setembro 22, 2006

18 horas de certezas

Dia 22

Se calhar a chuva da manhã tinha sabor. Bebi o café, o que me escorre o encolher de ombros e me liberta o sorriso, mesmo se o tenha guardado no porta luvas do carro. Olho a empregada nos olhos, corrijo-me e acendo a luz do resto da tarde, lembrando as pessoas pelos seus nomes e ouvindo os segredos dos miúdos. No relógio ainda sobram horas e planos para a semana seguinte. Na prateleira não encontrei o livro de versos. Desci a escada, olhei as revistas, sai e nem sequer deixei cair os olhos no passeio. É bom sinal. Os anos continuam arredondados, mas as arestas têm falhas cada vez mais suaves.

Ao som de Peter Ellis "Angel"

setembro 16, 2006

Adro

Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.

Ao som de The Church "Under the Milky Way"

Redondos

Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita.
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.

Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"

setembro 13, 2006

Despertador

Depois de pegar na chave, cuspiu na fechadura e sorriu lentamente. Tinha tempo. Todo. Só voltariam de manhã. Tinha a noite toda. Talvez por isso, decidiu deitar-se.

Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"

Esta, não é uma mensagem

Julgava que era sexta feira. Tinha metido um dia de férias para acabar com tudo de uma vez. Levantei-me às onze. Mais cedo seria traição. Calçei os ténis sem meias. Fui até à varanda, nu e fumei um cigarro. Voltei à sala e bebi um resto de café. Frio. Arrepiei-me. Não sei se foi o café. No quarto, vesti as calças e a camisa do costume. Saí à pressa, sem a chave de casa nem a estatueta. O elevador estava parado entre o terceiro e o vizinho de baixo. Encolhi os ombros e desci as escadas. Parei no segundo e encostei-me à parede. Tentei ouvir os gemidos. Não consegui. Devia estar a dormir. Junto à porta da rua, por debaixo das caixas do correio, um fulano, já velho, sentado no chão, observava fatias de pão. Depois escrevia qualquer coisa num pequeno bloco, dava uma dentada e deitava fora o resto. À quarta fatia, fui-me embora.
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

setembro 05, 2006

198?

Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.
Encostada à mesa de tampo de mármore, mãos esquecidas, mordia mais um naco de história amarga, polvilhava com o açucar que encontrasse e semicerrava os olhos, esperando a porta abrir e alguma brisa lhe lembrar a morada. Levantava-se, olhava as migalhas como amigas e com o suspiro que alguém lhe ensinara, murmurava as boas noites e perdia-se na rua de sempre.
No outro dia, já toda a gente comentava. Tinham-na visto no telhado. Tinha fugido.

Ao som de The Smiths "Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me"

setembro 04, 2006

Liquidez

Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.

Ao som de Yello "Pinball Cha Cha"

Com a mão no bolso

Debaixo do lençol, as notas amontoadas têm a forma da nora do Afonso. Aquele do olho avermelhado e da t-shirt com o macaco azul. Acho que continua fora. Já à dois meses. Foi no comboio das sete. Fui-me despedir e aproveitei para um cafézinho. Qualquer desculpa serve e como estava perto do rio... Tinha ido provar uns vinhos à socapa. Com um amigo, o Teles, o do Alfa azul escuro. Cravo-lhe sempre um charutinho. Gosto de fumar junto ao rio. É dos poucos prazeres que me restam. Os outros, a maioria, ou meti-os no correio ou perdi-os ao póquer. Não tenho jeito nenhum para bluffs.

Ao som de The Stranglers "Hanging Around"

Medidas mais ou menos drásticas

As contas não batiam certo. Nunca batiam certo desde o golpe de estado. Fuzilaram-se os bons contabilistas. E os porteiros. Raio de ideia, largar tudo para ir abrir a porta ou um simples "quem é". Raio de ideia. E depois ainda as formalidades idiotas dos gajos dos bancos da Suiça. Se fosse por cá, era tudo fuzilado.

Ao som de Trust "H & D"

setembro 01, 2006

Depois da bonança

Conheces o personagem? Lembras-te dele? A última entrevista correu-lhe bem não foi? Eu também achei. Vi-a até ao fim. Depois fui ler os recortes. Só os desta semana. Reli os de hoje e ainda liguei a televisão. Queria apanhar alguma reportagem. Tive sorte, um dos canais estava a falar dele. Uma festa ou algo assim. Estava bem vestido. Enfim, apresentável, mas a roupa era de marca. Ele disse qual. Não me lembro. Mas foi discreto. A posição não lhe permite exageros. Nem figuras tristes. Ou demasiado alegres. Li que só bebe duas marcas. Tem de haver pelo menos uma. Tem um acessor para isso. O outro é novo. Parece que é para os fins de semana. Alguns, pelo menos. Uma vez teve de ir buscar uma mala. Tinha de ser aquela. Ainda estava longe. É extremamente rigoroso. E exacto. Estava no outro carro. Não, não, a cilindrada era mesmo aquela. Ele sabe do assunto. A pele é que era muito escura. Tiveram de mudar. Demorou dois dias. Ele foi compreensivo. É um senhor. Era. Achas demais, quatro balas?

Ao som de Trust "L´Elite"