fevereiro 27, 2007

Longitude amarela, latitude branca

Perspectivando coordenadas como se fossem pepitas de chocolate, concedo a razão ao desligar os propulsores e sem ajustar a viseira, perco-a ao aspirar algum ar sem verificar os leitores de atmosfera. Estou lúcido. Acarinha-me o calor artificial e um gole de álcool, mantido incólume num recanto da minha lembrança. São algumas horas da manhã, mas retenho o asfalto irregular como se fossem dez da noite de algum Dezembro.
Repito mentalmente as geometrias coloridas sob os meus pés. Ajoelho-me e coloco as mãos sobre elas. Afago-as como antes. Regulo-me para um sorriso de intensidade três. Levanto-me e com um leve franzir de sobrancelhas, recoloco a franja na posição correcta. Permito-me um gesto humano e levo a mão direita à face, sentindo a barba por fazer. Imagino a porta amarelada com vidros rectangulares nas minhas costas, por onde se insinua um luz clara. Mantenho a direcção do meu olhar no cadeirão cinzento e na varanda por detrás. Tudo como então. Sobre o assento do cadeirão estão algumas folhas de papel, repletas de uma escrita cerrada. Pego num monte delas, segurando a primeira. As outras espalham-se pelo chão. Como uma lista se tratasse, a folha revela coordenadas, planos de voo e trajectórias, uma panóplia de destinos e posições relativas surpreendentes. Enternecido, apanho as folhas e apontando todo o maço ao arquivador do braço esquerdo, desmaterializo-as em dimensão doze. Antes da partida, olho em volta e com um toque subtil, desligo os sensores e o alimentador de emoções.
Em silêncio absoluto, passo as mãos pelo cabelo, adivinhando rasgos indefinidos. Permaneço os olhos no cadeirão e nos recortes das geometrias, tentando decorar-lhe as cores. Avanço dois passos, olho pela janela fechada, primeiro a varanda, depois a rua, com o asfalto irregular como se fossem algumas horas da noite de algum Dezembro. Sorrio e sinto toda a face sorrir também.
Depois do sorriso se apagar, volto a ligar os sensores, desloco a viseira para nível 4 e passo os dois dedos solares pelo fecho gelatinoso. Depois de acender a luz laranja, fecho os olhos e divido o pensamento nos triângulos habituais. Desloco a primeira página que encontrei sobre o cadeirão pelo cortex, dirigindo-a para os neurónios de expoente 14. Distendo os músculos e diminuo o nível de actividade enzimática, programando os estabilizadores para alguns minutos depois da partida. Com o ronronar surdo dos impulsos cardíacos em fundo, leio folha um, linha um.

Ao som de Pete Namlook, Klaus Schulze & Bill Laswell "The Final DAT Part II"

fevereiro 19, 2007

Sorriso em segunda-feira sem cinzas

De regresso do aconchego e da ditadura do sonho, renovo gotas de chuva e apreços no fundo de um alguidar ornado com o brasão dos Áustrias. Faz-se tarde. As línguas de vento trovam aftas de sem querer, deixando recados às árvores, poiso de druidas e algum profeta de nariz afilado, curioso de rotas e embaixadas de vénias, onde a solenidade é gratinada e o saber, estorvo. Talvez por isso se divirta com a copa frondosa e amnésica de quem se esqueceu do Inverno. Fará versos inconsequentes, dignos de algum manual onde se ensinam lideranças e valores. Faz-se tarde. Alumiam-se as velas e abrem-se os breviários, que os passos apressados e chuviscantes já sobem os degraus da entrada do altar. Na livraria defronte, pagam-se as últimas sílabas e suspira-se por uma chávena de café a fumegar. Talvez dois dedos de rum. Saúda-se o prior com um aceno de cabeça e percorre-se a muralha com o olhar dolente e habituado. E a gente nunca se habitua a regressar. Nas portas encostadas já soaram os trincos e crepitam-se os primeiros ares da noite. Ao longe, logo ali à esquina, rumina-se o terço e a vontade de farófias e palmas das mãos esfregadas com vigor. Penumbra-se o momento de olhar as estrelas e procurar a constelação preferida. Os pés agarram-se ao lajedo, travam-se ímpetos e de gola levantada, tomo o caminho do vale, mesmo se a geografia me permite ilusões e o espírito ainda treme de fervor. O tarde já se fez e o relógio marca sempre a mesma hora.

Ao som de Focus "La Cathedrale de Strasbourg"

fevereiro 03, 2007

Poesia debaixo do turbante

Relembro o sábado pela manhã, motivo de tudo e fuga a um tédio que simplesmente não o era, mas apenas restos de poeira esquecidos nas prateleiras e nos livros teimosos, fechados por abrir. Era a estrada, a paragem num parque de estacionamento enorme, onde se disputam sorvetes e tamancos longe de mais para se tornarem verdadeiros. Era o vento e o sol escapando por entre as bermas e os relógios apontados para diante, os nomes de quem não se conhecia, as caras de surpresa por gritos e gargalhadas imensas, perdidas em lugares ermos e mesas de toalhas claras enrugadas por copos de branco e desejos de mais. Os humores, as pertenças, as mãos dadas por debaixo dos aventais, os sorrisos cúmplices e a traineira suspensa pelas horas fugitivas, a curva da outrora feira de recantos, perfeito aninhar de areias brancas de uma estalagem poente perdida nas décadas de um salão de baile perfeito. O relento ruminando canções repetidas por um eco, réstia de energia e solidão. A passagem de nível, as luzes da cidade, os fins sem meios, o jantar sem sal, o resto atirado, demorado, um calafrio de ânsia e de viver todos os dias de uma vez, porque o dia acabou e não se quer regressar. E o soluço ainda encontra...
...e esquece. A barba feita a meio, as meias finalmente, a camisola repetida vezes e vezes, o olhar cansado por um aperto. Num abrir e fechar de olhos com os pés à beirinha do cais, a cópia com letra certinha, o domingo por ainda haver segunda-feira, os papelinhos à sorte, a rua a descer e o barco vermelho pousado no rio. E perto da esquina, à laia de cantos de natal, repetem-se lá lá lás.

Ao som de The Waterboys "December"