dezembro 29, 2010

Dia 29

A menina encostou-se à janela e procurou na rua algum resto de amor. Seguia-lhe os passos pelo resto de passeio mesmo em frente da varanda comprida. Via-o descer os degraus de tijolo vermelho, saltar o passo de relva e correr o fim do parque de estacionamento, antes de saltar os degraus da entrada e deixar de vê-lo. Todos, quase todos os dias, acertava-lhe o meio da tarde, neste regresso a casa, lanche antes da torrada que a mamã lhe barrava com doce de morango. Um doce antes do doce. E depois, sempre sem excepção, olhava a janela de persiana corrida até a ver subir de três sacões e o saber olhando o horizonte de aviões e autocarros apressados. Sempre, também quase sempre, ligava o gira-discos e punha a agulha no princípio do disco, sempre a primeira canção do lado B, sempre à espera do mesmo minuto e meio final, prolongando o olhar, os passos debaixo da sua varanda, a persiana a subir e o desejo desse beijo prolongado nos seus lábios cor de rosa enquanto a mão lhe tocava o rosto. E sempre, sempre, antes do fim da canção, recuava a agulha e repetia o minuto e meio. E encostada à janela, beijava o vidro embaciado enquanto tocava a sua face com as mãos frias. E aí deixava-se ficar, até a canção já não ser canção, até os passos deixarem de ecoar, até o beijo só se desejar no dia seguinte. E sentia-se menina, mesmo com o contorno de mulher desenhado na janela embaciada.

dezembro 28, 2010

dezembro 24, 2010

Dia 24

Lembro-me de acordar muito cedo. Lembro-me de já haver areia da praia para aconchegar a árvore de Natal. Lembro-me de muitos cheiros adocicados, da cozinha cheia, de um certo brilho no ar. Lembro-me de uma excitação que não lhe sabia o nome. Lembro-me de esperas e uma sofreguidão de desejos. Lembro-me de sorrisos. Lembro-me de não sentir frio. E o frio passava por lá. Lembro-me que nada disto parecia ultrapassado ou fora de moda. Lembro-me e ao lembrar-me, nada disto me parece deslocado no tempo. Lembro-me e tenho saudades. De ser tão pequeno que não era preciso lembrar.

A Gôndola e a Ilha

Ácido como sabor numa previsão passageira.
Desenrolo uma écharpe comprida sobre o rosto vítreo e puro,
frio de eternos Invernos, rigoroso como a fábula.
Dos lábios dormentes e mudos, adivinho as doçuras.
Guloso, fico a olhar a morta, sem vassalar nenhum vivo.
Imóvel, acredito na palidez.
Rebusco os bolsos em busca da minha cicuta.
Verifico-lhe a natureza e engulo de um só trago.
Faleço sumariamente e dispo o preconceito.
O que restava.
Somos então um.
Violentos.

dezembro 13, 2010

Marginais correndo descalços

O que irei fazer quando experimentar aquele fato? Fazer, sim, o concretizar, o construir, aquela sensação de alcance, chuva sobre uma cara molhada pelo baptismo da manhã. Lembras-te daqueles barcos imóveis sob a neblina, aquela manhã, meia madrugada, em que o acordar cedo e o deitar tarde estavam tão misturados que nem o relógio funcionava. Lembras-te? Ainda sanes o dia? Desconfias de sábado, ou talvez domingo. Por esse cálculo idiota de agendas e afazeres ditos úteis em dias tão inúteis de manhã à noite. Lembras-te desses dias? Nunca os esqueceste? Tens bílis entranhada nas unhas, por mais limpas que pareçam. Cumprimentas muitas almas com essas mãos? Ofereces-lhes baunilhas e segredos? Deixa. Esquece todos estes fios de memória e concentra-te nessa chávena de café esfriada e no teu umbigo. Fumega? És tu que fermentas. Sabes a ócio. És doce. Um doce enjoativo, viscosamente inoportuno. Eu, ao menos, sou amargo nos dias de meio sol. É o tempero que me apresenta aos juízes e aos homens de algum bem. Não conheço os homens de mal. Quanto aos de bem, chamo-os mas eles não se dignam. Talvez por não me reconhecerem trono. Ou a falta dele.

dezembro 12, 2010

Simpatia

O primeiro passo é olhar as ruas, todas sem míngua de vontade. O segundo é apresentar-me à fauna. Deixá-la levar-me, percorrer os céus e os infernos como quem procura um cigarro e uma bebida confortável. Embelezar a curiosidade com sem-abrigos e estrelas de cinema, sentá-los a todos na mesma mesa, mandar servir o que a imaginação pedir, gargalhar alto impedindo os donos de fechar as portas e os poetas. Sempre os poetas. Impedir o seu silêncio, da mesma forma que um copo de água nunca se recusa. Prazer em conhecê-lo. A si, a todos, a ti. Gosto de me sentir seguro entre vós. Gosto do vosso toque, agridoce, pedinchão e de amor na ponta dos dedos. Deixam-me rezar um pouco? Um minuto da vossa noite? O bastante para me redimir perante os ausentes, os que me assombram os dias, recheando-os de estradas à chuva por entre bancos e loja tardias, ou de tartes caramelizadas com voz doce, ou quem apenas está, de luz aberta, conferindo-me o poder da sugestão e de lençóis aquecidos pelo seu labor. É tudo ganho. O passado, o imaginário, o sonho onde me questiono se sonho, mesmo se todos os sonhos começam à entrada do jardim, olhos no este, costas ao mercado e ao mar por detrás dos prédios, que nunca são maiores que 44 andares. Um dia serão 444. Um dia sem sonho nem olhos fechados. Um dia em que as guitarras não gritarem, os lábios não se juntarem e o fumo não se escapar por entre os dedos. Tudo tão longe, anoitecendo tão cedo, pulverizando a recordação como cenário de guerra encavalitado na incúria e em todo o charlatão vestido de farda. Prefiro-me sem travões na bicicleta que todos os fatos e gravatas que os salões fechados podem comportar. Sorrio aos uivos, aos cabelos ao vento, às senhoras velhinhas sentadas nos cafés à espera de logo à noite. Beijo-as. Ajoelho-me a seus pés e irei jurar-lhes pedras preciosas, nem que guie toda a noite para as ir buscar ao oriente. Nem que me crive de balas para as honrar. Nem que morra primeiro. Olho os dedos, a minha pele camaleónica tomando textura de lagarto, o torpor a velhice querendo entrar-me na figura. Nunca abro a porta a desconhecidos. E aos conhecidos, exijo senha. Só a mim e aos meus filhos, isento as formalidades da fronteira entre este mundo e a medusa que abocanha o trovador e abre a porta pesada da evasão. Conheço-a de estradas poeirentas, de caves onde dança o bafio, dos semáforos onde morre a gente e os jovens que não merecem sair de cena. Conheço tanto e temo esquecer-me de tudo. Escrevo. E ao escrever, exorcizo as querelas e a fome. Apenas água para ferir a existência. E o vinho esquecido na garrafa no aparador. Para que em vinagre, provoque alguma emoção deixada ao acaso.

dezembro 06, 2010

Regressos

Azuis que invejam, azuis que envaidecem, azuis pecando por escassos, azuis de água, mãos frias e essa menina sentada na areia, precipitando o meu desejo por longos pingos de chuva e anos de pele fina e riso fácil. É tudo o que fica desse tempo roído lugar, nessa areia que ainda existe, mesmo se no fundo de um mar que regressa e traz pretéritos, mas sem cheiro, mas sem rosto molhado e roupa encharcada. Agora existe desejo, serpenteares de um sinuoso dourado, mas gastou-se a inocência, essa espuma húmida de longo sabor doce.