agosto 18, 2011

Um mais um são muitos

Televisões, banalidades por repetitivas nas rádios, quilos de jornais e quilómetros de rede enrolados em discursos e comentários, opiniões longe dos temas, sofás e cadeiras, mesas de café e capuccinos, sol e sombra enquanto a fome e guerra acontecem reais em ruas despedaçadas e ombros rotos, fotografias premiadas em jantares de gala enquanto os fotografados, sentados no chão, às escuras, lambem os dedos de nada. Tudo se passa longe, cartazes empunhados e telemóveis nos bolsos, berros em uníssono e uns copos depois. As vítimas, as que importam, bebem água quando cabem algumas gotas a cada um. Sou um hipócrita. Um comodista instalado, cruzando palavras antes da hora de jantar. Sou um hipócrita. Tu também. Somos tantos hipócritas.

agosto 16, 2011

Vamos

Penso nessa "gente linda", nesse buraco debaixo de chuva onde a selva se permite um fôlego e os passos ainda se enlameiam. Nunca soube o que era viver difícil antes de aqui chegar. Nunca soube, nunca senti na pele esta humidade que não desaparece. E ainda assim, os sorrisos são dos mais bonitos que conheci. Quero sentar-me à mesa e comungar, beber do que bebem, tocar os ombros nos ombros ao meu lado e dizer: aqui estou. Porque aqui estou, sem miragens nem ideias concebidas sem pecado. Deixei-as todas no avião. Trouxe uma mochila encharcada e dentro, sem meias palavras, os restos de mim mesmo. E imagino deixar em algum lugar o resto, o outro resto. Ficará esta "gente linda" e o que de mim puder ser bonito.

junho 21, 2011

Arrependimento

Temo que o devagar seja tarde demais. Que este cansaço quando me levanto, signifique tarde demais. O dia, longo, primeiro de alguma coisa, seja demasiado tarde. Nesta sonolência, demorada, partida aos bocados, não pedaços, existem as páginas de um livro onde se morre só, de sorriso nuns lábios, escondidos pelo barulho de algum mar e algum penhasco. E nunca um suspiro foi tão, nunca os dedos afagando os olhos magoaram tanto, os ombros pesados e esse galope felino de tantos, deixando-me pregado ao chão, sem ter sido valioso nem merecer nada. Nesse esquecimento, estão arrumadas as desilusões. E ao chamá-las, curvo-me ao seu bom nome.

junho 17, 2011

Ar re-respirado

Deste lado da rua, se este lado da rua tiver um lado digno de ser contado, como se cada lado fosse muito mais que um todo, mesmo sendo todo, mesmo estando dos dois lados, de todos os lados, olhando para demasiados ângulos, tão demasiados que lhe escapa o essencial, como se a essência fosse exclusivo de algum lado, e o outro, orfão, ali restasse, vazio, sentindo-se numa pequenez alcalina, sentado nesse chão que se suja todo o dia, se o dia amanhecer escurecido, cheio de nódoas, gorduroso como só um dia sabe ser, como só um dia carregasse a gordura que este mundo, mais que o outro, acumula e esbanja, passeio a passeio, bairro a bairro, comendo as vidas desmaiadas de quem chega tarde a casa e nunca, nunca consegue chamar casa à sua, ao seu, ao lugar, ao ninho de gravetos partidos que se encolhe para receber um cansaço esfomeado que o cansaço não consegue curar, aqui, deste lado da rua, onde pensei, onde sempre me pareceu não existir a infâmia, seja em que forma for, seja com o rosto ou as mãos sujas, dignas, deste lado da rua, chão de cada conto, de cada lado, mesmo contado e olhado, mesmo sem lado, aqui, neste degrau, com os pés no chão.

Klazz Brothers & Cuba Percussion "Air"

Ar

Sustenido, este sentimento que me faz tocar o abissal, ou então uma emoção pausada, sorvida a gulosos temperamentos, todo o resguardo onde me encosto e descanso os braços e as vontades, os quereres e toda a invenção de beijo ainda por decidir. São as tardes das cerejas, o resto dos dias de vinho e rosas, precipitados pela angústia de saber finita a claridade.

junho 15, 2011

Type O Negative "Christian Woman"

Sei que um agora nunca o será sem ti

Sitiado por entre portas pesadíssimas, metal maciço aquecido por reposteiros da mesma cor do vinho que pretendo fluido sobre a tua pele pálida, sofro do enredo de te situar na penumbra e escondida da claridade do dia. Prefiro vender as imaginações em frascos lacados, guardar em gavetas forradas a veludo verde escuro as carícias de uma violência desejada, frutos de polpas que a língua sabe dissolver, movimentos desordenados pintados por gotas escorrendo até ao chão. E nas vontades, nesses beijos contidos e pincelados, existem afagos rugidos e dedos gulosos de marcar os veios de um capricho. São estas as sinopses de realizações mortais mantidas em segredo dentro de caixas de cinzento metal, à espera de serem abertas e projectadas em algum santuário.

junho 11, 2011

Cruzar a perna como refúgio

Lembro-me e insisto nesta condição. Para me situar, uma sede intensa, motivo irreflectido em que dois chocos ao almoço e alguns desajustes de batatas fritas colhidas em travessas alheias, mais duas mastigadas de carne com demasiada gordura, um café aguado e dois copos de água, são peões de xeque mate ainda por definir. E calor. Muito. Prolongado. Para me situar, ainda mais, uma compra tardia de talho aberto a horas de sesta, algumas garrafas de água depois, dois dedos de conversa e um copo trazido à socapa, entre pinceladas de tinta a escorrer da varanda retocada, anúncios de discos a preços de saldo, notícias a metro e duas pedras de gelo. E em tanta situação, uma canção de décadas atrás, repetida em teimosia e saboreada como cerejas. E entre canções e flashes de manhãs amorosas, lembro-me e recolho alguma frescura de minutos dispersos no tempo, muitos para se colarem e de bocadinhos irregulares de papel, refazer uma página que fosse. E lembro-me, das bolachas belgas depois de amolecidas, de uma tarte dominical quando ainda não bebia café, de um sol rumo ao poente quando as tardes demoravam. Lembro-me, quando não havia segunda-feira sem antes o domingo ser domingo. E lembro-me de a dois passos, se responderem perguntas de Reis, de mais dois passos, se aninharem duas gerações e de tão femininas me deixarem inseguro e reconfortado. E de lembrança em lembrança, um motivo de sofá preto, fumo aromático e uma bebida de âmbar, tudo coisas tremendas que os outros comungavam e lhes conferia a paz acomodada de uma tarde sem poente à vista. É destas confrontações que se constrói cada minuto lembrado. Lembro-me, claro.

maio 25, 2011

Olhares

Inocente
num passeio meneado
sob as árvores,
num percalço próprio
e indigente,
entre esquinas
e caninos
por um sabor
enriquecido
a graduações
de prazer.

maio 21, 2011

Vela

Turvar-te o olhar
como se o coração
perde-se o lugar
e a tranquiliadade
que ainda consegues,
ficasse arrepiada para sempre.

Nos olhos, o rio

Perdido em nuvens ou algodões de mesmo carisma, exponho-me ao longo de canções e dores epidérmicas que não se renovam só porque sim. São ruas, motivos de conversa, chávenas de café fatais, como se a seguir a alguma coisa viesse algo. As prateleiras deixam-se ao mofo de garrafas esquecidas pelos donos que morreram ou já não saem de casa. Na praça cada vez menos passos. Na viela, a que sobe e desce e naquela esquina tinha aquilo, já não nascem acontecimentos. As coisas pararam. Mantêm-se quietas. Talvez por não se encontrarem onde se procuram. Nesse guarda-fatos, esse que tem alturas de castelo, ainda se guardam caixas verde escuras com veludo dentro. Estão vazias. Nunca o estarão. E os ossos, por muito que se transladem, voltam e dizem coisas de assombrar. Dizem mesmo se já as ouvimos mil vezes. No andar de cima havia um alfaiate, e as luzes ficavam acesas até tarde. De manhã, acendiam-se cedo. Na igreja ouvia-se o relógio aos quartos de hora. E se o nevoeiro chegasse, avisava-se. Descia-se a ruazinha estreita e a cada passo, o cheiro a mar. Morria-se, talvez se nascesse, ouviam-se gargalhadas e coisas sérias, comiam-se frituras de peixe. A seguir aos domingos encontrava-se uma segunda-feira de outra cor. Aconteciam e acontecia eu. E no Natal, havia frio e coisas onde pousava os olhos. Ainda os sinto.

maio 14, 2011

The 13th Floor Elevators " You're Gonna Miss Me"

Nunca precisei disto

Já agora, para onde foram todos? O palco ficou vazio e deixaram-me com alguns doces nas mãos. Para onde foram todos? Será que sentem a minha falta? Sentem a falta do palco? Eu estou aqui, no palco vazio, as câmaras ainda funcionam e as luzinhas vermelhas continuam vermelhas. Sinto a falta de mim. Aqui no palco, sozinho, longe de casa, mesmo se for ao virar da esquina. No caminho comprarei cervejas e bolachas de água e sal. Beberei a primeira sentado nos degraus do alpendre. E continuo a saber cantar a canção, aquela que serviu para me expulsarem do paraíso. Continua na minha cabeça, raivosa e terna como um gato. Sentes a minha falta? Não?

Ritmos loucos

Já criei fogos fátuos pelo prazer de encontrar raposas e meninas de caracóis de oiro no mesmíssimo caminho. Sento-me todos os dias na encruzilhado dos quatro caminhos. Um nunca o chamaria caminho, apenas o modo de chegar onde quero. Outro, o da direita, como se só houvesse uma direita, é preferível numa determinada direcção, como se uma evasão obrigasse a sentido único. O terceiro, só me serve, e ao mesmo tempo, não me serve de nada. É a terceira parte de uma lógica de alguns dias do ano, oficial emenda de uma oficiosa ociosidade ou talvez olhos brilhantes em estado puro de ser pessoa. O que sobe, sobe ao céu. É o quarto de brincar da vontade e dos discos guardados para um dia especial, como a espécie de ser hoje possa ser adiada e vertida em gotas num copo de um qualquer elixir que só serve de branqueador. Tantos que, tanta forma oblíqua de chegar ao ponto, esse centro do mundo, a conversa fulcral de um dia de calor onde fútil é o dogma da vida. Deito-me na relva, olho os ramos hesitantes na brisa e descubro que a única hesitação do mundo se guarda no meu coração. E talvez nesta mania de não me sujar de relva.

Ética

Sim. Proponho as premissas de tardes de calor e sombras indicadas por doentes psiquiátricos, aqueles sempre desejosos de desejar, aqueles que oferecem sonhos em troca de um cigarro, como se as ofertas fossem sempre de um só sentido. Conheço-os, bebe com eles, ensinam-me o meu lugar à mesa, acima de todas as coisas, sabem morder e reconhecem o caminho e a estrada quase sempre pela mesma ordem, são humanos, pelo menos mais que os humanos. Sim. vejo-os rondando a minha porta, vestem cores sem paleta perceptível, desconhecem os caminhos dos museus e dos bares de música punk, viajam em primeira classe convencidos dessa superioridade temporária e copos bem lavados. Sim. Não os reconheço das enfermarias nem sequer dos bancos de jardim. Dão-me vontade do próximo gole e da embriaguez na próxima estação ou na estação seguinte. Sim. Frente a frente, de um lado o doente psiquiátrico, são e objectivo, do outro, a mole humana de uma humanidade barrada a código. Sim. Escolho um dos lados. Escolho sempre.

abril 24, 2011

Forever more

Começar assim, nesse tom propositado de demência, onde me desmaias e me reanimas com o corte profundo da tua voz. Prefiro-te num corredor de betão, um túnel abandonado de algum sistema de comboios, desactivado por alguma guerra, onde me premeias com alguns dos teus passos de dança. Puxas-me para o círculo estranho da tua vontade, cada milímetro feito de carícia e arranhões, as faces que se esfregam num remoinho de vontade absurda, o apetite rasgado de um ramo de flores, pétalas mastigadas e cuspidas sobre os ombros nus, o resto de algum vinho escorregando sobre o peito como se cavalos corressem em círculos. Liberto-me de doçuras cobertas de canela e o meu hálito sabe a prolongados efeitos de embriaguez. Digo-o gentilmente, como quem declama uma quadra escrita por uma criança. Sinto-me divino, e digo-o sem honestidades. Essas caricaturas de franqueza não têm lugar sentado neste salão de baile. Só confio em mãos empunhando copos tingidos de escuro, esses rubis que aprenderam a entregar-me o mundo em sorvos banhados em sorrisos. Aprendi com o teu grito final. Aprendi a ser paciente. Espero esse momento para te puxar os cabelos e olhar-te os olhos. E beber-te até ao fim.

abril 19, 2011

Type O Negative "Love You To Death"

Puro

Levanto esse véu, curiosa forma de velar a inocência, protegendo a tua nudez com o meu segredo. Escondo-me nas sombras das aves de rapina que te anseiam cada bocado. Nelas desmaio o vagar de te percorrer. Olho-te a cada centímetro, deixando esse rasto de pulsação na pele alva. Do teu rubor crio dogmas, na esperança divina de me alimentar com a tua alma. Na transparência deste momento toco o sublime ao desejar-te. Um desejo rouco, fruto do animalesco respirar com que te venero. Morro ao suspeitar a plenitude que possuis. Ressuscito cada respirar no teu peito.

A batuta está roída na ponta

Soam tesouras periclitantes num embuste de cinéfila desilusão. Ao piano, veludos precipitam todo o vagar de soirés, fraques roídos pela presença de arquiduques, lama transbordando os copos boémios de fragilidade óbvia. Eu, sentado no banco dos reprováveis, observo tudo com gula. Nos dentes sinto o freio de dias sem refeição, como se de mendigo apenas a fome. E de fome, construo os diagramas da génese. De sede, conheço o meu sangue. Espesso, frutado. Olho, reviro os globos feitos lustres, cedo à patética cor do meu ventre. Obeso me confesso, porque carrego a vida de outrem, feitos reféns os restantes em torno da minha majestade, título efémero, coisa pouca, fiel depositário de uma dinastia fértil e pegajosa, não fosse o meu único antepassado, rastejante e divino. A noite parece ter o fim que merece. Levanto-me numa pantomina sossegada. Componho-me, perfilo-me, marco o passo pelos burgueses, donos do teatro, e saio da li para fora, respirando fundo o meu fedor. A vós a vénia. A mim, a carótida.

Contraponto

Porventura saberás as ruas e os degraus? Quem se senta e em que cansaço resvalam o dia? Os sussurros que uma sede inusitada pode provocar, as certezas presas ao chão, tapadas por vigas enlameadas, passos de sapatos com a pressa de quem sabe a sua morada, dos tolos que acreditam, das eternas curiosidades em becos escuros, sujidades, cortesãs gastas em posição de lótus. Sabias que as esferas e as arestas foram inventadas por imperadores subjugados ao bocejo? Que as noivas e os poetas sofrem do mesmo mal? As sereias continuam o seu sono, embaladas pelos trejeitos subtis de caixas de música com voz humana dentro. Porventura saberás os gemidos nas cadeias? O choro contido de uma cadência? O dia e a vontade de outro dia, senadores disputando o lugar ao altar, velhos de olhar apagado imitando cegos. Sabias a certeza do teu criador? Esse artesão de mãos longas esculpindo cada ruga e desenhando os sorrisos à beira do precipício, cada hora morta puxando-o para a lápide. Sabias o pianista, lavrando e colhendo as tempestades do seu ardor? Suspiras porque entendes o que te digo, e em cada suspiro, nesse mesmo suspiro, as histórias, as curas, são gavetas de mundos redondos. Os mesmos que à noite, da janela do teu quarto, riem e troçam por depois da noite haver sempre manhã.

Fuga

Conheço este motivo
e o estado de sitiado
agora que,
mostrengo,
sei as linhas
e os doutores
que decidem o meu andar,
a forma com vejo as coisas,
os abraços
e os dedos,
abertos e mentirosos
na férrea ilusão
de algures,
o hábito
de saber rezar
antes de comer com ardor.
Serei
porventura um bicho,
desses que se movem nos jardins,
alheios e atarefados
num desdém
por todos os deuses
e livros sagrados,
curvados em vassalagem pela terra
senhora de mil sóis,
embarcação de viúvas
desejando o mal
a quem viu a derradeira pedra,
o sinal da cruz,
o propósito de parecer grande,
muro e moinho
de mão estendida,
essa que dorme ao relento
e prova a agrura,
sempre
e em todo o tempo,
chuva miudinha que lacrimeja
num ódio de jamais
encontrado à beira do caminho.

abril 04, 2011

abril 03, 2011

Dúvida existencial

Lembro-me de tudo. Dos saltos, da cadeira girar alguns segundos a mais após a saída, o compor da saia com quatro dedos, a hesitação entre esquerda e direita. Lembro-me de pagar a conta e não ter hesitado. Lembro-me de obrigar os meus passos a cadências alheias. Lembrei-me sobretudo de uma canção que nunca pensei gostar. Mas estava sol e afinal gostava. E gostava sobretudo de um certo movimento horizontal antes de cada passo. Senti-me tão fútil que não consegui reprimir o riso. Será isto a felicidade?

abril 01, 2011

Thomas Dolby "Radio Silence"

Rádio silêncio

Limitar os danos sem ferir qualquer alma cadente, é o aviso que se pode ler à porta da surpresa. O telefone toca e algures um concerto com guitarras e sintetizadores passa pelos desprevenidos. Comprei uma vez num antiquário a vontade de ouvir demos de canções. Descubro-lhes os panos que as tapam, e por baixo dessa fina e crocante placa de caramelo, o creme que me adoça. Ora, tudo o escrito pode não colar, nem ser a guarnição perfeita para o Wellington, mas a baunilha, afinal, casa qualquer manhã de sol. E das outras... As murchas ou as cor de hortelã. Logo, a lógica serve-se em fatias finas, de corte italiano, eu que me prometi pastrami e faltei à promessa. Já o tinha feito com cachorros e hamburguers, e halls art déco, como se as juras fossem cobertas por açúcar finíssimo, o pó de Pirlim Pim Pim dos sentimentos infantis. Longe é uma palavra tão longe, mesmo se em cada aeroporto existam destinos como gomas em compartimentos transparentes. Prefiro as cor de laranja, por essa mesma razão: cor de laranja. Tanto pode ser um pequeno passo para a estrada que termina no fim dela própria, porque sempre lhe conheci vida própria, e aqueles tufos de ervas abanando ao vento, tanto de manhã cedo como ao fim da tarde. Perdi a conta às vezes que chamei este canto perfeito. Sempre convencido que não o era, e por isso mesmo, perfeito. Cheguei a morar ali. Agachado na areia, encolhido de encontro a uma duna. E fui soprado por esse fio de prumo, nunca vertical, que tem filamentos de felicidade. De toalha presa ao pescoço e volante nas mãos, como se adulto fosse a criança para se ser.

março 30, 2011

Anne Clark "Full Moon"

Agridoce

O homem na lua, sem o ser, sem o parecer, procura a altitude com que se compara aos deuses, esses sim, peões de vigarice levados à potência pela simples atitude de serem uma invenção humana, esses humanos que não acreditam na espécie que se esfuma na selva onde se afundam em lodo cor de rosa. Leio os jornais, as revistas de edição fácil, ouço e regurgito os comentários ininterruptos, as colunas de opinião, as democracias em tempo útil, nas gargalhadas dos que bebem e esperam a assistente para os levar ao confessionário. Sou um sem-abrigo, tenho cama e calor. Sinto-me só, na medida do desejo de prolongar. Sinto frio e tenho as costas doridas. A lua já desapareceu e eu continuo a vê-la e a falar-lhe de amor. Um amor que só eu conheço. E, num paradoxo milenar, não o ofereço a ninguém.

março 27, 2011

Under Electric Light "Wintertime"

Chuva e inverno fora de horas

Tantas letras, palavras inventadas por algum mistério, se mistério fosse a palavra certa para assombro, como se electricidade fosse uma cor e as laranjas apenas barras de arco-íris. A minha voz permanece quieta, sem saber se mudez é opção, por opção se compreender uma ou outra, verbo significar algo a acontecer e as refeições terminarem sempre com o copo de água de toda a chuva que se insistir sentada e absorta, no tempo e na tarde que nunca convergem num relógio por se tratar de uma jóia ou até comida de animal. Lembro-me dos porcos por serem pétalas e o engano, tão comum nestes leitos de água sem sono, de se oferecerem em ramo ou simplesmente serem mastigados. Confundo sempre, sempre por se tratar de algo continuado, riso e sorriso, será por fazerem parte um do outro ou serem, por existirem e serem vistos de noite, complemento como um casamento precisa de duas pessoas, se pessoas forem as que sei ver corar. E no fim, provavelmente por todas as estradas acabarem em algum sítio, no caminho, entre as ervas, por se considerar caminho onde há ervas e assim o abandono também é ponto de passagem, há um que. Que se mexe e se torce, entalado na garganta ou atravessado na abertura de um muro, seja escama ou animal empalhado, um que, que entope e encrava e se atravessa pois vive na configuração de ponte e alívio. Tudo, se a lista estiver inteira, se move ou mantém-se imóvel, pela simples, talvez nem sempre, lógica, quero dizer razão, de eu saber olhar, mesmo se não souber o que estou a ver.

março 26, 2011

Bette Davis Eyes

Relevo debaixo dos lençóis

Conheces o espaço que te encolhe, aquele canto de gaveta longo enquanto esse escorregar entre traves e esquadrias, caprichos de carpintaria onde o artesão é afinal letrado e único barómetro de realeza, tão real é o seu pecado, essa soberba de lentas lascas, violência suprema de mão certa e dogma enrugado. Sei que me reconheces, a mim o inútil, esse violador de lágrimas alheias, o primeiro na fila a sugar o instante de quem o teve. Alimento-me do roubo, abano as barras do que é a prisão que me contém. De cela em cela, perdoo-me estirado em lençóis escuros, luxúria de sorriso apertado com um cinto de cabedal antigo, odorífico o bastante para me aceitar o castigo. Encho-me de dor escondida debaixo de qualquer sofá de inquietação, forrado a vinho. Conheço-te na face que reflectes no copo. Sei que és tu. Reconheço-te mais do que te conheço. E basta o paradoxo para proferir as certezas, pelo menos deste mundo. Gritavas sempre que te pegava ao colo, talvez por tresandar a solidão. Porque me torturo todas as noites antes de engolir o sono? Maturo cada sonho e descasco-o com vagares de Verão. Preferes ver-me de longe, com o choro nas palmas das mãos? Serás assim tão perfeita? Serás uma? Serei um? Serei, sequer?

Lábios cor de...

Os estranhos habitam a meu lado, dentro de mim, no rebordo doa lábios que utilizo para os beijos. Não sei beijar, desconheço intenção e técnica artesanal. Sei algo de artista, apenas no segurar do copo e ver o vinho escorregar lentamente pelo vidro. Nem o rubi me atrevo a avaliar. Aceno com amizade ternurenta todos os ph ferozes e flácidos. Juram-me amor eterno e subjugam a paixão, mesmo se demorar um momento. Nada será devagar. Prometo. Será que ainda sei jurar?

março 13, 2011

Eles erguem as nossas cidades

Construir, constituir, levar o alto até nada ser mais alto, proteger, reciclar. Preferir, atingir, sonhar em democracia, alimentar os ismos e em janelas panorâmicas ousar e ficar sentados à espera de algo acontecer. Motivar, receber, obedecer às traves mestras e conhecer todos os ângulos e arestas. Prever, emudecer, testar as moléculas e todo o adn que se puder agarrar. Idealizar, ver o futuro pelo telescópio, crivar de balas, vender a alma, apodrecer, saborear ostras e finas lamelas de pato lacado. Convencer, rezar, tornar papisas todas as maternas formas de vida. O erro humano julga-se uno e dogmático. Porquê arremessá-lo à parede? Existe o risco dele não escorregar.

Bordel

Violência velada nessa voz de fatalismo e meias pretas de rede, enquanto os machos se perfilam para a pose inicial. Dissimulado, não pertenço a qualquer tribo, vagueio nos territórios dessas feras motivando os ódios que me seringam energia. Tenho os caninos gastos, a lua já não me conhece, o preto que vesti tornou-se amarelado. Porém, o brilho nos meus olhos mantém-se o do primeiro dia. Vivi no século errado. Sei-o desde sempre.

A face de outro recém nascido

Parto para o amor, para esse fulgor de ser vivo, mais do que estar. Agito este meu corpo cansado à cadência desse poder no escuro, onde ser cru é manter vigilância. Não importam as pausas, convertem-nos à divindade que descobrimos em becos pintados de negro. Hesitamos entre o grito e o berro. E essa dúvida por respeito ao momento. Essa criminosa gota de água que só se bebe uma vez.

Dia seguinte, manhã atingida pelos filamentos fundidos da noite que a antecede. Cada dia é decidir o seguinte. Se, seguinte. Tudo parece mais pequeno, menos formal porque aqui também existem beijos e abraços. Uma chávena de chá frio, o pão que alguém deixou por um encolher de ombros, a medida de subtrair o credo, a lembrança de uma casa algures, um céu diferente de cinzento. E nesse mais, ou algum, o poder efémero de se ter alguma carícia.

Indiferente, fecho a porta deste destroço, desço as escadas destruídas por anos de inércia e junto à entrada esqueço-me de todo o antes.

Ética

Já. No fim de todas as vielas vazias de desgraça, garrafas desgarradas por todos os chãos que pisei e preferi aos lençóis e cobertores do albergue. Gritei, por ti e por todos os que vi perder a razão, asfixiados em tudo o que é longe e alto. Cometi crimes, reneguei um passado que decidi reescrever, saltei por cima de bancos de jardim, apenas para fugir à velhice. E não paro, não me sei vencido, persigo as palavras das canções, escrevendo-lhes sempre um verso mais. E no arrepio, no vento que me molha a cara, cultivo esta pretensa alienação. Para estar vivo no momento em que declarem morto.

Por tanta fé que encontrei

Recebi um encanto adivinhando o jardim e o labirinto, entardecer sereno de todos os mansos que herdaram a terra, a de alguém, a que ficou perdida em ruínas de falta de querer, lonjuras desses lugares pios onde se altiva o saber, orando a horas certas, quando certa é a ceia e mais nenhum nenúfar. Nessas pedras onde se repousa a penitência, já ecoaram queixumes e cordas de pescoços vincados. Já existiram dias e noites, hábitos e pachos de medronho, olhos piedosos de soslaio nas torres da indiferença. Os peregrinos sabiam o meu nome, o meu bordão, conheciam os brindes que fazia noite alta, a quem ofendi e os hereges que queimaram em meu nome. Viram-me abandonar o poiso, e de longe acenaram-me para que me voltasse e retribuísse. Nunca o fiz. Preferi perder-me nos trilhos que me levam ao mar.

março 12, 2011

Antes de outra coisa qualquer

O amor espera-me
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.

Profecia

Mais e sobre-humano
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.

O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.

O amarelo será sol para sempre

Tudo em vagas de todo
surgindo ao longo dessa rua estreita
vago relance do mar acabado
repousando nesse recanto
onde nessa escadaria
respaldo a espera.

Já não é hora de véus
nem os fantasmas
se querem em formas de ar
porque as razões
e as atitudes férreas
não se vestem de cores naturais.

Restam os motins
a crença falível
de abrir caminho a golpes de espada.

Sobram os motivos
as árvores pingando
os remoinhos sacrificando sereias.

E do fundo desse mar revolto
encerram-se torres de menagem
por todos os cavalos
que a rainha hesitou tomar.

A verdadeira primeira vez

Delicado em torno dessa romã e beringelas que adoçam os sentidos, esses demónios de freio nos dentes replicando a norma e o amor por coisas acima da ideia. À deriva com os olhos em forma de ouvido, o fato de explorador sobre as gotas de suor, o jerrycan de gasolina ondulando de octanas fartas enquanto o senhor de fato caqui abana notas de banco na esperança de conseguir alguma atenção. São sujas as guerras de diamantes e as do amor. Revelam o ínfimo como se o quilate servisse para alguma coisa. As areias do deserto ocultam os odores e os corpos perdidos em batalha, danos colaterais que nunca o são realmente, pela angústia, pelo remorso e nessa mentira chamada adorno. Tudo parece complicado, enredado em fios de cobre e beijos furtivos. E todas as canções deste lado do mundo falam de crianças dormindo com anjos. E nessas palavras, todo o segredo do lado de cá da duna.

The Cure "Primary"

Estuque

Sei todas as coisas que o prazer pensa. Sei por uma noite quase manhã, à beira dessa ponte de salto fácil, junto a tais candeeiros dourados, culpa sombria ao alumiar assassinos e poetas. Sei ignorar os sinos quando me chamam para a culpa. E sei se a vergonha me atrasa os passos, ou quando a porta de fecha antes da minha estocada. Sei em cada possessivo meu, em cada mentirosa minha, todos os filamentos que fragilizam cada dia. E sei todas as orações e todas as blasfémias, talvez por se lerem na mesma página. E tarde, já tarde, percebo então o limite e o acolhimento desse sorriso roubado. Tão tarde que as razões já se encontrarão exangues.

A primeira hora é sagrada

Ao longo dos meus ombros que se escondem da noite, ordeno aos meus dedos que se apressem. Temo a resignação, o poder da biologia ou desse espírito mortal que se empenha em fechar portas e recusar as asas da discórdia. Fora do silêncio existem oscilações, o perigo morno dos compassos, os veludos revelando a pele alva do pecado. Por dever a desses demónios sento-me ao piano, derrubo os castiçais e mergulho no copo de vinho como se a minha morte fosse requisito. São passos e vestes longas roçando o chão, são as concubinas de todos os cardeais devorando cada página onde escondo poesia. E nesse imóvel cárcere de ametistas, reconheço o meu carrasco. Acena de longe com um lenço rendado, cioso de cada gemido e entretido na gula do meu sangue. Devo-lhe a vida e por isso, ironia das ironias, limpo-lhe os sapatos e cuspo, para lhe avivar o brilho.

Tudo por uma visão do outro mundo

Dias aqui, em tons turquesa, em polvorosa por todo o encantamento e desencantamento de todos os dias sem desgoverno, dias onde se procuram pepitas e mesas de café onde se esquecem o relógio e o clima, onde o velho se encontra humano e limpo de inquietação. Todos os velhos e as crianças são levados por criminosos de gravata escurecida pelo esquecimento. Ou então por não se lembrarem de terem nascido. Não se lembrarão de ser velhos, por culpa de uma velha mãe que não os soube afogar no rio à beira da próxima curva. Dias de rapina, processos onde pássaros tentam explicar que sabem voar. Os descalços metem-se a caminho, há sempre um fim de terra algures, um fim de estrada rumo a uma costa onde o passo em falso não merece perjúrio nem cicuta, onde os pecados os levam o vento. Todos os comboios, todas as chávenas de chá, todos os poetas e vendidos se mascaram, há divindades em todas as janelas, das varandas jazem enforcados e cambraias, curiosa encarnação de recém nascidos, onde cada cordão umbilical é nó de pescador e certeza de penitência. Dias de espanto, de vinho e rosas, dias de axioma por não se conhecerem as variáveis. Na cozinha preparam-se manjares nunca vistos. Serão paladares improváveis, mais cordiais que uma abadessa fiel. Serão dias de fartura, cornucópias pejadas de antigas formas de ver o dia. Será o dia da reconquista. E se morrerem multidões, comeremos croissants às varandas, atulhados de açucares e banha, o bastante para pregarmos a bem-aventurança. Dias aqui, à força de chicote, ao bater o coração terno de uma donzela.

O céu, aqui

Há uma chuva por cima da muro,
perto do oceano,
longe do destino,
cama de areia que me veste,
que te embala,
motivo para sentir
mão na mão,
credo na língua
e visitação de algo nobre,
perdidos na costa,
por cima do muro,
crivados de balas
enquanto se cantam profundidades.

Há uma chuva por cima do muro,
o bastante
para se agitarem bandeiras,
todos os panos
de todas as agitações,
batalhas forjadas
em beijos colhidos no centro da tormenta.

Há uma chuva por cima do muro,
por saber
e imaginar,
que ao longo do cais
existem todas as chuvas do oceano.

março 03, 2011

Vocal

Pertenço a uma decisão ou no melhor pano, a um entendimento. Ser e admitir são premissas, factos reais de um documentário onde um regador é muito mais do que parece. Conhecer como verbo é manifestamente fraco. Ínfimo por não deter os desejos de mil noites, ou fins de tarde que me são unha com carne. Sei o que pretendo escrever, com que livre arbítrio e quais os tubos de ensaio a sujar. Sei até quais os reagentes. Sei a cor do cabelo e da demora. Sei até onde chega a avenida e que marés se devem esperar. Com todos os cerimoniais que me fizeram voltar aos lugares, construo camadas cortadas com a precaução do papel. Não é a fome que deve ser saciada. Não há lugar aqui para alimentações rotineiras. O sabor é ministrado em doses que só os amantes entendem. E amante é um desígnio difícil de alcançar.

março 02, 2011

Ladrões como eu

Fumo, bebo, mordisco e mastigo, olho e observo, saboreio, sorrio, apercebo, ouço, arrepio, sinto, distendo, escrevo, durmo, permito-me as ideias do universo que ouso conhecer, sugiro-me as imaginações que me fazem um todo, firo-me nas impossibilidades que me torturam, nado entre as elevações de carácter, acrescento lâminas e morangos aos saudosismos com que cozinho plebeias solenidades. E em redondeios, porventura inusitados, faço surgir rituais extremos, mesmo se renego papas e importâncias, meras tolices que me servem de adubo, quando decidir lavrar o resto dos meus dias.

março 01, 2011

Sugar Kane

Lamento rosas e ramos ressequidos por deixar os elementos regular os passos e todos os açucares deste mundo. Escolhem-se títulos, etiquetam-se os amanheceres e as noites tardias, como se não houvesse um fio condutor entre ambas. Abre-se o frigorífico e os dedos gelam. Estendem-se os dedos ao sol e recupera-se o morno de um nascimento ao fim da tarde. Devia-se construir uma rua entre as maternidades e os cemitérios. E depois... E depois, cobrir o asfalto com terra fértil e adubos naturais. E depois... E depois, cresciam fios de relva onde cada tom de verde seria um arco-íris reinventado, onde os meus filhos se sentariam. Onde me sentaria com os meus filhos. Onde, de sorriso aceso, confessaríamos amor eterno, como as paixões dos livros e das histórias de lenda. E sempre que me picar num espinho de rosa, recolheria essas gotas de sangue e regava a relva com ele. Até as rosas se mostrarem tão vermelhas como a minha relva.

fevereiro 28, 2011

Public Image Limited "USLS 1"

Terrorismos e outras formas de arte

Viajamos por decisões que a tecnologia tomou por nós. Deslocamos as pedras sem esperar pelos rastejantes que nelas se ocultam. Quem descola as pedras onde nos escondemos? Olhamos em volta de ouvidos muito abertos e deixamos cair os ombros. Há quem rasteja à volta dos nossos pés e viva em pedestais de quilates que não sabemos sequer imaginar. Dizem-nos as regalias das austeridades e do esforço comum. Ensinam-nos palavras compridas e se procurarmos em todas as bibliotecas de Alexandria, não encontramos significados, só poeira que insiste em não assentar. Somos informados de cada morte, de cada disparo, de cada edifício que se desfaz por uma natureza cada vez mais artificial. As canções, já nem os nomes decoramos. As senhoras e os senhores que nos matam todos os dias também têm filhos e filhas e animais de estimação. São senhoras e senhores que matam os seus próprios filhos, que violam as suas próprias filhas. São senhoras e senhores que convidam outras senhoras e senhores para jantar os seus próprios animais de estimação em fricassés complicados. Somos proibidos de decidir. Não conhecemos o dia de amanhã. Sabemos apenas que cada avião irá aterrar se a decisão de alguma senhora ou senhor coincidir com o horário previsto. Senão, o capricho chamar-se-á atentado.

fevereiro 27, 2011

Bohren & der Club of Gore "Prowler"

O café fica para mais tarde

Na teoria esta escrita devia ser nocturna, da mesma maneira que acendi um fósforo com o isqueiro à beira da mão direita. Como este detalhe que seria desenfreado se a pressa me manobrasse a tarde. E não manobra. Insisto em fumar estes cigarros de puta como se quisesse sentir alguma coisa nova. Perdi o hábito de fumar cigarros, trocando-o por outro mais subtil, e lá voltei, mesmo que a espaços, nesta bizarria de cigarros finíssimos no lugar de Lucky´s. Só gosto de cigarros de filtro branco. Aquele castanho no mesmíssimo sítio onde é suposto fechar os lábios mexe-me os nervos. Ou sobretudo a estética que me define cada prazer. Gosto dos primeiros instantes de um cigarro mal apagado no cinzeiro. Depois, enerva-me. Gosto da lentidão do primeiro fumo. Gosto desta penumbra. Não gosta da palavra. O p não deixa filtrar essa claridade aveludada que se entranha nesta calma escurecida. Há tanta nuance em cada gesto ou memória. E esta tendência inocente de levar a memória ao passado, quando afinal ela distingue o agora e o a seguir. Se estivesse no meu bairro, nessa língua de espaço onde sei que pertenço, estaria sentado à janela, num poleiro de estrangeirismo, embalado por um disco e um cigarro. Embalado por um céu e uma rua. Na oscilação de ser e querer.

fevereiro 26, 2011

All About Eve "Phased"



Acreditei nesse depois em horas mortas, onde vaguear pelo chão coberto de almofadas é prolongar uma droga sem o auxílio de agulhas ou cartão de crédito. Sei o que devo sentir ao te olhar por entre todos os adereços que me possa ocorrer. E desejar que a noite não termine é tornar-me religioso, mesmo se todas as profecias se rasguem em sacrilégios dignos de orgias descomunais, e reis sejam depostos pela simples razão de não amarem. Sinto o perigo das grandes tempestades, dos ventos que atiçam a matilha. E na doçura dos teus lábios, saber o caminho para a floresta de onde não se regressa.

The Durutti Column "Missing Boy"

Algures num capítulo

Nesse canal de barcaças em entardecer lento, a luz tem as cores que sempre li, aquelas cores que alguém me soube explicar, não a mim, mas a quem se dignasse pegar no livro e entender todas aquelas tardes e referências tardias, todas as horas em que sentado sobre a relva à sombra de choupos, mastigava a sanduiche e procurava os destinos dessas barcaças, sempre à espera que me gritassem um lugar vago para mim. Essas páginas amareladas ainda lá estão, disponíveis como senhoras idosas procurando o ainda amor dos seus dias. Mas a relva já se acastanhou. A sanduíche jaz, ressequida e mordida por algum roedor. As barcaças rareiam. Algures, sentados a uma mesa manca, ou talvez só empenada, em quatro copos escurecidos pelo vinho, os barqueiros lidam com a falta. Olham sem se olhar. Evitam gritar para o balcão, como se a culpa os consumisse em vagas de remorso. Os dedos continuam a amarelecer dos cigarros mal dormidos. Aqui ainda não existem proibições. Apenas viver mantém-se proibido. E de olhos no chão ou na manga larga e desfiada, os barqueiros repetem-se mudos a ousadia de terem nascido e procurado num canal a profecia de se sentirem vivos. Nos ombros e nos pescoços já sentem o peso de envelhecer. Os nós dos dedos perderam o vermelho vivo. As articulações deixaram a dor da corrente. Ainda os sei ver, lentamente descendo o canal, sanduíche esquecida na mão, dentes quietos à passagem desse bilhete para uma fantasia que fiz crescer tanto. Tarde, num perfeito meio a caminho da hora de jantar, quando as luzes acordam pelo safanão da electricidade, ainda me encosto ao pequeno muro e ao longe procuro algo que desça lentamente o canal. Nem que seja um livro rasgado.

fevereiro 25, 2011

Eu corro

Na eventualidade de um dia de Verão antes do Verão, existe a ponte e o azul do outro lado, uma ponte, longa de vários quilómetros, rumo ao sul, apenas porque existe um azul mais azul. E que se descubra vento. E um lugar escondido para muitas pausas. Que se tirem as canções das gavetas e se oiçam com os ouvidos de hoje pincelados por ontem. Gosto de prazeres culpados. Fazem-me sorrir e deixam-me sabores azuis e laranjas. Recorro a esses prazeres sempre que preciso de me sentir vivo. Ou pelo menos, durante as travessias de pontes, onde cada quilómetro nunca me avisa para o próximo.

fevereiro 22, 2011

SMPL

Apetece-me estar aí. Sentado num degrau de uma dessas casas de bonecas. De t-shirt, uma rebelde, de ténis envelhecidos, talvez por me fazer sentir velho, de cigarro e copo na mão. Entregue a esse remoinho de fim de tarde, nunca fim de dia, gente esvoaçante num fio condutor ziguezagueante. Quero estar aí nas mesmas atitudes que são incompatíveis, voyeur e actor, num arremesso de frases feitas desde que feitas por mim. E no copo nada mais que chá. E no cigarro, o fumo que preciso como argumento. E na voz a rouquidão de noites mal dormidas sem me empaturrarem a decisão. Sei que tenho de escrever filmes, peças de teatro onde entro sem me mostrar, sei a hora de dizer adeus desde que venha alguém comigo, sei despertar e dizer os bons dias em todos os idiomas. E se não souber, o meu sorriso falará as palavras estranhas que não sei pronunciar. E sei que devo um beijo antes de fechar os olhos. Sei e esqueço-o demasiadas vezes. Não me posso esquecer. Posso depender de isso. Sei que dependo, por muitas novelas solitárias que insisto em escrever e vender a revistas de leitura fugaz. Forram caixotes de lixo com elas e mesmo assim tenho-lhes devoção. Revestem o sangue de cor dois tons abaixo, que produzo. E afinal, esse desejo infame e insano de escrever canções é o único que nunca sorverei sedento, multiplicado por mil e decorando cada quarto de motel em capela sistina. Apetece-me e apenas consigo acender o cigarro e sentir-me longe.

Basta-me a primeira letra, talvez por ser quase a última

As coisas são estranhas, quando não as chamamos pelos nomes, se nomes têm, ou se decidimos olhá-las através do ângulo que não as favorecem. Ângulos e nomes, a geometria de uma rua vista de cima, cada pessoa passa apenas por sua livre vontade, cada bar aceita cada voluntário já de copo na mão. São 5 horas da tarde e já se vive nessa rua com as árvores suficientes para se chamar amigavelmente, bairro. O vagar veste-se de cores berrantes, sentem-se terraços ainda vazios, os risos parecem-se com sorrisos e a tarde tem o mesmo valor da noite. Existem sítios assim. Sei descobri-los. Falta-me o quase para os adoptar como meus.

Sam Taylor-Wood "I´m in love with a german film star"

Estou apaixonado por uma estrela de cinema alemã

No apetite sincero de uma manhã onde gosto de encontrar um cinzento que brilhe no outro lugar da minha cama, estendo a mão e sinto uma pele que faz da minha um brinquedo. Não evito situar-me neste vértice de idealismo, quando ser eu me precipita a histórias e linhas de ciúme, coxas que me pedem atenção e toda a corrente de eventos que me separam do limite. Sou particular neste estado de coisas, tanto quanto me seja possível preservar os meus segredos dentro da porta do meu quarto, meu e teu, meu e de quem for, na certeza de aqui tudo se manter, até a probabilidade de me mostrar todo eu, esse percalço onde me refugio sempre que desejo e concretizo as fantasias que me fazem filme e realizador. Acho que existo em sedas para me sentir veludo e tocar em tudo com dedos de egoísmo. Mais que outro verbo, adoro esta faculdade. E nela, chover e desaguar enxuto.

fevereiro 20, 2011

Doçura à base de farinha

Metia no bolso o pacote de manteiga e seguia para o pão quente. Depois sentava-se no degrau, abria o pacote da manteiga com cuidado, passava o canivete e repassava-o no pão aberto com o miolo ainda a fumegar. Lambia os dedos e a lâmina da faca de bolso, recostava-se à porta fechada e dava a primeira dentada fechando os olhos em busca desse sabor que a vida endurecida lhe escapava. Era o tempo em que a felicidade ainda tinha momentos.

A primeira à direita antes da esquina

Mas voltando à vaca fria, enfim morna, pois em mim estas latitudes não esfriam, que dizer da barbearia e dos vizinhos do lado. Que estão muito bem e se recomendam, por oposição a uma mentira que se deseja fresca e de cânones confirmados. Saiam de olhos ensonados e mãos arrefecidas pela friagem, ou então isso era na cidade grande. Confundi-me no mapa. Para norte então. Saiam sim, todos os dias, mas de mãos nos bolsos, com a confiança de uma míngua de alternativas, cientes do lugar de cada um e para o que estavam. Era simples. Um era barbeiro, outro trabalhava nos correios, outro ainda caixeiro numa loja de fazendas. E o primo que ainda era guarda-nocturno e zelava pelo sono de todos. E o oficial do exército que andava de vespa, a senhora do quiosque versada em política, um ou outro bêbado de estimação e o guarda-livros de cigarro aceso e rádio a pilhas no bolso do casaco. Muito mais que um par de vizinhos, menos que uma cidade inteira, a suficiência de um cais onde aportavam barcos de pesca e o vai e vem de tudo um pouco, onde pouco era não querer fazer parte.

Foi e volta a ser

Sobejam-me criações alheias, pedidos de casamento fúteis e ultrapassados, dogmas perdidos à beira-rio, leito de cais assoberbados, fiéis a pastos de contentores e cantores gastos de um punk antigo. As coisas já não são como eram. Mistificaram-se para o lado errado da rua. Estava à janela, depois varanda, e via-as passar de saia curta e cabelos ventosos. E era a rua, aquele bocado de bairro, segredo de cidade menor que um fósforo, afinal o meu pastel de açúcar de pasteleiro. Tão fácil, mexer no mesmo panelão sementes de uma industrial evidência e os pequenos dramas e sorrisos desse segmento de recta torcido a meio, onde pessoas de verdade existiam e sabiam disso. Hoje não as conheço. As que sobraram, se sobraram. Mas chegaram outras, tão reais como as que partiram, descendentes justíssimas das de então. E eu sei, eu era uma delas. Delego nestas o que soube e a que sabia. Desejo só que agora se aprendam sabores e se reconheçam cores e copas de árvores.

Cruel

Prevejo o fim da litigação. Prevejo os gritos de melodia depois de acordar antes de algum meio-dia, volante em direcção ao outro lado do rio, cabelo sem forma e os cigarros guardados no fundo de um saco de cabedal tão gasto, sem sabor a cruel. Prevejo a curva, os sentidos únicos, as pessoas de trabalho cubicular a troco de um dinheiro de cor lamacenta. Prevejo a ânsia e o labor de jornas impossíveis, os destinos demasiado longe onde chegar não é importante. Prevejo a luz tornar-se noite e luz outra vez. Prevejo a electricidade ao longo das esquinas iluminando-me a cama e a amante transformando-se em mim. Prevejo o bocejo e a repetição. Prevejo seringas, vómitos secos, unhas sujas e rasgões. Prevejo uma noite mal dormida, porque o sono preferiu dois quartos depois neste corredor ao ar livre. Prevejo guerras e munições, bolos a escorrer creme de um amarelo industrial, mãos estendidas por vícios habituais. Prevejo reis e rainhas, pobres de um empobrecer colectivo e comunal, partilha de misérias e uma ou outra vez de palmadinhas nas costas. Prevejo micróbios em todas as carteiras de senhora. Prevejo uma pausa, um intervalar de beijos traiçoeiros, de coxas apertando coxas, desaguares de etiqueta e humores fugidios. Prevejo acreditar em daqui a pouco, com o néon do motel piscando-me o horizonte e de chave na mão, fugir para o próximo condado ou estado de coisas, previsão tola onde crueldade é repetir o amor como uma droga. Prevejo e até logo.

Para que servem?

Os mordiscos preferiam outra hora e outro bairro, um domingo cheio de igual mas de outro recheio, de mais de alguma coisa onde longe é não estar lá. Desapontado? Não, pois o apenas não será uma única porta ou sequer o beco sem traseiras. As coisas e as ideias que as criam, não são de cor única ou sentido obrigatório. São serpentes que se mostram em terraços, nos tectos dos prédios sob a luz de domingos banhados a ocasos, esse laranja convidativo onde se resume a arte de ser e de existir. Para que servem os amigos, os comentários sem voz, as palavras em fórmula escrita sem olhos nos olhos, ou ao menos a sombra movediça à distância de um agarrão. Pedes, peço, grito por gargalhadas com sabor, rujo as horas onde todos se meterão neste mundo nove sem minutos para o essencial, sem pausas para avançar nessa rota de cumplicidades, de beijos perdidos ao longo da tarde, esse leito fértil onde margens são quando se olha para o lado e se encontra um par de olhos que brilha como o nosso. É cruel a civilização quando assenta na barbárie de ombros sem nome ou mudez adquirida. Faltam as conversas de mesa para mesa, as frases entre desconhecidos, os bons qualquer coisa seguidos de passos assentes em sorriso. Balimos ao clique do período pago ao cêntimo sempre acrescentado. Merecemos a tosquia e o galinheiro. Até o matadouro. Somos bifes cheios de gordura, cascas de algum prazer de segundos. Somos e seremos, evitamos correr para o comboio, sorvemos o café e nunca sabemos a cor da chávena. Raramente sabemos o nome da canção. Esquecer é o rumo do regime. E eu, de pé neste terraço à luz do fim de tarde que me define, silencio a vontade de berrar o teu nome. Os vossos nomes. Para que subam a todos os telhados e lembrem: que os domingos deixem um rasto de açúcar.

fevereiro 16, 2011

Ficaste à minha espera?


Como essa praia, essa que conheces, onde te abrigas, lugar de encontro, uma antiga essência de agora, músculo que compreendes sem a gaveta dos sinónimos, sem o teu nome nem a fisionomia, tu por dentro e por fora, essas gramas que alteram o cadáver, esse olhar em algo preferido, talvez determinado, as folhas verdes, o cinzento feito azul, uma luz por cima de todas as coisas, um além sem nome próprio, a pele em saliência respirando a medida exacta de ar para um coração aberto e o vento voando em todas as direcções, em arquivos de doce e sal, sorvendo o lacre de existir num momento chamado certo, tantas palavras para escolher, comboios de partida para leste, avozinhas sentadas nas cozinhas depois de serem o que são, chávenas de café e chicória para acabar nas entranhas ávidas de alguma certeza.
És calmo e terra batida, encolher os ombros aos sapatos com poeira, descrever o pulso e não saber contar, ganhar os prémios só de imaginar concorrer. Caminhar apenas por existir caminho? Esse medo de ousar por se acreditar em outro mundo. Precisas de ver, sentir as formas dos barcos de pesca, essas carcaças expectantes junto ao cais enquanto o hábito dorme. Aprendeste a seguir esse copo de vinho, acreditaste no sabor mas desconheces o seu alcance. Assim mesmo, sem tons bonitos ou sedas caras. Engoles sem saber o ânimo e a candura, a baunilha e o anil. Proteges o número de identificação que te determina o conhecimento, assinas as letras exactas da tua impressão digital e não reconheces se vives ou já morreste. Obedeces a quem? A um fascínio corrente que te ensina ou reconheces num espelho qualquer os lábios com que beijas.
É longa a crença e o vesúvio, esse encanto mordaz na tentação de ser no mundo dos acordados, um casulo de mel amargo onde a geleia é real sem o significado. Conhecer o miserável, a ladainha e a fome, ver a solidão com todas as suas cores baças e gastas, beber graduações impossíveis apenas para continuar ser sozinho rodeado de espíritos, que nunca serão fantasmas. Sentado à tua mesa, no fim da manjedoura onde te acalmaste, esperando sempre mais um mimo, um acrescento de comodidade mesmo sem compreender o conceito, aí sentado com quase tudo à beira da mão estão os abismos que as cidades míticas revelavam ao se aventurar nas profundezas do acesso. E de ti ninguém se lembrará do nome. Ninguém dos que sabem recordar, porque esses não conhecem o suspiro e o pescoço assente em linho. Vaguear tem preço. O mesmo que se esconde na compreensão. E para esse não existe câmbio. Não se conhece taxa de juro. Acorda. Tens a praia a teus pés. Pousa as tuas mãos na areia. Olhas e reconheces o rasto. Bebes os olhos. Fixas o que vês. E por entre a chuva, recuperas a razão de teres chegado aqui.

fevereiro 12, 2011

Ian Brown "Stellify"

Kalashnikov de calibre com sabor a sábado

A lista de supermercado foi escrita em papel de cerimónia. A camisa, com o rasgão no sítio habitual, permitia todos os smokings possíveis. As unhas limpas, o hálito lavado, o cabelo com a onda de um corte fresco, o isqueiro e os cigarros de puta. Na mão um cd de acordo com o tempo. A tosse rouca insistente e um tom de frio no rim do lado direito. Risos na sala, sem ser de circunstância e uma nova experiência no fundo da carteira. O dia não me prometia nada. Nem eu. Somos tão honestos.

fevereiro 11, 2011

Laibach "Contrapunctus 8, a 3"

O fim dos dias dos outros

Preparo-me e sou do tempo,
do tempo do arrependimento,
esse arrepio feito lâmina
senhora de mil empenhos,
onde me enrosco
e me entranho,
sujo e surdo de encanto,
ao ser senhor ao mesmo tempo
de um eu e outro então,
corropio escravo de ser,
e no entretanto
comer todos os animais
e em concha
beber a água do seu banho,
última homenagem
de um peão
no empenho de ser torre,
essa menagem
onde desejo o descanso,
mesmo se acorrentado
mesmo ao lado
de todo o ladrão
e demente,
judiar quem tem a chave,
e ao sol,
quebrado,
quebrar a promessa
de aquietar,
baixar a cabeça
e ser.

Tito y la Tarantula "After Dark"

Depois do entardecer

Moro à beira de uma estrada poeirenta, onde as pedras se estilhaçam nesse asfalto cor de vinho. Moro aqui uma noite por dia. Não gosto de atilhos, e desses, tolero apenas os das prostitutas mexicanas. Todos os dias compro uma marca diferente de cigarros. Nos dias que me obrigam a repetir, morro duas horas. Quando chegar às 24, irei sem azedume. Talvez agridoce, mas de sorriso e dedos em formato de bênção. Todos dias, e noites, pergunto a alguém o meu sentido. O meu lado da vida. Já consegui mais de mil respostas aceitáveis. Todos me conhecem melhor e eu minto tanto. Também já consegui duas ou três, quatro, respostas perfeitas. Foram as rodadas mais aconchegantes deste lado da estrada. As dezenas, talvez mais, que resultaram em interjeições mudas, provaram saber a verdade. A verdade, essa incongruência de fios de seda sempre em cor desmaiada. E conheço tantos mentirosos. Criativos, de camisa desfraldada, cabelos desgrenhados seja a direcção do vento. A verdade e a mentira, em copos sujos e noites compridas sem perdão nem amor. Uma paixão por dia. Uma entrega animal cada noite. As vozes roucas sugerindo cadências e gritando peles suadas, por um prazer sempre mais e mais, até aos momentos do altar. Nunca praguejo na minha língua materna. Porque insultar os deuses soa-me melhor na língua local. Fuck.

Desabafo ou memorando

A questão é esta: aturar é o primeiro passo no acolher desse boião de opiniões a metro. E eu tentei. Uma vez, na melhor das intenções. Duas vezes, num engolir de razões e certezas. E essa terceira vez, camuflado em nome próprio, corporativamente participativo e em nojentos espasmos de politicamente correcto embrulhado em papel de lustro correcto. E quero-me penitente ao verificar o asno que fui e pareci. Há tantas palavras que se escrevem e não se dizem. Culpa? Toda. A fama tem destas coisas, descemos tão baixo que custa reconhecermos a nossa sombra desfiada.

fevereiro 09, 2011

Adormecer

Representar papéis, palavras de outras pessoas sem as folhas brancas que preciso. Sentir as noites de outros corpos, murmurar as palavras dos filmes e das folhas preenchidas de outras pessoas preenchidas por outros alcances. Anseio, por reconhecer no verbo as notas das canções que me fazem parar. Perjúrio, por lamentar as declarações de amor que fiz com palavras de outros, respiradas nos suspiros de outros olhos colados às janelas humedecidas pela chuva. Sento-me nesse tribunal de mim só e minto. Juro a solenidade nos livros que não sinto, evito olhar de frente os jurados, não reconheço advogado e juiz. Todos têm a minha cara e as minhas palavras. Todos são partes de uma verdade salpicada de mentiras. Todos são eu e eu não quero ser todos. E porque ser todos é afinal ser um, ser eu, eu não quero. Quero representar e quero as palavras, quero as noites e os murmúrios, quero o sabor que só eu sei. E ao querer, serei.

fevereiro 07, 2011

Cantiga

Preferias começar o ano sempre e outra vez? Preferias um lugar sentado no amor?
Preferias um caderno de folhas sempre brancas? Preferias seres sozinho ao seu calor?
Nesse sabor, nessa dúvida, desaguam mares de táxis desocupados.

Preferias um sol sempre a correr? Preferias atilhos e laços na fronteira?
Preferias um ocaso à tua espera? Preferias guiar mundos à tua beira?
Nesse calor, nessa ternura, precipitam-se as areias do vagar.

Preferias viver no quarto escuro? Preferias olhos meigos no Verão?
Preferias beijos como remédio? Preferias as batidas ou outro coração?
Nesse tom, nessa cadência, encontras a razão e o nó cego.

Preferias guardar a tarde e a saudade? Preferias cair acordado?
Preferias o que escondes ao esconderijo? Preferias amar a ser amado?
Nessa e nesse tornarás. E mais, muito mais.

Servir frio, quase quente

Agradecem-se gestos, espaço de passagem ou a pachorra de arranjar os bilhetes para a porta certa. Agradeço todos os confins do mundo conhecido, e em todos os confins desdobro-me em atenções que em cada 4 me sobram 3 sorrisos fechados. São mil as facetas dos meus obrigados. Suaves, bruscos, desinteressados que também os há, interesseiros quando se servem em dias de dieta, brutais de tão redondos, surdos quando soam a mudos. E podem soar a rios de sol ou a manhãs de verão de cor baunilha, quando a baunilha é imaginada amarela a desmaiar para o pastel. E agradecem-se divindades, desmiolados com nome de deus, mulheres histéricas apenas por serem mulheres. E agradecem-se ladrões, assassinos e corruptos, todos do género masculino. Porque feminino é um verbo mais subtil, mesmo esquartejando um amante maçador. E ao obrigado militante, gosto de juntar os qb´s que me amaciam o goto. Apenas qb´s, para não se me pegarem os molhos.

janeiro 22, 2011

Ré, Si e Fá na ordem correcta

Um após outro, os dedos desfiam os meus passos mesmo quando encostado ao muro dos correios. O frio não me deixa ver o fim da rua. Nem a janela do teu quarto. A minha língua sente os dentes gelados, o céu da boca sedento, a falta que o teu sabor me faz. Imóvel, já não sei quantos dedos tenho, cotos enfiados nos bolsos fundos de um cotão redondo de amizade. Esqueci-me de chorar e de te adivinhar por detrás dos vidros fechados e da luz que hoje não está. Persegues-me como só eu sei. Nunca te saberia explicar. Sou homem, aí tens. Não sei explicar o amor. Sei senti-lo. Sei ajoelhar-me aos teus joelhos e beijar-lhes o amarrotado. Sei sair de mim e empurrar-te ao meu abraço enfeitado de um grito abafado por palavras religiosas feitas ladainha e bruxedo. E encostado ao muro dos correios, sei avaliar o vazio que provoca a imobilidade. Sei e respeito o frio, por me gritar mais e mais.

Pele em tons azul

Queres ver-te como a cobaia que te faz eleitor, pai ou criança. Queres a absolvição em todas as portas e com o cotovelo na secretária que te separa do mundo. Queres perder essa virgindade de apelos e causas, mas só depois do jantar e talvez de uma noite bem dormida, sem conseguires dizer palavra a quem dorme a teu lado, nem sequer o sinónimo de foder. Desapontas o vizinho do lado, sabes? Deixas a tua marca, mas o cimento é sempre areia junto à rebentação. Dizes-te profeta e cívico. Deixa-me chamar-te seixo. Ou vívere. Aquele que mastigo lentamente e depois cuspo por um encolher de ombros. Passam-se tantas noites assim, sem fogueira, sem luzes de presença que podem alertar o inimigo. O fogo de morteiro. A fé e caridade. Há tanto para te dizer. Tanto para me dizeres. As chuvas que começam no verão para nunca mais terem fim. As mulheres de xaile e manta. Os dizeres da fronteira, onde os idiomas se misturam e sabem a manteiga derretida. Vejo-te mas não me dou a conhecer. Vejo-te daqui mas ficarei calado na sombra. Viro-me para a parede e esperarei milagres. Mudei de ideias: quero-te. Mas só se fores o meu oxigénio.

janeiro 15, 2011

Antes, agora e tudo o resto

Bebo o chá de todas as lamentações. Fumo o tabaco de todos os orgasmos. Olho os halos de todos os meus sonhos. E com a voz em doce ronronar, deito-me sentado, sentindo nos ombros as ousadias que ainda sei pedir aos deuses. Tenho as lágrimas das noites e das garrafas pouco antes de vazias. Guardo-as nas gavetas dos rubis. E porque temo perder-me na penumbra, nunca renegarei aqueles que me trouxeram o calor. Recordo todos os seus nomes e faço-o numa homenagem a mim mesmo. Eles concordarão com sorrisos. E calados, irão subir em fila indiana as dunas da seda. Sinto falta do cheiro da baunilha. Tal como queria sentir nos meus braços a pele dourada daquela amazona, calor de cheiro no seu pescoço doce, fechando os olhos aos meus beijos.

Braçada de uma natação qualquer

Renomeio a noite
em lâminas bruscamente finas.
Prometo-lhes a devoção
e todas as manhãs.
Serei virgem,
complicado ermo de realizações,
pecado íntimo
de todas as que almejo,
segurança de ventre maternal
conhecendo as agruras
e os limites.
Sabias que era preciso entrar
para sair.
Tinhas as certezas
de elipses por acabar.
Soubeste largar em voo
todas as andorinhas do teu bolso,
e as árvores...
As árvores,
colheste-as cedo demais.
Carregas na alma
as folhas que não agarraste.

janeiro 09, 2011

Espaço

Havia uma sexta-feira, muitas, todas as que sabiam a sabor, de noite cerrada e candeeiros de aldeia sem alumiar quase nada. As mesmas curvas, as mesmas casas de luzes apagadas, as janelas de persianas corridas e sonos antes do tempo, a busca de uma ponte em silhueta e as luzes da cidade decalcadas no rio. Poucas coisas se oferecem assim, sem brilho de precioso, só com aquela sensação de alma, de alguma boa acção paga com juros. Era o tempo em que dois dias eram mundos e fundos, maiores que uma razão de tempos modernos de uma civilização de números sem tempo para nomes. E havia uma sacola. E gavetas meio vazias e cheias de tudo o que dava prazer. E uma vidraça alta que de manhã estaria preenchida. As coisas, as janelas e as escadas de sete degraus são como uma garagem de porta de madeira rolando num veio de ferro, um piso de cimento com manchas de óleo secas e as prateleiras empoeiradas de dias a fio escurecidos, sem haver sexta-feira nem o dia seguinte. Mas havia. A sexta-feira estava lá, aprumada, resolvida a luz ténue de um tablier iluminado. Tão simples eram as sexta-feiras, antes de sermos crescidos, por fora e por dentro.

janeiro 05, 2011

O homem com o sorriso que não acaba nunca

Nesta chuva que o meu cérebro há-de beber até à última gota, saboreio o último chocolate na certeza de me saber o dobro, mesmo depois de duas semanas em salmoura, pechisbeque em cima da cómoda, ladeado pelo relógio e algum perfume esquecido por alguma das amantes. Não me deito com os nomes, logo, não preciso deles. Chamo-lhes divindades, cada uma, uma diferente. E saboreio-as, mesmo se alguma for a última. Será, porque não pretendo ficar aqui. Comprei os bilhetes de todos os comboios que partem hoje, por se algum acaso me decida destino. E não o serei enquanto saborear o último chocolate, enquanto a chuva continuar a cair, tropeçando no beiral da varanda para se estatelar no passeio mal cheiroso. Devia ter oferecido o último chocolate ao sem-abrigo que me faz sorrir. Lá estava ele, sentado no carro abandonado onde dorme com os cães, janela meia aberta e sorriso meio aberto. Sorrio porque tem um sorriso que faz sorrir. Chamo-lhe o homem do sorriso que nunca acaba. Assim, como num provérbio árabe que se aprende no deserto à beira dum poço. Saboreio o último chocolate com o céu na boca sintonizado no seu sorriso. Sem perfumes, nem amantes sem nome. O seu sorriso que não acaba nunca, mesmo depois de lhe oferecer o bilhete de comboio e de o ver de braços caídos, olhos doces e sorriso que não acaba nunca. Eram 14 horas e o próximo só parte às 18. Se me decidir...

janeiro 04, 2011

Maneirismos

Escrevia todos os dias uma carta. Dobrava em quatro, soprava o envelope em busca de espaço e penetrava-lhe a brancura com o papel bem apertado, não fosse a dobra traí-lo. Escolhia sempre um selo com animais. De preferência pássaros. A carta chegaria mais depressa. Lambia com vontade e com o polegar que gostava mais, pressionava até a falange estalar. Tinha um hábito difícil. Escrevia sempre o endereço já depois do envelope fechado. E só fechava o envelope depois do selo colado. Olhava-o de frente, estendia a língua e passava-a em ângulo obtuso ao longo da faixa de goma, sorvendo-lhe o sabor como um colegial apaixonado. Só depois o deitava de costas, e de tira linhas em punho, num fio de escrita finíssimo e de traço azul, de tinteiro, afincava-lhe endereço, nome próprio e apelido, deixando sempre um Excelentíssimo como o tio lhe tinha ensinado. No remetente, apenas as iniciais entrelaçadas, à boa maneira daquela época que teimava em esquecer-se. Apoiava-o em 60 graus e admirava-lhe a alvura manchada de azul com sainete. Orgulhava-se dessa gentil obra diária, sinal de respeito pelas instituições e códigos de civilidade. Por fim, tomava-a nas mãos, pois só nesse momento era carta, e atirava-a para o gavetão aberto, obeso de envelopes marcados a azul. Um dia, passaria pelos Correios. Quando o Rei fizesse anos.

Dia 4

Vontade de mergulhar nessa tua nudez. Sentar-me ao longo da rua onde vives, levantar os olhos a todas as janelas e adivinhar onde te sentas. Voltei a sentir, sabes? Voltei desse litoral onde cada passo se afunda. E aqui, na tua rua, voltei a sentir-me como antigamente, sentado no degrau, encostado à porta da garagem, segurando o sol e a lua com as duas mãos. As mesmas mãos que preciso para te segurar e te sentir a vontade. E ao saber-te, ao reconhecer a janela onde sentes a noite no vidro, encolho os ombros à sentença de escolher entre o dia e o luar. Abro as mãos e deixo escapar o sol e a lua. Visto o sorriso que trago sempre no bolso e corro rua abaixo atirando as mãos bem alto, num movimento descomunal de entrega. Desejo que me tenhas. E desejo-te ao longo da rua onde vives.

janeiro 03, 2011

À porta do museu

Deixei-me nas ruas e nos recantos onde os degraus afinal são maiores. Fiquei colado às portas giratórias, meias vidas de dentro e fora onde o cheiro da comida é mais forte que o frio. Esqueci-me das palavras que sempre soube, viradas em consoantes e esgares de um novo que recorda dias sem meio nem fim. E depois veio a chuva. E as ondas tornaram-se maiores. E o areal mais claro. E eu, encharcado pelo dilúvio, marquei este momento para sempre, um minuto maior que os outros minutos, uma viagem de barco rumo ao outro lado, embarcadouro cheio de casas e cansaços, pai de dois filhos regressando de uma miragem. Ao longe, depois das luzes e hipnotismo de sonhadores, ficaram os degraus. Afinal os degraus são maiores. Como o são as fileiras de janelas e as linhas rectas. Como o desejo de uma árvore em cada esquina, e descobri-las a todas junto ao lago.