abril 27, 2007

Homenagem geométrica

Em vez de uma lista de compras ou dos dez qualquer coisa que se levam para uma ilha deserta, eis-me aqui pronto para o que der e vier, ilusionado por imagens a cores ou preto e branco, sem saber as verdadeiras e as de encantar, rosto na janela do primeiro andar, mãos a restolhar nas persianas com pó, ouvido nas danças da chuva sem as saber cantar, olhos na esquina do quiosque e na berma do rio quase mar.
E de tarde, nos limites de qualquer ilusão reencontrada na parte da praia em frente ao hotel, com o matraquear da máquina de escrever e algum telefonema fora de horas, olhos a setenta e tal graus, na parte esquerda do jardim onde se arrastam os outros tempos e se escondem os caminhos encadeados da descoberta.
E de noite, com os sussurros de um dia que termina, os candeeiros acesos em surdina, a névoa perigando o catarro, os faróis entremelados em linha nem sempre recta, os degraus que dão para dois mundos, as três voltas da chave e uma subida feita costume onde a curva é dia, tarde e noite num remoínho só.
De rosto na janela do primeiro andar, com o barulho de fundo do que se vive devagar, o carro estacionado junto ao passeio e a luz no primeiro andar, retomam algum calor de concluir tudo estar no seu sítio, repetição aconchegante e morna de dois mais dois continuarem a ser quatro

Ao som de Ashra "Blackouts"

Nomeações

Nascimentos regulares tomam as linhas das peças seleccionadas ao acaso, no xadrez de mármore da entrada. Por cada xeque mate, deduzem-se as despesas da lavandaria e dos projécteis. A primeira bebida da noite é obséquio... todas as outras incluem vítimas. O gelo é pago ao valor de fecho do mercado. Só são elegíveis corpos de fato completo. Escuro. Qualquer vestígio de cinzento é condenado com pena capital. O executor de serviço deve preencher os formulários devidos, de baixo para cima. Qualquer resquício de frio deverá ser comunicado à comissão de festas.
E agora que todos estamos entendidos...

Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"

abril 26, 2007

Levitação em idioma de gringo

Nestes momentos, pode cair um cometa, que não me levanto. O balde do gelo está vazio e não me levanto. A munição está reduzida a cinza, mas não me levanto. A luz está longe de ser a que desejo, mas não desejo levantar-me. A canção, inadvertidamente, entrou em repeat, e nem por isso me levanto. A miragem de cabelos hipnóticos e lábios suplicantes mantém-se de olhos em mim e eu apenas lhe devolvo o olhar. A carta do general foi entregue por debaixo da porta, os grilos gritam por companhia, o porteiro fuma junto do baralho por partir, o jornal permanece por ler. Não, não me levanto. Esperam que o efeito passe?

Ao som de The 13th Floor Elevators "You're Gonna Miss Me"

Arrepio meio nocturno


Descalço, prolongo a vontade de uma parede em falso, rebolo nas luzes os vestígios juvenis e sorrindo deixo-me envolver, permito que me subtraiam as agulhas e os pólens que neste corredor não me fazem falta... que os escondam longe, que os tornem mistérios por resolver. Devagarinho, fecho os olhos, levanto-me e rodeio a minha sombra com rodopios, cabriolando o tique humano, soltando-lhe as feras do impulso, com dentes de luar.
Ao tecto, aos rodapés, à ameaça e ao relógio, apenas um conselho: esqueçam a corrida e a chegada. E com um beijo, mantenham a chama acesa, mesmo se olímpica.

Ao som de Blueboy "Popkiss"

abril 23, 2007

Narcisista em harmonia

Tirei do armário a camisa branca de meio colarinho e pendurei o cabide na porta com todos os cuidados. Entre as calças do fraque e as do smoking, escolhi as mais solenes. Da gaveta do meio tirei o laço preto e na dúvida optei pelos sapatos pretos de verniz. De boxers e meias pretas fui à sala buscar o isqueiro e o relógio, numa atitude perversa onde a rebeldia colide com o bom gosto. Antes de regressar ao quarto, passei pelo espelho da casa de banho e com a tesoura pequena acertei a pera com o rigor das 7 e meia.
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.

Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"

O ábaco

A orgia tinha começado à hora marcada. Por entre os arbustos, na copa das árvores e nos pouquíssimos bancos disponíveis, os casais e demais curiosos entregavam-se uns aos outros com a gulodice habitual. Generais e majores, bispos e outros eclesiásticos, proprietários, pintores e disc-jockeys, mais os membros do clube e os electricistas entabulavam o seu mesmerismo às louras e morenas sacramentais, já que de ruivas o mercado estava sempre em falta.
As movimentações prolongaram-se no acerto e na anarquia do costume, até a sineta determinar o encerramento das hostilidades, que isto da líbido também tem horários...
Foi na contagem final que a coisa azedou:
- Pá, faltam-me dois casais...

Ao som de Brian Setzer Orchestra "Drive Like Lightning (Crash Like Thunder)"

O boletim de voto já inclui o x

No caminho para a Assembleia, parava no café das janelas amarelas e bebia o seu chá das quatro e meia. Tirava do bolso o frasquinho do mel e adoçava a beberagem a gosto. Com um gesto de desprezo afastava o pacotinho colorido, ainda cheio. Limpava o beiço com o lenço assinado, ignorando ostensivamente o quadrado de papel branco à sua frente. Economizava as boas tardes e deixando as moedas certas, saia com pressa institucional. Subia a ladeira algo íngreme e ao ver o majestoso edifício, sorria disfarçadamente.
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.

Ao som de Maximo Park "Our Velocity"

Miudezas

Tinha a botija de oxigénio ao lado da cama. As barbatanas estavam arrumadas ao lado dos chinelos e dos sapatos de fivela. Os óculos pousados na mesa de cabeceira adiantavam organização e alerta.
O fato de borracha tinha ido à lavandaria com duas gravatas e a camisola preta de gola alta, a dos lançamentos literários; mas como ainda havia calor...
Conversava animadamente com o primeiro sono, quando a maré chegou, desta vez do andar de cima. Sorriu, deu as boas noites e começou a calçar as barbatanas.

Ao som de Timbuk 3 "The Future's So Bright I Gotta Wear Shades"

abril 22, 2007

Deixar o irresístivel ganhar espaço, parte 1

"... We walked around in circles..."

A dor de cabeça vai e vem à uma série de dias (a de esta noite foi épica...), os prazos estão desfiados até à exaustão, o carro tem mais riscos do que posso suportar, já dormia uma noite inteira, tenho de fazer uma pausa do álcool, a prateleira dos livros de estimação continua sob andaimes, a papelada conquista território e os discos reproduzem-se como cogumelos, não encontro as camisas pretas à venda e já era tempo de mandar fazer bainhas às calças.

Ao som de Men Without Hats "Where do the Boys Go?"

abril 21, 2007

Pressa

Deitada na almofada cor de ferrugem, espreguiçou-se e sem avisar mudou de tema. De olhos fechados, sussurrou qualquer coisa...

Ao som de Dresden Dolls "The Ghost in You"

abril 03, 2007

Um cachimbo vazio

Depois de frequentar o estribo e a coleira, desaguei na quinta porta que o estuário me oferecia. Habituado a geometrias convencionais e algumas outras, sujeitei-me ao primeiro dia de escola. Conversei dias e dias com os monges e os que atravessam desertos, jurando alianças com que cobri os dedos. Bebi da chávena à minha direita, sossegando os costumes e os protocolos. Ao fazer isto, respeitei-me nas minhas células, como se um beijo ou um roçar de dedos assinasse um tratado.
Meses depois, sentado à mesa da sala ao fundo da casa, na penumbra que o dono determinou, procurei algum vestígio de cinza ou cálculo matemático da noite, quando os cúmplices reconheceram a proximidade. A mesma sala onde os cúmplices iniciaram a guerra. Verifiquei os armários de portas fechadas e chaves disponíveis, o cabedal verde escuro da escrita, enfim alguma marca que servisse como prova. Desconfio da memória. Sem nada, encaminhei-me para a porta. Cansado de tantas coincidências, respirei todo o ar que consegui e sai. O imperador esperava-me.

Ao som de Ultravox "Waiting"

Promessas

Jantei com os vizinhos do 2º andar. Petiscámos algum chouriço e vinho tinto. Dissemos pouco, com medo de falar demais. Fumámos alguns cigarros com a janela entreaberta, experimentando o fresco da noite. Sentia a pele dos braços arrepiar, mas gostava de ver as formas que o fumo desenhava fugindo da aragem. Na rua acenderam-se os candeeiros, soltando sombras e versos mudos.
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.

Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"

Quando Pedro me levar à pesca

Jurámos pias baptismais, louvámos a desgraça alheia por não se ter aproximado, abençoámos o dia como nos convém, vergámos o espinhaço à decisão de outrém, tornámo-nos o pretérito imperfeito da perfeição legislada. Aceitámos a vigência como verdade e a erradicação da dúvida como doutrina. À diferença chamamos desvio. À falta, desculpamos o prazo e devolvemos a intenção. À culpa, arquivamos o processo. Se algo ficar por classificar, resta-nos o desígnio. E na procissão, voltados para a Meca que estiver mais perto, roem-se os bocadinhos de pão que alguém deixou aos pombos. Esses, mais tarde, serão mastigados depois de um lume brando.

Ao som de The Sound "Possession"