junho 17, 2007

Ao fundo, apenas o saco de ginástica

Por muito sossego prometido, aquele que se acha ou se julga e percorre os veios da madeira do chão, seguro, envernizado o bastante para surgir e entabular conversa, nunca é o bastante. Ficam de fora algumas pontas soltas, as presenças, bastando-se a si mesmas, sem voz, apenas estando, os balanços, as coincidências. Revelar-se num cenário que nunca se pensou, agreste, virulento por se considerar menor, aquecido por artes, nunca ofícios, metade de um postura que resvala, por sentir o soalho mais confortável ou longe de recusa. Já pensaram nisso? Na redonda aquiescência de agradar o prazer. De lhe permitir intensidades e fugas, mesmo quando não se pretende a saída. Sugerir em pensamento a fragilidade, o sustenido bastante para transformar as palavras em ininteligíveis ímpetos. Mergulhar na falésia e no mar ao mesmo tempo, retirando o organismo ao mineral e a paz ao oceano. Suar.
E sempre que haja um fim, raptá-lo, estorquir-lhe o nome e abandoná-lo à deriva.

Ao som de Pink Floyd "Careful with that axe, Eugene (Live from Ummagumma)"

junho 15, 2007

Tácticas

À direita, romanos. Ao centro, alguns fariseus e o que sobra de Samaritanos. À esquerda, todos os vendedores de castanhas e alguns, poucos, cantores de ópera. Por detrás das colunas, lá no canto da praça que dá para o mercado, apenas os três juízes de fora. Fora! Às janelas, à espreita, obséquio das cortinas de renda, as velhas do costume. Caladas. Na varanda do primeiro andar, por cima da tasquinha e do lado da bandeira, de cócoras atrás das sardinheiras, o abade dos almoços das terças-feiras e o professor de direito. Encostados à mesa dos frios, o fornecedor de farinheiras e o homem do gás, pausam os goles de copo na mão. À espera. Miúdos, nem vê-los. Polícias, também não. Quando olho para trás, encolho os ombros. Só ministros e candidatos.

Ao som de Vaguement La Jungle "Youl"

Masgreevia

Masgreevia. De tudo um pouco, sem remorso nem escrúpulo, desolado por me esquecer de algo ou alguém, mas nada mais que isso. Sorridente, porque me quero justificar. A vida por aqui, nesta combustão, resolve-se em poucos dias. Ou décadas, é o mesmo. Está por horas, dizem os que me servem. Pelo previlégio de ser servido por eles. Impingem-me tinto e branco, à vez. Sorrio. Permite-se tudo em poucos passos, com os pés sob as mesas, quatro delas, entre gestos de camaleão, certo de verdades muito maiores, mas muito mais inúteis. Recitam-se desejos. Surdos. Mudos. Nas paredes pejadas de retratos de todos os alguéns, nas lajes, pasto de beatas e desapegos, nos bolsos, vazios de alma, resiste-se à hora final. Há sempre um fim, mesmo quando enceta algum imprevisto. Haja festa... haja festa. Não vá ser dia dela.

Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Begin-ing"

Lanças e gemas de ovo

Alanos, Suevos e Vândalos,
beberricando limões,
embalados num baloiço
todo pintado de fresco.

O imperador,
sossegado,
descasca ervilhas
entoando,
as ladaínhas das quintas.

À mesa,
um anão e um carrasco,
defrontam ases e quadras
entre récitas obscenas
e fritos mal digeridos.

No peitoril,
à janela,
a única que ainda existe,
o papagaio recita.

Da manhã dolente e sóbria,
solarenga no acepipe,
a lembrança sempre alcança:
esqueci-me dos Visigodos.

Ao som de John Surman "Part III - Kentish Hunting (Lady Margaret's Air)"

junho 12, 2007

Videiras e sultanas

De longe,
num repente de causa incolor,
existe a descoberta de um céu vagaroso,
onde
um quarto de hora
é beijo
e é tempo.

Travo a travo,
surgem palavras asteadas,
jogam-se cartas na Bretanha
e graceja a subtil entrega.

Com sotaque a limão e gengibre,
regressa a canela ao marfim.

Entre orações,
as ameixas adormecem fatigadas.

De retorno aos caules,
atento à poeira e talvez benvindo,
um vento velho conhecido
preso por cordéis ao paladar,
desagua a espuma de uma onda
sem ter mais nada que lembrar.

As cores encostam-se ao dia.

E sorvendo os restos de vida
que se deixam para trás,
um homem de idade.

De olhos abertos.

Ao som de In the Nursery "Days Of Freedom"

junho 03, 2007

Nem em dez mil anos

Como num impulso, num arrebatamento passageiro, daqueles que nunca demoram mais de cinco minutos, encontram-se os motivos e as causas. As que valem a pena. Os que permanecem próprios. Nunca obtive a promessa nem sequer a resposta a este fenómeno. Sempre me surpreendeu e manifestou ousadia. Ou então, apenas um suave sopro. Uma guelra oferecida pelo acaso. É nestes momentos que preciso de um outro de silêncio. Só para respirar. Abrandar. E então a urgência, impelida pelo composto químico que a reveste, mostra-se ufana, cúmplice de portas entreabertas, resistências ínfimas da descoberta e do enlevo. Só por isso, vale a pena burlar o suicídio.

Ao som de... não sei se digo...

À falta de poder, ficam as flores

Um sono que vai e vem, amparado por névoas que só acontecem aos fins de semana, rebelde e refém ao mesmo tempo, como as tardes à boleia ou acordar em casa de outrém, já depois desse alguém sair, assumindo o trono sem se saber o que se está ali a fazer. E mesmo existindo esse compartimento fugaz, que é a noite, morder o sono durante um sábado claro é roer algo que se perde, um pouco como a importância dos mandarins ou das caldas de açucar sem proporção manipulada. Tem graça, tudo se resume a estados de alma, ou lá como chamam a essa aura, quando há reunião magna de deuses. Ou circunstâncias macias que aferrolham branduras, ingredientes e plenitudes. Eu sei, os egoísmos são caldeirões maciços onde o instinto apura com o prazer. E eu, de prato de sopa na mão, espero a minha ração. E talvez vá repetir.

Ao som de Sonic Youth "Unmade Bed"

junho 02, 2007

Um plano inacabado

O plano eram as mil luzes da cidade reflectindo uma ideia. O reflexo, trémulo de neons adormecidos, sentiu-se ao longe. Muito longe. E eu, significo a calma, procuro o prazer e olho o nevoeiro.

Ao som de Public Image Ltd. "The Order of Death"

A divisão prescinde da vaidade

Os sonoros invadem as privacidades, revolvendo os segredos bem guardados. Atentam contra a vida e o destino e sopram as fumaças dos incêndios. Dentro deles surge a calma e o sereno, ângulo submisso na intenção de subtrair a vontade. Espera-se com a fatalidade da sabatina. Quietos, envolvem a estrutura. Fadigas, entretêm intrujices. E sujos, violentam as carícias num acto de loucura submissa. Contentam acordes repisados como soluções envolvidas em hortelã-pimenta. Tornam gigantes as três manias. A curta atitude das milícias e a nova ordem magna da cobiça. E para quem consente a mentira, têm a ternura sempre omissa.

Ao som de The String Quartet Tribute (to Tool) "Schism"

Percepção

Devagar. Como se fossemos sacos de chá, mergulhados em banhos mornos. Submissos a uma varanda acariciada por cachemira, seguindo um rasto de canela como se fosse pólvora, sinuoso, incinerado por golfadas de mais e mais, enquanto a lua não sabe o que fazer. Por entre as árvores o ar repete jogos, sopros murmurados de perto, indiscrição madura de onde resvala a pele de cerejas inocentes. Na pausa e no recesso, convergem fios que o sono deixou esquecidos. E em vez de objectos e artefactos, onde as peças de tecnologia são ínfimas, degraus são altar que repelem religiões, espécie de virtude por inteiro, púnica no alheamento e segura na separação. Encostado a uma parede, está um biombo. Atento e intento. Em prolongar.

Ao som de... não digo

junho 01, 2007

Enquanto vazio


Com a fragilidade ao longo da pele, suavidade tensa e contida, surgem os remoínhos. Sugere-se um altar, um apartamento vazio de janelas e silhuetas obscuras, um armazém comprido e repleto de flanelas. Permite-se o desgosto, a leviandade, até algum torpor com tonalidade de preguiça. Tudo desde que acompanhado de um sonambulismo iluminado por monitores de tons azulados. Aguarda-se um suspiro ou qualquer outra forma de indiferença casual, como se a verdade estivesse presa por cordéis de marioneta. E a verdade é observar a verdade, pé ante pé, audaz no seu modo de boneca, forrada do tecido que convém ao baile e perdida no salão, ante os espelhos que esmagam e os veludos que enternecem. As meninas trocam risinhos emboscados, as senhoras sustêm os leques em atitude de concha enquanto as matronas, revelam impaciência. Serenam-se os pecadilhos de pouca monta, apenas por um travo a carne fresca. Tudo gira à volta de mecanismos estudados em pormenor e projectados só para esta noite. Uma câmara, estratégica num pulsar milimétrico, capta atmosferas em vez de imagens. Pretende-se transformar veias em artérias. Imbuir o sangue de sabor. Repetir à exaustão, as seduções e outros subornos. Selar com prazer, os nãos, os sins e o talvez; mas apenas quando este for indeciso.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"