dezembro 28, 2006

Um pouco de alguma coisa

De propósito, sem acaso, procurar alguns degraus junto ao mar e sentar, deixando alguma distância entre os pés e a areia. É um começo. Juntar as mãos virginalmente e esboçar um suspiro. Sustê-lo. Franzir os olhos e percorrer o horizonte. Manter as mãos juntas sem pensamentos impuros. Sorrir. Diminuir o sorriso e prolongá-lo. Lentamente diminuir a tensão nos ombros e nos dedos e soltar o suspiro.

Olhar a areia e adivinhar-lhe a temperatura. Deter o impulso de avançar e pegar-lhe, mantendo as mãos juntas mas com as pontas dos dedos a passear na impressão digital. Juntar os pés. Pressionar as coxas contra a madeira e evitar contar os segundos. Olhar o mar e procurar ao longe uma onda. A primeira que encontrar não vale. Seguir-lhe os avanços, vê-la aproximar e desaguar na areia. Desejar-lhe um bom regresso. De relance olhar o ceú e esperar o consentimento. Ao levantar, fazer um esforço por não afastar os pés. Pisar com firmeza os restantes degraus como se pisasse almofadas. Ao primeiro contacto dos pés na areia, deixar cair os braços, distender os dedos e fechar os olhos. Quando a sensação chegar a areia já estará à espera.

Tudo o resto também.

Ao som de Vangelis O. Papathanassiou "Lei It Happen"

dezembro 27, 2006

Terceira parte

Depois de mexer, um minuto nunca perdido, provou e voltou a pousar a chávena. Gostava de prolongar o prazer. Olhou os bocados de asfalto húmido, por entre os carros estacionados um pouco por todo o lado. Ninguém. As mesas da esplanada continuavam vazias. Quase todas. No cimo do baldio um cão farejava os restos do que foram compras e impulsos. Parecia ter a cor do tempo. Desafiando a penúria do animal, pegou na chávena e bebeu. Sentiu uma onda quente atravessar-lhe a garganta e o íntimo. Olhou o cão e desejou-lhe um fim de tarde morno. Bebeu o resto do chá e recusou-se a segunda chávena. De propósito. Deixou-se ficar por alguns minutos. Os bastantes. Levantou-se, deixou uma nota exagerada em cima da mesa e virou-se para a direita. Ninguém. Tinha adivinhado. Aninhou o pescoço no cachecol preto e subiu a rua. Talvez no cruzamento...

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

dezembro 24, 2006

Feliz Natal

Segunda parte

Virou à esquerda e atravessou a rua num bocado de asfalto seco de velhice. Sustenido por um ritmo constante, enfrentou os restos de multidão com pressa de calor. Seguiu em linha quase recta de uma geometria quebrada por algum individuo distraído ou entristecido por teimosias. Na esquina só olhou em frente e atravessou em diagnoal por entre o trânsito de autocarros de sentido único. No passeio, insistiu na direita e antes da farmácia esqueceu-se igreja e da mercearia. Caminhou no bocado de rua esvaziado por lojas que não existem, virou ao sabor dos prédios e ao longe viu as paragens cheias e as luzes das compras. Espaçou a passada como por medo da agitação. Na penúltima esquina virou à esquerda e fugiu da inquietude da multidão. Forçou o passo na subida e lembrou-se da loja de antigamente, no outro lado do passeio. Sorriu ao baldio que ainda existia e por entre alguns carros abandonados e outros que apenas esperam, apressou-se para o café entalado entre a descida e a subida, num pedaço de vale imaginário e mesas vazias da esplanada de Inverno. Porque raio não se teria lembrado deste lugar? Era perfeito como interrupção.

Pediu chá. De camomila. Tinha um sabor perdido que teimava reencontrar. Usaria o açucar? Esperaria alguém?

Ao som de GOL "No Bounds"

dezembro 19, 2006

Primeira parte

Levantou-se do sofá e atirou o comando da televisão para o monte de almofadas junto à janela fechada. Bebeu um gole do copo de água e pouso-o com cuidado em cima de uma revista. Olhou em volta à procura de algo que lhe tivesse escapado. Não encontrou. Aconchegou o cachecol, procurou nos bolsos o isqueiro e o comprimido. Bateu com as palmas das mãos nas pernas e avançou para a porta. Olhou o telemóvel e esqueceu-o de imediato. Abriu a porta, deixando as chaves na fechadura do lado de dentro. Fechou a porta com os cuidados de um homem velho. Sorriu.

No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.

Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?

Ao som de Riverside "The Same River"

dezembro 18, 2006

Outro

A moeda tinha duas caras

Sem saber porquê, decidiu acompanhar a música com dois dedos. Nem gostava da canção. Enfim, não tinha a certeza. Olhou para o copo, o terceiro. Decidiu beber a cada pormenor que gostava nela. Sorriu e bebeu de uma vez. Era um pormenor irresistível. - Outro... Por favor. - Do outro lado do balcão, alguém sorriu. Ele retribuiu. Cumplicidades. Pegou no copo e observou a transparência. Hesitava o próximo detalhe. Como detestava batotices, decidia o seguinte com minúcia. Depois de quase um minuto, pousou o copo. Olhou em volta e tomando uma adolescente insinuante como inspiração, bebeu em dois goles generosos. Tinha escolhido dois de uma só vez.

Ao som de A.R. Rahman "Musafir"

dezembro 14, 2006

Em qualquer lado

Saiu do motel entalado entre a capela de casamentos e o carpinteiro de caixões, gingando a vontade de uma última noite de liberdade. Desceu a rua até ao cruzamento. Passavam camiões cheios de gado vindos do vale. Olhou o chão no momento que um pequeno lagarto lhe roçava o passo. Sorriu e esperou que desaparecesse na erva alta dos baldios. Atravessou a rua e dirigiu-se para as luzes. Do cigarro no canto da boca, apenas restava o filtro. Não se habituava aos fios de tabaco à solta na língua. Sossegou a ansiedade aos primeiros acordes de música poeirenta. Sentiu nos bolsos as moedas e entrou no primeiro bar.
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.

Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"

Culpado por não saber parar o tempo

Subindo os degraus parei onde nos últimos dias de vida, punks e homens velhos debatiam estados de confissão. Encostei-me ao corrimão e de costas voltadas à noite, ri-me até sujar a tosse de bílis. Encolhi-me na camisola escura de gola alta, rota nos mesmos sitios de há tanto tempo e de mãos nos bolsos, invejei uma noite de uma fuga que não me lembro onde terminei. Tirei a mão do bolso, verifiquei-lhe as rugas mais recentes e crispei os dedos ao ritmo do esquecimento. Talvez por me sentir melhor por um momento, comecei a descer os degraus.

Ao som de Dean Wareham & Laetitia Sadier "Bonnie and Clyde"

Gritar ao passar a ponte

Desejo umas mãos frias de escritor à beira do colapso. Desejo um copo meio vazio, na impressão de meio cheio, enquanto as esporas e os estribos rezam sózinhos à entrada do estábulo. Desejo um domingo requentado de quem não precisa da segunda feira. Um fio rouco em goles de café mastigado. Desejo uma surpresa logo de manhã, ao último suspiro quente da cama. Desejo um golpe fatal perante o rio e o lodo, como se a hora fosse feita de fitas enroladas e missangas de cor. Desejo uma canção que nunca acabe. Desejo um mostrengo só para mim. Desejo a cor do céu que uso para marcar a minha impressão digital. Desejo pintar uma parede com as palavras da guerra, do amor, da magia e da dinastia. Desejo um fósforo que apague a água que não me chega. Desejo uma mortalha de gomos sumarentos. Desejo a fortuna de um fim de dia quente.

Ao som de Steve Wynn & Johnnette Napolitano "Bonnie and Clyde"