agosto 31, 2007

11:47

Entre o lentamente e o necessário, os meus olhos vão-se fechando. Num absurdo de sol lá fora e luz eléctrica acesa, o pó por limpar, antecipações à espera de um esforço final, papéis que dobram a sua importância cada dia que passa e compromissos que se vão cumprindo sem o rasgo final, tudo gira à volta de células que se atropelam. Decidem-se direcções e nunca se sabe por onde começar, mesmo quando o óbvio se senta muito calado e atento defronte dos olhos. Num mesmo tempero, a imobilidade, pitadas de objectivos, um cálice de licor agridoce e um permanente fio de procurar as coisas nas novas prateleiras, mesmo quando nem sequer sairam da loja. Mesmo quando ainda não se conhece a loja.
Aumenta-se o que deve manter-se pequeno, os rios tornam-se ínfimos, o sol troca-se por qualquer luz eléctrica e nunca se retira a água limpa do poço. Os copos de água repetem-se turvos e as manhãs não passam de blocos de cimento que alguém colocou apenas porque sim, ou por ordens superiores, mesmo quando inúteis ou ridículas.
Deus continua a divertir-se com o seu humor negro, o diabo ri a bandeiras despregadas e todos os outros, os que valem a pena, esqueceram o gesto do sorriso.

Ao som de The Bolshoi "Crack in Smile"

Pausa actualizada

Se o seu dicionário discordar, deite-o fora... com desprezo.

Ao som de The Polyphonic Spree "Hold Me Now"

agosto 30, 2007

Pausa


Querer, sonhar, desejar, reagir e estar, têm rigorosamente o mesmo significado.

Ao som de The Stone Roses "Made Of Stone"

Palavras de todos os dias

Um café e o valor do cheiro que não se paga. Um sorriso sem ter que ser, mas que é porque esta lá. Um encontrão e um desculpe com resposta. E os dois estão vivos, não se conhecem e aceitam-se no pedido e na resposta. Alguém sentado no muro, à espera ou se calhar só por estar ali. A barba por fazer e mesmo assim os olhos franzidos ao sol e à manhã. A esquina e a seguinte, o passeio sujo, as ervas nascem entre as pedras de calçada, as paredes cinzentas, os carros estacionados sem geometria, alguém que passa e outro e mais um, além. E mesmo parado, a vida passa com o tempo que se inventou e não serve para nada.
E por querer a pausa, tudo à volta se torna mais lento, o movimento ao longe já não conta, o bem e o mal não significam nada e apenas o momento, aquele que está ali, ao alcance da mão ou do coração, significa o que é importante.
O resto, é com deus ou com o diabo.

Ao som de The Soft Boys "I Wanna Destroy You"

agosto 29, 2007

Talvez 17 músculos

Repetem-se apelos, esvaziam-se gavetas para se encherem logo de seguida, alinham-se as gravatas e em cada mão uma garrafa para o acordar lúcido de cada pesadelo. Eis o mote.
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.

Ao som de Marillion "Fugazi"

agosto 24, 2007

O melhor dia de Verão

Os olhos húmidos de um lilás esmerado reconhecem separações e justificam desertos. Nas multidões, passar por entre estacas e animais, uns à solta outros em liberdade nas suas jaulas, por muita imensas que sempre pareçam, é resolver um caminho de atrasos e figurantes empenhados em protagonismo. Ser real e já nem existir.
No final do filme espera-se a ficha técnica, e os pós de vaidade misturam-se com quem procura o nome da canção que trará o sorriso, aqueles três ou quatro minutos de uma paz que só existe no ecrã ou nuns olhos balançando no mar.
E na rua já anoitecida ou numa varanda cheia de sol, desejam-se cúmplices ou palavras, pares de trunfo teimando não surgir aos pares.
Explicar? Deduzir? Compreender?
A beleza, a ternura, a tristeza e a humidade daqueles olhos de um lilás, estão sempre escondidas em canções.

Ao som de Legião Urbana "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto"

agosto 17, 2007

Ele há coisas tão simples

Depois de dias e dias enfiado na gruta, sem sol, sem mar a perder de vista, sem sorrisos a resvalarem-me no ombro, sem perguntas banais e relógios com ponteiros nos devidos lugares, só na companhia do teclado, procuro tentativas de regresso. Mas não tenho claro o fio da meada, se calhar por não ter a certeza onde ele começa. Talvez preferisse alguns dias estendido no sofá de estimação, a roer pêssegos, ler Maigrets e ouvir todos os sons que me vierem à cabeça, por muito inocentes que sejam. E nas pausas dos interrogatórios, enquanto acompanho o velho Jules num copo de cerveja, reflectir e meditar enormidades.

... Sauver moi même... Se calhar começando pela barba (só dos lados) e pelo duche.

Ao som de La Troupe du Teatre de la Porte de Saint Martin "Sauver le Peuple (Godspell)"