janeiro 16, 2007

Só e mal acompanhado.

Com um bocado de chocolate como lastro e linha do horizonte, mesmo se o cacau não faça parte deste filme, cruzei e revirei de todos os avessos a avenida à beira mar. Resisti ao cansaço, ao passeio de orla reavivado por gritos embriagados de turistas e nativos, aos mosquitos embarrigados de sangue aquecido por infindáveis copos desde o acordar ao amanhecer e aos pares de velhinhas que são nortadas açucaradas pelo aroma da noite. Evitei o resmungo do esquecimento do relógio no quarto, bem em cima da cama para não ser esquecido, olhei as estrelas numa tentativa autista de quem conhece os nomes das constelações... juntei os pontos de referência habituais e rangi os dentes. Não que tenha o vício, impuro, de quebrar a calmaria alheia com ruídos infernais de dentes a roçar o crime de desobediência papal, tentando a excomunhão ou o vulgar encolher de ombros ecunémico, mas a irritação do momento obrigou-me. Sempre teimei nas aulas ou nas acções de formação que o crime é coisa séria, solene e formal, na forma, no intento e na subordinação do corpo ao projéctil. Senti-me encanzinar. Bati com o no chão, imbirrento e juvenil. O bater no chão infantil é francamente mais sábio. Voltei a percorrer a avenida, desejando um tsunami às ondinhas de banheira, salpicadas por um luar ridiculo. Estava quase a virar costas, com um jogo de matraquilhos na ideia, mais uns copinhos de abafado quando o vi. Irra. é falta de consideração. Tirei o revolver do bolso, conferi a bala na câmara, visei, quase despreocupado e disparei. O fulano encolheu-se num gesto ao ralenti, rodou para a esquerda e caiu desamparado, com um ligeiro gemido sonolento. Raio de vida; a tasca dos matraquilhos deve estar fechada.

Ao som de Act "Absolutely Immune"

janeiro 12, 2007

Certamente

Quando saí da sala, ainda no hall, senti o fio de nostalgia nos braços e nos olhos enquanto perdiam o brilho. A porta abriu sem ruído de arrasto e junto aos elevadores, o frio corrompeu-me a hora tardia e a pressa de diminuir o atraso. Desci no elevador amarelado, confiando na falta de vontade de sair dali. Era um sítio onde se esqueciam as horas e os motivos, onde o controle era um encolher de ombros ao que ficava lá fora, ou ao que chegava pela janela aberta, em barulhos de regressos a casa e compras apressadas. Imaginava um outro que vinha pela rua de baixo, medindo com minúcia todos os movimentos e centímetros do passeio e na esquina, escolhia sempre o lado esquerdo da avenida em direcção à farmácia. Não conhecia esse outro, nem lhe aguçava a curiosidade as suas mãos nos bolsos e a gola do casaco subida, como num filme. Chegou a pensar em segui-lo, mas acabou por deixar cair a vontade. Sabia que o outro existia e é tudo. Sabia que direcções tomaria e isso bastava-lhe.
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.

Ao som de New Order "Your Silent Face"

janeiro 10, 2007

Linhas paralelas

No tempo em que era menino, no meio de outros meninos gastava o tempo com risos e coisas assim. Cresci. Eu e os outros meninos. Esquecemos os risos e ficamos assustados, sempre que saímos e esbarramos com o nosso crescimento lá fora. Procuramos nos bolsos vazios, olhamos uns para os outros, perguntamos pelas moedas com que compraríamos o nosso destino e fixamos o chão, cientes de um preço demasiado caro a pagar. Um destino que de tão valioso, não soubemos avaliar. Retomamos o passo em direcção a algum sítio que não sabemos o nome, porque é um nome que não se pode saber. Sem confessar aos outros meninos, aos outros crescidos, sempre pensei que aquele dia nunca chegaria. Ficaria solto na prisão naquela manhã que um dia me encontrei, sob um sol amarelo, junto a uma esquina e a uma parede amarela, onde podia ficar a viver e a esperar todos os dias por uma droga qualquer, uma qualquer que só existia nessa esquina e debaixo daquele sol. Um sol que me faria estar perto de mim. Perto daqui mas longe de uma infância perdida que o medo arrebatou. Sempre pensei que aquele dia nunca chegaria. Mas ainda hoje me lembro daquele sol da manhã, junto à esquina e à parede amarela. Ainda dependo dele.

Ao som de The String Quartet Tribute "True Faith"

janeiro 09, 2007

Depois das velas apagadas

A janela do quarto, aquela que encontra o céu e os outros prédios de muitas alturas. Moveu-se o cortinado e entrou o sol da manhã, acima do septuagésimo andar. A luz recortou-a, traçou-lhe limites e aventuras, e ela sorriu. Ficou ali, a pairar, sugada pelo tempo de a imaginar ali mesmo. Nem a camisola de alças de alguma cor morna, acrescentou uma vírgula. Bastou o recorte, o traço da manhã, o dia parado, à espera de uma palavra que quebre o feitiço.

Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.

Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"