janeiro 22, 2011

Ré, Si e Fá na ordem correcta

Um após outro, os dedos desfiam os meus passos mesmo quando encostado ao muro dos correios. O frio não me deixa ver o fim da rua. Nem a janela do teu quarto. A minha língua sente os dentes gelados, o céu da boca sedento, a falta que o teu sabor me faz. Imóvel, já não sei quantos dedos tenho, cotos enfiados nos bolsos fundos de um cotão redondo de amizade. Esqueci-me de chorar e de te adivinhar por detrás dos vidros fechados e da luz que hoje não está. Persegues-me como só eu sei. Nunca te saberia explicar. Sou homem, aí tens. Não sei explicar o amor. Sei senti-lo. Sei ajoelhar-me aos teus joelhos e beijar-lhes o amarrotado. Sei sair de mim e empurrar-te ao meu abraço enfeitado de um grito abafado por palavras religiosas feitas ladainha e bruxedo. E encostado ao muro dos correios, sei avaliar o vazio que provoca a imobilidade. Sei e respeito o frio, por me gritar mais e mais.

Pele em tons azul

Queres ver-te como a cobaia que te faz eleitor, pai ou criança. Queres a absolvição em todas as portas e com o cotovelo na secretária que te separa do mundo. Queres perder essa virgindade de apelos e causas, mas só depois do jantar e talvez de uma noite bem dormida, sem conseguires dizer palavra a quem dorme a teu lado, nem sequer o sinónimo de foder. Desapontas o vizinho do lado, sabes? Deixas a tua marca, mas o cimento é sempre areia junto à rebentação. Dizes-te profeta e cívico. Deixa-me chamar-te seixo. Ou vívere. Aquele que mastigo lentamente e depois cuspo por um encolher de ombros. Passam-se tantas noites assim, sem fogueira, sem luzes de presença que podem alertar o inimigo. O fogo de morteiro. A fé e caridade. Há tanto para te dizer. Tanto para me dizeres. As chuvas que começam no verão para nunca mais terem fim. As mulheres de xaile e manta. Os dizeres da fronteira, onde os idiomas se misturam e sabem a manteiga derretida. Vejo-te mas não me dou a conhecer. Vejo-te daqui mas ficarei calado na sombra. Viro-me para a parede e esperarei milagres. Mudei de ideias: quero-te. Mas só se fores o meu oxigénio.

janeiro 15, 2011

Antes, agora e tudo o resto

Bebo o chá de todas as lamentações. Fumo o tabaco de todos os orgasmos. Olho os halos de todos os meus sonhos. E com a voz em doce ronronar, deito-me sentado, sentindo nos ombros as ousadias que ainda sei pedir aos deuses. Tenho as lágrimas das noites e das garrafas pouco antes de vazias. Guardo-as nas gavetas dos rubis. E porque temo perder-me na penumbra, nunca renegarei aqueles que me trouxeram o calor. Recordo todos os seus nomes e faço-o numa homenagem a mim mesmo. Eles concordarão com sorrisos. E calados, irão subir em fila indiana as dunas da seda. Sinto falta do cheiro da baunilha. Tal como queria sentir nos meus braços a pele dourada daquela amazona, calor de cheiro no seu pescoço doce, fechando os olhos aos meus beijos.

Braçada de uma natação qualquer

Renomeio a noite
em lâminas bruscamente finas.
Prometo-lhes a devoção
e todas as manhãs.
Serei virgem,
complicado ermo de realizações,
pecado íntimo
de todas as que almejo,
segurança de ventre maternal
conhecendo as agruras
e os limites.
Sabias que era preciso entrar
para sair.
Tinhas as certezas
de elipses por acabar.
Soubeste largar em voo
todas as andorinhas do teu bolso,
e as árvores...
As árvores,
colheste-as cedo demais.
Carregas na alma
as folhas que não agarraste.

janeiro 09, 2011

Espaço

Havia uma sexta-feira, muitas, todas as que sabiam a sabor, de noite cerrada e candeeiros de aldeia sem alumiar quase nada. As mesmas curvas, as mesmas casas de luzes apagadas, as janelas de persianas corridas e sonos antes do tempo, a busca de uma ponte em silhueta e as luzes da cidade decalcadas no rio. Poucas coisas se oferecem assim, sem brilho de precioso, só com aquela sensação de alma, de alguma boa acção paga com juros. Era o tempo em que dois dias eram mundos e fundos, maiores que uma razão de tempos modernos de uma civilização de números sem tempo para nomes. E havia uma sacola. E gavetas meio vazias e cheias de tudo o que dava prazer. E uma vidraça alta que de manhã estaria preenchida. As coisas, as janelas e as escadas de sete degraus são como uma garagem de porta de madeira rolando num veio de ferro, um piso de cimento com manchas de óleo secas e as prateleiras empoeiradas de dias a fio escurecidos, sem haver sexta-feira nem o dia seguinte. Mas havia. A sexta-feira estava lá, aprumada, resolvida a luz ténue de um tablier iluminado. Tão simples eram as sexta-feiras, antes de sermos crescidos, por fora e por dentro.

janeiro 05, 2011

O homem com o sorriso que não acaba nunca

Nesta chuva que o meu cérebro há-de beber até à última gota, saboreio o último chocolate na certeza de me saber o dobro, mesmo depois de duas semanas em salmoura, pechisbeque em cima da cómoda, ladeado pelo relógio e algum perfume esquecido por alguma das amantes. Não me deito com os nomes, logo, não preciso deles. Chamo-lhes divindades, cada uma, uma diferente. E saboreio-as, mesmo se alguma for a última. Será, porque não pretendo ficar aqui. Comprei os bilhetes de todos os comboios que partem hoje, por se algum acaso me decida destino. E não o serei enquanto saborear o último chocolate, enquanto a chuva continuar a cair, tropeçando no beiral da varanda para se estatelar no passeio mal cheiroso. Devia ter oferecido o último chocolate ao sem-abrigo que me faz sorrir. Lá estava ele, sentado no carro abandonado onde dorme com os cães, janela meia aberta e sorriso meio aberto. Sorrio porque tem um sorriso que faz sorrir. Chamo-lhe o homem do sorriso que nunca acaba. Assim, como num provérbio árabe que se aprende no deserto à beira dum poço. Saboreio o último chocolate com o céu na boca sintonizado no seu sorriso. Sem perfumes, nem amantes sem nome. O seu sorriso que não acaba nunca, mesmo depois de lhe oferecer o bilhete de comboio e de o ver de braços caídos, olhos doces e sorriso que não acaba nunca. Eram 14 horas e o próximo só parte às 18. Se me decidir...

janeiro 04, 2011

Maneirismos

Escrevia todos os dias uma carta. Dobrava em quatro, soprava o envelope em busca de espaço e penetrava-lhe a brancura com o papel bem apertado, não fosse a dobra traí-lo. Escolhia sempre um selo com animais. De preferência pássaros. A carta chegaria mais depressa. Lambia com vontade e com o polegar que gostava mais, pressionava até a falange estalar. Tinha um hábito difícil. Escrevia sempre o endereço já depois do envelope fechado. E só fechava o envelope depois do selo colado. Olhava-o de frente, estendia a língua e passava-a em ângulo obtuso ao longo da faixa de goma, sorvendo-lhe o sabor como um colegial apaixonado. Só depois o deitava de costas, e de tira linhas em punho, num fio de escrita finíssimo e de traço azul, de tinteiro, afincava-lhe endereço, nome próprio e apelido, deixando sempre um Excelentíssimo como o tio lhe tinha ensinado. No remetente, apenas as iniciais entrelaçadas, à boa maneira daquela época que teimava em esquecer-se. Apoiava-o em 60 graus e admirava-lhe a alvura manchada de azul com sainete. Orgulhava-se dessa gentil obra diária, sinal de respeito pelas instituições e códigos de civilidade. Por fim, tomava-a nas mãos, pois só nesse momento era carta, e atirava-a para o gavetão aberto, obeso de envelopes marcados a azul. Um dia, passaria pelos Correios. Quando o Rei fizesse anos.

Dia 4

Vontade de mergulhar nessa tua nudez. Sentar-me ao longo da rua onde vives, levantar os olhos a todas as janelas e adivinhar onde te sentas. Voltei a sentir, sabes? Voltei desse litoral onde cada passo se afunda. E aqui, na tua rua, voltei a sentir-me como antigamente, sentado no degrau, encostado à porta da garagem, segurando o sol e a lua com as duas mãos. As mesmas mãos que preciso para te segurar e te sentir a vontade. E ao saber-te, ao reconhecer a janela onde sentes a noite no vidro, encolho os ombros à sentença de escolher entre o dia e o luar. Abro as mãos e deixo escapar o sol e a lua. Visto o sorriso que trago sempre no bolso e corro rua abaixo atirando as mãos bem alto, num movimento descomunal de entrega. Desejo que me tenhas. E desejo-te ao longo da rua onde vives.

janeiro 03, 2011

À porta do museu

Deixei-me nas ruas e nos recantos onde os degraus afinal são maiores. Fiquei colado às portas giratórias, meias vidas de dentro e fora onde o cheiro da comida é mais forte que o frio. Esqueci-me das palavras que sempre soube, viradas em consoantes e esgares de um novo que recorda dias sem meio nem fim. E depois veio a chuva. E as ondas tornaram-se maiores. E o areal mais claro. E eu, encharcado pelo dilúvio, marquei este momento para sempre, um minuto maior que os outros minutos, uma viagem de barco rumo ao outro lado, embarcadouro cheio de casas e cansaços, pai de dois filhos regressando de uma miragem. Ao longe, depois das luzes e hipnotismo de sonhadores, ficaram os degraus. Afinal os degraus são maiores. Como o são as fileiras de janelas e as linhas rectas. Como o desejo de uma árvore em cada esquina, e descobri-las a todas junto ao lago.