maio 31, 2007

Os piratas foram lanchar de madrugada

Duas crianças brincam ao sabor do dia. Sabem de cor as manhãs e os enconderijos, atalhos perfeitos onde os crescidos não chegam. Correm os passeios e os pátios, sempre ao contrário dos ponteiros do relógio. Conhecem os segredos do tempo. Às vezes, param à beira de água e procuram os peixes que lhes conhecem a liberdade. Às vezes, sentam-se no chão e ficam em silêncio algum momento. Depois, olham o céu, a tarde que lhes foge, os joelhos sujos cheios de histórias e acreditam com muita força que amanhã nunca será dia.
E amanhã, entre a pressa e os ponteiros do relógio que teimam em girar para o mesmo lado, mesmo sem lembrar a cor dos olhos, ficaram os esconderijos. Lá, continua guardada a vontade de correr ao contrário dos ponteiros do relógio.

Ao som de Thomas Dolby "Europa and the Pirate Twins"

Experimentar

Restos de noite ou partículas de sono presas aos olhos, mastigam-me a mesa, os papéis empilhados e o início de manhã em outro lado qualquer. A maçã espera-me e o duche também. Entre as apresentações, o manual, os índices, a sala por varrer e os sapatos espalhados por todo o lado, fica o momento de atravessar uma ponte com o sol ainda desmaiado lá no alto, o rio a querer ser mar, um amarelo muito claro e muito meigo em pleno afago e a canção, uma de algumas muitas. Pretende-se uma ponte que demore a atravessar. E quando abrir os olhos outra vez, que sejam todos os dias menos domingo.

Ao som de Dandy Warhols "Hells Bells"

Matutina

Os brancos e as cores da laranja,
moldados em suspiros luminosos
de sal e de espuma;

uma onda
sempre a mesma,
redonda
a mordiscar a pele.

Os brancos e as outras,
despidas em si mesmas,
esquecidas dos olhos
que as provam em pequenos sorvos demorados,
fiéis ao desígnio
de serem brancos e cores de laranja,
como um sabor a madeira
que prolonga a língua.

Os brancos e as invejas cor de rebuçados,
camélias encostadas à varanda,
onde os cabelos respiram
e se entregam.

Os brancos,
desmaios na vontade;

deitar a cabeça e cheirar o que ficou do mar.

E nesse mar,
vazio,
um outro branco ou amarelo,
motiva o rigor de voltar amanhã.
De preto.

Ao som de Area "Michael Writes His Parents"

maio 29, 2007

A espera

Paredes cor de laranja e algum branco de tom sujo. Enormes candeeiros que tombam do tecto, calados, à espreita. Oito computadores obedientes e submissos. Uma janela a três quartos. As cadeiras desarrumadas e as outras, conversam muito ciosas do seu espaço. Meio a dormir, meio acordado, com as mesas em desalinho e os cabos de rede à espreita, resolvem-se assuntos de governo e algum golpe de estado eventual. Os conselheiros tomam o tempo como refém. O mundo que espere. Aqui tomam-se decisões. Mesmo que não sejam úteis para ninguém.

maio 24, 2007

Pausa e nota de rodapé

Mais que as palavras, importa reter os sons.

A gerência

Seda

Vejo-te azul, cor de rosa, verde escuro, carmesim.
Quero-te assim, verde, nua, transparente.
Um tudo ou nada indiferente.
Envolta em luxo de uma nota esquecida num piano ainda quente. Absoluta e dolente.
Amada como a troiana,
por sussurros e manias.
Por olhares conspiradores que pecam provocações.
Estendo meus olhos em ti,
e percorro-te o sorriso nos lábios fundamentais.

Adianto as ilusões num banquete de ideais.

Penso, afirmo e até juro, apenas frases banais.
Quero ultrapassar as regras e viver por ti, proscrito.
Ensaiar gritos de guerra, comprar portes marciais.
Dar ordens vãs, resignado.
Redefinir os natais.

Desejar-te com mil forças, esvaindo-me em vermelho.
Acreditar nos prazeres, do corpo feito doutrina.
Entregar-me algemado, penhor de qualquer capricho.
Perder a identidade, por um minuto em teus braços.
Perder toda a vida eterna, por um segundo dos teus.

Rasgo a palavra amar, em pedaços descomunais.
E volto a colar,
submisso,
filosofando verdades que são as mentiras dos outros.

Vejo-te.
Escolho as cores que são devidas, numa paleta que é cega.
Misturo tons e balanços, experimento alguns traços.
Com os dedos algo abertos,
abstracto algumas formas.
Sinto a tela ganhar vida.
Obedeço.
Baixo os olhos.
Espero o momento, imóvel.

Com a raiva a consumir-me, dou punhaladas disformes.
Esculpo caminhos bacantes e rebolo-me na indiferença.
Na tua, que me arranha a cara.
Na minha, que não faz nada.

Vejo-te poente. Mansa.
Isolada no meu mundo.
Esbatida, quase morna, repousada num suspiro.
Atenta ao movimento brusco.
Selecta em labirintos.

Sugerindo uma caricia, agitas-te na preguiça.
Sigo cego os teus caminhos,
até me perder com delicia.
Violento-me a vontade em desejos marginais.
Misturo as horas do dia.
Fecho os olhos.
Paz.

Longamente, procuro as emoções dos teus poros.
Narcotizo-me em teu odor.
Entrego-me escravo, exausto,
delirando especiarias.
Já não sou eu. És tu.
Brocado doce e demente.

Quando abro os olhos, estou só.
Ao de leve,
sinto em mim o vento do teu oriente.
Sigo o contorno da tua silhueta ausente,
mimada em jogos de lã.
Indiferente, fujo.
E deixo-me ficar ali.

Ao som de Type O Negative "Love You to Death"

maio 23, 2007

Todos os poetas malditos usam boxers

Conheço práticamente todos os poetas malditos. São dezoito. Já foram vinte. Um dia... Mas conheço-os, sim senhor. Quase todos. Com quase todos bebi uns copos. Com quase todos, praguejei e fumei charutos. Com quase todos vomitei vísceras e ciúmes. Com quase todos, partilhei mulheres e paixões. E com alguns, troquei versos de cores escuras, que em noites de recolha do lixo me pesavam nas algibeiras. Com quase todos, vivi histórias de vício e extorsão. Com quase todos, adormeci esgotado, com as mãos trémulas de frio. Conheço práticamente todos os poetas malditos. Chamei-os pelo nome e pelos nomes. Gargalhei com hálitos tenebrosos e absorvi as gargalhadas de quase todos. Uma vez, jantei na mesma mesa com quase todos. E outra vez, quase me afoguei por causa de todos. Conheço a cor dos olhos de quase todos. E já fiz chorar quase todos. Quase todos! Conheço práticamente todos os poetas malditos. E quase todos os poetas malditos me conhecem. Mas todos, mesmo todos os poetas malditos, usam boxers!

Ao som de The Cure "A Forest" (Damian Lertora version)"

Arrumações

Saudades de um beijo. De um tapete andaluz que nos aquece a aventura, duas velas em castiçal dourado, a almofada e o cheiro a verde, fresco como uma noite de Verão. Dizem que a paixão é vermelha. Da cor de uma rosa que se deseja. Eu não acredito. Para mim, a paixão possui beijos azuis. Um azul profundo como as penas de um corvo. A paixão inveja ouros e um tom carmesim escuro que embriaga os segundos e os gemidos. A paixão é da cor do sangue. Um sangue espesso e escuro, o elixir que resguarda a sede e provoca o abismo. A paixão é a da cor do segredo. E nesse segredo, confesso saudades de um beijo que me complete. Um de mil. O primeiro de uma centena que me sacie a fome e devolva o brilho, ao olhar perdido de amante. Vi relances de paixão em Marrakesh, no final de uma tarde ensolarada. Voltei a cruzar o olhar tenso da paixão em Cracóvia, debaixo de estrelas e à porta de um albergue antigo. Voltei a vê-la em Viena, num beco poeirento em Bombaim, numa alcofa de lençóis de linho em Toledo e no vão de uma porta em Veneza. Agarrei-a por alguns momentos e deixei-a sempre fugir. Quando já não a esperava rever, dei com ela onde menos esperava. E continuo sem saber onde a guardei.

Ao som de Tito & Tarantula "Strange Face of Love"

Claves e sóis

Era tão mais simples, tão mais cintilante pular entre dois ou três momentos de linha recta para o alto, repeti-los avaramente e com cuidado renová-los por todos os lados e arestas. Por serem dois ou três, bastam-se na sua míngua. Entregam-se as importâncias próprias das facilidades que não existem. Cada um dos dois ou três é tesouro, diamante e sal. Perpetuam-se na janela virada para o relvado, com as árvores despidas e as varandas de estores meio fechados.
Depois dos anos e das estradas mal iluminadas e pior escolhidas, ficam os dois ou três, quase frescos, quase intactos. Um aeroporto, uns olhos vidrados de boneca, um regresso à fantasia ou um flic flac campestre.
E por isso, os meus agradecimentos.

Ao som de Jean-Luc Ponty "New Country"

maio 22, 2007

Mostrengo

Regressar de um mundo inerte, sombra e herança de um manto, senhor nos seus domínios, onde o mármore coberto pela neve magoa o semblente, enquanto repousa e abriga a nudez. Das lentas sonoras do pêndulo, só restam os algarismos da fortuna e do azar, seguros por fiapos de seda, ouro de quem esqueceu os caminhos e as faces. Como pele de alguma fera, os reposteiros pesados são lã e doçura de um serão que não termina. E de um fogo lento, a lenha torna-se granito. Aqui o vento desterrou a brisa, fio cortante por onde agulhas picam os ossos e árvores serenam em quietudes altas.
Num arremedo de frugal rancor vagueia ao longo das paredes rasgadas, onde o cristal rompeu amarras. Funga todo o tempo, enfrentando os dedos violáceos numa rixa comezinha, enganando o resmungo com um riso sem ruído. Busca na recordação cores e afectos, que a reminiscência teima em lograr. Por momentos encosta-se a buscar o folgo, farsa da sua idade e desterro jovem. Deixa cair a cabeça e sente-se ermo. Exausto. Respira fundo e regressa. Não se evade. O contrato não lhe permite legar.

Ao som de Stoa "Partus"

maio 17, 2007

Não penso morrer tão cedo

Tinha pensado em escrever algo entre o racional e o filosófico, algo de ensaio, de observação, uns pózinhos de crónica, outros de visionário, uma direcção do sentido da vida. Em vez, saiu isto.

Elementar este desejo de molhar os lábios, e só ao de leve, deixar um beijo resolver o momento. Replicar o soturno na preguiça, oferecer-lhes avelãs e bagos de mel, sorrir absorto entre o tecto e o lado de fora da janela, cair em tentação. Na canção, partilhava uma lembrança que não me recordaria nada, apenas por ignorar os calendários e as caras que já nem me lembro. Só o murmúrio de uma página de um livro juvenil, onde rebusco vagares e sossegos. Tal como num vapor de água, sou egoísta e recolho os pontos luminosos um por um, sem os apresentar, seguro de uma ignorância que os reuna e lhes entregue razão. E em cada ponto luminoso, reconheço um atalho ou uma estrada longa, uma encruzilhada ou um areal imenso. E em cada um, uma mão cheia de segundos, que trocarei por um beijo, um sussurro e a permissão de repetir a canção até ao amanhecer.

Ao som de The Curtain Society "Kissherface"

maio 15, 2007

Contraponto para o autor; só para o autor

Oito horas. Nove horas. Minuto a minuto, sol sim sol não, dúvida em forma de elevador em outro andar qualquer, bom dia oval, sub-reptício, preso por cordel de uma caixa de bolinhos, fóssil rebuscado de outra rua com principio, meio e sem fim. A esquina, a avenida, a esquina, a rua, a parede com impressão digital e pegadas de dinossauros, ou pelo menos um único, o que vagueava em habitat alheio, armas a tiracolo e óculos escuro de ver o mundo com a cor pretendida. A madrugada, o fim de tarde, a neblina, os papéis que voam em remoínho, os barcos ainda dormem, as prateleiras reflectem as luzes, e entre os que não acordam e os que dormem sugerem-se cortes laterais de onde se esvai a maçada e o tempo perdido. Não acreditam? Vejamos: uma chávena de chá, quase cheia, engraçada; o homem da gabardine, céu cinzento, nuvens escuras, chuva e mais chuva que atrasa o autocarro; um vidro de uma janela, fechada, segura, lânguida e morna; o copo de cerveja, alto, afunilado, glamoroso, dourado num balcão de apenas três clientes, todos diferentes, a mesma conversa, os relógios parados; as três voltas da chave, o empurrão de garantia, o olhar zeloso, as chaves no bolso e o dever cumprido; o nascimento, a infância, a juventude, a puberdade, a responsabilidade, o atrevimento, o crescimento e o desenvolvimento e a paragem cardíaca, o adulto, o maduro, o envelhecido, o idoso, o morto.
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.

Ao som de Suicide "Ghost Rider"

maio 10, 2007

Pausa para um quarto acto


Esqueci o café, esqueci o sorriso, esqueci até os sindromas de pastilha elástica que neste momento apenas me pareciam uma forma inútil de passar o tempo. Um tempo que teimava em desperdiçar com ninharias.
De olhos fixos na noite por detrás dos vidros imensos do aeroporto, de outro aeroporto ou todos os aeroportos, não quis esperar a chuva nem a humidade na pista para obter um perdão. Aquele perdão que cada um deve a si mesmo, em situações limite. Doiam-me as costas, não tinha o sabor correcto na boca, era tarde e a vontade de qualquer outra coisa, específica por não ser, queimava-me o pescoço. Funguei algum resto de constipação e insisti-me naquela hora de pausa, como se me pertencesse a beira do mar ou o único caminho para a brisa do início da manhã.
Preferia-me numa varanda, num cubículo aproveitado de um prédio esvaziado, talvez devoluto, talvez resignado, com o barulho da chuva a oferecer-me terapia e refúgio, onde os vazios da multidão se desfazem em bicicletas que passam no ruído da borracha molhada e das campaínhas infantis. Numa mão teria uma maçã, que em vez de mordiscar, cheirava com gulodice e inércia. Então, pedia ao relógio que fizesse uma pausa e, como um amigo, sorria-lhe. Um sorriso cheio de antigamente, de ontem, de encontros depois da meia noite, em esquinas largas, onde se agarram filosofias quando voam baixinho.
Mais tarde, muito mais tarde, talvez lhe pedisse para retomar o tempo. Talvez.

Ao som de Blade Runner Blues

maio 04, 2007

Hesitação em terceiro acto

- Obrigado.
Prefiro olhar lá para fora, antes que a noite acabe. Assim, manter-me sentado sem fazer nada, procurar os contornos dos aviões e as luzes da manutenção, sentir esta ansiedade mínima de não ficar aqui por muito tempo. Ainda tenho na boca o sabor a café. Vou mantê-lo um pouco mais, como uma pastilha elástica enquanto tem sabor. Uma pastilha elástica é um conceito estranho. Tão humano. Só tem sabor por um tempo determinado, que nunca se pode determinar com rigor. Perde o sabor sem um pré-aviso, um pouco como a morte. Quando se dá por ela, já não sabe a nada. Enfim a borracha e plasticina; de uma vez só o aroma e travo desvanecem-se, porque nunca é repentino, e num instante de atenção, eis que mastigamos um bocadinho de pneu esbranquiçado. Mania de usar o plural quando estou sózinho. A morte ou uma pastilha elástica? Ter tempo para qualquer uma das duas, é uma eficiência. Uma capacidade de julgar e manter preferências ajuizadas. Não, o juízo não tem nada a ver com isto. É mesmo uma questão de prioridades e enfrentar as perdas de sabor como inevitáveis e, quem sabe, encontrar a chave para o armário das pastilhas que nunca perdem o sabor. Havia um filme com uma pastilha de sabor eterno. E só por isso, lá perde a ideia o seu naco de atraente. Treta.
E se não partisse?

Ao som de Saigon Kick "Sleep"

À partida do segundo acto

Obediente, esperei que a escada rolante me orientasse as decisões. O incómodo de alguma claustrofobia dos tectos demasiados altos do aeroporto, provocavam-me um estado de tontura morno e desagradável. Pensei numa chávena de café a fumegar, num copo água, que a hipótese de demasiado tépida me fez enjoar. Ao temer algum suor fora de tempo, dirigi-me ao check-in, como tentativa de organizar qualquer coisa. Não reagi aos avisos nem às recomendações, aceitei todas as determinações e com o número 48 do portão de embarque marcado na palma da mão, entrei numa casa de banho e demoradamente, molhei a cara e sem sorriso planeado, olhei-me longamente no espelho. Sem me conseguir mexer, remexi num cansaço do qual fazia parte, remoínho de olhos fechados e mãos afagando a face e o cabelo. Num faiscar, surgiu-me a imagem de uma bomba de gasolina à beira de uma via rápida, lugar de fascínio e partida para viagens de carro, daquelas que se iniciam cinzentas e não devem conter destino. Fechei os olhos muito devagar e sem recusar o apelo, desejei com muita doçura apagar aquela imagem. Com esforço, endireitei os ombros, lavei as mãos e sacudindo o casaco e as calças, fui à procura da tal chávena de café a fumegar. Pelos corredores larguíssimos do aeroporto, procurava nos altifalantes uma canção a condizer.
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.

Ao som de Goldfrapp "Utopia"

maio 03, 2007

A partida

Antes de partir, procurei nos avisos presos no frigorífico as moradas. Preferi não as levar comigo e tenho a certeza que não as decorei. Prefiro encher o espaço livre de memória com assuntos mais confortantes. Ou reconfortantes, depende da hora do dia. Depois de uma olhadela para a camada de cima da mala, fico sem a certeza de me lembrar de tudo, ou pelo menos do que é insubstítuivel. Mesmo assim, prefiro fechá-la. O isqueiro no bolso esquerdo das calças, o comprimido no bolso direito, os óculos de sol e os auscultadores. Tiro à sorte entre os mp3 e sem verificar conteúdos, qual roleta russa, guardo-o no bolso do casaco, junto ao cartão de acesso e a ficha metálica para a bebida. Escrevo o recado e deixo-o bem à vista, debaixo do telemóvel. Uma última escovadela dos dentes, o sorriso número 14 ao espelho e a porta de casa.
Um frio circular chega num arrepio e precipita alguma pressa de chegar a horas. Ao menos desta vez. No táxi, as luzes do tablier, a imitação de pele com forma de pessoa aconchega uma canção antiga dos Blue Oyster Cult, pretexto mais que perfeito para seguir o trilho dos anúncios luminosos. Durante parte do caminho deixo-me ficar numa sonolência combinada, repetição de algo numa noite de qualquer coisa, num Inverno que ficou muito para trás. Com as luzes do aeroporto sobre o ângulo de visão, retomo a consciência, endireito-me e preparo o pagamento. Que canção tocará no táxi, à chegada?

Ao som de Lucyfire "The Pain Song"

maio 02, 2007

Jovialmente, uma boa noite para si

Mais uma vez no local do crime. Impressão digital sobre impressão digital, projéctil atrás de projéctil, cápsulas caídas no chão em desprezo pela verdade. E na verdade, estes regressos ao mesmo local do crime, como se não houvessem outros para escolher, reflectem-me a ousadia e alguma aventura de sentir sempre algo de novo. Hoje é refractar o cansaço, produzir alguns exemplares com a fábrica ainda a meio gás, enrolar-me num cachecol de cachemira e enfrentar uma noite de temporal, amena pelo bom gosto e agreste pela vontade de sair e não sair do mesmo sítio. Apelos e apetites. Comodismos.
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.

Ao som de Spectral "Avalon"