novembro 27, 2006

Três degraus

De ocaso em ocaso,
um bolso intenso
de uma gabardine habituada
a esperar o momento
e o néon súbito
da espera
e do soluço,
revolta de não ter chave
nem porta para abrir
os lençóis
para esconder alguma parte do corpo.

Segundo a sua doutrina,
elevou algo que conseguiu lembrar
e num relevo
que sempre lhe marca o rosto,
decide andar mais um pouco
na certeza de algum sorriso
ou lágrima
que consiga suportar
e esquecer.

Quando passar por ele
não o conhecerá,
perdido
em desvendar traços
e espessuras
iluminadas por tons banais,
cinturas
e ombros encolhidos
entrelaçados por olheiras
e por instantes.

Sentado no passeio,
deixou-se seduzir
por um candeeiro insinuante,
véu significado de desmaio
na epiderme de vontades
e prazeres,
panos sumptuosos
de oiro carmesim,
ignorâncias assumidas
por desconhecer a cor.

Da varanda agastada
pelo arrepio
do escuro,
seguiu o sulco deste homem
serpenteando alguns minutos
no epílogo
de tantas noites,
querela de pontos cardeais
e de uma coroa de conde,
vénia de ciscunstância amarga
e proveito
de quem espera
e sabe,
estar a porta aberta
e os lençóis
aquecidos.

Ao som de Ratnabali Adhikari "The One part II"

novembro 26, 2006

Aconchegadamente

No sustenido da berma
suspenso por cordéis de ilusionista
e indiferente aos tufos de chuva
que teimam em rolar de Este,
aproveito a essência de campos de cultivo
e desprezo a avenida.

Curandeiro de mim mesmo,
facilito-me o bisturi e a doutrina
num resvalo de incidências mínimas,
sorvendo em goles demorados
o chá das verdades proscritas.

Com as unhas sujas
pretendo formar opiniões de resgate,
perfurando a terra
com vagas mortalhas de amor.

Sentado,
murmurando restos de monólogo,
prevejo a árida vontade
de procurar onde adormecer.

É tarde.

No relógio, algures,
os minutos são de madeira,
lascas de ferimentos de outras guerras
sem segundos
onde descarregar as culpas.

Na torre,
o sino revolve a fome
em cantos de iluminura
e cortiça,
ciente de todas as bocas que demora a alimentar.

Perante o escurecer,
a aldeia regressa ao mundo dos vivos
entre lareiras
e arrepios de almas penadas,
visitas tardias
de vinho quente.

Prometem desassossego
e os dias seguintes.

Ao som de Godsmack "Serenity"

novembro 22, 2006

O trunfo

Por ser necessário, perdem-se as razões e os motivos em cantos de relva fresca, junto ao canal, onde as horas de almoço se recortam mais além, surgidas de nadas e chiares de qualquer coisa longínqua. Mais uma dentada na sanduíche e as migalhas vão e vêm, servidas em papel de lustro que custa algumas piastras numa loja escondida e limpa, numa rua qualquer apenas por ninguém a conhecer, centro de frágeis atenções e com avós pelos passeios, debaixo de árvores de Outono e olhares na esquina, enquanto o horizonte não regressa e o sol não retoma o dia.

Na pausa, no morno estar aqui sem perguntar o teu nome nem a cor dos teus olhos, regressam os tique taques de uma sala de lanche às escuras, enquanto os reposteiros dormitam a tarde. E depois, depois sossegam fantasmas pelas escadas atapetadas, surgindo dos segredos dos vizinhos e do silêncio dos patamares esquecidos. E devagarinho, soltam ais e uis de mansinho, enquanto elegem um rei até ao fim da tarde. São as horas do valete de espadas e do chá frio.

E eu? Esforço-me por encontrar as cartas que prefiro de um baralho guardado no fundo do armário verde escuro. As vasas esperam-me e o chá aquecido, também.

Ao som de Love "Old Man"

novembro 17, 2006

Mordiscando

Dás-me fome de sushis impossiveis, onde o sabor é o teu lábio multiplicado por mil.

Ao som de Airstream "Welcome to Lycira"

novembro 04, 2006

Régua e esquadro

Tinha prometido deixar de beber. Saía antes das dez da noite, via umas montras, talvez acabar o resto da cigarrilha e pasmar diante dos reclames luminosos. Andei quatro quarteirões e vi-os a entrar num café mal iluminado. Um daqueles antros de inox e alumínio, cheios de motivos descartáveis e empregados vestidos de branco. Eles, de fato preto e gravata fina, escolheram a mesa certa e não pediram nada. Em silêncio, olhavam o empregado do meio que abria as garrafas e procurava os copos exactos. Atulhou uma bandeja metalizada e rápidamente serviu. Como relógios, eles encheram os copos e ao mesmo tempo deram o primeiro trago. Só depois sorriram. Com um movimento estudado, o empregado compreendeu e voltou para trás do balcão. Na televisão, um programa típico de horário nobre, cheio de luzes e histerias. Eles, em silêncio, bebiam pausadamente. Acenderam cigarros. Os nós imaculados das gravatas levantavam dúvidas e hábitos. Mais dúvidas que hábitos. Da cozinha ouvia-se algo a fritar. No ar um cheiro adocicado. O chão estava limpo, nas mesas os ketchups e os molhos arrumados, a ventoínha do tecto girava sem ruído e do exterior só barulhos inquietantes.
Sei tudo isto, porque estava sentado na mesa certa. Na minha mesa certa. Estava meio encostado ao vidro da montra e a mão escorregava-me do assento. Tinha o nó da gravata demasiado apertado e um pouco torto. Não tentei sorrir, mas mantinha um aspecto simpático. Na mesa, tudo arrumado e no prato apenas duas ou três migalhas. Na camisa branca começava a alastrar uma mancha vermelho vivo. Senti-me um pouco enjoado e na boca mantinha o sabor extremamente doce de um frito de sésamo e mel. Depois de me aperceber que o café ía fechar, mostrei algum incómodo. Não tive tempo para uma última bebida.

Ao som de Aural Vampire "Darkwavesurfer"