março 31, 2007

Coisas

Mesmo quando as pausas parecem o que não são, há sempre um nadador salvador atento às ondas, mesmo na maré vazia. Nessa atenção, desdobram-se maquinismos complicados, envoltos em electricidades e laboratórios arrumados pedindo desarrumação. Na desarrumação, perdoam-se erros e esquecimentos, pela simples razão de estar ali. Estar é a nota mais alta. Ser é dispensar de exame. Continuar é a perfeição. Porque os nadadores salvadores, mesmo quando não estão atentos às marés, têm sempre um colete na mão.

Ao som de The Passions "Small Stones"

março 16, 2007

Aperitivo

Parou no sinal vermelho e espreguiçou-se. Aumentou o volume no tom da ira da canção e apoiando-se no banco direito abriu o porta luvas. Reconfortado pela forma da arma debaixo do pano avermelhado, tirou uma pastilha de canela. Mastigou com o prazer de um dia de sol. O calor próprio de um fim de manhã de Julho enternecia-lhe as rugas vincadas junto ao nariz. Tinha fome. Uma fome de sossego à mesa, ao sol, perto de uma máquina de bebidas e com alguma mexicana de decote previsível ao alcance dos olhos. Talvez no Larriva, perto da pista dos galgos. Tirou do bolso o pacote bem amachucado e tirou um cigarro. Restavam dois. Acendeu um fósforo de madeira, dos antigos. Preferia fazer mais de trezentos quilómetros, por aqueles fósforos. Talvez fosse o som, um crepitar de inverno a torrar ao sol. Como sempre, puxou o primeiro fumo até lhe faltar o ar. Um masoquismo que não trocaria por nada. Agarrou o cigarro na ponta dos dedos com a segurança de um trapézio desfiado, na certeza íngreme de anos a fio. Passou a mão pela barba de três dias. Três dias de caminho, comida de chapa e café feito à pressa, bebido com os vagares de um fugitivo cansado. Puxou ligeiramente os óculos escuros para a ponta do nariz, com o esgar próprio de uns olhos encadeados. As cores do mundo eram afinal bem diferentes. Voltou a empurrar os óculos para cima e ficou-se pelo seu universo. Respirou fundo e olhou o semáforo. O verde envolto em poeira traíu-o. Antes de conseguir engatar a segunda já tudo tinha terminado. Do cansaço nem rasto. Apenas restos de chapa torcida e o barulho surdo da normalidade que tenta regressar.

Ao som de Devo "Gut Feeling"

março 03, 2007

Ficar aqui

Partida... Por todas as lágrimas de húmidas, nas esquinas, nas montras de luzes antes da madrugada, em canteiros antigos de uma instituição gravada na memória, produto de quiosques atentos e desatentos nas caras que passam e repetem o dia e alguma noite, sulco de um desvario ou de um anúncio de circo na cidade. Revolvem na conversa rala, no perigo de uma lembrança que provoca a claridade e a paragem do coração habituado, sopa esverdeada em pratos rasos, especiarias vendidas nos adros das igrejas que distam meias tintas entre si e o diabo, conviva das sextas-feiras pela manhã, quando o café se basta ao fumo e são repetidas as navalhadas de um barbeiro vitalício que dorme na porta giratória de um hotel condenado como presa suave de pinguins, gravatas desbotadas de tanto segurar as asas das ânforas, catres seguros de óleos e cânforas. Na multidão, alunos repetentes, vítimas de reprovações morais, guardiões de carteiras de madeira remendada, violadores de mente encarquilhada, pacotes de pipocas geométricos, líderes de faces abruptas motivando o convénio entre o ponteiro do mestre e a renda da concubina. E nas aleluias dominicais, porque as de sábado não valem o mesmo, descobrem-se almofarizes raros, legado de alguns narizes gelados pela frialdade do vento que pernoitou por aqui, rebelde e pecado de preguiça, limbo dos patos que encolhem os ombros no lago do jardim.
Pela rua que vai dar ao salão, às três da manhã, segredo mal guardado de um relógio atrasado no tempo e na memória, as gentes que nunca adormecem recusam acordar tratados e linhas imaginárias de lentilhas e esmeraldas, curiosidade que paira nas feiras de todos os livros, decotes e cartuchos de confeitos oferecidos à turba, minúcia do décimo quarto minuto da quinta hora, depois do meio dia, onde se repartem as metades de uma laranja seca, por onde se escapa a tentação e o exame da terceira classe.
Pausa intermédia... Cabe aqui um cocheiro, um padre que não saiba latim, um contador de histórias e uma viúva.
Largada... Ao entardecer, quando os chapéus de sol perguntam a idade dos mais novos, o dono da padaria reflecte as misturas e algum fermento fugitivo, na banca do peixe, onde o camarão miúdo é traquinas e antecipa futuros de estadista ou eloquência incontinente, ruminam-se períodos de seca e de míngua. Resvala a vontade de ficar ali, todo o dia, todas as horas de portões fechados, de capoeiras vazias, entre cascas de amendoim, previlégio seco de castas amaldiçoadas pela patetice de um beijo ou a sabedoria do fim da canção. De bicicleta, desce esbaforido o empedrado, cruzando formas de fontes e peixes enamorados, gritando cadências das tardes junto aos barracões, testamento prenhe de silêncios e ondinhas de rio junto à margem. Misérias esbatidas pelo jazigo perturbador de família, regra obtusa de viver antes do tempo, sempre que a morte espreitar a gaveta da mesinha de cabeceira, procurando desculpas e lenços encharcados. É a sorte de qualquer escrivão de província, querela de jornaleiro e comedor de omeletes, copos de vidro verde, gastos pela penumbra junto ao campanário, olho na estrada que sobe até à vila.
À vista do apeadeiro, procuro luz na taberna do outro lado do muro. Sorrio do salitre que não conheço, das rugas nas mãos trémulas que me trazem o copo. Deixo a mala no compartimento e desço. É Setembro... Chegada.

Ao som de Kyrie "Lipsia 1933"

março 01, 2007

Sorte, azar ou mais do mesmo?

Decidir entre a deriva e um porto seguro, mesmo em dias de temporal, dias molhados, encharcados devagar, ao longo do cais ou de uma fileira de árvores de um sanatório, onde se espera a hora de jantar e alguma desculpa para abrir os olhos de manhã. Decidir entre a lucidez e a ordem desigual de bocados de alguém, atirados ao papel como ao acaso, redondos, obedientes ao sinónimo e à assimetria, chuvinha teimosa de fim de estação, sussurrando deveres e agitando com firmeza a escritura do clima. E de tanto decidir, ou escolher algo em vez do outro, o depois parece sempre um destino. Um porto seguro que se expõe à deriva, salto mortal de vagas azuladas em papel de jornal, perigando os empenhos alheios e adocicando o comum dos mortais, que nem é comum, nem quer ser mortal.
Naquele salva-vidas, esfregando as mãos com a força de uns olhos semicerrados, escrutinando o mar à busca de sobreviventes, cabelo deitado ao vento, golas torcidas pelo sal, os grãos de areia no fundo do bolso que teima em ficar húmido, são as testemunhas únicas de um desassossego que não se comove com abóbadas. Em vez, sem conhecer limites alfabéticos, dá as cartas da esquerda para a direita, corta as figuras sem trunfo e grita jogo, mesmo se não houver mais jogadores na mesa.

Ao som de Legião Urbana "Andrea Doria"