitriões que têm as garrafas cheias e todo o tempo do mundo.

Ao som de Fish "Moving Targets"

agosto 03, 2006

Dúvidas

Entre os pingos de calor, junto à estrada e seguindo as pegadas das árvores ao longe, esqueço a ilha e os que regateiam ao sol. Tenho o maço de tabaco vazio e resta-me um único cigarro indiano, daqueles que o brasileiro de sotaque europeu me oferecia sempre. Não tenho fósforos. A segunda e a terceira passa, sabem-me sempre melhor depois de acendê-las com madeira. A quarta também. Fico-me pelo isqueiro que a diva me ofereceu. Ao olhar os campos, abano levemente a cabeça ao ritmo de um bazar que não cheguei a conhecer. Talvez um dia, à tardinha, quando o calor se começar a desfazer enquanto as conversas ganham cor. Hoje não. Hoje, tenho uma missão.
Se não a cumprir, matam-me. Se o fizer, mato-me.

Ao som de Vaguement la Jungle "Donner"